Após a mão estendida aos integristas, a Igreja da França se interroga.

Excertos de artigo de La Croix:

Confusos, bispos, padres e leigos esperam precisões por parte de Roma.

Fiéis e leais, mas confusos. A maioria dos bispos franceses foi surpreendida ao saber na sexta-feira do levantamento por Bento XVI das excomunhões dos quatro bispos integristas. Nada, nos contatos entre Roma e Paris, deixava prever essa decisão. E nenhuma carta do Papa veio reservar-lhes a novidade, como com o Motu proprio de 2007…

Numa declaração, o Cardeal Jean-Pierre Ricard, arcebispo de Bordeaux, membro da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, explica: “Em algum momento, a pergunta do próprio texto do Concílio Vaticano II como documento magisterial de primeira importância deverá ser feita. Ela é fundamental. Mas todas as dificuldades não serão necessariamente de tipo doutrinal. Outras, de tipo cultural e político, podem também emergir. Os últimos propósitos, inaceitáveis, de Mons. Williamson, negando o drama da exterminação dos Judeus, são um exemplo.”

O arcebispo de Clermont e Vice-Presidente da Conferência Episcopal, Mons. Hyppolyte Simon arrisca uma hipótese paradoxal: “O Papa concedeu ao integristas tudo que querem sobre a forma dos ritos, mas sobre o fundo, sobre o Concílio, quando afirmou que não existem dois ritos, mas duas formas do mesmo rito, ele arruinou sua lista de argumentos”. O Vaticano II permanece então a ser aceito em sua totalidade. : “Estou ainda excomungado por eles?”, arrisca Mgr Simon, a quem o teste desse eventual regresso, incerto aos seus olhos em razão das dissensões internas dos lefebvristas, permanecerá a concelebração deles ao redor do bispo para a missa crismal.

“Caluniados de maneira altiva e orgulhosa”

Mons. François Garnier, arcebispo de Cambrai, vê neste gesto uma “provação para muitos padres e leigos, que se esgotam para fazer passar o verdadeiro sentido do Vaticano II. Sofrem porque se sentiram caluniados de maneira altiva e orgulhosa”. Ele reconhece: “É quando o perdão é mais difícil que ele é necessário. Mas isso supõe a humildade das duas partes: não a vejo do lado dos integristas, que há 40 anos não cessam de desprezar os padres e a maior parte dos bispos. O seu orgulho é esmagador para os que, na fidelidade ao Papa, levaram a cabo as orientações do Concílio”.

Do outro lado da França, Mons. Marco Aillet, novo bispo de Bayonne, nota: “Bento XVI trabalha para a unidade, em direção dos cristãos separados como esse grupo contestador. O decreto não resolve tudo, mas permite um passo à reconciliação. Devemos acolhê-lo com confiança. Ao Santo Padre é devido dar fiança.” Reagindo aos propósitos negacionistas de Mons. Williamson, Mons. Aillet os julga “muito graves”: “Mons. Fellay se desassociou em nome da Fraternidade São Pio X”.

Sobre esse ponto, Mons. Maurice Gardès, Arcebispo de Auch e responsável pelo diálogo judaico-cristão, não esconde a sua “estupefação”: “Essas declarações vão contra todo o trabalho empreendido desde o Concílio em direção dos nossos irmãos judeus. Não se pode ser cristão negando o aniquilamento de 6 milhões de judeus. Os nossos amigos judeus não podem senão se sentir desprezados pela decisão da Igreja de aceitar no seu seio um bispo que defende uma tese negacionista. Quais exigências foram colocadas? Quais condições? Não sei. É surpreendente que a decisão não foi acompanhada de maneira explícita do anúncio das condições”.

[…]

Mons. Éric Aumonier, bispo de Versailles, insiste na indispensável unidade: “Bento XVI, como João Paulo II, não pode ceder à idéia que subsiste uma ruptura no manto da Igreja sem que se tenha tentado tudo para remediá-la e que a unidade se faça na verdade. É por isso que as excomunhões foram levantadas.” Mas, reconhece ele, “será necessário tempo para que todos os católicos adiram de maneira firme e total ao magistério da Igreja como ele se exprime hoje”.

Um superior de seminário, que deseja se manter anônimo, diz a sua amargura: “Do lado do jovem clero, isso vai reforçar a tendência de procurar num passado fantasmagórico e folclórico um meio para encontrar uma identidade”.

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10 Comentários to “Após a mão estendida aos integristas, a Igreja da França se interroga.”

  1. “Um superior de seminário, que deseja se manter anônimo, diz a sua amargura: “Do lado do jovem clero, isso vai reforçar a tendência de procurar num passado fantasmagórico e folclórico um meio para encontrar uma identidade”.

    Leia-se “Do lado do jovem clero, isso vai reforçar a tendência de procurar num passado dogmaticamente ortodoxo e tradicional um emio para encontrar uma identidade”.

