Papa fala sobre o levantamento das excomunhões em Audiência Geral. E envia telegrama de felicitações ao novo Patriarca de Moscou.

Tradução da versão em Rorate-Caeli:

(…) na realização deste serviço [da unidade dos Cristãos, decidi, poucos dias atrás, conceder a remissão das excomunhões nas quais os quatro bispos ordenados pelo Arcebispo Lefebvre em 1988, sem mandato pontifício, incorreram.

Realizei este atos de misericórdia paternal porque aqueles prelados repetidamente manifestaram a mim seu profundo sofrimento pela situação na qual se encontravam. Espero que esse meu gesto seja seguido pelo solícito esforço deles em alcançar os próximos passos necessários para realizar a plena comunhão com a Igreja, assim testemunhando verdadeira fidelidade e verdadeiro reconhecimento do Magistério e da autoridade do Papa e do Concílio Vaticano Segundo.

Enquanto renovo com afeição a expressão de minha plena e inquestionável solidariedade com nossos irmãos que receberam a Primeira Aliança, espero que a memória da Shoah leve a humanidade a refletir no imprevisível poder do mal quando ele conquista o coração do homem. Possa a Shoah ser para todos uma advertência contra o esquecimento, contra a negação ou o reducionismo, porque a violência contra um único ser humano é violência contra todos. Nenhum homem é uma ilha, escreveu um famoso poeta. A Shoah particularmente ensina, tanto as antigas como as novas gerações, que apenas o cansativo caminho do ouvir e dialogar, do amor e do perdão leva os povos, as culturas e as religiões do mundo à esperada meta da fraternidade e paz na verdade. Possa a violência nunca mais exterminar a dignidade do homem!

Resta-nos uma questão: por que o reconhecimento do Concílio Vaticano II é ressaltado separadamente do reconhecimento do Magistério? O Papa consideraria que o Vaticano II tem uma autoridade diferente do Magistério? Talvez uma autoridade que precisasse de reconhecimento diverso, algo mais apropriado a um Concílio… pastoral? Ou pretendia ele apenas especificar o problema mais agudo a ser resolvido? Os acontecimentos futuros nos dirão!

Ainda hoje o Papa enviou uma carta de felicitação ao novo Patriarca de Moscou, “Sua Santidade” Kirill. Nela, não consta nenhuma referência ao reconhecimento do Magistério e à autoridade do Papa, mas um pedido que o Senhor  “conceda a Vós uma abundância de sabedoria para discernir Sua vontade, perservar no amável serviço ao Povo confiado ao Vosso ministério Patriarca, e sustentá-los em fidelidade ao Evangelho e às grandes tradições da ortodoxia Russa. Possa o Deus onipotente também abençoar vossos esforços em manter a comunhão entre as Igrejas Ortodoxas e procurar aquela plenitude da comunhão que é o objetivo do diálogo e colaboração Católico-Ortodoxa“.

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5 Comentários to “Papa fala sobre o levantamento das excomunhões em Audiência Geral. E envia telegrama de felicitações ao novo Patriarca de Moscou.”

  1. Na minha fraqueza, entendo as palavras do Santo Padre no sentido de deixar claro que espera da SSPX o reconhecimento (respeito) ao Magistério ordinário [ Creio que assinala aí todos os Bispos onde a Fraternidade esteja e venha a estar, buscando uma reciprocidade respeitosa no Colegiado] submissão à pessoa do Papa (isso é evidente) e aceitação [integral] do Concílio Vaticano II [muito embora haja digamos, espaço para críticas construtivas por parte da SSPX].
    Creio que o Papa ao dizer separadamente cada item, tenha-o dito para destacar todos os temas mais polêmicos que envolvem a questão.

  2. Penso que a afirmação sobre a verdadeira fidelidade e verdadeiro reconhecimento da autoridade do Vaticano II não contradiz o que persegue a FSSPX. Pelo contrário, a fraternidade disse que quer a verdade, e, no caso concreto, vai ao debate entendendo que a verdadeira autoridade do concílio não é nem mais nem menos do que aquela que os próprios padres conciliares e os papas lhe atribuíram. Em consonância a isso, o papa, senão explicitamente, ao menos dá a entender com o levantamento das excomunhões que reitera que a autoridade do Vaticano II não é dogmática nem absolutamente vinculativa porque, se assim fosse, não lhe seria lícito reabilitar bispos que abertamente têm ressalvas a um magistério supostamente infalível.

