Por Marcela A. de Castro
Ubi caritas et amor, Deus ibi est.
Congregavit nos in unum Christi amor.
Exultemus, et in ipso iucundemur.
Timeamus, et amemus Deum vivum.
Et ex corde diligamus nos sincero.
[Onde está a caridade e o amor, ali está Deus
O amor de Cristo nos reuniu
Exultemos e alegremo-nos n’Ele
Temamos e amemos o Deus vivo
E amemo-nos com um coração puro]
Éramos 20 leigos e dois padres. Mais misto do que o nosso grupo, impossível – tanto em idades quanto em temperamentos e vivências. Contudo, estávamos todos igualmente felizes e ansiosos com a expectativa de passarmos alguns dias em uma peregrinação autenticamente católica. Os primeiros a subir no microônibus que nos esperava na porta do hotel foram Dr. Oswaldo e seu neto, João Vinícius. Como de costume, eles se sentaram no primeiro banco atrás do motorista. Em seguida, Luiz Antonio, sua esposa Ana e seus dois filhos adolescentes, Felipe e Paulinho. Em seguida, os dois rapazes vocacionados, Ivo e Pedro Henrique, que estavam seriamente considerando o ingresso num seminário tradicionalista do Chile. Dona Margarida e suas sobrinhas Martinha e Patrícia entraram esbaforidas, pois haviam demorado muito para tomar o café da manhã. A elegante pediatra, Dra. Rita de Cássia, subiu em seguida, junto com sua prima, Irmã Maria das Dores, de uma cidadezinha do noroeste fluminense, que ganhara a peregrinação de presente pelo seu aniversário de dez anos de votos perpétuos. Em seguida, os jovens Rodrigo, Patrick e Eduardo, que tinham começado a freqüentar a Missa Tridentina em Goiânia e achavam tudo muito punk e irado. Gabriela e eu entramos, seguidas de Fátima e seu noivo Frederico Resende. E, finalmente, nosso querido diretor espiritual, Padre José Leite Prado da Silva, que convidara seu amigo de Belo Horizonte, Padre Miguel Gonzáles, para nos acompanhar. Ambos se sentaram nos primeiros assentos do lado oposto ao Dr. Oswaldo e seu neto.
Assim, depois das preces para uma boa viagem e bênçãos para todos, partimos.
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A peregrinação às igrejas e santuários franceses era um sonho que muitos de nós acalentáramos a vida inteira. Em nosso primeiro dia na França, saímos do hotel bem cedo rumo à Basílica do Sagrado Coração de Jesus no alto da colina dos mártires. A Santa Missa no rito gregoriano seria celebrada por nosso diretor espiritual. Depois de meia hora de viagem chegamos finalmente à Montmartre. Subimos as escadarias que levavam à imponente basílica cantando hinos de louvor e gratidão. Irmã Maria das Dores sabia todos eles de cor, iniciava as primeiras estrofes e dava o tom para que pudéssemos acompanhá-la. Os jovens Patrick e Eduardo seguravam uma faixa com os dizeres: “Vive Christ-Roi!”. Rodrigo segurava um estandarte com a foto de Nossa Senhora Aparecida, a mãe dos brasileiros, que abençoava a primeira peregrinação destes católicos tradicionais do Brasil aos santuários franceses. Quem diria que aqueles meninos de Goiânia, que antes freqüentavam as baladas de sábado à noite, estavam agora transformados. Eram jovens católicos orgulhosos de sua Fé!
Do alto da colina podíamos vislumbrar toda a cidade de Paris. Que maravilha! Não podíamos conter a emoção por estarmos naquela colina outrora pagã e posteriormente santificada pelo sangue dos mártires.
Padre José Leite e padre Gonzáles foram logo atrás do padre Vincent Benoit, a quem haviam contatado para viabilizar a Missa Gregoriana na basílica. Quanto a nós, fomos entrando devagarinho – um grupo de católicos tradicionais de boca aberta e corações palpitantes.
