Carta Apostólica ‘Laetare Colonia Urbs’.

Caríssimos leitores,

Foi tornada pública hoje, 20 de dezembro, pelo Vatican Information Service, uma Carta Apostólica de Sua Santidade, o Papa Bento XVI, ao Cardeal Joachim Meisner, a respeito de Duns Scoto. Abaixo apresentamos nossa tradução da versão italiana, visando especialmente dar publicidade a este ato de Sua Santidade que poderia passar em silêncio em muitos meios tradicionalistas ; alguns apenas divulgam as palavras do Papa que são convenientes para defender suas próprias idéias.

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Bento XVI

Sumo Pontífice

Carta Apostólica Laetare Colonia Urbs

pontifice

ao Nosso Venerável Irmão

Joachim S.R.E. Meisner, Cardeal,

Arcebispo de Colônia,

e a quantos de todas as partes do mundo participam do

Congresso Científico Internacional

por ocasião do VII centenário da morte do

Beato João Duns Scotus

 

Regozijai, cidade de Colônia, que um dia recebestes entre seus muros João Duns Scoto, doutíssimo e piedosíssimo homem, que em 8 de Novembro de 1308 passou da vida presente à pátria celeste, e tu, com grande admiração e reverência, preserva seus restos mortais.

Nossos veneráveis predecessores, os servos de Deus Paulo VI e João Paulo II, o exaltaram com elevadas expressões; queremos também nós cercá-lo por merecidos elogios e invocar-lhe o patrocínio.

É justo e merecidamente que agora seja celebrado o sétimo centenário de seu piedoso trânsito. E enquanto, por esta feliz ocasião, em diferentes partes do mundo inteiro estão publicando artigos e obras em honra do Beato João Duns Scotus e conferências realizam-se, entre as quais está agora em preparação aquela solene de Colônia, que ocorrerá nos dias 5 e 9 do próximo mês de novembro, acreditamos ser o Nosso dever de serviço, nesta circunstância, dizer algumas palavras sobre um homem tão exímio, tanto benemérito no contribuir ao progresso da doutrina da Igreja como nas ciências humanas.

Ele, de fato, associando piedade com a investigação científica, de acordo com a invocação: “O primeiro Princípio do ser conceda-me acreditar, desfrutar e expressar o que é agradável à sua majestade e eleve a nossa mente à sua contemplação” 1, com o seu refinado talento tão profundamente penetrou os segredos da verdade natural e revelada e produziu uma doutrina tal a ponto de ser chamado de “Doctor Ordinis”, “Doctor Subtilis” e “Doctor Marianus”, se tornou professor e chefe da Escola Franciscana, luz e exemplo para todo o povo cristão.

Desejamos, portanto, chamar a atenção dos estudiosos e de todos, crentes e não-crentes, ao itinerário e ao método que Scoto seguiu para estabelecer uma harmonia entre fé e razão, no definir de tal maneira a natureza da teologia ao exaltar constantemente a ação, o influxo, a prática, o amor, em vez da pura especulação; ao fazer este trabalho, ele se fez guiar pelo Magistério da Igreja e por um saudável senso crítico em mérito do crescimento do conhecimento da verdade, e estava convencido de que a ciência tem valor na medida em que é aplicada na prática.

Firmado na fé católica, se esforçou para compreender, explicar e defender as verdades da fé à luz da razão humana. Portanto, não fez nada se não demonstrar a consonância de toda a verdade, natural e sobrenatural, que emana de uma única e mesma fonte.

Junto à Sagrada Escritura, divinamente inspirada, se coloca a autoridade da Igreja. Ele parece a seguir o dizer de S. Agostinho: “Não creria no Evangelho, se antes não cresse na Igreja” 2 . De fato, o nosso doutor não raro coloca especial ênfase na suprema autoridade do Sucessor de Pedro. Segundo ele, “embora o Papa não possa dispensar contra a lei natural e divina (pois o seu poder é inferior a ambas), todavia, sendo o Sucessor de Pedro, Príncipe dos Apóstolos, ele tem a mesma autoridade que Pedro tinha” 3 .

