Carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.

Carta Aberta ao Santo Padre Bento XVI

 

 

Beatíssimo Padre.

 

Padre João Batista - Consagração da Capela Santa Maria das VitóriasProstrado aos pés de Vossa Santidade, venho, respeitosamente, por meio desta, manifestar-lhe minha fidelidade incondicional na qualidade de sacerdote católico incardinado na Diocese de Anápolis.

 

Tenho acompanhado com tristeza e indignação todos os ataques dirigidos contra Vossa Santidade, verdadeiros atos de rebeldia, por parte de pessoas que perderam a fé católica ou se deixaram enredar por falsas doutrinas e, assim, são incapazes de avaliar com justeza as medidas prudentes e zelosas de Vossa Santidade com o intuito de promover o bem da Igreja e preservar a integridade da fé católica.

 

Desejaria dizer a Vossa Santidade que lhe sou particularmente grato pelo motu proprio Summorum Pontificum e pelo decreto de revogação das excomunhões declaradas em 1988 contra Mons. Marcel Lefèbvre, D. Antonio de Castro Mayer e os 4 bispos então consagrados.

 

Com a liberdade de um filho que confia em seu pai, devo dizer a Vossa Santidade que, tendo nascido em 1962 em uma diocese do interior do Estado São Paulo, assisti à degradação da vida espiritual católica promovida pela teologia da libertação e em nome do Concílio Vaticano II: igrejas destruídas e profanadas, a liturgia completamente dessacralizada, a educação católica, garantia da transmissão dos valores perenes, abolida com o fechamento de antigos colégios, porque se dizia serem apenas  instituições a serviço da  burguesia e contra as classes oprimidas. Um número incalculável de publicações  (cartilhas, panfletos, folhetinhos de missa) espalhou todos esses anos entre os católicos a grosseria, a  imoralidade e a heresia, de modo que se gerou um ambiente insuportável. É inútil e impossível mencionar todas as calamidades que se abateram sobre os católicos, e Vossa Santidade tem pleno conhecimento da realidade.

 

Digo isto apenas para confessar a Vossa Santidade que, se eu e minha família preservamos a fé católica, foi graças ao combate travado por sua S. Exa. Revma. Mons. Lefèbvre. Com efeito, verificamos que ele tinha razão em convocar os católicos para lutar contra tantos desmandos e abusos.

 

Em 1988, quando foi assinado um protocolo de “acordo” entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e a Santa Sé, no qual se previa a conveniência de que fosse sagrado um bispo eleito entre os padres da Fraternidade e, como não se superasse o obstáculo da fixação de uma data para tal sagração, pareceu-nos que Mons. Lefèbvre tinha o direito de proceder ao rito sagrado.

 

Decorridos tantos anos, estou convencido de que o venerável bispo agiu bem. Os frutos de sua obra são bênçãos e graças para toda a Igreja. Não tivesse ele agido com prudência e fortaleza então, certamente não existiria a Fraternidade Sacerdotal São Pedro e muitos outros institutos ligados a Ecclesia Dei Adflicta. Eu mesmo não teria sido ordenado presbítero no rito tradicional em 1996 pelo cardeal Stickler em atenção às letras dimissórias de meu antigo bispo D. Manoel Pestana Filho. E, certamente, o “progressismo católico” teria avançado muito mais como força devastadora da Vinha do Senhor.

 

Por isso, expresso hoje minha gratidão a Vossa Santidade e reverencio a memória dos dois bispos que ajudaram tantos católicos a conservar a fé em tempos tão atribulados.

 

Gostaria ainda de dizer a Vossa Santidade que são numerosíssimos os padres que o apóiam por ter, por exemplo, ordenado a correção da tradução da forma da consagração do cálice na Santa Missa e não se conformam com o descaso da hierarquia em cumprir a ordem emanada de Roma. O zelo de Vossa Santidade pelo decoro da sagrada liturgia nos conforta. Há muitos padres que desejariam seguir o exemplo de Vossa Santidade em suas paróquias, mas temem represálias da parte dos seus ordinários.

 

Igualmente, quero assegurar a Vossa Santidade que foi enorme a satisfação dos verdadeiros católicos com a atitude digna do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho OC, por ter recordado que os católicos que cooperaram com a prática do aborto naquela cidade incorreram em excomunhão latae sententiae. São gestos como este que confirmam os católicos em sua fé. Foi, por outro lado, vergonhoso e lamentável ver outros bispos censurarem a atitude coerente do arcebispo D. José Cardoso Sobrinho.