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O primeiro sermão de nossa jornada nos deixou a todos muito pensativos. Padre José Leite começou falando do martírio de São Denis e de como todos nós também devíamos nos suportar mutuamente no martírio diário por nossas escolhas cristãs, principalmente, das incompreensões e preconceitos que enfrentávamos por nossa adesão à Missa de São Pio V. Depois, falou-nos sobre a necessidade de vivermos o Reino Social de Jesus Cristo no dia-a-dia. Por último, exortou-nos a defender a Tradição Católica sem nos agredirmos e rechaçarmos uns aos outros por nossas possíveis divergências; disse-nos, firmemente, que deveríamos evitar toda discórdia e rixas que pudessem servir de combustível para os ataques dos progressistas. “Já basta o quanto somos atacados e caluniados por liberais e neoconservadores. Quanto a nós, precisamos nos unir e nos respeitar para o bem da Igreja e para o nosso próprio bem!”, disse-nos de maneira enfática.
Estávamos todos de olhos arregalados. Certamente, havia diferenças entre nós e, muitas vezes, entrávamos em discussões acaloradas devido às nossas visões pessoais sobre como lidar com a crise na Igreja. Éramos um bando de católicos tradicionais vindos de paróquias e até mesmo dioceses diferentes. Alguns participavam da Confraria de Santa Gertrudes, em Taboão da Serra, outros, simplesmente, freqüentavam a Santa Missa em suas dioceses, como no caso dos jovens da Goiânia, outros freqüentavam missas de um grupo monarquista, e outros ainda ficaram sabendo da peregrinação através de um prestigioso sítio de notícias da Tradição. Enfim, cada qual tinha a sua visão própria, embora todos tivéssemos uma meta em comum – viver o catolicismo autêntico, entender melhor os problemas do Concílio Vaticano II e seus efeitos na vida da Igreja e buscar a ampla disseminação da Missa Gregoriana. Aquelas palavras do jovem padre José Leite nos marcaram profundamente durante toda a peregrinação.
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Depois da Santa Missa, fomos passear por Montmartre. Andamos em meio às ruas pitorescas do bairro dos artistas, entupimo-nos de crepes recheados com queijo e presunto e tiramos algumas fotos. Em seguida, marchamos para a famosa Catedral de Notre Dame, ponto fundamental para todos os peregrinos que vão a Paris. Padre Miguel Gonzáles guiou-nos e contou-nos como cada uma daquelas imagens em alto relevo colocadas nas paredes da catedral retratavam cenas bíblicas e eram verdadeiras aulas de catecismo para os pobres e analfabetos da Idade Média. Ficamos todos extasiados com tanta beleza e perfeição. Mesmo com a penumbra no interior da magnífica construção podíamos apreender o significado daquele tipo de arquitetura toda voltada para a honra do Criador. De maneira muito oportuna, Padre Gonzáles fez alguns paralelos com as igrejas modernas e como estas estão cada vez mais vazias de imagens e símbolos religiosos, descumprindo assim o seu papel de auxiliar as pessoas a pensar nas coisas do alto.
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Nosso segundo dia em Paris começou cedo. Depois do café da manhã no hotel, entramos em nosso microônibus e partimos para a igreja da Medalha Milagrosa, na famosa Rue Du Bac, onde Nossa Senhora apareceu à Santa Catarina Labouré pela primeira vez no dia 18 de julho de 1830. Lá assistimos à Missa Gregoriana, desta vez celebrada pelo Padre Gonzáles em uma saleta acima da nave central. Padre Gonzáles enfatizou a necessidade de termos uma vida intensa de oração, especialmente o Terço e a Adoração ao Santíssimo Sacramento. Disse-nos com toda firmeza que não tinha nenhum sentido tanto fervor no combate ao modernismo e tanta luta pela implementação da Missa de São Pio V se não estivéssemos ancorados na oração constante. Novamente, foi como se Deus tivesse enviado um anjo do Céu para nos dizer todas aquelas coisas.
Depois da Missa fomos ver o corpo incorrupto de Santa Catarina. Uma religiosa francesa que trabalhava no local ficou muito surpresa por conhecer um grupo de peregrinos brasileiros tão compenetrados e simpatizou com os dois padres que nos acompanhavam. Recebemos santinhos com a imagem de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa e uma medalhinha dourada colada no alto. Que lindo presente! Quando Padre José Leite disse-lhe que acabáramos de sair da Missa de São Pio V celebrada ali mesmo, a boa freira abriu um pouco a boca, franziu a testa e fez uma cara que não nos deixava saber ao certo o que estava pensando. Alguns segundos depois, perguntou-nos se fazíamos parte da “Fraternitè Saint Pie X”. Padre Gonzáles mal disfarçou sua vontade de rir, porém, se recompôs imediatamente e disse que os dois eram sacerdotes diocesanos das cidades de Taboão da Serra e Belo Horizonte, respectivamente, e que aqueles eram fiéis vindos de diferentes lugares do Brasil. A freirinha então respirou aliviada e deu um sorriso amarelo. Agradecemos os presentes e partimos.
