“Aparelha-te, pois, para o combate, se queres a vitória. Sem peleja não podes chegar à coroa da vitória. Se não queres sofrer, renuncia à coroa; mas se desejas ser coroado, luta varonilmente e sofre com paciência. Sem trabalho não se consegue o descanso e sem combate não se alcança a vitória.” (Imitação de Cristo, Lv. III, 19)
Por Marcela A. de Castro
Sob o sol escaldante das duas e meia da tarde lá ia o intrépido padre José Leite Prado da Silva com seus dois corinhas rumo à casa do Dr. Oswaldo. Alto, magro, de passos largos, padre José Leite caminhava ligeiro segurando sua pasta de couro preto, onde levava apostilas e alguns objetos litúrgicos que usaria para celebrar a missa tradicional. Os garotos quase não podiam acompanhá-lo e se sentiam um tanto ofegantes toda vez que tinham de fazê-lo. Entretanto, acompanhar o jovem padre diocesano era um prazer e uma grande aventura e eles não perderiam essa oportunidade por nada desse mundo.
Fazia já um ano que o bispo diocesano o havia designado para auxiliar o idoso pároco da igrejinha do Sagrado Coração de Jesus naquele bairro perdido nos confins de Taboão da Serra. Para Dom Irineu Costa Serra, essa havia sido uma decisão salutar e necessária para que Padre José Leite tomasse contato com a realidade. Preocupava-se com o fato de que o jovem padre, ordenado há somente 2 anos, se comportasse de maneira tão diferente dos demais. Não lhe tinha nenhuma antipatia. Pelo contrário, o bispo bonachão até gostava do Padre José Leite; achava-o amável, determinado e entusiasmado com a sua vocação sacerdotal, seu histórico escolar no seminário destacara-se pelas melhores notas da classe. A única preocupação do bispo era que o jovem padre tinha algumas idéias um tanto estranhas para a sua geração. Em primeiro lugar, estava a tal da batina. Já ninguém mais a usava no dia a dia. E lá ia Padre José Leite para tudo quanto é canto, faça sol ou chuva, com aquela batina calorenta, que o próprio bispo só usava em ocasiões especiais. Fora isso, havia os livros estranhos sobre a missa pré-conciliar e os tais “cismáticos” franceses descobertos de maneira subrepitícia por um colega seminarista e devidamente informados a Dom Serra, naturalmente, não porque o então seminarista José Leite recusara terminantemente seu convite para acompanhá-lo ao famigerado Clube Nevado numa noite de sábado, mas, tão somente, à guisa de preocupação pela “linha pastoral” do novo sacerdote.
“Que raio de livros são esses que esse cabra andou lendo?”, quis saber Dom Serra. O informante confuso não sabia ao certo, pois não entendia nada de francês. Sabia apenas se tratar de alguma coisa de Dom Marcel Lefebvre, o bispo rebelde, e também havia os outros livros com gravuras da Missa Tradicional, aquela que já não era mais celebrada há séculos.
“Era só o que me faltava!” – exclamou Dom Serra com um levantar de sobrancelhas. “Mas deixa o menino pegar pé da realidade e tudo se ajeita. Trabalho não falta na diocese e, certamente, o tempo se encarregará de colocar tudo nos eixos.”
* * *
Quinze minutos depois chegaram os três ao casarão de dois andares do engenheiro aposentado. A casa espaçosa era um oásis de ortodoxia uma vez a cada quinze dias. Eram vinte cinco a trinta pessoas que queriam ouvir o jovem e querido Padre José Leite. Assim que chegava, uma criada trazia um copo d’água fresca. Depois de cumprimentar a todos, sentava-se em uma mesinha colocada de frente para as cadeiras e poltronas em forma de ferradura. Hoje a palestra era sobre as rubricas da Missa Gregoriana, também chamada Missa de Sempre ou Missa Tridentina. Cada gesto era explicado detalhadamente. Na verdade, essa era a segunda aula sobre o tema, pois a primeira havia sido dada na semana anterior. Depois foram distribuídas apostilas xerocadas com alguns desenhos e explicações. A audiência estava fascinada pela maneira entusiasmada com que Padre José Leite lhes falava sobre a Missa Tradicional. Havia uma explicação para tudo, até mesmo para o beijo no altar e as relíquias dos santos depositadas sob a sua superfície. Era incrível saber que as missas eram literalmente celebradas sobre os “mini-túmulos” dos santos. Como ninguém lhes havia dito isso antes?
