Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus [Tradução não-oficial].

Nos últimos tempos, o Espírito Santo moveu grupos de Anglicanos a pedir repetida e insistentemente que fossem recebidos em plena comunhão Católica tanto individualmente como corporativamente. A Sé Apostólica respondeu favoravelmente a estes pedidos. De fato, o Sucessor de Pedro, que do Senhor Jesus tem o mandamento de garantir a unidade do episcopado e presidir e tutelar a comunhão universal de todas as Igrejas 1 , não poderia deixar de tornar possíveis os meios necessários para trazer este santo desejo à realização.

A Igreja, um povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 2 foi instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo como “um sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano 3 . Toda divisão entre os batizados em Jesus Cristo fere aquilo que a Igreja é e o motivo pelo qual ela existe; de fato, “tais divisões contradizem abertamente a vontade de Cristo, escandalizam o mundo, e prejudicam a mais santa das causas, a pregação do Evangelho a toda criatura”4 . Precisamente por esta razão, antes de derramar seu sangue para a salvação do mundo, o Senhor Jesus rezou ao Pai pela unidade de seus discípulos 5 .

É o Espírito Santo, o princípio da unidade, que estabelece a Igreja como uma comunhão. 6 Ele é o princípio da unidade dos fiéis nos ensinamentos dos Apóstolos, na fração do pão e na oração.7 A Igreja, todavia, analogamente ao mistério do Verbo Encarnado, não é apenas uma comunhão espiritual invisível, mas é também visível; 8 de fato, “a sociedade estruturada com órgãos hierárquicos e o Corpo Místico de Cristo, a sociedade visível e a comunidade espiritual; a Igreja terrena e a Igreja favorecida com as riquezas celestiais, não devem ser vistas como duas realidades. Pelo contrário, elas formam uma realidade complexa constituída por um elemento duplo, humano e divino”.9 A comunhão dos batizados nos ensinamentos dos Apóstolos e no partir do pão eucarístico é visivelmente manifestada nos vínculos da profissão de fé em sua integridade, na celebração de todos os sacramentos instituídos por Cristo, e no governo do Colégio dos Bispos unidos com sua cabeça, o Romano Pontífice.10

A única Igreja de Cristo, que professamos no Credo como una, santa, católica e apostólica, “subsiste na Igreja Católica, que é governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele. Todavia, muitos elementos de santificação e de verdade são encontrados fora de seus confins visíveis. Enquanto eles são dons propriamente pertencentes à Igreja de Cristo, são forças que impelem à unidade Católica” 11

À luz destes princípios eclesiológicos, esta Constituição Apostólica fornece uma estrutura normativa geral para regular a instituição e a vida das Ordinariatos Pessoais para aqueles fiéis Anglicanos que desejam entrar na plena comunhão da Igreja Católica de maneira corporativa. Esta Constituição é complementada pelas Normas Complementares publicadas pela Sé Apostólica.

I. §1 Os Ordinariatos Pessoais para Anglicanos ingressando em plena comunhão com a Igreja Católica são erigidos pela Congregação para a Doutrina da Fé, dentro dos confins territoriais de uma Conferência de Bispos particular, em consulta com a mesma Conferência.

§2 Dentro do território de Conferência de Bispos particular, um ou mais Ordinariatos podem ser erigidos, se necessário.

§3 Cada Ordinariato possui personalidade juridical pública pela própria lei (ipso iure); é juridicamente comparável a uma diocese.12

§4 O Ordinariato é composto por fiéis leigos, clérigos e membros de Instituitos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, originariamente pertencentes à Comunhão Anglicana e agora em plena comunhão com a Igreja Católica, ou aqueles que receberam os Sacramentos de Iniciação dentro da jurisdição do Ordinariato.

§5 O Catecismo da Igreja Católica é a expressão autorizada da fé Católica professada pelos membros do Ordinariato.

II. O Ordinariato Pessoal é governado conforme as normas do direito universal e da presente Constituição Apostólica, e está sujeito à Congregação para a Doutrina da Fé e aos outros Dicastérios da Cúria Romana, de acordo com suas competências. É também governado pelas Normas Complementares, assim como quaisquer outras Normas específicas dadas para cada Ordinariato.

