Fratres in Unum entrevista Dom Lourenço Fleichman, OSB.

Dom Lourenço, primeiramente muito obrigado por nos atender. Por favor, apresente-se aos nossos leitores, assim como a Permanência e sua relação com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Dom Lourenço e seu pai, Dr. Julio Fleichman.Sou filho de Julio Fleichman (1928-2005), que foi Presidente da Permanência entre 1969 e 2003, e principal colaborador de Gustavo Corção. Em 1980 pedi ingresso no mosteiro beneditino do Barroux, França. Fui ordenado padre, pela graça de Deus, por Mons. Marcel Lefebvre, em 1985 e fui obrigado a deixar o meu mosteiro de origem em 1988, devido aos acordos que Dom Gerard Calvet, prior desse mosterio, fez com as autoridades do Vaticano. Em consciência, eu não podia aceitar a traição que significava esse acordo, tanto no que toca a fé, quanto no que toca às obrigações morais, visto que Dom Gerard acatara a exigência de não ter mais contatos com Mons. Lefebvre. Vim para o Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, onde estive até 1991. Neste ano, Dom Tomás de Aquino, prior deste mosteiro, pediu-me que cuidasse da Capela São Miguel, na Permanência. Nessa ocasião, a Revista Permanência já tinha parado de ser publicada, mas eu consegui iniciar um trabalho de edição de livros católicos. Paralelamente, em 1992, iniciamos a celebração da missa tradicional em Niterói, que deu origem à Capela N. Sra da Conceição.

É de amplo conhecimento o apoio de Gustavo Corção à causa de Dom Lefebvre, de quem se tornou o maior defensor no Brasil. Entretanto, não se conhece quase nada sobre o relacionamento de Corção com Dom Antonio de Castro Mayer. Qual era a relação entre ambos?

Dom Antônio defendia a Tradição de um modo bem diferente de Mons. Lefebvre. Aquele era bispo diocesano e o silêncio e discrição lhe serviam muito diante da malícia das autoridades; quanto menos agitação fizesse, mais firme seguiria seu combate. Mons. Lefebvre foi levado à mídia internacional devido à exposição do seu seminário Internacional e às perseguições que sofreu a partir de 1974. Não havia porque um jornalista do Rio de Janeiro falar de Dom Antônio se não havia notícias sobre ele na mídia e que este preferia que assim continuasse. Corção conhecia alguma coisa da obra de Dom Antônio, mas não havia um contato freqüente.

O senhor testemunhou de Dom Antonio de Castro Mayer a seguinte frase: “O novo código de direito canônico faz parte das heresias de Vaticano II“. O mesmo bispo disse que “quem adere ao Vaticano II, sem restrição, só por esse fato, desliga-se da verdadeira Igreja de Cristo“. Afinal, o Vaticano II é propriamente herético ou apenas abre brechas aos erros por suas insuficiências e contradições ao Magistério precedente?

Um Concílio Ecumênico não é apenas um pic-nic de bispos, ou uma reunião de estudos. É um ato muito particular do Magistério da Igreja, do Magistério Extraordinário. Visto assim, só pode existir um tipo de Concílio: o Concílio Santo. Qualquer concílio católico, pelo simples fato de ser católico, é santo. A infalibilidade de um Concílio supõe sua catolicidade, ou seja, sua santidade. Ora, as opções que são colocadas na questão já mostram que algo de muito estranho existe nesse Concílio: Herético ou apenas “abre brechas aos erros” e “contraditório”. Qualquer que seja a resposta já nos coloca diante de um concílio que não é santo. Logo, não é verdadeiramente um ato do Magistério Católico. Hoje, mesmo as autoridades da Igreja, já admitem, pelo menos, ambigüidades e contradições com o Magistério anterior. O que falta para eles tirarem as conclusões que eu tiro aqui? Se minha conclusão é verdadeira, porque eles não concluem isso também? Tem-se a impressão que um fator sentimental atua nas cabeças que fizeram Vaticano II não permitindo que eles pensem como teólogos católicos.

Esta questão é relevante especialmente pela disseminação do sedevacantismo pela internet, e, especialmente, pelo Orkut. Duas questões: o que pensar do sedevacantismo e quais são os resultados da campanha da Permanência “Apague o seu Orkut”?