 

Seja-me permito, finalmente, rogar a Vossa Santidade uma providência especial para proteger o Brasil, o maior país católico do mundo, de uma gravíssima ameaça que paira sobre a Terra de Santa Cruz. Vivemos há quase oito anos sob um governo socialista que tem adotado uma política anticristã na área do direito da família e da vida. O atual governo tem o propósito de introduzir a legalização geral do aborto e da união civil homossexual. Tudo isto está previsto no programa político do Partido dos Trabalhadores, partido do governo. A candidata do governo à presidência da República no próximo ano já fez declarações neste sentido. Apesar da absoluta incompatibilidade de suas propostas políticas, a referida senhora tem exercido nas concentrações carismáticas o ministério de leitora nas missas, em franca campanha política. Com efeito, isto nos desconcerta.

 

Quando se trata de assuntos de grande relevância moral e para a salvação das almas, não se observa da parte da hierarquia tanto empenho para não dizer que há dolorosa omissão ou cumplicidade. Atitude como a de D. Cardoso é uma gota de água pura no mar morto. Mas quando se trata de assuntos técnicos ou sócio-economicos observa-se uma indiscreta ingerência, que só redunda em descrédito da Igreja. Permito-me recordar a Vossa Santidade o episódio da transposição do rio São Francisco ou mais recentemente a absurda demarcação de território indígena em região rica em minérios (uma ameaça à soberania nacional), com apoio do Conselho Indigenista Missionário, órgão ligado à CNBB.

 

De maneira que, diante da gravidade da situação atual do Brasil, rogo a Vossa Santidade que, assim como Pio XII (cuja memória Vossa Santidade tem reverenciado) salvou a Itália do perigo comunista arregimentando os católicos, assim também agora ajude a salvar o Brasil da perpetuação de uma tirania socialista e anticristã, que se instaurou entre nós com os préstimos da “esquerda católica”

 

Rogo a bênção de Vossa Santidade sobre minha pessoa e sobre todos fiéis da Capela Santa Maria das Vitórias em Anápolis, consagrada por Dom Pestana em dezembro do ano passado. Asseguro a Vossa Santidade nossas fervorosas orações ao Imaculado Coração de Maria para que Nossa Senhora o proteja da maldade dos seus inimigos.

 

Anápolis, 27 de março de 2009

Festa de São João Damasceno

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

 

Fonte: Associação Civil Santa Maria das Vitórias

 

13 Comentários to “Carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.”

  1. Excelente e muito verdadeira a carta de Pe. João Batista ao Santo Padre.
    Subscrevo com prazer.

  2. Excelente carta do R. P. João Batista, que Nossa Senhora vele por todos os bons Padre e Bispos da Santa Igreja e converta os que, infelizmente, traíram a Cristo.

  3. O Papa recebeu essa carta em mãos?

  4. “Por isso, expresso hoje minha gratidão a Vossa Santidade e reverencio a memória dos dois bispos que ajudaram tantos católicos a conservar a fé em tempos tão atribulados.”

    Como é salutar para nossa alma ver a gratidão do Pe. João Batista estampada em nossa frente!

    Como devemos ser gratos, todos nós católicos, a D. Mayer e a D. Lefebvre!

  5. É de servos assim que a Igreja de Nosso Senhor precisa!
    Quanta simplicidade e quanta coragem deste fiel sacerdote! Queiram muitos seguir estes passos e lutar pela Igreja de Deus, Nosso Rei e Senhor.
    Rezemos todos para que Nossa Senhora o conserve na Fé Verdadeira e para que siga assim o exemplo de D. Lefebvre e D. Antônio, que combateram o erro e pregaram a palavra… “quer agrade, quer desagrade”.

    Obrigada Pe. João Batista!

    In Iesu et Maria

  6. É realmente isso que se passa neste país. Parabéns, padre!

  7. Pessoal nós podíamos começar uma cruzada do Rosário para salvar a nossa pátria do comunismo, da decadencia religiosa e da fragmentação do nosso território. A Fraternidade Sacerdotal São Pio x conseguiu a liberdade da Missa Tridentina e o levantamento da excomunhões através do Santo Rosário. A irmã Lúcia chegou a falar em um depoimento ao Pe. Fuentes que Nossa Senhora tinha dado uma nova eficácia ao Santo Rosário em nossos dias e que não havia problema espiritual ou material, particular ou coletivo, familiar, nacional ou internacional que o Santo Rosário não fosse capaz de resolver.O Pe. João Batista podia ser o mentor desta cruzada.

  8. Quem é o Bispo superior ao Padre João?
    Esse é o pensamento do Bispo? (se for, graças a Deus) ou não (nesse caso ele vai calar a boca do padre, infelizmente)

  9. De fato, ver Dilma Rusself fazendo a leitura em duas Missas de grande repercussão é dose! Parabéns ao Pe. João Batista pela coragem de denunciar tal abuso.