    O “fantasmagórico” e “folclórico” são lamentos de um herege desesperado. Que Deus o ouça e faça acontecer os seus maiores temores.

  2. Minha resposta aos prelados franceses seria a que devemos esperar os próximos passos.
    O Santo Padre, se já não bastasse ser quem é, foi o Cardeal Ratzinguer, que acompanhou de perto todas as “tratações”, tendo inclusive tido contato direto com Mons. Lefebvre.
    Creio que como já foi exaustivamente dito, ele deu o primeiro passo, assim como a SSPX deu o seu.
    Devemos esperar em Deus, confiando na assistência infalível do Espírito Santo ao Pontífice e deixar de fazer expeculações.
    Surpreende-me, que os prelados franceses que na verdade deveriam ter obediência plena ao Romano Pontífice, queiram agora (senão antes) esperar que Ele haja como numa Assembléia e tenha que consultar ao Sacro Colégio em tudo.
    Alguns prelados pensam assim: “Se a decisão emanada do Papa for boa, nós acatamos, mesmo que não tenhamos sido consultados, se for menos boa, nós reclamamos a não consulta”.
    É por isso que o Papa agiu através do “Motu Próprio” e agora fez uso de sua Autoridade Suprema.
    Louvemos a Deus pelo Papa que a Igreja hoje tem!

  3. Irmão Emmanuel, como o senhor consegue viver em seu mosteiro? Seu pensamento não causa atrito com os demais irmãos?

  4. Meu Irmão em Cristo, Bruno:

    A verdade nunca causa atrito, se falada dentro da caridade.
    Sou um homem maduro, que procura estar sempre pronto para tratar de todas as questões que interessam à Igreja.
    Sou falho, claro, mas tento fazer o meu melhor.
    Abraços a você e minha oração amiga.

  5. Mons. Maurice Gardès, Arcebispo de Auch e responsável pelo diálogo judaico-cristão, não esconde a sua “estupefação”: “Essas declarações vão contra todo o trabalho empreendido desde o Concílio em direção dos nossos irmãos judeus. Não se pode ser cristão negando o aniquilamento de 6 milhões de judeus. Os nossos amigos judeus podem não senão se sentir desprezados pela decisão da Igreja de aceitar no seu seio um bispo que defende uma tese negacionista. Quais exigências foram colocadas? Quais condições? Não sei. É surpreendente que a decisão não foi acompanhada de maneira explícita do anúncio das condições”.

    Dom Willianson, é uma pedra de tropeço. Se por um lado o Bispo da Fraternidade vai contra todo o trabalho empreendido desde o Concílio em direção aos judeus. Por outro, os que o crucificam, vão contra a tão queridinha liberdade de consciência e de expressão tão presente em textos destas mesmas pessoas. Porque ao condenarem o Bispo da Fraternidade, também condenam tais liberdades e pela primeira vez em muito, mas muito tempo, vemos a censura aplicada sem quem defensa o Bispo da Fraternidade. Esqueceram até mesmo de dizer para ele; “Não concordo com o que dizer, mas defendo se for preciso com minha vida o direito que tendes de dizer”. Foram inoportunas as palavras de Dom Willianson? Se foram, DEUS as converteu em um bem.

  6. Irmão, obrigado pelas orações.

    Eu compreendo o que o senhor diz. Mas já passei por certas situações que não me permitiram permanecer neutro, e eu não veria como ser diferente. A partir do momento em que se acostuma a ter uma vida católica tradicional em plenitude, ou seja, no meu caso, frequentar um mosteiro com Missa Tradicional, piedade viva, homilia absolutamente católica e incentivo ao crescimento espiritual dos fiéis, então torna-se uma tortura voltar a um ambiente pós-conciliar, por melhor que seja. É uma tortura a diferença entre as liturgias, as homilias vagas ou afrontosas, a falta de cuidados dos sacerdotes e dos fiéis, a ignorância e a indiferença mesmo do povo que a frequenta… Eu cheguei a um ponto onde simplesmente não conseguia mais assistir a um ofício pós-conciliar, pois antes de tudo é impossivel rezar nessas igrejas… E se rezasse, isso chama a atenção das pessoas ao redor… As pessoas se ofendem, eu testemunhei duas amigas minhas que assistiram a Missa de Véu, e vi uma mulher ao final da missa entrar em histéria, tal foi sua revolta por vê-las assim.
    Lex Orandi, lex credendi: aquelas pessoas se identificam exatamente com aquelas liturgias. A homilia é um reflexo, idem. A partir do momento em que tive acesso à religião de forma integral, seja pelo que aprendi nos sites, seja por ter assistido a Santa Missa Tridentina, seja por frequentar um mosteiro rural, onde as pessoas da cidade percorrem mais de 50km só para chegar lá, é algo simplesmente incomparável com qualquer coisa que eu já tenha passado.
    E eu percebo que essa disposição não é apenas minha. No Natal conheci uma nova fiel, uma mulher que mora há mais de 800 (sim, 800!)km de Salvador, na divisa da Bahia com o norte de Minas Gerais, e ela contou-me que fará de tudo para assistir a Santa Missa Tridentina aqui, uma vez por mês, pois não consegue mais entrar sequer na Matriz de sua cidade.

