Caritas in Veritate e a “hermenêutica da continuidade”.

Por Vini Ganimara em Osservatore Vaticano

Sabe-se que um dos desafios do atual pontificado é fazer triunfar uma leitura do concílio Vaticano II e do magistério posterior em continuidade com a Tradição. É o que Bento XVI chama “a hermenêutica da continuidade” (ver particularmente seu discurso de 22 de dezembro de 2005 à cúria), em oposição à “hermenêutica da ruptura”. Esta última pode tomar duas formas: quer se considera que o Vaticano II e o que o segue “anulam” 19 séculos de Tradição; quer se interrompa a Tradição em 1962. Dois erros aos quais Bento XVI lava as mãos.

Esta “hermenêutica da continuidade” conduz freqüentemente a esquecer problemáticas dos anos 1960 e 1970 para valorizar outras.

Eis um exemplo, tomado no parágrafo 29 de “Caritas in veritate”. Este parágrafo é consagrado ao “direito à liberdade religiosa”. Não é um segredo para ninguém que esta expressão é uma das mais problemáticas do Vaticano II. Por duas razões ao menos: primeiro, a noção de liberdade religiosa não é simples de definir (em particular, abrange ou não a noção de “liberdade de consciência”, condenada pelos pontífices romanos do século XIX?); e depois, a liberdade religiosa constitui um verdadeiro direito inerente à pessoa humana enquanto tal, ou os Estados devem apenas tolerar o erro em matéria religiosa para evitar males mais graves?

Bem! Curiosamente, Bento XVI parece não se interessar nestes debates importantes do concílio e pós-concílio. Ele retoma a expressão, mas não se serve absolutamente de dizer o que seria este “direito à liberdade religiosa”, mas antes quais erros ele permite combater na vida social. Concretamente, este “direito à liberdade religiosa” é colocado em oposição ao “terrorismo de natureza fundamentalista” e à “promoção programada da indiferença religiosa ou do ateísmo prático”. Admitir-se-á facilmente: seria difícil a um católico não aprovar a condenação destes dois erros!

Ocultando quase 50 anos de debates, Bento XVI retorna assim a domínios mais sólidos, incontestavelmente de acordo com a Tradição da Igreja. Certamente, essa maneira de agir não é plenamente satisfatória à inteligência, ela não resolve as questões pendentes. Mas é, em todo caso, eficaz para sair de velhos combates que nos desviam da missão primeira da evangelização…