Depois das aulas de formação, as pessoas se dirigiam a uma capela na parte lateral da casa, que dava para o quintal. Enquanto Padre José Leite e os coroinhas preparavam o altar, o Sr. Francisco Peixoto puxava o Terço.
Aquela capela, construída pelo Dr. Oswaldo apenas para suas orações pessoais, convertia-se agora em um centro de espiritualidade e disseminação do verdadeiro catolicismo e ficava à disposição de bons padres para a celebração do Santo Sacrifício da Missa. Padre José Leite não desejava continuar celebrando a Santa Missa na casa do Dr. Oswaldo para sempre. Desejava ardentemente que o grupo passasse a ouvir missa na igrejinha do Sagrado Coração de Jesus, onde era vigário. A Confraria de Sta. Gertrudes deveria ser apenas o começo de um grupo de católicos tradicionais plenamente integrados na vida da paróquia.
No entanto, o idoso pároco, Padre Antonio Costa de Mello, não parecia muito entusiasmado com a idéia. Quando, pela primeira vez, o Padre José Leite lhe falou da Missa Gregoriana, ele disparou que não lhe agradava a idéia de ver beatas de véu na missa e que o vernáculo veio justamente para as pessoas entenderem mais o sentido da Missa. Ademais, não era bom dividir os fiéis. As beatas gordas com suas manias ultrapassadas poderiam afugentar os jovens da igreja. Elas começariam a implicar com roupas e outros detalhes secundários.
Era preciso ter prudência e paciência, virtudes com as quais Padre José Leite havia sido agraciado em profusão.
* * *
A paróquia do Sagrado Coração de Jesus não era muito grande, comportava bem umas cento e cinqüenta pessoas sentadas. Algumas vezes, até mesmo 180 com a colocação de cadeiras plásticas. Padre Antonio Costa de Mello celebrava a Missa das 7 da manhã e seu auxiliar ficara encarregado da missa das 18:30h, de terça a sábado. Aos domingos eram três missas. Os fiéis gostavam muito dos sermões explicativos do jovem vigário. Pouco a pouco, resgatava-lhes o orgulho de serem católicos, esforçando-se por recuperar nestes o sentido de pecado, especialmente, com relação a certos temas morais. Em vários anos não havia quem lhes falasse daquelas coisas todas, como aborto, contracepção, divórcio e sodomia. O velho confessionário de madeira foi limpo e voltou a pleno uso, três vezes por semana antes da missa das 18:30h, enquanto o Terço era recitado pelos fiéis. A princípio, Padre Antonio Costa de Mello achou estranho que seu jovem auxiliar estivesse disposto a ficar enfurnado lá dentro em vez de usar a saleta de reconciliação, mas, como não era algo mal em si, não lho proibiu, porque gosto não se discute e se ele quisesse assar de calor lá dentro, que o fizesse.
* * *
Cinco e meia da manhã e lá estava Padre José Leite colocando os cartões de orações em latim no altar de Nossa Senhora das Dores, onde em poucos minutos celebraria a Missa Tradicional. Todas as manhãs era essa a rotina a seguir – acordar bem cedo, cuidar da higiene pessoal, fazer as orações da manhã e celebrar a Missa de Sempre quando ainda a igreja estava fechada aos fiéis, tudo para não criar atritos com o pároco. Às vezes, Dr. Oswaldo e mais dois ou três membros madrugadores da Confraria de Santa Gertrudes assistiam à missa. Entravam de fininho pela sacristia e saíam do mesmo jeito. Durante a semana não tinha sermão, mas isso não lhes tirava a alegria de assistir ao Santo Sacrifício celebrado de maneira tão piedosa e reverente. Hoje a data era especialíssima: 14 de setembro – Dia da Exaltação da Santa Cruz e dois anos da promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum. Todos os sacerdotes podiam celebrar a Missa Tradicional sem precisar pedir autorização a quem quer que fosse. Tecnicamente falando, padre José Leite não precisava se preocupar porque não estava fazendo nada errado. Na prática, no entanto, o jovem padre era apenas um vigário, recém instalado na paróquia, e não queria entrar em confronto com o Padre Costa de Mello. Tentaria falar com ele novamente naquela noite e convencê-lo a permitir que oferecesse a Missa Tradicional aos domingos.
