Excepcional: Nova entrevista de Dom Fellay – ‘Nos abraçamos’.

“Então, tudo mudou e devemos isso ao Papa.” Bispo Bernard Fellay fala em entrevista sobre o recente levantamento das excomunhões.

(kreuz.net, Menzingen) O diário de notícias italiano de direita liberal ‘Libero’ publicou ontem uma entrevista com o Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.  A entrevista se deu em Menzingen, no interior da Suíça – na sede da Fraternidade – e versou sobre o levantamento da excomunhão dos bispos de Lefebvre ocorrido no sábado.

Mons. Bernard Fellay, temos aqui em cima da mesa o decreto da Santa Sé que levanta a excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade. O que o senhor está sentindo?

Mons. Bernard FellayBispo Bernard Fellay: alegria, satisfação. Esses não são os sentimentos de alguém que acredita ser um vitorioso.  O que a Fraternidade São Pio X tem feito desde a sua fundação e também continuará fazendo, o fez e também o fará para o bem da Igreja.  A consagração episcopal de 1988 também serviu a essa finalidade – o bem da Igreja e a nossa sobrevivência. O Arcebispo Lefebvre precisou – enfatizo: precisou – garantir a continuidade.  Não somos outra coisa que não um pequeno barco em um mar revolto. Existimos sempre para servir a Igreja e sempre existiremos para essa finalidade. O levantamento das excomunhões e o Motu Proprio para a liberação da Missa Antiga por parte do Papa Bento XVI representam um sinal importante – verdadeiramente importante. Portanto, falo em alegria e satisfação.

Quando e onde o senhor ficou sabendo do decreto?

Bispo Bernard Fellay: Soube disso há alguns dias em Roma, no escritório do Cardeal Dário Castrillón Hoyos, o Presidente da Comissão Ecclesia Dei. Nós nos abraçamos. Em seguida, a primeira coisa que fiz foi agradecer a Mãe de Deus. Esse acontecimento foi um presente dela. Para obter a sua intercessão, os fiéis que desejavam o levantamento das excomunhões rezaram e recolheram mais de um milhão e setecentos mil terços.

Quem é que trabalhou mais no Vaticano para se chegar a essa solução?

Bispo Bernard Fellay: Certamente, foi o Cardeal Castrillón, Presidente da Comissão ‘Ecclesia Dei’, que trata das relações da Santa Sé com a Fraternidade São Pio X – porém, sobretudo, o Papa Bento XVI. Compreendi isso na primeira audiência quando me encontrei com o Papa, pouco tempo depois da sua eleição. Quando ele nos repreendia, o Santo Padre o fazia com uma voz suave – realmente paternal.

Consta no decreto que o Santo Padre confia na sua diligência “em não poupar esforços no sentido de aprofundar as questões ainda em aberto em conversações indispensáveis com os órgãos da Santa Sé”. O que isso significa?

Bispo Bernard Fellay: Isso significa que nós – como todos os filhos da Igreja – somos chamados a discutir juntos as questões que consideramos fundamentais para a Fé e para a Vida eclesiástica. Creio que ao menos a seriedade da nossa posição reconhece que os últimos quarenta anos se contrapõem de maneira crítica. Audiência concedida pelo Papa Bento XVI a Dom Fellay - Agosto de 2005Não pedimos nada mais do que obter clareza para nós. O fato de que a vontade do Santo Padre segue nessa direção é realmente um grande consolo. É importante entender que mesmo no momento em que fazemos críticas contundentes, elas jamais são contra a Igreja nem contra a reputação do Papa. Como podemos ser assim? Muitas vezes fomos acusados de “lefrebvristas”. Todavia, não somos “lefrebvristas”, embora para nós esse continue sendo um título de honra: Somos católicos. O primeiro que não foi um lefebvrista, foi o nosso fundador, Mons. Lefebvre. Quando isso se tornar claro, as pessoas compreenderão melhor a nossa posição. Precisamos ainda de tempo. Porém, creio que pouco a pouco restará evidente que tudo o que fazemos é obra da Igreja.

O levantamento das excomunhões é fruto de negociações e resultado de um acordo ou um ato unilateral da Santa Sé?