III. Sem excluir as celebrações litúrgicas segundo o Rito Romano, o Ordinariato tem a faculdade de celebrar a Sagrada Eucaristia e os outros sacramentos, a Liturgia das Horas e outras celebrações litúrgicas segundo os livros litúrgicos próprios da tradição Anglicana que foram aprovados pela Santa Sé, de modo a manter as tradições litúrgicas, espirituais e pastorais da Comunhão Anglicana dentro da Igreja Católica, como um dom precioso alimentando a fé dos membros do Ordinariato e um tesouro a ser partilhado.

IV. Um Ordinariato Pessoal está confiado aos cuidados pastorais de um Ordinário indicado pelo Romano Pontífice.

V. O poder (potestas) do Ordinário é:

a. ordinário: anexo pela própria lei ao ofício confiado a ele pelo Romano Pontífice, tanto para o fórum interno como externo;

b. vicário: exercido em nome o Romano Pontífice;

c. pessoal: exercido sobre todos que pertencem ao Ordinariato;

Este poder deve ser exercido conjutamente com o do bispo diocesano local, naqueles casos previstos nas Normas Complementares.

VI. §1 Aqueles que exerceram o ministério como diáconos, padres ou bispos anglicanos, e que preencherem os requisitos estabelecidos pelo direito canônico13 e não estão impedidos por irregularidades ou outros impedimentos14 podem ser aceitos pelo Ordinário como candidatos às Sagradas Ordens na Igreja Católica. No caso de ministros casados, as normas estabelecidas na Carta Encíclica do Papa Paulo VI, Sacerdotalis coelibatus, n. 42 15 e na declaração In June 16 devem ser observadas. Ministros não casados devem se submeter à norma do celibato clerical do CIC can. 277, §1.

§2. O Ordinário, em plena observância da disciplina do celibado clerical na Igreja Latina, como regra (pro regula) admitirá apenas homens celibatários à ordem de presbítero. Ele pode também pedir ao Romano Pontífice, como uma derrogação do can. 277, §1, a admissão de um homem casado à ordem de presbítero na base do caso a caso, segundo os critérios objetivos aprovados pela Santa Sé.

§3. A incardição de clérigos deve ser reguladas segundo as normas do direito canônico.

§4. Padres incardinados num Ordinariato, que constituem o presbitério do Ordinariato, devem também cultivar laços de unidade com o presbitério da Diocese na qual exercem seu ministério. Devem promover iniciativas pastorais e de caridade comuns, que podem ser objeto de convenções entre o Ordinário e o bispo diocesano local.

§5. Os candidatos para as Sagradas Ordens num Ordinariato devem ser preparados ao lado de outros seminaristas, especialmente nas áreas de formação doutrinal e pastoral. A fim de considerar as necessidades particulares dos seminaristas do Ordinariato e sua formação no patrimônio Anglicano, o Ordinário pode também estabelecer programas de seminário ou casas de formação, que seriam ligadas a faculdades católicas de teologia já existentes.

VII. O Ordinário, com a aprovação da Santa Sé, pode erigir novos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, com o direito de chamar seus membros às Sagradas Ordens, segundo as normas do direito canônico. Os Institutos de Vida Consagrada originários da Comunhão Anglicana e que ingressarem em plena comunhão com a Igreja Católica podem também ser colocados sob sua jurisdição por consentimento mútuo.

VIII. §1. O Ordinário, segundo a norma do direito, depois de ter ouvido a opinião do Bispo Diocesano do local, pode erigir, com o consentimento da Santa Sè, paróquias pessoais para os fiéis que pertencem ao Ordinariato.

§2. Os pastores do Ordinariato gozam de todos os direitos e estão sujeitos a todas as obrigações estabelecidas no Código de Direito Canônico e, em casos estabelecidos pelas Normas Complementares, tais direitos e obrigações devem ser exercidos em assistência pastoral mútua junto dos pastores da diocese local onde a paróquia pessoal do Ordinariato tenha sido estabelecida.

IX. Tanto os fiéis leigos como os membros de Instituto de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, originariamente parte da Comunhão Anglicana, que desejam ingressar no Ordinariato Pessoal, deve manifestar este desejo por escrito.

