O Leão de Campos (II): A sabedoria não nos preserva do sofrimento.

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sabedoria não nos preserva do sofrimento. Não podemos imaginar a dor sofrida por este homem que viu com tão extraordinária profundidade a Paixão do Corpo Místico em nossos tempos. A Igreja, em imitação a Cristo, foi condenada por si mesma, entregue aos incrédulos, forçada agora a sofrer uma agonia não imaginada em qualquer outra época. Esse bispo permaneceu um discípulo fiel. Seus olhos assistiram a agonia com resoluta clareza por detrás daquelas sólidas estruturas. Aqueles olhos nunca iriam pestanejar enquanto ele seguia o caminho com o condenado Corpo Místico, testemunhando a miséria, compartilhando o tormento. Tal alma seria, é claro, devota de Maria, Mãe de Deus. Tal alma também a imitaria em sofrer as dores de um coração transpassado.

Na primavera de 1969, a espada feriu desde Roma. O Papa Paulo VI decretou que uma nova Missa seria instituída. Isso não era apenas um escândalo; o prefácio à descrição do novus ordo missae dava uma nova definição do Santo Sacrifício da Missa que beirava um impensável desvio à heresia.O Imenso Sacrifício da Missa tornara-se uma simples ceia. A mudança na natureza do sacramento pode ser entendida rapidamente ao simples contar o número de referências a “sacrifício” no rito Tridentino e compará-lo ao número de referências na nova Missa. Isso não era só novo; era o esmagamento do antigo ritual do sacrifício e a substituição por uma nova visão.

Dom Castro Mayer não falou uma só palavra, mas chamou seu carro e um motorista, ciente de que não estava em condições de dirigir. Pediu que fosse levado à cidade de Varre Sai, no extremo norte da diocese, onde seu seminário se localizava. Depois da jornada de muitas horas em angustiante silêncio, entrou no seminário, a carta ainda em mãos, e, aparentando palidez, tenso e chocado, a entregou ao Padre José Possidente, diretor do seminário. E então falou pela primeira vez desde que abriu e leu a carta, “Não é possível, não é possível; Eu não vou aceitar isso”, e lágrimas marejavam aqueles olhos brilhantes e escapavam abaixo a face pálida pelo choque. Uma grande tristeza tomou conta do bispo e, em algum canto de sua alma, aquela dor, uma dor sentida por todos os fiéis que conheciam e amavam a Missa, nunca passou. Este jugo não era suave; este fardo não era leve.

Dom Antonio de Castro Mayer não era, entretanto, um homem de sua época. Ele era antes e acima de tudo um homem de Deus; não era um resmungão, um molenga ou um derrotista. Mesmo esse vendaval não mudaria seu senso do dever. Fora-lhe dada uma tarefa a ser cumprida e ele continuaria a desempenhá-la. A situação agora, de certo modo, se esclarecia. Os modernistas então chegaram a essa extensão em seu furor de demolição, seu carnaval de liberdade, sua orgia de sacrilégio. Os pastores estavam a serviço dos lobos e o rebanho estava cercado. Logo os cadáveres ensangüentados se espalhariam pela paisagem sob um céu vazio desprovido de luz. Dom Castro Mayer não iria consentir a esta selvageria. Ele tinha seu próprio rebanho para guardar. Ele deveria fazer uma sólida guarda e preservar agora não apenas a Fé em sua diocese, mas, Deus o ajude, também a Missa. Armou-se com as armas de um bispo, mitra, báculo e anel,  sinais de autoridade dados a ele em sua sagração, e tomou a caneta. Esgotado e entristecido, combateu.

(The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993)

4 Comentários to “O Leão de Campos (II): A sabedoria não nos preserva do sofrimento.”

  1. A diocese de Campos, Rio de Janeiro, com Dom Antônio, no pós Concílio, foi a única diocese do mundo onde permaneceu a Missa tradicional, além da ortodoxia clara cujo pleno vigor em fidelidade a Fé da nossa Igreja de sempre – de suma importância.

    Mas isso foi até 1981, se não tiver enganado, até a saída do Leão de Campos.

    Agora hoje catamos os cacos mais ainda, quer dizer, de uma minúscula partícula, bem microscópia, que possa se encontrar nestes bispos regularizados e suas dioceses regularizadas no nosso Brasil.

    Há algo semelhante aos tempos de Dom Antônio?

    Para ser sincero…

    Testemulhamos a trise teimosa, repetiva, monótona, chata – sem dizer herética – do apostolado na maioria dos senhores bispos brasileiros a favor da Teologia da Libertação e sua Campanha da Fraternidade, principalmente.

    Essa é a heresia que mais predomina nas dioceses brasileiras e nenhum deles foi excomungado por isso.

    E só Dom Antônio foi “excomungado”.

    Hoje eles tentam colocar as missas xangozadas, axezadas, macunbadas etc. Além da “doutrina” dos deuses pagãos das mesmas…

    E só Dom Antônio foi “excomungado”.

    Me perdoe, mas sendo sincero novamente, eles estão só deixando o tempo passar – por conta de muitos católicos hibernando até hoje por conta do tempo pós conciliar – para aprovar a união gay, o aborto, além de outras coisas macabras que até o Diabo dúvida.

    Leiam abaixo um pequeno exemplo que disse uma vez um próprio secretário da C.N.B.B. que não faz tanto tempo.

    “Para o secretário-executivo da Pastoral DST/Aids da CNBB, frei José Bernardi, o texto abre uma ‘brecha’ para que agentes da pastoral possam indicar o uso de preservativos em certos casos.

    ‘Eu acho que é uma brecha que foi deixada de forma até voluntária pelos bispos, embora não afirmem explicitamente. Os agentes da pastoral, que trabalham lá na ponta com a epidemia, com pessoas vivendo com Aids, de repente podem ter essa liberdade [de indicar o uso do preservativo]’, disse.”

    Faça-se justiça, pois só Dom Antônio foi “excomungado”…

    Fica aqui um hulmide apelo ao nosso Papa.

  2. Salve Maria!

    Pensem o que pensarem os cooperadores da obra de demolição da liturgia e do Sagrado Depósito da Fé, mas a verdade é que Dom Castro Mayer e Dom Marcel Lefebvre são modelos do heroismo que é tão peculiar aos que seguem verdadeiramente o Cristo! São os que souberam na vida seguir o SIM, SIM e NÃO,NÃO! Não fizeram concessões à ninguém quando viram a Igreja de Nosso Senhor cercada pelas picaretas demolidoras dos que deveriam sustê-la pela fidelidade e pelo combate contra as hostes infernais!
    Que Nosso Senhor apresse o levantamento das excomunhões que foram lançadas sobre eles!

  3. Bem diz o Rodrigo: “D. Lefebvre, D. Mayer e poucos outros bons bispos da Eterna Igreja cercados por picaretas…”
    Parece o Congresso Nacional do FHC e Lula…alfredo.

  4. Dom Tissier se referiu a Dom Lefebvre como “arcebispo de ferro, arcebispo de lã”, pois aliava firmeza na defesa da Fé com cordialidade no trato e mansidão.

    Esse relato de Dom Antônio, chorando com a promulgação do Novus Ordo, mostra a grandeza de alma deste nosso bispo brasileiro de ferro e de lã.

    Como disse (ou dizia) Pe. Fernando Rifan, é impossível separar o combate dos dois bispos.