Carta de Monsenhor Lefebvre ao Dr. Eric de Saventhem.

Em novembro de 1977, a revista Itineraries publicou o Dossiê Saventhem, que consistia em quatorze documentos totalizando 52 páginas com correspondências trocadas entre Dr. Eric de Saventhem, então presidente da Una Voce, com os Cardeais Knox (Prefeito para o Culto Divino) e Villot (Secretário de Estado) e o Arcebispo Benelli (substituto da Secretaria de Estado) acerca da “proibição” ilegal à Missa tradicional.

Respondido às vezes de maneira curta, às vezes rudemente, às vezes com silêncio, Dr. Saventhem prova que a “proibição” imposta por Paulo VI era um evidente abuso de autoridade. Em sua carta ao Cardeal Villot, datada de 15 de agosto de 1976, Dr. Saventhem concluía com três pedidos que Monsenhor Lefebvre comenta na carta que publicamos logo abaixo:

  1. que Roma revisse sua recente legislação litúrgica num futuro próximo e concedesse aos ritos pré-conciliares o direito a uma pacífica co-existência ao lado dos ritos reformados;
  2. como uma medida provisória a ter efeito a partir do Advento daquele ano, qualquer sacerdote deveria estar livre para celebrar a Missa de São Pio V para os grupos que assim desejassem, contanto que fossem obedientes ao magistério Papal;
  3. Desde a mesma data, a restrição que permitia apenas a padres idosos ou enfermos utilizar o rito tradicional em missas sine populo deveria ser levantada.

Tendo recebido uma cópia desta carta, Monsenhor Lefebvre escreveu ao Dr. Saventhem em 17 de setembro de 1976:

Monsieur le President,Apologia Pro Marcel Lefebvre - Michael Davies

Li com grande interesse o extrato de sua última carta à Sua Eminência, o Cardeal Secretário de Estado, com as três requisições que lhe submeteu. Eu o cumprimento por sua iniciativa e desejo de todo meu coração que ela seja recebida em Roma com compreensão.

O fato é que me foi necessário denunciar os novos ritos como “bastardos” e dizer que o novo rito da Missa é “um símbolo de uma nova fé, uma fé modernista”; e uma das principais razões para tal era o rigor dos esforços em proibir os ritos antigos. Tal rigor pode ser explicado apenas na hipótese de que o propósito fosse expulsar da Igreja, junto àqueles veneráveis ritos, as doutrinas das quais eles são expressão.

Se a proibição de nossos veneráveis antigos ritos for levantada, se poderia tomar tal medida como um sinal de que Roma não quer nos impor, através de uma Lex orandi completamente alterada, uma nova lei da fé. E se, daqui por diante, esses veneráveis ritos recobrassem, na vida da liturgia da Igreja, os direitos e honra devidos a eles, seria uma impressionante evidência que a Igreja dita “conciliar” nos permite professar a mesma fé e extrair das mesmas fontes sacramentais, como a Igreja de sempre.

É verdade, os ritos renovados apresentam problemas mesmo se forem propostos pela Igreja como meramente experimentais. Todavia, por mais sérios que sejam estes problemas, nós devemos estar autorizados a discuti-los calmamente com as autoridades competentes, sem nos encontrarmos acusados a todo momento de faltar na fidelidade autêntica à Igreja.

Quanto ao trabalho de formação sacerdotal que levo em meus seminários, ele é centrado inteiramente, como o senhor sabe, no inesgotável mistério da Santa Missa. Esse é o porquê de nós mantermos o Missal antigo para a celebração da missa, que me parece permitir tanto ao celebrante quanto aos fiéis ter uma participação mais intensa neste mistério. O mesmo seria verdade para os outros ritos sacramentais: estou certo de que em suas antigas formas eles dão expressão, melhor do que as novas, às riquezas de seus conteúdos dogmáticos, e que eles, portanto,  têm uma maior eficácia evangélica e pastoral.

Espero para a Igreja universal, como o senhor, uma pacífica co-existência dos ritos pré e pós conciliares. Padres e povo poderiam então escolher a qual “espécie de rito” pertenceriam. O tempo então nos permitiria conhecer o julgamento de Deus sobre seus valores comparativos para a verdade e por seus efeitos salutares na Igreja Católica e em toda a Cristandade.

Com meus respeitosos e cordialmente dedicados votos em Cristo e Maria.