Por isso, a Igreja Católica, que tem como cabeça invisível o próprio Cristo, que deixou seus Vigários na pessoa do bem-aventurado Pedro e seus sucessores, guiada pelo Espírito da verdade, é guardiã autêntica do depósito revelado e de regra da fé. A Igreja é critério firme e estável da canonicidade da Sagrada Escritura. Ela, de fato, “estabeleceu quais são os livros a se considerar autênticos no cânon da bíblia” 4 .

Noutro lugar afirma que “as Escrituras foram expostas com o mesmo Espírito com o qual elas foram escritas, e por isso se deve crer que a Igreja Católica as apresentou com o mesmo Espírito com que a Fé nos foi transmitida, isto é, instruída pelo Espírito da verdade”5 .

Após ter provado com vários argumentos, a partir da razão teológica, o próprio fato de preservação da Bem-aventurada Virgem Maria do pecado original, ele estava absolutamente pronto a rejeitar sua persuasão, se esta não estivesse em sintonia com a autoridade da Igreja, dizendo: “Se não contrasta com a autoridade da Igreja ou com a autoridade das Escrituras, parece provável atribuir a Maria o que há de mais excelente”6 .

O primado da vontade põe em luz que Deus é acima de tudo caridade. Esta caridade, este amor, Duns Scoto tem presente quando pretende trazer a teologia a uma única expressão, que é a teologia prática. Segundo seu pensamento, sendo Deus “formalmente amor e formalmente caridade”7 , comunica com grandíssima generosidade aos fora de si os raios de sua bondade e de seu amor 8 . E na realidade, é por amor que Deus “escolheu-nos antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele na caridade, predestinando-nos a ser seus filhos adotivos por Jesus Cristo “(Ef 1, 3-4).

Fiel discípulo de São Francisco de Assis, o Beato João contemplou e pregou assiduamente a paixão e encarnação do Filho de Deus. Mas a caridade ou o amor de Cristo manifesta-se de um modo especial não apenas no Calvário, mas também no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, sem o qual “desaparece toda piedade na Igreja, nem se poderia – não fosse através da veneração do mesmo sacramento – render a Deus o culto de latria” 9 . Este sacramento é também um sacramento de unidade e de amor; por meio dele somos levados a amar gratuitamente e a amar a Deus como bem comum e a ser co-amado pelos outros.

E como esse amor, essa caridade, foi o início de tudo, por isso, também no amor e na caridade estará a nossa beatitude: “O desejo ou a vontade amante é a vida eterna, beata e perfeita”10 .

Tendo Nós no início do nosso ministério iniciado pregando a caridade, que é o mesmo Deus, vemos com alegria que a doutrina singular deste Beato reserva um lugar particular a esta verdade, que maximamente consideramos digna de ser investigada e ensinada em nosso tempo. Portanto, alegremente indo ao encontro do pedido do Venerável Irmão Nosso S. E. R. Joachim Meisner, Cardeal Arcebispo de Colônia, enviamos esta Carta Apostólica com a qual desejamos honrar o Beato João Duns Scotus e invocar sobre Nós a sua celeste intercessão. Finalmente, para aqueles que de alguma forma participam nesta conferência internacional e a outras iniciativas sobre este filho ilustre de São Francisco, cordialmente damos Nossa Benção Apostólica.

Dado em Roma, desde São Pedro, no dia 28 de Outubro de 2008, quarto ano do Nosso Pontificado.

BENEDICTUS PP. XVI

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1 DUNS SCOTUS, Tractatus de primo Principio, c. 1 (ed. MULLER M., Friburgi Brisgoviae, 1941, 1).

 

2 Idem, Ordinatio I d.5 n.26 (ed. Vat. IV 24-25).

 

3 Idem, Rep. IV d.33 q.2 n. 19 (ed. VIVES XXIV 439 a.)

 

4 Idem, Ordinatio I d.5 n. 26 (ed. Vat. IV 25).

 

5 Ibid., IV d.11 q.3 n. 15 (ed. Vat. IX 181).

 

6 Ibid., III d.3 n. 34 (ed. VIVES XIX 167 b).

 

7 Ibid., I d.17 n. 173 (ed. Vat. V 221-222).

 

8 Cfr idem, Tractatus de primo Principio, c.4 (ed. MULLER M., 127).

 

9 Idem, Rep. IV d.8 q.1 n.3 (ed. VIVES XXIV 9-10).

 

10 Ibid., IV d.49 q.2 n. 21 (ed VIVES XXIV 630a).

 

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7 Comentários to “Carta Apostólica ‘Laetare Colonia Urbs’.”

