“Jesus se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados”.

Corpus Christi em Roma - 2009

“Este é o meu sangue”. Clara é aqui a referência à linguagem sacrificial de Israel. Jesus se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados, o que, nos ritos do Antigo Testamento, não fora ainda plenamente realizado. A essa expressão se seguirão outras duas muito significativas. Em primeiro lugar, Jesus Cristo disse que seu sangue era “derramado em favor de muitos”, com uma compreensível referência aos cantos do Servo, encontrados no livro de Isaías (cf. capítulo 53). Com o acréscimo de “o sangue da aliança”, Jesus deixa claro que, graças a sua morte, finalmente se torna efetiva a aliança feita por Deus com “seu” povo. A antiga aliança fora estabelecida no Monte Sinai com o rito sacrificial de animais, como ouvimos na primeira leitura, e o povo eleito, libertado da escravidão no Egito, havia prometido seguir as orientações do Senhor (cf. Ex. 24, 3).

Na verdade, Israel, com a construção do bezerro de ouro, mostrou-se incapaz de se manter fiel à aliança divina, que foi transgredida frequentemente, adaptando ao coração de pedra a Lei que era para ensinar o caminho da vida. Mas o Senhor não abdicou de sua promessa e, através dos profetas, chamou a atenção para a dimensão interior da aliança, e anunciou que gravaria esta nova lei nos corações dos fiéis (cf. Jer. 31, 33), transformando-os com o dom do Espírito (cf. Ez. 36, 25-27). E foi durante a Última Ceia que fez com os discípulos esta nova aliança, não a confirmando com sacrifícios de animais, como no passado, mas com o seu sangue, tornado “sangue da nova aliança”.

Isto vem bem evidenciado na segunda leitura, retirada da Carta aos Hebreus, onde o autor sagrado declara que Jesus é o “mediador de uma nova aliança” (9, 15). Tornou-se isto graças ao seu sangue ou, mais precisamente, graças ao dom de si, dando pleno valor ao seu sangue. Na Cruz, Jesus é ao mesmo tempo vítima e sacerdote: vítima digna de Deus porque sem mancha, e sumo sacerdote que oferece a si mesmo, sob o impulso do Espírito Santo, e intercede por toda a humanidade. A Cruz é, portanto, mistério de amor e de salvação, que purifica a consciência da “opere morte”, isto é, do pecado, e santifica-nos, esculpindo a nova aliança em nossos corações; a Eucaristia, renovando o sacrifício da Cruz, nos faz capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.

[…]

São João Maria Vianney gostava de dizer aos seus paroquianos: “Venham para a comunhão… É verdade que não somos dignos, mas precisamos” (Bernard Nodet, Le Curé d’Ars. Sa pensée – Filho coeur, éd. Mappus Xavier, Paris 1995, p. 119). Com a consciência da inadequação por causa dos pecados, mas com a necessidade de nutrir-nos do amor que o Senhor oferece no sacramento eucarístico, renovamos esta noite nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia. Não se deve ter como um dado adquirido esta fé! Há hoje o risco de uma secularização intrínseca na Igreja, que se pode traduzir em um culto eucarístico formal e vazio, em celebrações destituídas daquela participação do coração que se exprime na veneração e no respeito pela liturgia. É sempre forte a tentação de reduzir a oração a momentos superficiais e apressados, deixando-se submergir pelas atividades e preocupações terrenas. Quando em breve recitarmos o Pai Nosso, a oração por excelência, vamos dizer: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, a pensar, naturalmente, no pão de cada dia. Esta questão contém, no entanto, algo mais profundo. O termo grego epioúsios, que traduzimos como “quotidiano”, poderia também aludir ao pão “supra-substancial”, o pão “do mundo a advir”. Alguns Padres da Igreja viram aqui uma referência à Eucaristia, o pão da vida eterna que é dado na Santa Missa, a fim de que desde agora o mundo futuro comece em nós. Com a Eucaristia, portanto, o céu vem sobre a terra, o advir de Deus ergue-se no presente e o tempo é abraçado pela eternidade divina.

Sermão do Papa Bento XVI na missa da solenidade de Corpus Christi em 2009.

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7 Comentários to ““Jesus se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados”.”

  1. Um tapa na cara dos que dizem que “Ratzinger” nega o caráter propiciatório da morte de Cristo…

    “Jesus se apresenta como o verdadeiro e definitivo sacrifício, no qual se realiza a expiação dos pecados, o que, nos ritos do Antigo Testamento, não fora ainda plenamente realizado.” … “Na Cruz, Jesus é ao mesmo tempo vítima e sacerdote: vítima digna de Deus porque sem mancha…”

  2. Salve Maria, Augusto!

    Os conhecedores da obra de Bento XVI desde quando ainda era apenas “Ratzinger” apontam que ele reinterpreta todos os conceitos e todos dogmas.
    Foi o que afirmou o bispo que você parece dizer ter recebido aí um “tapa na cara”, Mgr Tissier da SPX, que é especialista na obra dele.

    Aliás mesmo nesse trecho aí parecem brechas em que aparece a novateologia com que ele reinterpreta a doutrina da Redenção (Redenção que na última encíclica aparece sempre entre aspas, já esqueceu?):

    “Tornou-se isto [=MEDIADOR] graças ao seu sangue ou, mais precisamente, graças ao dom de si, dando pleno valor ao seu sangue.”

    “A Cruz é, portanto, mistério de amor e de salvação, que purifica a consciência … do pecado”
    [!!!???!!!???]

    “a Eucaristia, renovando o sacrifício da Cruz, nos faz capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.”
    [EUCARISTIA NÃO É O MESMO QUE MISSA!!]

    Isso tudo me lembra quando Bento XVI citou São Pedro ou São Paulo falando aos judeus, e todo mundo interpretou que ele tinha defendido a necessidade dos judeus se converterem, mas logo isso foi desmentido por suas palavras e ações posteriores (a viagem recente a Israel que o diga!).

    A explicação parece ser que Bento XVI não se importa de repetir a linguagem da Escritura, dos santos e dos concílios, citando-os sem problema, mas subentendendo que isso é historicamente condicionado, que eram fases ainda válidas mas menos precisas, daquilo que, melhor e mais evoluidamente, disseram o Vaticano Segundo, o Lobac, o Chardin, o Balthasar e ele próprio em seus livros.

    E mesmo que não fosse assim, temos que lembrar também aquilo que dizia alguém que agora me escapa:

    “Não basta afirmar o certo ao lado do errado, é preciso condenar o errado e só deixar o certo!”

    Paulo VI tem excelentes discursos tomistas e antimodernistas, já esqueceu?

    Resumão: é só pra não nos afobarmos e sermos cuidados. Vigiar e orar!

    Salve Maria!

  3. O que se pretende? Que numa homilia Bento XVI profira anátemas? Realmente, nada do que se faça contentará alguns que só se satisfarão quando eles mesmo puderem escrever os textos que lhe agradam e enviarem ao Papa para apenas lê-los. Enquanto Bento XVI reinterpreta dogmas, seus opositores reinterpretam tudo que sai de sua boca, sempre levando-o à beira da heresia…

  4. Concordo com o Augusto plenamente.

  5. mundus vult decipi…

  6. As palavras do Santo Padre são como música para ouvidos cansados. O último parágrafo então é primoroso.

  7. “Não basta afirmar o certo ao lado do errado, é preciso condenar o errado e só deixar o certo!”

    Paulo VI tem excelentes discursos tomistas e antimodernistas, já esqueceu?

    Resumão: é só pra não nos afobarmos e sermos cuidados. Vigiar e orar!

    Salve Maria!