O Leão de Campos (IV): “Exulta de alegria o pai do justo; alegrem-se o teu pai e a tua mãe”.

Exulta de alegria o pai do justo; alegrem-se o teu pai e a tua mãe, e exulte a que te gerou. Como são amáveis os vossos tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor.

Intróito da Missa da Sagrada Família – Prov. XXIII, 24 e 25; Salmo LXXXIII, 2 e 3.

A

ntonio de Castro Mayer nasceu em Campinas, no estado de São Paulo, no Brasil, em 20 de junho de 1904. Seu pai, João Mayer, nasceu na católica região da Bavária, sul da Alemanha. Pedreiro profissional (embora certamente não um Pedreiro no sentido diabólico da palavra), emigrou quando jovem a procura de trabalho. Sua sorte não aumentou grandemente em sua chegada ao Brasil e a vida permaneceu dura. Se ele não encontrou grande oportunidade ou grande riqueza, encontrou uma excelente companheira numa devota e amável esposa, uma simples Católica brasileira, Francisca de Castro. O casal durante sua vida matrimonial nunca conheceu nada além da pobreza, mas Deus abençoou sua casa com doze filhos. Quando Antonio tinha apenas seis anos de idade seu pai faleceu. A família encontrou-se lutando ainda mais para sobreviver, pois João não deixou nenhuma herança para sua família. No fim de seus dias, seu filho Antonio diria sempre que seu pai, sim, deixou-lhe uma herança, uma grande herança – a Fé Católica.

Os muitos filhos trabalhavam duro para ajudar sua mãe e manter a família unida. O jovem moço encontrou em seus ombros responsabilidades e deveres que poderiam, em circunstâncias ordinárias, estar além das capacidades de um garoto, mas pela fidelidade de sua mãe, ajuda de seus irmãos e irmãs, e graça de Deus, ele amadureceu rapidamente e a família sobreviveu. Talvez como recompensa à sua humilde submissão em sacrificar sua juventude e assumir as obrigações de um adulto em tão tenra idade, Deus o abençoou com alma de criança que não envelhece, a qual conservou até o dia de sua morte. Aqueles que são velhos em sua juventude freqüentemente mantêm a simplicidade da inocência em sua velhice. Tal era o caso de Antonio de Castro Mayer. A humildade, abertura e pureza da infância permaneceram com ele durante seus oitenta e seis anos na terra.

A devoção ensinada às crianças pelo pai antes de sua morte e por sua mãe até mesmo em sua viuvez tornou-se evidente nas três vocações entre os doze irmãos. Duas das filhas desse casal fiel tornaram-se freiras, uma Dominicana, outra Concepcionista. Aos doze anos, Antonio ingressou no seminário menor da Arquidiocese de São Paulo, localizado em Bom Jesus de Pirapora, na época sob direção dos Padres Premonstrantenses. Transferiu-se para o seminário maior de São Paulo em 1922. Desde o início, distinguia-se por seu intelecto apurado. Por conta desse dom especial, dom combinado com intensa dedicação e incansável capacidade de trabalhar, foi mandado a Roma para estudar na Universidade Gregoriana. Em 30 de outubro de 1927 foi ordenado ao sacerdócio pelo Cardeal Basilio Pompilij, Vigário Geral para Sua Santidade, o Papa Pio XI. Em 1928 foi-lhe outorgado o título de doutor em Teologia da mesma universidade e retornou ao Brasil para iniciar uma carreira de ensino no Seminário de São Paulo. Pelos próximos treze anos ele ensinaria, primeiro Filosofia e História da Filosofia, e depois Teologia Dogmática.

Em 1940, Dom José Gaspar d’Afonseca e Silva, arcebispo de São Paulo, o nomeou Assistente Geral para a Ação Católica na arquidiocese, na época em período de reorganização. Em 1941 ele foi nomeado Cônego da Catedral Metropolitana da Sé de São Paulo com o título de Primeiro Tesoureiro. No ano seguinte tornou-se Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo.

Vinte anos após entrar no seminário menor aos doze anos, vinte anos após sair de uma difícil vida de pobreza, simplicidade e humilde devoção, Padre Antonio de Castro Mayer assumiu a posição de Vigário Geral de uma das mais importantes Arquidioceses do Brasil. Sua ascensão foi meteórica, seu caminho livre para honras ainda maiores.

Sagração episcopal de Dom Antonio de Castro Mayer.O que ocorreu depois permanece aberto a interpretações. Em 1945, Antonio de Castro Mayer foi transferido para a paróquia de São José de Belém e iniciou a missão de inspecionar o currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Permaneceu nesse posto até 6 de março de 1948, quando Sua Santidade, o Papa Pio XII, o nomeou bispo titular de Priene e Coadjuntor com direito de sucessão ao bispo de Campos. Muitos vêem isso como simplesmente uma progressão natural de nomeações, a carreira seguindo os arranjos comuns de mudanças de uma indicação para outra, o padre sempre se distinguindo em qualquer trabalho vindo a suas mãos. Há outra interpretação, contudo. Alguns vêem na mudança de Vigário Geral da importante diocese de São Paulo para as menores e menos proeminentes posições na paróquia e universidade uma repentina ruptura na constante linha ascendente de sucesso e promoção que caracteriza o início de carreira. Poderia mesmo a seleção como Bispo designado de Campos, uma pobre e não particularmente poderosa diocese, ser vista como uma significante mudança no progresso para cima dessa carreira eclesiástica? Antonio de Castro Mayer pode já num estágio relativamente cedo da carreira ter se tornado uma fonte de preocupação para certos eclesiásticos, que podem ter tentado desviar a correnteza de sucesso, para remover algo da influência e enviá-lo para lugares mais nebulosos, onde sua voz não teria tal presença ou altura para muitos ouvintes.

(The Mouth of the Lion, Dr. David Allen White. Angelus Press, 1993 – Pág. 37-39)

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