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A tarde estava reservada para uma visita à igreja de Saint Nicholas du Chardonnet, na rue des Bernardins. Estávamos eletrizados porque iríamos rezar o Terço do dia numa igreja especialíssima para a história da Tradição Católica. A visita fora intermediada por um padre brasileiro da Fraternidade de São Pio X, que conhecia o padre Gonzáles desde os tempos de seminário, quando os dois tomaram rumos diferentes. Assim, logo na chegada, fomos acolhidos pelo Padre Jean Pierre, que nos mostrou toda igreja, desde o belo altar em mármore, com dois enormes anjos nas laterais, o enorme crucifixo de madeira, a estátua de Nossa Senhora Rainha do Clero, a impressionante pintura da ressurreição da filha de Jairo e diversas outras magníficas obras de arte. Mais calmos depois da visita panorâmica pelo interior da igreja, sentamo-nos para rezar o Terço, que foi conduzido pelo Padre José Leite. Padre Jean Pierre nos acompanhou, rezando em espanhol com forte sotaque francês.
Depois do Terço, fomos conduzidos a um salão paroquial, onde ouvimos uma palestra sobre a vida de Monsenhor Lefebvre. Ademais, ganhamos folhetos bilíngües em francês/espanhol sobre a história da igreja Saint Nicholas du Chardonnet e sua ocupação pelos padres da Fraternidade. Em seguida, fomos convidados a passar para uma outra sala. Qual não foi a nossa surpresa ao depararmo-nos com uma mesa repleta de croissants, biscoitos amanteigados com pedacinhos de amêndoas, jarras de suco e café com leite. Naturalmente, aquela era uma visão agradável. Uma senhora branca como a neve de bochechas rosadas e sorriso largo trouxe-nos uma bandeja com xícaras empilhadas, açúcar e adoçante. Olhamos para a porta que se abria com um rangido e vimos dois outros padres entrando para nos conhecer. Um deles era baixinho, gorducho, de cabelos grisalhos e dentes largos. O outro era negro, alto e magro. Ambos foram muito gentis e sorridentes. Abbé Claude Chevalier, o baixinho, queria que lhe contássemos tudo sobre o Brasil, se já conhecíamos o priorado de São Paulo e a igreja do Rio Grande do Sul; tinha uma prima em Santa Catarina e parecia estar bem informado a respeito da política nacional e dos acontecimentos eclesiais em nosso país. Falava um espanhol ainda mais carregado do que nosso anfitrião, Abbé Jean Pierre. Já o padre alto e magro vinha de um priorado na África e estava em Paris apenas por alguns dias. Não falava espanhol e Dr. Oswaldo teve que traduzir suas palavras para nós. Padre Njba Nakba tinha um semblante sério e imponente, que a princípio amedrontava, mas transformava-se completamente quando sorria. Contou-nos um pouco de sua vida missionária na África e de seu desejo de um dia conhecer o Brasil, especialmente, se a Providência Divina o enviasse para o estado do Amazonas.
Saímos de Saint Nicholas no início da noite e fomos para o nosso hotel às margens do Sena. Na mesa de jantar recapitulamos tudo o que havíamos vivido naquele dia. Irmã Maria das Dores parecia um tanto desconcertada com a experiência do encontro com os padres da FSSPX. Os jovens de Goiânia estavam empolgados, como sempre. Os adolescentes Felipe e Paulinho imitaram o sotaque e os gestos dos padres franceses, o que nos proporcionou muitas gargalhadas. Pedro Henrique nos contou que aquele encontro só reforçara sua decisão de ser um sacerdote. Dona Margarida ficara encantada com os biscoitinhos de amêndoa. Já nossos padres acompanhantes falaram de maneira serena e equilibrada qual deveria ser a nossa postura diante dos diversos grupos da Tradição católica que lutavam pela restauração da Missa Tradicional e como deveríamos nos portar diante do clero progressista. Encerramos a noite com uma oração e fomos nos deitar.