X. §1. O Ordinário é auxiliado em seu governo por um Conselho de Governo com seus estatutos próprios aprovados pelo Ordinário e confirmados pela Santa Sé. 17

§2. O Conselho de Governo, presidido pelo Ordinário, é composto de, ao menos, seis padres. Ele exerce as funções especificadas no Código de Direito Canônico do Conselho Presbiteral e do Colégio de Consultores, assim como naquelas áreas especificadas nas Normas Complementares.

§3. O Ordinário deve estabecer um Conselho de Finanças segundo as normas estabelecidas pelo Código de Direito Canônico, que exercerá os deveres aí especificadas.18

§4. A fim de favorecer a consulta dos fiéis, um Conselho Pastoral deve ser constituído no Ordinariato.19

XI. Requer-se que a cada cinco anos o Ordinário venha a Roma para uma visita ad limina Apostolorum e apresente ao Romano Pontífice, através da Congregação para a Doutrina da Fé e em consulta com a Congregação para os Bispos e a Congregação para a Evangelização dos Povos, um relatório sobre o status do Ordinariato.

XII. Para casos judiciais, o tribunal competente é o da Diocese na qual uma das partes é domiciliada, ao menos que o Ordinário tenha constituído seu próprio tribunal, cujo caso o tribunal de segunda instância é o designado pelo Ordinariato e aprovado pela Santa Sé.

XIII. O decreto estabelecendo um Ordinariato determinará a localização da Sé e, se apropriado, a igreja principal.

Desejamos que nossas disposições e normas sejam válidas e efetivas agora e no futuro, não obstante, fosse necessário, as Constituições Apostólicas e ordens publicadas por nossos predecessores, ou qualquer outras prescrições, mesmo aquelas que requeira menção ou derrogação especial.

Dado em Roma, em São Pedro, em 4 de novembro de 2009, memória de São Carlos Borromeu.

BENEDICTUS PP XVI

_________________

1 Cf. Second Vatican Council, Dogmatic Constitution Lumen gentium, 23; Congregation for the Doctrine of the Faith, Letter Communionis notio, 12; 13.

2 Cf. Dogmatic Constitution Lumen gentium, 4; Decree Unitatis redintegratio, 2.

3 Dogmatic Constitution Lumen gentium, 1.

4 Decree Unitatis redintegratio, 1.

5 Cf. Jn 17:20-21; Decree Unitatis redintegratio, 2.

6 Cf. Dogmatic Constitution Lumen gentium, 13.

7 Cf. ibid; Acts 2:42.

8 Cf. Dogmatic Constitution Lumen gentium, 8; Letter Communionis notio, 4.

9 Dogmatic Constitution Lumen gentium, 8.

10 Cf. CIC, can. 205; Dogmatic Constitution Lumen gentium, 13; 14; 21; 22; Decree Unitatis redintegratio, 2; 3; 4; 15; 20; Decree Christus Dominus, 4; Decree Ad gentes, 22.

11 Dogmatic Constitution Lumen gentium, 8.

12 Cf. John Paul II, Ap. Const. Spirituali militium curae, 21 April 1986, I § 1.

13 Cf. CIC, cann. 1026-1032.

14 Cf. CIC, cann. 1040-1049.

15 Cf. AAS 59 (1967) 674.

16 Cf. Congregation for the Doctrine of the Faith, Statement of 1 April 1981, in Enchiridion Vaticanum 7, 1213.

17 Cf. CIC, cann. 495-502.

18 Cf. CIC, cann. 492-494.

19 Cf. CIC, can. 511.

Fonte: Bollettino

18 Responses to “Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus [Tradução não-oficial].”

  1. Bendito seja Deus!

  2. Bendita seja a Santa Mãe de Deus, Maria Santíssima!

  3. Não fala nada de reordenar essas pessoas ou eu me perdi no texto?Pois até onde eu sei,o “clero” anglicano não tem o sacerdócio.Estou errado?

  4. Bendita seja a sua Santa e Imaculada Conceição!

  5. Prezados amigos do Fratres in Unum, Salve Maria!

    Talvez possam me esclarecer uma dúvida: Qual a diferença entre Ordinariato Pessoal e Administração Apostólica Pessoal, se é que tem diferenças?