    Ao redor do mosteiro os fiéis com maior condição financeira estão comprando TERRENOS para construir suas casas, e conheço ao menos três famílias que pretendem morar lá na zona rural, só por causa da Santa Missa…

    Todos os católicos que desejam buscar honestamente a religião se dirigem até lá… Depois não conseguem mais ficar sem ir… E depois não se acostumam mais à igreja pós-conciliar.
    Para mim é uma tortura, eu não vou mais. Antes eu ia ao mosteiro beneditino daqui, e pensava para mim mesmo “não tire os olhos do altar”… Mas não adiantava… Para mim é tudo escandaloso, é escandaloso ver homens de camiseta e bermuda, mulheres mal-vestidas (aqui na Bahia não há nada igual) recebendo comunhão… Na Mão! É tudo terrível, tudo torturante. Aquela parte da paz de Cristo após as orações eucarísticas foi posta num momento em que deveríamos estar em adoração, e as pessoas me viam ajoelhado e tentavam me “despertar” para cumprimentá-las.
    Se o senhor NÃO TEM acesso à Missa Tridentina, somada a uma vida de piedade tradicional, então eu nem saberia se o aconselharia a procurar ou não… Porque ao meu ver é impossivel manter a serenidade, depois que se conhece o outro lado. É impossivel para mim agir como se estivesse tudo na normalidade.
    A diferença é tão grande que não é demais dizer que são duas religiões. Não há semelhança nenhuma, são lex orandi e lex credendi totalmente opostas. É exatamente o teocentrismo X o antropocentrismo.

    Mas ainda assim é louvável saber que existe um monge que se interessa por essas coisas. Chega a ser esperançoso… Mas se o senhor estivesse um mês em Candeias, temo que não gostaria de retornar para casa…

  7. Meu Irmão Bruno,
    Agradeço suas palavras.
    Talvez possamos conversar mais a respeito por meu email. Se quiser pode entrar em contato
    saobento@terra.com.br
    Será um prazer compartilhar com o senhor.
    Gostei muito de seu relato, apenas não respondo aqui, senão estaríamos ferindo o espaço do Blog com assuntos particulares, mesmo que concernentes à Tradição.
    Fico aguardando um contato vosso.
    No mais a minha oração sincera, para que mais jovens como o senhor possam se aproximar com ardor da Santa Missa de Sempre.
    Deus o abençoe.

  8. Complementando o comentário anterior, quero dizer que analisei apenas os efeitos da declaração. Isto não quer dizer que concorde com as teses negacionistas (Que sequer conheço) e não portanto não posso aderir as mesmas. Digo ainda que a motivação do meu comentário é a justa proteção do holocausto contra o método moderno. Se for nele aplicado como foi aplicado na Igreja, será que o holocausto resistirá a ciência?

    As palavras de Dom Willianson foram inoportunas com relação ao passo que se daria entre a FSSPX e a Santa Sé. No entanto, ela serve como reconhecimento de terreno. Não digo que o Papa deve elogiar publicamente a liberdade e as concepções modernas de relação entre Estado e Igreja. Mas reconheço que se o Papa atacar publicamente estas instituições modernas, os ataques serão piores do que as reações causadas pelas palavras do Bispo da Fraternidade. Principalmente porque virão de dentro da própia Igreja. Sob este aspecto até mesmo ao Papa é negada a liberdade de consciência e de expressão. Fiquem com DEUS.

    Abraços

    Gederson

    • Caro Gederson, apenas para esclarecer que não me referi aos seus comentários (sempre oportunos), mas sim a vários que recebemos e não publicamos exatamente por não serem condizentes ao propósito do blog.

  9. Prezado Bruno,
    Me emocionou o relato das famílias que estão comprando terrenos para ficar perto da Santa Missa e da ortodoxia que suponho deva haver por lá. Há pouco mais de 2 meses teve um concurso de remoção no meu trabalho e um dos lugares em que havia vagas (e chances) era Santa Maria, no RS (cidade onde a Fraternidade mantém uma Igreja cujo Sacerdote eu tive a honra de conhecer). Pois eu cogitei seriamente pedir remoção lá. No fim não pude fazer isto pois representaria uma fratura na minha família (meu marido jamais aceitaria este meu propósito). Mas compreendo perfeitamente esta intenção, esta sede de verdade, esta vontade de estar perto da Santa Missa que estas famílias devem sentir. Espero em Deus que num futuro não muito distante ninguém tenha mais que se deslocar 100, 500 ou 800 km para poder assistir Missa. Esta é exatamente a minha situação hoje.