Discussões doutrinais impossíveis?

Ennemond

Le Forum Catholique

pape.-v-quesA questão doutrinal que separa a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X se encontra doravante diante de nós como uma ferida limpa. Por nove anos os altos eclesiásticos estão engajados a liberá-la de todas as crostas e curativos que se acumularam a seu redor: as sanções que pesavam contra os indivíduos foram levantadas, as que se abateram sobre a liturgia finalmente têm sido ultrapassadas. Como cirurgião meticuloso, Bento XVI provou que aspirava resolver uma crise que não é tanto a do tradicionalismo, mas da Igreja.

A situação que resultou de 21 de janeiro e 2 de julho de 2009 contudo não apaziguou os espíritos e faz calar os prognosticadores. E cada um, olhando seu próximo, se questiona: de qual linha miraculosa o Papa vai se servir para dar pontos em tal ferida? Como então se resolverá as discussões doutrinais entre Roma, cujos porta-vozes recordam o caráter incontornável do Concílio, e a Fraternidade, cujos dignitários se esforçam em provar as lacunas, ou mesmo os erros? Ver-se-á Roma abolir o Vaticano II ou Écône pôr fim a seu combate anti-conciliar? Há motivos para deixar cético o espírito de mais de um…

Também são numerosos aqueles, com exceção talvez do papa Ratzinger e do bispo Fellay, que afirmam nas mídias que as discussões vão durar muito tempo, muitíssimo tempo, como se estas negociações devessem constituir um combate de exaustão onde se conduziria a um ou a outro destes dois surpreendentes desfechos. Conseqüentemente, ambas as partes se comprometeriam num impasse? A solução se encontra talvez num abandono não confessado das posições de um e outro.

Há mais de duas décadas, os sedevacantistas afirmam que a Fraternidade abandona, sem verdadeiramente confessar, seus combates de antigamente. Anteriormente, não hesitavam em se prender diretamente a Mons. Lefebvre. Hoje, tentam semear a divisão apresentando os atuais responsáveis desta sociedade religiosa em ruptura com seu fundador. Olhando bem, dificilmente há diferenças sobre o fundo: a propósito da liberdade religiosa, ecumenismo ou colegialidade, os bispos da FSSPX afirmavam e afirmam, como seu antecessor, que, sem ser herético, o Concílio é repleto de ambigüidades e suas conseqüências são nefastas para a Igreja.

De outro lado, um bom número de clérigos e fiéis, sem dúvida para reforçar suas esperanças, afirmam que o papa continuará sendo intransigente, dizem que ele jamais mudou. Todavia, certo número destes, antes confiantes em Bento XVI, terminaram, após quatro anos, por se exasperar e por lhe significar sua irritação. A constância do antigo Cardeal Ratzinger é tão evidente? Ele, que afirmava que Gaudium et Spes representava o papel de um “anti-Syllabus”, que falou a propósito do Vaticano II “de nova definição da relação entre a fé da Igreja e certos elementos essenciais do pensamento moderno”, sabe que o Concílio marcou uma certa ruptura. Para nivelar as diferenças, para recuperar talvez os efeitos nefastos, ele empregou o termo ‘hermenêutica’. Uma relativização das rupturas que foram executadas entre 1962 e 1965 vai então se iniciar. Rezem a fim de que as alterações da Fé sejam dissipadas nesta ocasião.

Aproveitando-se do que chama de uma “reconciliação”, Bento XVI vai portanto se lançar  ao que constituiria seu programa de início de pontificado: reinterpretar o Concílio. Todos os textos que fazem vazar tinta sob seu reino dependem dessa questão: tradicionalistas e, através deles, a compreensão do Concílio. Admitamos, Summorum Pontificum, Die Aufhebung der Exkommunikation ou Ecclesiae Unitatem ofuscaram um pouco Deus Caritas est, Spe salvi ou Caritas in veritate.

Sobre o campo litúrgico, o Papa promoveu de maneira positiva a liturgia tradicional da Igreja. Assim fazendo, lançava abaixo o monopólio de um rito ambíguo. Algumas semanas antes, em fevereiro de 2007, o superior geral da FSSPX então falava “de etapa necessária” sem, contudo, se satisfazer por este estado transitório. Deus ajudando e utilizando  nossa oração, os próximos meses poderiam ver se proclamar a doutrina tradicional da Igreja: a unicidade da salvação em Cristo, o primado do sucessor de Pedro, a liberdade enquanto oposição à licença, mesmo em matéria religiosa; em suma, a fé católica. O fazendo, o Papa lançaria um golpe fatal ao monopólio de uma doutrina ambígua. Isso está longe de ser impossível. No contexto austro-alemão, o princípio da colegialidade está particularmente colocado em perigo. Ademais, sob o efeito de críticas ortodoxas, os esclarecimentos sobre a liberdade religiosa, tomando por base a encíclica Libertas de Leão XIII, poderiam recordar solenemente o que deve ser crido por todo católico. Assim despedaçado, interpretado de maneira tão abusiva, o Concílio correria o risco de perder toda credibilidade, pois não a tirou senão na medida em que o concílio trouxe novidades: liberdade religiosa ou ecumenismo. A afirmação da verdade não poderá senão revelar sua incoerência. As distorções causadas com as linhas de um concílio de quase meio século obrigariam provavelmente a sua relativização na história da Igreja, como para manifestar uma atitude nova da parte dos homens de Igreja. “Temos necessidade de sair – dizia há dois anos Mons. Guido Pozzo – desta ilusão otimista, quase irênica, que caracterizou o pós-Concílio”.

One Comment to “Discussões doutrinais impossíveis?”

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