Testem Benevolentiae, 110 anos.

O fundamento sobre o qual se baseiam essas novas idéias é que, com o fim de atrair mais facilmente aqueles que dissentem dela, a Igreja deveria adequar seus ensinamentos mais de acordo ao espírito da época, afrouxar algo de sua antiga severidade e fazer algumas concessões a novas opiniões. Muitos pensam que essas concessões devem ser feitas não apenas em matéria de disciplina, mas também nas doutrinas pertencentes ao ‹‹ depósito da fé ›› . Sustentam que seria oportuno, para ganhar aqueles que divergem de nós, omitir certos pontos do magistério da Igreja que são de menor importância, e desta maneira moderá-los, para que não portem o mesmo sentido que a Igreja constantemente lhes tem dado. Não são necessárias muitas palavras, querido filho, para provar a falsidade dessas idéias se se traz à mente a natureza e a origem da doutrina que a Igreja propõe. O Concílio Vaticano [I] diz a respeito: « A doutrina da fé que Deus revelou não foi proposta como uma invenção filosófica, para ser aperfeiçoada pelo engenho humano, mas foi entregue como um depósito divino à Esposa de Cristo para ser guardada fielmente e declarada infalivelmente. Logo, o significado dos sagrados dogmas que Nossa Mãe, a Igreja, declarou uma vez deve ser mantido perpetuamente, e nunca se deve afastar desse significado sob a pretensão ou pretexto de uma compreensão mais profunda dos mesmos » (Constitutio de Fide Catholica, cap. IV).

Não podemos considerar como inteiramente inocente o silêncio que intencionalmente conduz à omissão ou ao desprezo de alguns dos princípios da doutrina cristã, já que todos os princípios vêm do mesmo Autor e Mestre, « o Filho Unigênito que está no seio do Pai » (Jo 1,18). Estes estão adaptados a todos os tempos e todas as nações, como se vê claramente pelas palavras de Nosso Senhor a seus Apóstolos: « Ide, pois, ensinai a todas as nações; ensinando-lhes a observar tudo o que lhes mandei, e eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos» (Mt. 28,19).

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Entretanto, querido filho, no presente assunto de que estamos falando, há ainda um perigo maior, e uma oposição ainda mais manifesta à doutrina e disciplina católicas, naquela opinião dos amantes da novidade segunda a qual afirmam que se deve admitir uma sorte tal de liberdade na Igreja que, diminuindo de alguma maneira sua supervisão e cuidado, se permita aos fiéis seguir mais livremente a liderança de suas próprias mentes e a trilha de suas próprias atividades. Aqueles são da opinião de que tal liberdade tem sua contrapartida na liberdade civil recentemente dada, que é agora o direito e fundamento de quase todo o estado secular.

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Leão XIIIAlega-se que agora que foi proclamado o Decreto Vaticano sobre a autoridade magisterial infalível do Romano Pontífice, já não há mais com o que se preocupar nessa linha, e, por conseguinte, desde que isso seja salvaguardado e colocado além de qualquer questionamento, se abre a cada um campo mais amplo e livre, tanto para o pensamento como para a ação. Mas tal raciocínio é evidentemente defeituoso, já que, se temos que chegar a alguma conclusão acerca da autoridade magisterial infalível da Igreja, seria mais ainda de que nada deveria desejar afastar-se dessa autoridade, ou ainda, que levadas e dirigidas de tal modo às mentes de todos, gozariam de uma maior segurança de não cair em erro privado. E ademais, aqueles que se permitem assim raciocinar parecem afastar-se seriamente da providente sabedoria do Altíssimo, que se dignou dar a conhecer por soleníssima decisão, a autoridade e o direito supremo de ensinar desde sua Sede Apostólica, e entregou tal decisão precisamente para salvaguardar as mentes dos filhos da Igreja dos perigos dos tempos presentes.

Estes perigos, a saber, a confusão entre licença e liberdade, a paixão por discutir e mostrar desprezo sobre qualquer assunto possível, o suposto direito de manter qualquer opinião que se agrade sobre qualquer assunto, e dar-lhe a conhecer ao mundo por meio de publicações, envolveram tanto as mentes na obscuridade que há agora, mais do que nunca, uma necessidade maior do ofício magisterial da Igreja, a fim de que as pessoas não se esqueçam tanto da consciência como do dever.

Nós certamente não pensamos rechaçar tudo quanto há produzido a indústria e o estudo moderno. Tão longe estamos disso que damos acolhida ao patrimônio da verdade e ao âmbito cada vez mais amplo do bem-estar público a tudo que ajude ao progresso da aprendizagem e da virtude. Ainda assim, tudo isso só poderá ser de algum sólido benefício, e mais, só poderá ter uma existência e um crescimento real, se se reconhece a sabedoria e a autoridade da Igreja.