    Quanto ao restante, a respeito dos irmãos judeus, da primeira aliança, do diálogo dos povos, culturas e religiões à esperada meta da fraternidade… essa parte do texto, sim, é problemática. Porque, mesmo no contexto de um discurso diplomático, dá margem a se pensar que a antiga aliança permanece ainda válida ou ao menos têm efeitos santificantes perante mesmo aqueles que rejeitam Cristo, e que esses seriam irmãos no sentido mesmo teológico, reforçando interpretações erradas que relativizem a necessidade do batismo para tornarmos filhos adotivos de Deus, estando assim predispostos à salvação.

    Finalmente, defender a dignidade do homem como meio para o fim último de reunir todos os povos, culturas e religiões numa fraternidade, é um discurso difícil de não se interpretar de várias formas, inclusive algumas em patente conflito com a doutrina da Igreja. Certo é que o papa Bento XVI completou com “paz na verdade”. Mas essa possível ponderação a muitos ouvidos pode ser insuficiente se não se diz nem deixa claro qual verdade é essa, ou seja, sem destacar que tal fraternidade universal só é católica e salvífica se vier a converter os demais à verdade cristã.

    É óbvio que o judeus vão gostar muito desse discurso, porque permite-lhes fartamente interpretar como um desagravo papal e oficial muitíssimo maior do que a possível ofensa pessoal que um único bispo, extra-oficialmente, lhes teria imputado. E ainda com a sobremesa da própria relativização de fé que muitos progressistas e as matizes ecumenistas do modernismo irão atribuir a esse discurso.

  3. Caro Ferreti,

    realmente o Papa passou a todos da Tradição, nessa audiência, que o Magistério e o Vaticano II ficaram como algo como distinto entre si. É como nunca houvesse harmonia entre os dois. Além disso, o Papa realça, implicitamente, sobre a infalibilidade papal. Assim, sobre a Fraternidade, Sua Santidade Bento XVI fala coerente ao pensamento de Dom Fellay. Portanto, vejo que tudo isso é do contexto das conversações que ficou registrado do decreto de sábado.

    Além disso, leva me pensar, que vem mais coisa por aí. Já há pessoas admitindo, dentro do Vaticano, que o Concílio “não é dogma de Fé”. Este termo último, embora de modo oposto, é fiel ao termo que a Santíssima Virgem tentou colocar claro, em 1960, sobre esta crise de Fé do pós-Concílio, a referi-se a Portugal: “Dogma de Fé”.

    Acho que não estou exagerando. Porque foi a mesma, através do seu Santo Rosário, que veio a Missa tradicional e agora o decreto.

    Mas só o futuro pode confirmar isso com propriedade.

  4. Se se entende por “autoridade” do Concílio a sua VALIDADE, claro está que a FSSPX não tem problemas em acatá-lo. O CVII foi validamente aprovado por um Papa legítimo. Logo, ele é de fato válido.
    Mas no que se refere a LICITUDE do Concílio… aí a história é outra. Bento XVI usou um termo vago e impreciso para acalmar os “lobos” modernistas que já começaram a uivar de medo e de raiva. Com isso ele parece agir com prudência e paciência na implementação da CONTRA-REFORMA ANTI-VATICANO II.
    Como perito do Concílio, Ratzinger sabe bem o valor e a eficiência dos termos ambíguos…

  5. É preciso lembrar que a FSSPX não é assunto para “ecumenismo”, como é a Igreja Ortodoxa. A FSSPX é assunto “interno”, caso contrário as conversas seriam com Kasper e não com Hoyos.
    O diálogo com os ortodoxos ainda é muito pouco consistente, não dá pra comparar com o diálogo realizado com a fraternidade.
    Por isso não consta nenhuma referência ao reconhecimento do Magistério e à autoridade do Papa. Não chegou o momento para tal.