    Vejo que a estrutura e vida destas Dioceses Pessoais são muito parecidas, com relação aos direitos.

    Muito Obrigado!

  6. Puxa vida… ouvi um autodenominado “evangélico” dizer que Bento XVI não converte ninguém, não atrai nem mosca de tão feio e ridículo que esse velho é! (sic)

    Olha aí…

    A bem dizer, metade da grande seita anglicana retorna ao grêmio da Igreja Católica. João Paulo II abrindo Portas Santas com o Arcebispo de Canterbury não conseguiu, mas o velho de óculos e com cara de bravo, dizendo que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo, CONSEGUIU!

    Viva o Papa! Bendito seja Deus!

  7. Como EX-ANGLICANO posso dizer que realmente foi uma vitória. Para a Santa Igreja que luta e reafirma a Unidade e para os anglicanos da ala anglo-católica que sempre quiseram estar “de volta”.

    Espero apenas – sinceramente – que esta Constituição Apostólica seja obedecida, cumprida, seguida, entendida e amoleça o coração dos bispos para que reconheçam nos anglicanos que vem (e os que ja vieram, como nós) como verdadeiros católicos.

    AINDA SOFREMOS MUITO PRECONCEITO, FRUTO DE DESINFORMAÇÃO E IGNORÂNCIA DE MUITOS.
    QUE ESTA C.A. NOS CRIE UMA “JURISPRUDÊNCIA” FAVORAVEL.

    Aqui nosso Mosteiro continua sendo discriminado, ou então “ESQUECIDO”, abandonado, silenciado, como se não fôssemos também já católicos romanos!

    Estão nos silenciando como fizeram com a SSPX no passado… Tenho que denunciar!!!!

    Obrigado.

    Emmanuel-Maria, OSB dioc.
    http://www.mosteirodocrucificado.blogspot.com
    priorado@uol.com.br

    AJUDE-NOS SANTO PADRE !!!!!!!!!!!!!!!

  8. A QUEM INTERESSAR POSSA

    Estamos a um ano “esquecidos” na nossa Diocese.
    Recorremos ao “novo bispo” que prometeu nos ajudar, ou ao menos nos ouvir, depois de sua posse!

    Fomos convertidos ao catolicismo, seguimos as etapas indicadas pela Santa Sé, mas a nossa ordenação sacerdotal não aconteceu, por motivos que desconhecemos!

    Há um descaso flagrante.
    Quando eramos anglicanos nosso mosteiro vivia cheio de fiéis sendentos. Depois que passamos a católicos romanos o clero da diocese nos hostilizou.

    Semelhantemente ao que aconteceu com a SSPX e com Campos, mesmo que a Santa Sé mande acolher aos anglicanos há um SILÊNCIO VELADO. FINGEM QUE NÃO EXISTIMOS. COLOCAM O POVO CONTRA NÓS. SUGEREM QUE NÃO VENHAM AO MOSTEIRO. NOS DEIXAM SEM SACRAMENTOS VÁLIDOS. BOICOTAM NOSSO MOSTEIRO.

    Esperamos que o novo bispo venha em nosso socorro!
    Esperamos que a Constituição Apostólica venha a trazer os anglicanos, mas que de alguma forma, vigie em favor dos que já entraram!

    Somos católicos, somos romanos!
    Por que ainda tanta discriminação e preconceito?
    Por que não instruir ao povo verdadeiramente sobre quem somos e nossa trajetória eclesial e histórica?

    Obrigado.

  9. Dom Emmanuel, perdoe-me a franqueza, mas não vou dissimular a impressão que eu tenho.
    E rezo para ser uma impressão errada. Então, peço que me compreenda de antemão, pois nada tenho contra a Inglaterra e os anglicanos que ainda laboram em erro, ao manterem-se na agremiação fundada por Henrique VIII. Deve-se destruir o erro, mas ter caridade com o pecador.

    Ao contrário, os ingleses são formidáveis, e maravilhosos são os vestígios do que sobrou da Igreja Católica após os séculos negros em que a implantação da reforma e as perseguições draconianas calcaram aos pés a religião de Cristo.