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Os dias seguintes transcorreram em paz e harmonia. Visitamos Chartres, Lisieux, Lourdes e Ars. Algumas vezes rezávamos o Terço dentro do ônibus, outras, em alguma das igrejas onde as Missas eram celebradas e as confissões eram ouvidas pelos dois padres durante toda a peregrinação.
Depois daquela experiência inusitada em Saint Nicholas do Chardonet, tivemos ainda a oportunidade de conversar longamente com alguns padres da Fraternidade de São Pedro que encontramos em Ars. Como somente Dr. Oswaldo e a pediatra Dra. Rita de Cássia dominavam o francês, ficávamos gratos quando podíamos ouvir algo em inglês ou espanhol. Felizmente, muitos desses padres falavam pelo menos dois desses idiomas. Lamentavelmente, não pudemos visitar o seminário do IBP em Courtalain, como tanto desejavam os rapazes vocacionados. Tínhamos que ir à Fátima antes de retornar ao Brasil.
Deixamos a França num dia chuvoso de setembro. Estávamos cansados, mas felizes por tudo o que nos ocorrera nas terras de Santa Joana D’Arc, São Denis, São Vicente de Paulo, Santa Teresinha de Lisieux e tantos outros santos e santas que consumiram suas vidas por Nosso Senhor e pela Fé Católica. Partíamos agora para Fátima, em Portugal, onde pediríamos a intercessão da Rainha do Sacratíssimo Rosário por todos os fiéis que ainda enfrentam forte oposição por parte de seus bispos para ter a Missa de Sempre em suas dioceses. Levaríamos os pedidos de oração de nossos familiares e amigos e de todos aqueles que não puderam vir conosco por falta de recursos financeiros. Enfim, rezaríamos especialmente pelo Santo Padre Bento XVI, para que o Bom Deus o protegesse e guiasse.
E assim embarcamos no avião para Lisboa. Se houvesse um detector de pensamentos acoplado às nossas cabeças, certamente, captaria os belíssimos versos do hino que ouvíramos em Ars e que traduzia com perfeição nossas disposições interiores:
Ubi caritas et amor, Deus ibi est.
Simul ergo cum in unum congregamur,
Ne nos mente dividamur, caveamus.
Cessent iurgia maligna, cessent lites.
Et in medio nostri sit Christus Deus.
[Onde existe caridade e amor, existe Deus,
Unamo-nos então ao mesmo tempo,
Não nos dividamos no ânimo e não nos evitemos.
Que cessem as contendas malignas,
Que cessem os litígios,
e que Cristo Nosso Senhor esteja no meio de nós]
Os nomes dos personagens e os fatos narrados neste conto são fictícios, qualquer semelhança é mera coincidência.
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"... muitos dos que se dizem católicos ajudam os «revolucionários» . São esses, sempre «moderados», que estimam a «tranquilidade pública» como o bem supremo. Esses católicos tolerantes, condescendentes, brandos, doces, amáveis ao extremo com os maçons e furiosos inimigos de Jesus Cristo, guardam todo seu mau humor para os que gritam «Viva a Religião!» e a defendem sofrendo contínuas penalidades e expondo suas vidas. Para eles, esses últimos são «exagerados e imprudentes, que tudo comprometem com prejuízo dos interesses da Igreja» ".
Que tenho eu, Senhor Jesus, que não me tenhais dado?… Que sei eu que Vós não me tenhais ensinado?… Que valho eu se não estou ao vosso lado? Que mereço eu, se a Vós não estou unido?… Perdoai-me os erros que contra Vós tenho cometido. Pois me criastes sem que o merecesse… E me redimistes sem que Vo-lo pedisse… Muito fizestes ao me criar, muito em me redimir, e não sereis menos generoso em perdoar-me. Pois o muito sangue que derramastes e a acerba morte que padecestes não foram pelos anjos que Vos louvam, senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem… Se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos; Se Vos tenho injuriado, deixai-me louvar-Vos; Se Vos tenho ofendido, deixai-me servir-Vos. Porque é mais morte que vida, a que não empregada em vosso santo serviço… - Padre Mateo Crawley-Boevey