* * *
Uma hora da tarde e todos vão se sentando à mesa da sala de jantar da casa paroquial. À cabeceira Padre Costa de Mello, o aniversariante, e a seu lado direito, o cerimoniário do bispo, Padre Carlos Feitosa. Em seguida o casal coordenador do curso de noivos, dois ministros extraordinários da Comunhão, Irmã Maria Agripina, coordenadora da catequese de adultos e, finalmente, nosso protagonista, Padre José Leite. Entre garfadas e goles de refrigerante e cerveja gelada todos os assuntos da hora são abordados. Primeiro, a vinda do famoso padre cantor Joaquim Campos, que fará um show imperdível no estádio de futebol da cidade. Depois, o encontro inter-religioso presidido por Dom Irineu Costa Serra na catedral. Em seguida, as notícias da política e, finalmente, o novo plano de evangelização tropical.
Padre José Leite sente-se esmagado entre dois mundos diversos, o seu mundo interior de catolicismo e o seu ambiente concreto. Como reagir a tudo isso? Como desenvolver um apostolado consistente em meio àquela selva progressista?
* * *
Cai a noite. Depois da missa das 18:30h, hoje, excepcionalmente celebrada pelo aniversariante e animada pelo Grupo de Oração Louvor de Jericó, alguns paroquianos decidem levar o velho pároco para jantar em uma churrascaria da cidade. Voltará tarde. Não adianta esperá-lo. Ainda não será dessa vez que Padre José Leite tentará convencer seu pároco a permitir que uma das três missas dominicais seja na Forma Extraordinária. Tentará fazê-lo amanhã, se Deus quiser.
No seu quartinho simples e despojado medita sobre um trecho de seu livro de cabeceira favorito, Imitação de Cristo, faz suas orações da noite, pede o auxílio da Virgem Santíssima para se manter casto e puro de coração, beija o crucifixo e adormece.
* * *
Naquele mesmo dia, do outro lado do hemisfério, em um gélido convento de monjas carmelitas, Irmã Maria Pia do Coração Eucarístico OCD, ofereceria orações e sacrifícios pelo jovem padre brasileiro, a quem adotara como seu ‘filho espiritual’.







"... muitos dos que se dizem católicos ajudam os «revolucionários» . São esses, sempre «moderados», que estimam a «tranquilidade pública» como o bem supremo. Esses católicos tolerantes, condescendentes, brandos, doces, amáveis ao extremo com os maçons e furiosos inimigos de Jesus Cristo, guardam todo seu mau humor para os que gritam «Viva a Religião!» e a defendem sofrendo contínuas penalidades e expondo suas vidas. Para eles, esses últimos são «exagerados e imprudentes, que tudo comprometem com prejuízo dos interesses da Igreja» ".
Que tenho eu, Senhor Jesus, que não me tenhais dado?… Que sei eu que Vós não me tenhais ensinado?… Que valho eu se não estou ao vosso lado? Que mereço eu, se a Vós não estou unido?… Perdoai-me os erros que contra Vós tenho cometido. Pois me criastes sem que o merecesse… E me redimistes sem que Vo-lo pedisse… Muito fizestes ao me criar, muito em me redimir, e não sereis menos generoso em perdoar-me. Pois o muito sangue que derramastes e a acerba morte que padecestes não foram pelos anjos que Vos louvam, senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem… Se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos; Se Vos tenho injuriado, deixai-me louvar-Vos; Se Vos tenho ofendido, deixai-me servir-Vos. Porque é mais morte que vida, a que não empregada em vosso santo serviço… - Padre Mateo Crawley-Boevey