    Como exemplo de catolicidade, temos o próprio uso sarum, o rito de Salisbury, que, caso seja comprovadamente católico e anterior a reforma (coisa que não sei afirmar com certeza) , ou seja, um rito medieval e inequívoco, comparável ao tridentino, moçarabe, bracarense, etc, então, caso seja católico, eu defenderia apenas que o mesmo passasse por uma purificação que o mantivesse em sua pureza original (sem os retoques heréticos do protestantismo), e que, após isso, que todos os ex-anglicanos ou episcopais, a nível mundial, passassem a fazer uso do mesmo como rito oficial, incluindo os mosteiros egressos, como o seu.

    Então, não se trata de combater o que há de legítimo na tradição anglicana. PORQUE O QUE HÁ DE BOM NO ANGLICANISMO É PREDOMINANTEMENTE O QUE SOBROU DO CATOLICISMO MEDIEVAL.

    O problema que se dá é o seguinte: caso eu generalize a minha impressão que tive das coisas que já li do senhor, e estenda para seus irmãos monges e também para uma grande parte dos anglicanos que entraram na Igreja nos últimos anos, então, correndo o risco de fazer mau juizo, me parece que a questão é que há algo de MORNO nisso tudo.

    E, diante dos dramas que a Igreja Católica passa ultimamente, esta postura morna acaba deixando-os do lado dos neo-conservadores, que seriam os únicos que poderiam ajudá-lo, visto que são obstinados a não tomar posição em nome do legalismo e da resolução consciente de obediência cega e irracional a qualquer coisa que tenha um imprimatur ou aval do papa.

    Para estes a mentira passa a ser verdade caso o papa assine um termo afirmando tal coisa.
    Estes na prática crêem que ser católico é obedecer cegamente o que o papa diz. Ainda bem que nenhum papa ordenou que os fiéis amarrassem uma pedra ao pé e se jogassem da ponte. Ou teríamos uma nova modalidade de católicos: seriam os católicos “até debaixo d’água”.

    E desgraçadamente, vocês talvez não sejam assim, mas estão no lado “morno”, que é desprezado tanto pela tese como pela antítese.

    Com efeito, só existem dois lados reais diante de tudo isso: existe um lado modernista que odeia tudo o que lembre de longe a Igreja Imutável. E existe o lado católico, assentado na Tradição e por isso mesmo incompatível com a Nova igreja que tentaram impor sobre todo o orbe, e que nesses tempos tem sido posta em cheque pelo Santo Padre, de forma pouco enérgica e bem camabaleante, mas no frigir dos ovos, apontando para a boa direção…

    O lado modernista estimava os senhores enquanto vocês se mantinham fora. Pois fora da Igreja não há salvação, e esses hereges se rejubilam com o êxodo dos católicos e com a falta de conversões.
    Eles não têm fé católica, e muito menos caridade. A conversão do mosteiro foi para eles uma ofensa.

    E a postura conservadora de vocês lembra catolicismo. É o suficiente para que eles o repudiem por parecerem católicos.

    In another hand, apesar da união jurídica visível com a Igreja que vocês fizeram, e apesar de, mesmo demonstrando vivo interesse por alguns assuntos e práticas liturgicas ou de piedade, ou mesmo de disciplina católica tradicional, apesar disso, se julgarmos a todos os monges pelo posicionamento que o senhor tem, irmão Emmanuel, então isso justificaria a desconfiança dos católicos. Pois há certas doutrinas confusas que o senhor demonstrou ter, que deveriam ter sido erradicadas antes da catolicização formal do mosteiro.

    Em tempos normais, nenhum bispo permitiria que um mosteiro se dissesse católico e simultaneamente permanecesse crendo que o anglicanismo herético e cismático fosse uma parte da Igreja indivisa, ou que os ministros anglicanos fossem verdadeiramente sacerdotes.

    Se vocês houvessem procurado a FSSPX, teriam que fazer uma cerimônia pública de abjuração de todas as heresias e ensinamentos contrários à Igreja Romana, e depois uma profissão de fé inequívoca, que refletiria exatamente a fé católica a qual vocês aderiram pela adesão intelectual à Fé única e verdadeira.