Creio ter escrito dois textos em que falo sobre o sede-vacantismo: um que tem por titulo Sedevacantistas e o segundo que é A Igreja Católica e a Outra. Como as explicações são meio longas, parece-me melhor que os leitores busquem ali o que penso sobre este tema. Quanto ao Orkut, que só se liga ao tema anterior enquanto ferramenta de divulgação, eu recebi cerca de 150 e-mails de pessoas dizendo que apagaram o seu Orkut. Imagino que muitos outros o tenham feito sem nos comunicar. Até hoje aparece alguém entrando na lista. No que toca a relação entre os dois temas, é preciso talvez assinalar que a internet de um modo geral, e em particular o Orkut, causou uma multiplicação de grandes “doutores”, que escrevem sobre tudo e sobre todos, cada qual mais “teólogo” do que o outro, na maioria das vezes sem orientação, sem formação verdadeiramente teológica. Espíritos arrogantes que se colocam como juízes de todos, isentos de erro, escrevendo sem limites, sem critérios, sem sabedoria. O cuidado do Concílio de Trento e de S. Pio X para que a doutrina católica não fosse martelada por falsos valores foi por água abaixo.

Sobre o que esperar para o futuro, Dom Fellay afirmou: “Não esperamos que o Vaticano efetue um grande mea culpa, dizendo coisas do tipo: ‘Promulgamos uma falsa missa’. Não queremos que a autoridade da Igreja seja mais diminuída ainda. Já foi o bastante: agora chega…” (Entrevista à 30Giorni, setembro de 2000). Em sua análise, uma correção às dificuldades apresentadas pelo Concílio e suas reformas é o suficiente ou o senhor advoga uma condenação completa do mesmo?

Havia no Rio de Janeiro um padre espanhol chamado Pe. Emilio Silva. Grande doutor em Direito e em Direito Canônico, catedrático de diversas universidades, autor de vários livros. Num desses livros, chamado Liberdade Religiosa e Estado Católico, esse padre de missa nova, oficial, diocesano, declara que Dignitatis Humanae não é Magistério da Igreja e deve ser condenado por seus erros perniciosos. Bastou um doutor sério analisar a coisa sem sentimentalismos ou má-fé para concluir pela condenação de uma das colunas de Vaticano II. Não creio ser possivel apenas corrigir um concílio que pretendeu instaurar um novo espírito dentro da Igreja. Seu principal erro está aí, no espírito anti-católico que o anima e na práxis que segue esse espírito, independentemente do que está escrito nos seus textos.

Alguns, nestes tempos de crise, costumam-se guiar pela diplomacia. Dom Gérard teria sido o precursor do caminho trilhado hoje por Dom Fernando Rifan?

Quando a Fé está em jogo, não se pode fazer diplomacia. Não sou eu que disputarei para saber a quem dar a coroa de pioneiro. O fato é que todos eles, que fizeram o tal acordo, entraram direitinho nos trilhos que o Vaticano queria para eles. Aceitaram a missa nova na teoria e na prática, defendem com unhas e dentes tudo, absolutamente tudo que o papa e os bispos atuais fazem ou dizem, inclusive a continuação do ecumenismo de João Paulo II. Além disso, todos também voltam suas farpas e dardos contra Mons. Lefebvre e a Fraternidade S. Pio X. Ou seja, existe um espírito que os move, e este espírito não é coisa boa.

E como o senhor vê a atual situação da Administração Apostólica São João Maria Vianney?

Considero uma grande tristeza ver aqueles padres que eu considerava como companheiros de combate aplaudindo Dignitatis Humanae, celebrando a missa nova ou fazendo da missa tradicional uma “feira” bem ao gosto da nova liturgia. Trata-se de uma doença espiritual que leva a alma a abandonar o combate pela fé.

A seu ver, quais aspectos precisam ser resolvidos antes de uma possível regularização canônica da FSSPX?

Se existe uma irregularidade canônica, esta se deve exclusivamente à crise da Igreja, ou seja, na hora em que Roma voltar a ensinar a fé integral com suas conseqüências morais, litúrgicas e canônicas, não haverá mais o que ser regularizado. Tudo entrará nos seus devidos lugares. Eu não tenho porque pensar de modo diferente de Dom Fellay, até mesmo porque não sou membro da Fraternidade S. Pio X e não me cabe dizer para onde o Superior Geral deve caminhar. Este pediu ao papa, como sinal de boa vontade e como condição para uma discussão doutrinária, a liberação da missa para todos os padres do mundo e o levantar das excomunhões inválidas de 1988. Uma vez isso feito, não significa que a regularização canônica se fará, mas sim que a Fraternidade poderá discutir com Roma as diferenças doutrinárias que nos separam. Mas as autoridades não estão muito inclinadas a esse tipo de discussão.