    Gostei muito do seguinte parágrafo:

    “Decorridos tantos anos, estou convencido de que o venerável bispo agiu bem. Os frutos de sua obra são bênçãos e graças para toda a Igreja. Não tivesse ele agido com prudência e fortaleza então, certamente não existiria a Fraternidade Sacerdotal São Pedro e muitos outros institutos ligados a Ecclesia Dei Adflicta. Eu mesmo não teria sido ordenado presbítero no rito tradicional em 1996 pelo cardeal Stickler em atenção às letras dimissórias de meu antigo bispo D. Manoel Pestana Filho. E, certamente, o “progressismo católico” teria avançado muito mais como força devastadora da Vinha do Senhor”

    De fato, como como é que se pode amar a Missa de Sempre sem reconhecer o combate de Dom Lefebvre? Concordo inteiramente com o que ele disse aqui.

    A carta está ótima. Vamos torcer que daí advenha um puxãozinho de orelha do Vaticano no Lula e nos padres e bispos que acolheram tamanha barbaridade em duas missas.

    O único ponto que eu gostaria de o padre João Batista explicitasse mais foi a frase “… e pelo decreto de revogação das excomunhões declaradas em 1988 contra Mons. Marcel Lefèbvre, D. Antonio de Castro Mayer e os 4 bispos então consagrados.” Achei essa frase um pouquinho confusa porque a revogação só versou sobre os 4 bispos consagrados e não sobre os 2 consagrantes.

    Contudo, a carta está muito boa e corajosa.

  10. Um sacerdote modelar! Um carta que transborda o amor pela Igreja de Nosso Senhor e o zêlo ardente pela salvação das almas!
    Como bem colocou o amigo Wagner, uma cruzada do Santo Rosário seria uma excelente iniciativa. Tem meu apoio incondicional.

  11. Prezada leitora Maria.
    Esclareço a sua dúvida. O decreto do papa Bento XVI diz que revoga o decreto de 1988. Ora, este referia-se aos dois bispos sagrantes, D. Lefebvre e D. Mayer, e aos consgrados. Portanto,embora uma excomunhão cesse com a morte, pode-se concluir que nem sequer a “memória” dos dois bispos está excomungada. O labéu foi apagado.
    Deus a abençoe.
    Pe. João Batista Costa
    Em tempo: a carta não foi entregue ao papa pessoalmente.

  12. Que alegria ser católico. Quem dera tivéssemos muito mais padres assim.

    Parabéns Pe. João batista, que Deus Nosso Senhor o abençoe mais e mais.

    A idéia da cruzada é ótima. Estou aderindo.

  13. Caro Pe. João Batista,

    Com todo respeito, admiração e reconhecimento por Dom Lefebvre e Dom Antonio de Castro Mayer, cujo combate nos legou o Motu Proprio e o ressurgimento litúrgico que estamos testemunhando, fui lá dar uma olhada no tal Decreto novamente. O texto menciona apenas o nome dos quatro bispos consagrados.

    “Sua Santidade Bento XVI – paternamente sensível ao mal-estar espiritual revelado pelos interessados por causa da sanção de excomunhão e confiado no empenho expresso na referida carta de que não poupariam qualquer esforço para aprofundar, nos colóquios que fossem necessários com as Autoridades da Santa Sé, as questões ainda abertas, a fim de se poder chegar depressa a uma solução plena e satisfatória do problema que está na sua origem – decidiu reconsiderar a situação canónica dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, que se criou com a sua consagração episcopal.”

    “Com base nas faculdades que me foram expressamente concedidas pelo Santo Padre Bento XVI, em virtude do presente Decreto removo aos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta a censura de excomunhão latae sententiae declarada por esta Congregação no dia 1 de Julho de 1988, enquanto declaro desprovido de efeitos jurídicos, a partir da data de hoje, o Decreto então emanado”

    Ao ler o documento parece-me que decreto do papa Bento XVI não diz que revoga o decreto de 1988, mas sim que torna desprovidos de efeito jurídicos, a partir da data em que foi assinado, o Decreto emanado em 1988. A expressão “a partir de” dá a entender que o cancelamento dos efeitos jurídicos só podem ser aplicados aos quatro vivos, visto que os consagrantes morreram antes da data de assinatura, “a partir da qual” estaria sem efeitos jurídicos o decreto de 1988.

    O senhor é o segundo padre de Anápolis que vejo denunciar o abuso petista nas missas. Queira Deus que mais padres bradem contra esse abuso.