  1. Duns Scoto pode até ser santo,sabe-se lá aonde se encontra neste momento.Mas elogiar seus erros é absurdo,ou não?

    No caso me refiro ao primado da vontade sobre a inteligencia.

  2. Poderia explicar a frase:

    “poderia passar em silêncio em muitos meios tradicionalistas ; alguns apenas divulgam as palavras do Papa que são convenientes para defender suas próprias idéias”

    Se possível desde já agradeço. Se puder ao menos enviar algo em meu e-mail (digitenovamente@yahoo.com.br) agradeço

  3. Caríssimos Antonio e Luciano,

    Publicamos esta Carta Apostólica sem pretender defender ou tomar como opinião do blog qualquer tese, seja favorável ou não a Duns Scoto. O objetivo foi, de fato, expor algo que pode passar desapercebido por quem romanticamente imagina um Bento XVI diferente daquilo que ele realmente é, tornando-o forçosamente um defensor de idéias que não são suas.

  4. Agradeço ao blog por tornar publica essa Carta. Mas só algo que gostaria de comentar -a parcialidade-. Não por culpa do blog lógico, mas de alguns individuos ao analisar o que defendeu Duns Scoto. Isso se pode admitir. Se entre seu pensamento defendeu grandes verdades como salienta Bento XVI de outro lado aliou-se deslizes criticos como bem lembrou o nobre amigo Antonio em seu post. Bento XVI em Regensburg 12/set/06 disse a respeito de Duns Scoto o seguinte: “Duns Escoto deu início a uma orientação voluntarista que, no termo de sucessivos desenvolvimentos, havia de levar à afirmação segundo a qual, de Deus, só conheceremos a voluntas ordinata”. Um dos exemplos. Com isso é também preciso desfazer a falta de prudencia segundo a qual fica claro pela parte de sua santidade Bento XVI que a doutrina de um beato pode ser criticada com a devida coerencia pois que a beatificação não implica em decisão papal infalível. Que as ideias sejam elevadas a niveis da justa harmonia entre razao e a fé. A.D.M.G!

  5. A beatificação, quiçá a santificação, de alguém não tem o condão de apagar os possíveis erros ou enganos cometidos em vida. Vede, verbi gratia, São Bernardo, que era a favor da absouta pobreza material da Igreja, tese refutada ainda em vida do santo; algumas opiniões de São Tomás acerca da Imaculada Conceição (embora o santo não tivesse firmada sua absoluta convicção); São Tomás Morus, que, a despeito da sinceridade profunda e sobrenatural de seu catolicismo, como prova o martírio, era em geral um humanista renascentista típico.

    Mora o perigo justamente em confundir uma com outra coisa, a santificação do homem e a santificação da obra: se é santo o homem e está no céu, é todo santo, porque nada impuro pode ficar lá, mas a obra há de passar pelo crivo da Igreja, pois não é imune a erros.

  6. Caríssimos,
    Salve Maria!

    Não julgam genial que Duns Scoto tenha ensinado o primado da vontade sobre a inteligência e Bento XVI apresenta-o como alguém que submete tanto sua vontade quanto sua inteligência ao magistério da Igreja?

    Quando o Papa afirmou que o Motu Propio era um ato de tolerância para conosco. Eu fui um dos primeiros que estranhei. Porém o resultado desta palavra podemos ver na celebração do Rito Tridentino pelo Cardeal da CNB francesa que celebrou com descaso, mas celebrou.

    O Papa esta se fazendo de fraco com os fracos. Para ele a palavra inculturação, é sinônimo de restauração, não de nova criação. Fiquem com DEUS.

    Um santo natal a todos

  7. Se o IBP e os seus padres trairam a Montfort e o Papa Bento XVI, acerca dos fins da instituição no Brasil e no mundo, quem os traiu agora fazendo este último elogiar Duns Scoto no atual documento?
    Para conferir, ver artigo do OF (de 02/12/08)no site Montfort.
    Será que o Papa foi obrigado a assinar (forças ocultas!) o que não acreditava?
    Inimigos! Traição! Persegução!
    Felia Natal a todos, alfredo.