    A FSSPX, pelo andar da carruagem vai se ajustar canonicamente à Igreja, e fará isso recusando TODAS AS INOVAÇÕES que entram em conflito com a doutrina imutável. E não fará abjuração alguma, pois a separação jurídica se deu exatamente porque a FSSPX não aceitou que impusessem um Evangelho diferente que fosse de encontro ao que sempre fora crido.

    Portanto, em virtude da postura artificial que os senhores adotaram, por um lado são tidos por suspeito de CATOLICISMO pelo clero legítimo e oficial, porém sem fé católica, e suspeitos de protestantismo pelos fiéis sem direito canônico e com fé católica.

    Sobram somente os neo-conservadores, que longe de constituir uma via média, são irritantes por verem a Verdade e optarem por legitimar o erro, por mais argumentos que recebam, por mais evidências que lhes demonstrem, por mais que o Vaticano dê provas – agora quase mensais – de que a razão está com os que lutaram pelos interesses de Deus e pela manutenção inequívoca da fé.

    A fé é como a virgindade. Ou se tem, ou não. Não existe meia-fé. Então, rezem para que Deus lhes dê o dom da fé INTEGRAL, despojada de todo compromisso, toda ideologia, todo relativismo, pois quem procura, acha!
    O mais é se abandonarem à Providência Divina, e JAMAIS ignorar a consciência.
    A fé vem pelo ouvido, é uma virtude intelectual que Deus dá gratuitamente a quem pede com sinceridade.

    Se vocês tiverem Fé Católica, o que significará para vocês que o mundo inteiro os odeie? Ainda que os próprios que se dizem católicos os persigam, então tudo concorrerá para o bem de vocês, que serão provados. Afinal de contas, católico é uma categoria de gente que só funciona sob pressão.

  10. E só para finalizar: seria bom se vocês fossem alinhados com a FSSPX, mas apesar de tudo isso é secundário. Fora da Igreja não há salvação, mas fora da FSSPX há, embora cada vez mais difícil de se encontrar…

  11. Prezado Sr.
    Quanto ao problema da validade das ordenações sacerdotais entre os anglicanos, consta que quando Leão XIII publicou um documento negando a validade das mesmas, muitos anglicanos tiveram problema de consciência e recorreram aos bispos vetero-católicos, rogando-lhes que os ordenassem validamente. De maneira que, a partir de então, passou a haver um ramo do anglicanismo com sucessão apostólica.
    Atenciosamente,
    Pe.João Batista de A. Prado Ferraz Costa

    • Revmo. Padre João Batista, Salve Maria!

      Talvez o senhor pudesse, por gentileza, responder ao leitor Vitor José, que fez um questionamento de interesse de todos nós: “Qual a diferença entre Ordinariato Pessoal e Administração Apostólica Pessoal, se é que tem diferenças?”

  12. Mas o problema ainda persiste,pois não se identificou esses anglicanos da Constituição Apostólica com o “ramo do anglicanismo com sucessão apostólica”, e outra esse ramo utiliza quais ritos de ordenação desde Leão XIII?Não ficaram claros esses dados e gostaria de uma explicação,pois Roma não pede reordenações.

  13. Sr. Antonio Cesar, talvez não tenhas lido as Normas Complementares à Constituição Apostólica: http://oblatvs.blogspot.com/2009/11/normas-complementares-constituicao.html

    Nela se fala claramente que:

    Art. 6, § 2: “[…] Clérigos anglicanos que estão em situação matrimonial irregular não podem ser admitidos às Ordens Sagradas no Ordinariato.”

    Art. 11,§ 1. Um ex-bispo anglicano casado é elegível para ser nomeado Ordinário. Neste caso ele deve ser ordenado sacerdote na Igreja Católica e então exerce o ministério pastoral e sacramental dentro do Ordinariato com plena autoridade jurisdicional.

    Isto é uma referência clara às ordens inválidas dos anglicanos, sendo que o bispo tem que ser ordenado padre para poder ser admitido ao cargo de ordinário; ele será ordinário sendo padre, e não bispo.