+ Marcel Lefebvre

Michael Davies, Apologia Pro Marcel Lefebvre, vol. I, cap. 14 – Angelus Press, 1979

8 Comentários to “Carta de Monsenhor Lefebvre ao Dr. Eric de Saventhem.”

  1. Senhores e Senhoras,

    Considerando a possibilidade de que a tal carta seja fidedigna e escrita realmente por Mons. Lefebvre,é razoável pensarmos que o Papa Bento XVI tenha tido acesso a um vasto arquivo da época, lido cartas e petições do mesmo teor e então nos ter concedido o “Summorum Pontificum”, como uma grande bênção para toda a Igreja.

    Ou então, podemos afirmar também que se Mons. Lefebvre estivesse vivo, ficaria muito satisfeito com este Motu Proprio, pois daria vida “aos dois ritos” e como ele disse, o tempo e Deus se encarregariam de confirmar a viabilidade de cada um na Igreja.

    O que na minha ignorância me faz supor, que nesta missiva, Dom Lefebvre pensava não diretamente em condenar por si só “a Missa Nova”, mas pedir a Igreja a graça de permanecer na “experiência da Tradição”.

    Meus cumprimentos a todos.

  2. Pois é. Não disseram nenhuma novidade, mas é sempre bom ter frescas essas provas de quem iniciou as guerras internas da Igreja.

    Paulo VI e seus asseclas, ou melhor, seus cardeais, não satisfeitos em nos brindar com uma Igreja Nova, fizeram de tudo o possivel para perseguir ao máximo o que sempre havia sido o costume na Igreja.

    D. Lefevbre foi até liberal demais em pregar o simples convívio das duas missas. Sempre foi e continua sendo evidente que o Novus Ordo é o trabalho final, ou como disse Paulo VI, é o símbolo de uma fé nova.

    Ninguém se engane: a Missa Nova desde o seu nascimento entre os pastores protestantes e a maçonaria, desde sua confecção que retirou dela toda a lembrança de sacrifício e a fez semelhante a uma ceia calvinista, tudo isso foi feito de forma bem pensada e proposital: a Missa Nova veio para destruir a Missa Tradicional. As doutrinas novas – sintetizadas no seu produto final, a Missa Nova – vieram para substituir as doutrinas tradicionais e a Missa Tradicional.

    Bem, mas o que D. Lefevbre disse está certo e bem dito: deixe as duas “expressões” litúrgicas conviverem. Os que tiverem verdadeiro espírito católico, deparados com as duas “opções”, não precisarão ler nenhum debate ou estudo… Irão em direção à Missa Verdadeira instintivamente, ou melhor, movidos pela Graça que lhes iluminará o entendimento.

    É por isso que não posso mais assistir a missa do Novus Ordo. Pode ser tão válida quanto a dos cismáticos ou a dos católicos juramentados da Revolução Francesa, mas isso não a faz lícita para quem deseja um catolicismo puro e fiel às doutrinas de sempre…

  3. Obrigada, Ferretti. Esse trecho que você nos mostra é bem ilustrativo, pois que sem negar a validade dos ritos novos, Dom Lefebvre enfatiza a excelência dos ritos antigos na expressão da Fé. Além disso, se mostra muito mais aberto do que os liberais pós-conciliares, pois que admite a co-existência pacífica das duas formas litúrgicas.

  4. Qualquer um que tenha lido o Exame crítico da Missa Nova feita pelos cardeais Ottaviani e Bacci,jamais conseguiria assistir novamente ao Novus Ordo sem ter o minimo de peso na conciência, quer dizer, pelo menos aqueles que tem boa vontade para com a verdade católica! graças a Deus tenho acesso a FSSPX, mas se não tivesse, preferia rezar o rosário e fazer a comunhão espíritual, e uma vez por mês tentar me locomover até a Missa tridentina. E de preferência na FSSPX, pois só a missa não basta, pois vi ja Padres que rezam os dois ritos, rezam a Missa tradicional mas fazem sermões modernistas! E tem mais, um Padre que Reza as duas missas, é porque ainda não compreendeu a gravidade do problema! Ou seja, um rito protestanisado, que obviamente não é agradável a Deus. Se fosse sómente uma questão gosto pelos ritos, Dom Lefebvre e a FSSPX não terião entrado nessa dura batalha.

    A.M.D.G.

  5. Caro Bruno Inácio,

    Embora poucos, há excelentes padres diocesanos com mentalidade tradicional que “precisam” rezar a Missa Nova. Esses fazem um trabalho corajoso na medida que tentam conscientizar seus fiéis da excelência do Rito Antigo em meio ao fogo cruzado de seus colegas e fiéis.

    Rezar o Rosário é sempre salutar, mas ele não substitui o preceito dominical de ir a Missa aos domingos e festas de guarda. Rosário é Rosário e Missa é Missa. E há que se pensar que nem todas as pessoas moram a uma distância razoável de uma comunidade tradicional, ainda que a FSSPX, que está localizada em pouquíssimas cidades brasileiras.