Agora, com respeito às conclusões que foram deduzidas das opiniões acima mencionadas, cremos de boa fé que nelas não houve intenção de erro ou astúcia, mas ainda sim, esses assuntos em si mesmo merecem sem dúvida certo grau de suspeita. Em primeiro lugar, se deixa de lado toda direção externa por ser considerada supérflua e, de fato, inútil para as almas que lutam pela perfeição cristã, sendo seu argumento que o Espírito Santo hoje derrama graças mais ricas e abundantes do que antigamente sobre as almas dos fiéis, de maneira que, sem intervenção humana, Ele os ensina e os guia por certa inspiração oculta. Embora seja sinal de um pequeno excesso de confiança em querer medir e determinar o modo da comunicação divina à humanidade, já que esta depende completamente de seu próprio parecer e Ele é o mais livre dispensador de seus próprios dons ( « O Espírito sobra onde quer » Jo 3,8. « E a cada um de nós é dada a graça conforme e medida do dom de Cristo » Ef 4,7).

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Só crerá que certas virtudes cristãs estão adaptadas a certos tempos e outras a outros tempos quem não recorde as palavras do Apóstolo: «A quem de antemão conheceu, a estes predestinou para fazer-lhes conformes à imagem de Seu Filho » (Rom 8,29). Cristo é o mestre e paradigma de toda santidade e à sua medida devem conformar-se todos que aspiram a vida eterna. Cristo não conhece mudança alguma com o passar das épocas, já que « Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre » (Heb 13,8). Aos homens de todas as épocas foi dado o preceito: « Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração » (Mt 11,29). Para toda época Ele se manifestou como obediente até a morte; em toda época tem força a sentença do Apostólo: « Aqueles que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências » (Gál 5,24). Desejaria Deus que hoje em dia se praticasse mais essas virtudes no grau dos santos dos tempos passados, que na humildade, obediência e auto-domínio foram poderosos “em palavra e em obra” para grande proveito não só da religião, mas também do estado e do bem-estar público.

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Finalmente, para não nos prolongarmos mais, se afirma que o caminho e método que até agora se seguiu entre os católicos para atrair de novo aqueles que saíram da Igreja deve ser deixado de lado e outro deve ser eleito. Sobre esse assunto, bastará evidenciar que não é prudente desprezar aquilo que a antiguidade em sua larga experiência aprovou e que ensinou ademais por autoridade apostólica. As Escrituras nos ensinam (Eclo 17, 4) que é dever de todos estar solícitos para a salvação de nosso vizinho segundo a possibilidade e posição de cada um. Os fiéis realizam isso pelo religioso cumprimento de seus deveres de seu estado de vida, retidão de sua conduta, suas obras de caridade cristã, e sua sincera e contínua oração a Deus.

Por outro lado, aqueles que pertencem ao clero devem realizar isso pelo instruído cumprimento de seu ministério da pregação, pela pompa e esplendor das cerimônias, especialmente dando a conhecer com suas próprias vidas a beleza da doutrina que inculcou São Paulo a Tito e Timóteo. Mas se, em meio às diferentes maneiras de pregar a Palavra de Deus, alguma vez há de se preferir dirigir-se aos não-católicos, não nas igrejas mas em algum lugar adequado, sem buscar as controvérsias, mas conversando amigavelmente, esse método certamente não tem problema. Mas deixai que aqueles que empreendem tal ministério sejam escolhidos pela autoridade dos bispos, e sejam homens cuja ciência e virtudes tenham sido anteriormente averiguadas. Pois pensamos que há muitos em seu país que estão separados da verdade Católica mais por ignorância que por má-vontade, que poderiam talvez mais facilmente ser trazidos para o único aprisco de Cristo se essa verdade lhes for passada adiante de maneira amigável e familiar.

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Mas a verdadeira Igreja é una, tanto por sua unidade de doutrina como por sua unidade de governo, e é também católica. E desde que Deus estabeleceu o centro e fundamento da unidade na cátedra do Bem-aventurado Pedro, com razão se chama Igreja Romana, porque « onde está Pedro, ali está a Igreja » (Ambrosio, In Ps.9,57). Por isso, se alguém deseja ser considerado um verdadeiro católico, deve ser capaz de dizer de coração as mesmas palavras que Jerônimo dirigiu ao Papa Dámaso: « Eu, não seguindo nada senão Cristo, estou unido em amizade a Sua Santidade; isto é, à cátedra de Pedro. Sei que a Igreja foi construída sobre ele como sua rocha e que quem não recolhe contigo, espalha».

Sua Santidade, o Papa Leão XIII

Carta Apostólica Testem Benevolentiae, contra o ‹‹Americanismo›› – 22 de janeiro de 1899.