Em nossa realidade há uma desconfiança com relação à autoridade eclesiástica em razão de sofrimentos que suportamos no passado e ainda hoje. E para superar essa desconfiança, a revogação da chamada excomunhão seria uma solução muito oportuna…” (Dom Bernard Fellay em entrevista à Revista 30giorni, Setembro de 2005). A FSSPX pretende entregar ao Santo Padre um novo buquê de um milhão de terços pela retirada do decreto de excomunhão lançado contra seus bispos. Qual a importância desta medida?

Dom Lourenço Fleichman conta, em estilo acessivel e com base em documentação farta, os detalhes das negociações entre o Vaticano e Mons. Marcel Lefebvre...Me parece importante ter em mente os dois lados da questão: como ficou provado pela tese de doutorado do Pe. Gerald Murray, de Nova York, a excomunhão de 1988 é nula, ou seja, juridicamente sem efeito. Por outro lado, a campanha de difamação mundial que repete sem cessar que os fiéis e padres da Fraternidade seriam cismáticos e excomungados causa um prejuízo grave à verdade e à justiça. Daí a importância dessa revogação para o bem da Igreja.

Por outro lado, quando o papa levantar as excomunhões, a Fraternidade estará mais disposta a pedir uma discussão doutrinária. É importante mostrar às autoridades a fé que nos anima. Fé católica, sobrenatural, marcada pela piedade e pela humildade. É importante rezar nesta intenção para que o Papa aceite uma conversa de alto nível teológico, onde a Tradição poderá defender o Tesouro da Igreja mostrando as contradições de um concílio que, até aqui, só serviu para dividir, favorecer os inimigos da Igreja e diminuir a fé nos corações.

11 Comentários to “Fratres in Unum entrevista Dom Lourenço Fleichman, OSB.”

  1. “Na hora em que Roma voltar a ensinar a fé integral com suas conseqüências morais, litúrgicas e canônicas, não haverá mais o que ser regularizado.”
    Realmente a Igreja de Cristo falhou e a verdade está na FSSPX.

  2. luiscarlos,

    Veja que tem uma palvra aí em cima: INTEGRAL, ou seja uma Fé que não é completa, mas que, por dedução, não é falsa por si. Fica uma pergunta pra você: quando São Atanásio foi perseguido a Fé INTEGRAL estava do lado do Papa?
    Rezemos pelo fim dessa guerra toda,

    Ricardo

  3. Tem-se a Fé ou não, não existe meio termo. Se Roma não tem a Fé INTEGRAL prevaricou, ou seja, o Papa e todo o Episcopado defeccionou. Seria possível? Como Católico, creio que não! Não é possível!

  4. Salve Maria!

    Muito boa a entrevista, estão todos de parabéns.

    Um forte abraço para o Dom Lourenço.

    seria legal fazer agora uma entrevista com o padre Joel, prior da FSSPX em São Paulo.

    pax et bonum.

  5. Sou um admirador de Dom Lourenço e esta campanha contra o “porkut” é válida, só fiquei meio confuso (para não dizer decepcionado) com a recente descoberta de que o Padre Danjou da FSSPX aderiu esta “nova onda”. Fico triste, enquanto Dom Lourenço diz: “apague seu orkut”, ao contrário, Padre Danjou parece incentivar a criar uma conta.

  6. Parabéns ao Fratres In Unum, fantástica entrevista.

    Nos mostra como um católico deve se posicionar frente a questões tão desesperadoras de perda de fé e destruição de um verdadeiro espírito católico na Igreja e na sociedade. O que mais gostei é que não vemos declarações “açucaradas” que tentam encobrir o “sol com a peneira”, não! Vemos sim, um padre muito sensato e que consegue enxergar a triste situação da Igreja de modo claro e, por isso, trata do tema muito objetivamente. Mesmo que isso possa soar para alguns, um pouco… salgado.

    Salve Maria.