  14. Bruno, agradeço seus comentários.
    O senhor não dissimula suas impressões e nem eu as minhas. Definitivamente não há concordância em nosso pensamento. Mas respeito sua posição. Obrigado.
    Penso que a SSPX não é a tábua de salvação para todos os males da Igreja e que nem todas as pessoas devem se filiar a ela, senão deixa de ser uma Igreja, para ser uma seita – em certo sentido.

    Prefiro pensar que somos correntes distintas. Os anglicanos e os Lefebvrianos, sob a égide de um mesmo Papa – que sabe exatamente o que faz e com quem lida, mesmo nas correntes aparentemente opostas ele busca a Unidade.

    Minha discussão não passa nem de longe pelo assunto SSPX, mas pela maneira como alguns Bispos lidam com os assuntos eclesiásticos e que – em ambos os casos – o papa pensa de um jeito e alguns prelados de outro – infelizmente.

  15. Certamente a FSSPX não é a tábua de salvação, pois existe catolicismo autêntico fora de suas fileiras. O padre João Batista Costa que escreve aqui, por exemplo. Ele consegue fazer o “jogo de cintura”, e ser simultaneamente um padre diocesano, canonicamente aceito, e ao mesmo tempo não trair a fé católica. Então, o ideal não é estar fora da lei canônica. O que se espera é que se guarde a fé. Se conseguir fazer o mesmo estando incardinados legalmente – e sem omissões – graças a Deus por isso. Se não conseguirem, bem, a lei suprema é a salvação das almas…

    Falei na FSSPX, porque em termos de visibilidade, influência e ortodoxia, é o maior e mais visível grupo. Os outros grupos são menos recomendáveis à medida em que aceitam mais ou menos as inovações anti-tradicionais. E resta por fim o IBP, mas temo que sua dependência dos bispos diocesanos termine na prática por impedir a plenitude de seu apostolado.

    É urgente, irmão Emmanuel, que a totalidade dos católicos volte a ter unidade doutrinária e moral. Não se pode mais conceber que um grupo creia em uma coisa, e outro grupo creia em outra doutrina, e essas doutrinas se contradigam. São Boaventura enfatizava o misticismo especulativo e não considerava que a razão natural por si só pudesse conduzir a Deus. Ele dizia que deter-se nas coisas da experiência era “desfrutar da árvore proibida do bem e do mal”, Santo Tomás de Aquino, contemporâneo e amigo de São Boaventura, no entanto era diametralmente oposto ao mesmo, e dizia que muito pelo contrário, se Deus dotou o homem de sentidos, é da experiência sensorial que se deve partir para conhecer o mundo e descobrir Deus na sua criação.

    No entanto, se variaram seriamente nos pormenores, concordaram sempre no essencial: chegar a Deus. Um através da Teologia (Boaventura), outro através da Filosofia (Aquino), mas NENHUM contrariando os ensinamentos perenes.Usaram de instrumentos diferentes, de caminhos diferentes, mas nada que constituisse um desmentido à Tradição.

    Certamente, os filósofos aristotélicos trouxeram uma inovação ao recorrerem a Aristóteles, e o aristotelismo foi excomungado diversas vezes em Paris. Mas lembremos que, se Aristóteles era considerado uma inovação, outros filósofos antigos, ao contrário, eram utilizados desde os tempos de São Justino (como Platão). Logo, a inovação em si não é nociva, mas desde que não se imponha em detrimento às verdades dogmáticas que sempre foram cridas. Afinal de contas, o Espírito Santo ilumina a Igreja fazendo com que certas verdades se tornem explícitas com o correr dos anos. Mas quando aparecem novidades que atentem contra o depósito da Fé, então não se trata de progresso no conhecimento, mas de heresia.

    Penso que, tão logo a TAC seja incardinada através dos Ordinários, vocês deveriam contactá-la.

  16. Prezado Ferretti,
    Os cânones 368 a 374 falas das porções da Igreja Católica (De ecclesiis particularibus) estabelecendo uma hierarquia: diocese,prelatura, vicariato,prefeitura apostólica e administração apostólica. Expicam ainda que essas modalidades de estrutura eclesiástica existem quando há graves razões para não se constituirem dioceses.
    In Domino.
    Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

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