  6. Ave Maria puríssima!
    Queria agradecer a publicação do trecho desse livro.
    E como curiosidade perguntar ao autor do blog se ele existe em língua portuguesa.

    1-Quero destacar o que o próprio autor do blog deu enfoque:
    “nós devemos estar autorizados a discuti-los calmamente com as autoridades competentes, sem nos encontrarmos acusados a todo momento de faltar na fidelidade autêntica à Igreja.”

    Esse pensamento é algo muitíssimo equilibrado de D. Lefebvre –Deo gratias-.
    Não podia ser diferente de uma alma que nutriu do tomismo a justa sabedoria.
    E é esse equilíbrio que deve prevalecer das conversações da FSSPX e Roma, para que
    assim tenhamos bom progresso. Porque conversações FSSPX e Roma, não trará
    conseqüência só para a fraternidade, mas visa-se a todo Corpo Místico.

    Me entristece muito que então nesse desenvolver da história almas que dizem ser
    tradicionalistas fogem do termo e agora se opondo veementemente contra essas
    conversas. Mas que Deus e a Virgem ajude sobre tudo a nos mantermos e a manter
    estes que encabeçam a ‘grande frente’ digamos assim a não se desviarem nem para
    direita e nem para esquerda, mas no caminho da retidão.
    Esse conselho de M. Lefebvre é sempre muito bom lembrar.

    2-Ao que alguns comentaram gostaria de emendar alguns pequenos comentários se for
    licito:
    a)Ao fratre Emmanuel digo: Certamente o Papa Bento XVI não só deve ter tido acesso
    a arquivos bem como ele se deparou com a aqueles que resistiram e como ele outrora
    esteve do outro lado como peritus, a resistência certamente lhe provocou um “choque”
    e indagações. Creio sim que D. Lefebvre estaria contente até aqui em ver a maior liberalidade para com a Missa Tridentina ainda que jamais ela poderia ser proibida, pois se incorreria em irá de Deus assim como reza o que diz S. Pio V. No entanto D. Lefebvre entristeceria por aqueles que fazem-se de ouvido mouco as diretrizes do Papa. De outro lado isso não seria uma conformação, visto que seria então o inicio da ‘experiencia da Tradição’ no decorrer da história –por Deus- que acabará por “oferecer o meio evidente para julgar o erro cometido pelas novas reformas”(D. Lefebvre). – De um outro seu escrito esse pensamento.

    b)Ao fratre Bruno Luís Santana digo: Sobre guerras internas vale bem lembrar-mos que o estopim se deu por gestar pelos ‘os que pensam que venceram’. Tanto que no âmbito da liturgia foram eles que desviaram o movimento litúrgico antes do Vaticano 2, subvertendo todo trabalho de valor que tinha e que mesmo S. Pio X de inicio endossou. Nomes como D. Lambert Baudeuin, pe. Bouyer e outros estão registrados como esses “litúrgicos”.
    Se se diz que nenhum terremoto é produzido de uma vez, mas é gestado durante alguns anos, séculos até.
    No mais concordo contigo. Em sã consciência não se tem como assistir a missa ‘ordinária’ como se consigna até aqui na história agora e os exemplos que você cita
    são bem pertinentes para termos frente aos olhos.

    Um abraço,
    E que a Virgem Gloriosa seja o nosso auxílio para não perdermos a Fé.
    Ad Majorem Dei Gloriam!

  7. Ainda não encontrei material irrefutável demonstando que o movimento litúrgico foi mal desde sua essência. O que até agora já li foram índicios aqui e acolá. Porém, o que parece evidente é que, em um dado momento o movimento litúrgico e o modernismo se encontraram, e o processo de revolução desencadeou-se rapidamente sob o pontificado de Pio XII, triunfando com o Concílio.
    Talvez houvesse no início coisas muito boas e louváveis no movimento litúrgico. O pouco que li sobre D. Guéranger não me permite taxa-lo como um conspirador… Mas certamente, o que veio muito depois, e mesmo nos escritos do padre Bouyer já demonstram no mínimo um desvirtuamento do movimento litúrgico (se considerarmos que o movimento nasceu bom e perdeu-se com o tempo).
    Meu comentário foi mais no sentido de deixar evidente aos que ainda querem se deixar enganar, que o que se passou no Vaticano das décadas de 60 a 80 estava muito longe de inocentes experiências. Havia uma ordem premeditada de destruir tudo o que havia, para se construir uma nova Igreja e uma nova fé.

  8. “…tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela…”