  7. Bem, o conceito de liberdade religiosa, o ecumenismo e colegialidade episcopais propostos nos últimos 40 anos vem justamente para eclipsar o ensino perene da Igreja, tal como demonstraram o Syllabus, Quanta Cura, Mortalium Animos, etc etc etc.
    Quando se pratica o ecumenismo relativista (que é uma forma indireta de negar o dogma de que “fora da Igreja não há salvação”), pode-se dizer que se trata do ensino integral da doutrina católica? É só um exemplo. A Fraternidade deve sempre caminhar com serenidade, e não se achar “a última bolacha do pacote”, mas ter sempre em vista que, assim como há o perigo causado por uma excessiva aproximação, existe também o perigo de uma demasiada distância de Roma… Bem, pode parecer incômodo dizer que Roma não oferece mais o ensino integral da Doutrina Católica, mas infelizmente, até agora o Vaticano tem dado o flanco à crítica.
    Não sou eu quem vai dizer que o Depósito da Fé refugiou-se na FSSPX… Mas enquanto Roma não abandonar estes pontos falseadores da Doutrina, vai continuar dando motivos para declarações como essas.
    Mas felizmente o comum dos fiéis tradicionalistas não costuma confundir as coisas, e sabe que a FSSPX está a serviço da Igreja, mas a FSSPX não é a Igreja. A FSSPX é uma sigla, a Igreja permanece.

  8. luiscarlos,

    Você não respondeu à pergunta, então vou fazê-la de novo:
    Quando São Atanásio foi perseguido a Fé INTEGRAL estava do lado do Papa?
    E quero acrescentar outra: em tese, aquela triste situação não pode ocorrer novamente?

    Ricardo2

  9. “Eu não podia aceitar a traição que significava esse acordo, tanto no que toca a fé, quanto no que toca às obrigações morais”.

    Esse depoimento do padre, fatos e alguns acontecimentos mais de parte particular semelhantes a afirmação dele levou-me a uma reflexão pessoal que partilho com vocês.

    Hoje, infelizmente, se vende bem pior que na época da traição de Judas a Nosso Senhor. Quer dizer, por trinta moedas de prata. Coisa banal e mais baixa que fez esse apóstolo a Cristo.

    Vejam que aconteceu a uma seita que recentemente conquistou o reconhecimento pontifício da nossa Igreja. Colocou, em uma Missa nova dela, ao vivo, para todo o nosso país, uma abortista e um simpatizante ao movimento gay para fazer leitura litúrgica – que não é nem permitido de um documento conciliar de liturgia. Essa estranha “comunidade” que foi legalizado por Roma que nem faz um mês…

    Até aí não é nenhuma novidade que conhece a doutrina clássica da Igreja, cujos opositores a ela logicamente chegariam somente a este fim. São uns pobres diabos e só um milagre podem enxergar a verdade.

    Mas, esse espírito que mencionou o padre, realmente penetrou – e penetra ainda – até aqueles que defendia, até um momento não tão longe, a Tradição.

    É algo parecido a uma placa que vemos freqüentemente nas ruas: vende-se. Porque vende-se por um reconhecimento do mundo, por um respeito humano , por um carimbo de reconhecimento oficial da carteirinha de padre. Isso é ser mesquinho, a não ser chamado na rua, de cismático, fundamentalista etc. É algo vergonhoso, no mínimo…

    Deste modo, estão presos agora pelas garras dos modernistas conversadores. Gente cheia de sutileza, que até falam do Missal tradicional, mas, para resumir tudo, são piores que esses pavões que gostam de aparecer. É aquela serpente que ora diz a verdade, ora diz a mentira.

    Que o diga exemplos de um De Lubac e outros que triunfaram neste Vaticano II.

    Adeus honra ,adeus combate, adeus princípios, adeus verdade, enfim, adeus aquilo que digno e santo que deveria estar em cada alma sacerdotal. De aproximar-se no altar, de coração realmente contrito, e consciência limpa:” emitte lucem tuam er veritatem tuam tuam: ipsa me dededuxerunt ET adduxerunt in montem sanctum tuum, ET in tabernacula tua”.

    Assim nós leigos vivemos migalhando aquilo que cai na mesa atualmente. Temos que – perdoe-me a expressão vulgar -rebolar para não perder a Fé em tempos assim.

    Porque aí daquele que não é hoje, por conta própria, para estudos, de trabalhos de padres tradicionalistas, teólogos, litúrgicas, especialistas, enfim, muitos “istas” que possa se imaginar.