Bispo Bernard Fellay: Rezamos muitas vezes para a liberação da Missa Antiga e para o levantamento das excomunhões. Porém, o que aconteceu nesse caso não é fruto de negociações ou de um acordo. Esse é um ato gratuito e unilateral, que demonstra que Roma realmente está bem-intencionada em relação a nós. Certamente bem-intencionada. Por muito tempo tínhamos a impressão de que Roma não queria abordar os fatos. Então, tudo mudou, e devemos isso ao Papa.

Por que Bento XVI quis tanto dar esse passo? Será que ficou claro para ele o vespeiro que ele cutucou ao levantar as excomunhões?

Bispo Bernard Fellay: Ah, sim, creio que ele está totalmente ciente das reações mais diversas e confusas possíveis. Além disso, ele falou em diversas entrevistas sobre a crise da Igreja, utilizando expressões totalmente inequívocas, tanto antes como depois de sua eleição a Papa. Quando falei sobre a suavidade paternal do Papa, eu queria mencionar o fato de que nele transparecia a consciência do nosso tempo, a firmeza em lograr uma solução para esse caso e a atenção com relação a todos os nossos irmãos e irmãs. Portanto, reações mais ou menos confusas sobre o passo que ele deu podem causar-lhe sofrimento. Porém, certamente, elas não vão fazer com que ele modifique a sua postura. Nisso reside também o motivo dessa decisão.

Podemos sintetizar os acontecimentos recentes na afirmação de que a Tradição não está mais excomungada?

Bispo Bernard Fellay: Sim, mesmo que leve um certo tempo até que haja esse conceito de moeda comum no mundo católico. Até hoje éramos vistos e tratados em muitos setores piores que o diabo. Tudo o que fazíamos e dizíamos era necessariamente ruim. Não acredito que essa situação possa se modificar de uma hora para outra. Contudo, hoje existe um novo passo da Santa Sé que nos permite dizer que a Tradição não está excomungada.

Como alguém se sente na vida sendo um excomungado?

Bispo Bernard Fellay: Isso dói devido à utilização maliciosa e instrumentalizada de uma marca da ignomínia. Devo dizer que no que tange a nossa situação, não nos sentíamos como excomungados ou cismáticos. Sempre nos sentimos como parte da Igreja. A notícia sobre a qual falamos demonstra que tínhamos razão.

Nessa altura do campeonato alguém se pergunta: por que essa situação se prolongou por tanto tempo?

Bispo Bernard Fellay: Resumo isso em poucas palavras: A certo ponto percebemos que um novo caminho foi adotado dentro da Igreja. Foi a nossa visão em direção a um caminho que viria a nos levar a grandes problemas.  Não fizemos nada diferente daquilo que a Igreja até esse momento sempre fez, pensar, ensinar e praticar. Não mais e não menos. Não inventamos nada. Seguimos exatamente a Tradição. E hoje a Tradição não está mais excomungada.

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3 Comentários to “Excepcional: Nova entrevista de Dom Fellay – ‘Nos abraçamos’.”

  1. Ainda não tinha lido esta entrevista de S.E.R. Dom Fellay, apenas uma outra (semelhante) disponibilizada no blogue inglês Rorate Coeli.

    Penso que o que o bom bispo diz vem dentro da mesma linha daquilo que vem dizendo ultimamente e, ainda que devamos ser prudentes em relação a tudo isto, só podemos estar esperançosos de que as necessárias discussões doutrinais com a Santa Sé produzam os frutos que todos desejamos.

    Parabéns pelo blogue e segue firme na Fé!

  2. Parabéns a toda a equipe deste Blog, pois estão prestando um serviço memorável aos católicos e porque não,à toda a Igreja, com as divulgações sérias, de fontes fidedignas e autêntico trabalho jornalistico.

  3. Caro Sr. Ferreti, parabéns pela cobertura da retirada da excomunhão dos Bispos da Fraternidade.

    Impressiona-me a postura de Dom Fellay. Talvez nunca tenha visto uma pessoa pública com humildade que ele tem demonstrado. Fique com DEUS.

    Abraço