    Porque, nestas paróquias conciliares, não é preciso mais escrever porque tanta coisa para não ser mais um “Maria vai com as outras”…

  10. Prezados amigos, por engano apaguei alguns comentários quando deveria aprová-los. Peço, por favor, que os reenviem e perdoem-me o deslize.

  11. Caríssimos,
    Salve Maria!

    A questão da fé integral colocada por Dom Lourenço me propiciou uma reflexão interessante. Já faz algum tempo, o Pe Françoa de Anápolis, escreveu um artigo intitulado “Tradição e tradicionalistas”. Neste artigo ele afirmou o seguinte:

    “O decreto [Lamentabili] e a encíclica [Pascendi Dominici Gregis], ao entrar em luta contra o modernismo, queriam dar resposta a uma situação pontual, que responde a uma determinada época histórica. Logicamente, esses documentos continuam válidos. No entanto, não seria razoavelmente válido julgar a nossa época da mesma maneira que se fez no principio do século XX e usar a linguagem do documento para atacar e combater o Concílio Vaticano II, a bispos que estão em perfeita comunhão com o Papa e com o seu Magistério”.” Tradição e tradicionalistas – Pe Françoa

    Bom, não quero demonstrar os erros deste trecho do artigo, mas chamar a atenção a um aspecto interessante na doutrina modernista da evolução do dogma. Particularmente em um primeiro momento sempre considerei a aplicabilidade desta doutrina nos dogmas que devemos crer. Quando li este trecho do artigo citado acima, veio me a mente que a finalidade principal era a aplicabilidade nas condenações que de algum modo, são dogmáticas. E se pensarmos bem, mudar as coisas que devemos crer em nada contribuiria para os ideiais modernistas.Porém mudar o status das condenações, considerando que as doutrinas condenadas evoluíram, isto sim contribuiria para os ideais dos inimigos da Igreja.

    É bastante óbvio que o status das condenações não seria mudado diretamente. Mas sútilmente a mudança aparece já no discurso de abertura do Concílio, conforme se lê:

    “A Igreja sempre se opôs a estes erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere >>> usar mais o remédio da misericórdia <<< do que o da severidade.” Discurso de abertura do Concílio Vaticano II, VIII, 2 – Papa João XXIII

    O remédio da misericórdia aplicado ao comunismo,por exemplo, é a crença na evolução do própio comunismo (O que deu origem a TL). É a liberação tanto do Decreto contra o comunismo, como da condenação de Pio XI na Divini Redemptoris. A coisa porém não parou com a liberação, mas continua com a autorização da transformação das doutrinas condenadas, conforme se lê ainda no discurso de abertura do Concílio:

    “Uma coisa é a substância do « depositum fidei », isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral.” Discurso de abertura do Concílio Vaticano II, VII, 5

    Os resultados desta distinção foram justamente a transformação de doutrinas condenadas em doutrinas que na prática foram aprovadas pelo magistério para receberem “o remédio da misericórdia”, isto é, serem transformadas. Marx dizia que “os filósofos até agora ocuparam-se em interpretar o mundo. Cabe-lhes agora transformá-lo”. Peço a alguém melhor preparado do que eu, que venha me corrigir se eu estiver errado, mas a distinção e tudo que foi feito no pós-concílio, não vão nesta linha de transformação? Para melhor ilustrar o pensamento de Marx, sigamos o Concílio e façamos a sua formulação católica:
    “O Papa [e o Magistério] até agora ocuparam-se em interpretar o depositum fidei. Cabe-lhes agora trasformá-lo [Porque uma coisa é a substância do depositum fidei, outra é a formulação com que são enunciados as definições de fé. Se no passado utilizou-se de formas dogmáticas, hoje faz-se míster usarmos de uma forma prevalentemente pastoral.]

    Como diz o ditado: “onde um vai, todos vão.” Universalmente o Concílio foi até a Revolução Francesa para fazer uma transformação da doutrina católica, através de uma sugestiva “síntese” da relação entre catolicismo e iluminismo.Particulamente, andando “nem a frente e nem atrás, mas no passo (e fora) da Igreja”, temos; Mons. Jonas Abib indo até o Protestantismo, Gustavo Gutierrez indo até o Comunismo, Karl Ranher indo até o ateísmo e ainda outros indo a Renascença e a toda forma de cultura e pensamento humano.

    No caso de algumas doutrinas específicas (maioria), não se sabe o que é substância e o que é forma católica. Porque a casos em que a doutrina tem uma versão que (teoricamente) possuí substância católica e a outros que não a possuí, como o da própia Teologia da Libertação. Em outro caso como o da RCC que tem substância nitidamente protestante e forma católica, ela é autorizada. Estranho…

    Uma vez liberado as doutrinas de seus status de condenação, os dogmas em que devemos crer passaram a um segundo plano. É o que nota Paulinus, em seu artigo a Rocha:

    “Não lembro que pensador católico revelou a singular inversão que se produziu no após-concílio: Os dogmas tratados como opiniões, e as opiniões (errôneas) elevadas à categoria de dogmas; os mandamentos (por exemplo, o sexto) rebaixados ao nível de simples conselhos, e os conselhos (por exemplo, a pobreza de fato) elevados à categoria de mandamentos, e assim sucessivamente.” Trecho da Rocha (de Paulinus)
    – Introdução do livro “A nova teologia, os que pensam que venceram.”

    É inegável que estamos diante de algo misterioso. Todos os católicos, sejam Bispos, Padres e leigos que se dispuseram a fazer a dita transformação, perderam a racionalidade católica e mantiveram apenas um vínculo sentimental com a Igreja. O que é um efeito direto do modernismo que tem no sentimento a substância da fé. Parece que estamos diante do cumprimento daquilo que diz o Apóstolo:

    “Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si.” II Timóteo 4,3

    Uma vez declarada a liberdade religiosa, tendo como termo a ausência de coação seja de quem for,a lei de DEUS, é abolida. Consequemente a própia lei da Igreja, pois o fim da lei é dar consciência do pecado, sem esta consciência, alguém se julgará carente da glória de DEUS? Sentirá a necessidade da graça?

    Quando falo da lei da Igreja, refiro me aos mecanismos de coação que mantém o herege em união externa com a Igreja e portanto oculto. Sem estes mecanismos, um Cardeal como Walter Kasper pode falar e ensinar graves heresias, sem no entanto sofrer sanção alguma.

    As leis do Vaticano II, se ordenam a salvação pela evolução, não pela fé. Não existe dignidade da pessoa humana que se radica na imagem e semelhança de DEUS. Ela é uma hipótese considerando a evolução. A pessoa humana não é co-participante da natureza divina, quem participa desta natureza é a PESSOA CRISTÃ que tem em si a vida de Cristo e portanto pode ser chamada de filha de DEUS.

    Dom Lourenço esta corretíssimo na crítica à ausência da fé integral; não a fé integral sem forma católica. Todos os autores dessas transformações “católicas”, nunca poderão dizer: “Creio na Santa Igreja Católica Apostólica Romana”, mas sim: Creio substancialmente na Santa Igreja Católica Apostólica Romana e formalmente no Concílio Vaticano II.”

    A distinção entre substância e forma levou a divisão para um nível essencial. É nesta distinção que começa a autodemolição da Igreja declarada por Paulo VI:

    A forma existe em razão da substância, uma vez alterada a forma, altera-se também sua substância. Se o trigo muda sua forma, como se diz modernamente, ele evolui, já não é mais trigo. Nesta matéria seria até licíto que continuássemos a chamá-lo de trigo. Mas em definições de fé, só poderíamos fazê-lo se considerassemos o homem a medida das coisas que são e das que não são. O cavalo de tróia do Concílio esta presente na distinção citada. Nele se esconde a doutrina da evolução do dogma, que trava o magistério. As definições que se esperam da evolução (segundo a própia doutrina Darwiniana) são dadas pela seleção natural. Por que o magistério não condena mais? Marx também disse:

    “Retire-se da religião o poder de excomungar e ela cessará de existir.”

    As reformas que Bento XVI tem realizado, tem visado o retorno da forma católica. Mesmo o convite de um Rabino Judaíco para um Sínodo,se prestam a este fim. O método histórico crítico nada mais é do que o magistério da letra. Será que os Bispos não viram isto?

    Infelizmente ele não pode fazer muito, porque esta cercado de autoridades que não servem a DEUS, mas se fizeram DEUSES ao ponto de querer dar formas católicas a doutrinas condenadas pela própia Igreja.

    Bom, atualizar a Igreja pela modernidade, foi fazer da(s) particularidade(s) moderna(s), a universalidade da Igreja. A tradição que tem todo direito a universalidade, é hoje considerada uma particularidade tradicionalista. Fiquem com DEUS.

    Abraços