A equipe de liturgia.

Eu, porém, me regozijarei no Senhor e exultarei no Deus meu Salvador.” (Hab 3, 18)

Por Marcela A. de Castro

– É o fim da picada! Ouvi dizer que ele chegou até mesmo a dispensar as coroinhas meninas na missa das 18:30h. – indagou Álvaro irritado.

A equipe de liturgia reunia-se todos os sábados à tarde na sala de catequese da paróquia para preparar a animação litúrgica da missa das crianças. Em geral, cuidavam também da preparação da missa dos jovens, ou melhor, costumavam cuidar, porque depois da chegada do padre José Leite, as coisas começaram a mudar. Doravante teriam de se restringir apenas à missa dominical das crianças, às 10h, e isso se o jovem padre não resolvesse meter o bedelho onde não era chamado.

Aquela era uma reunião extraordinária, convocada em caráter emergencial para discutir estratégias e soluções para lidar com o novo padre com costumes estranhos. Excepcionalmente, a reunião fora transferida para a casa de Álvaro, onde poderiam conversar sem serem surpreendidos pelo objeto da discussão.

Álvaro era um professor de matemática solteirão que, além de cuidar da animação litúrgica, dava aulas de catequese para o grupo de Crisma. De vez em quando namorava uma crismanda ou uma moça do grupo jovem, mas nada muito sério. Ana Paula era uma jovem estudante de psicologia de cabelos longos e sorriso largo. Era a catequista das crianças que se preparavam para a Primeira Comunhão, juntamente com Débora, uma professora primária aposentada e sem filhos. Pedro Henrique, um gorducho de cabelos lambidos, tocava violão e guitarra nas missas e organizava as músicas a serem cantadas e ensaiadas pelo coral jovem. O casal João Vicente e Maria Luiza era responsável pela organização do Ofertório, pelas danças litúrgicas e por todas as peças teatrais a serem apresentadas durante as missas dominicais.

A missa das 7h era sempre celebrada pelo padre Antonio para os idosos madrugadores e membros da Liga Mariana de Oração, que não faziam questão alguma de qualquer animação litúrgica. E agora a Missa das 18:30h, que antes era a “Missa dos Jovens”, passara a ser celebrada por aquele padre que se vestia de pingüim. Já não se podia mais dizer que era a missa dos jovens.

– Temos que fazer alguma coisa. Ele não pode chegar aqui de uma hora para outra e mudar tudo. Trabalhamos nessa equipe há mais de seis anos. Organizamos todos os eventos da paróquia, fazemos tudo com dedicação e agora ele diz que o que fazemos não está certo – exclamou Débora.

– Ele simplesmente quer acabar com o nosso trabalho. Imaginem que ele teve o desplante de pedir ao Padre Antonio que proibisse o Francisco César de fazer a homilia nas missas. Optamos pelo Francisco justamente para poupar o Padre Antonio por causa de sua idade. O pobre já não fala mais a linguagem do povo. Para dizer a verdade, ninguém entende mais o que o velho fala. Parece que tem um ovo entalado na garganta – disse Pedro Henrique.

Maria Luiza e João Vicente estavam muito irritados porque Padre José Leite pedira-lhes para não preparar mais as danças litúrgicas para as missas da 18:30h. Disse-lhes que não havia muito sentido em ver adolescentes com vestes esvoaçantes e barriga de fora dançando na procissão do Ofertório. Para eles, aquilo só poderia mesmo revelar uma grande ignorância do papel da dança litúrgica na celebração eucarística da parte do padre.

– Ele simplesmente está por fora da Pastoral Litúrgica – disse João Vicente.

– Acho que ele nunca leu nada sobre o papel dos leigos na Igreja – complementou Maria Luiza.

– Tá por fora dos documentos de Puebla, Medellin e Aparecida – enfatizou Álvaro.

– Será que alguma vez ele leu as diretrizes da Comissão Latino-Americana para Animação Litúrgica? – complementou Débora.

– Claro que não! – disse Álvaro. – Ele chegou aqui ontem e já tá botando banca. O pobre do padre Antonio que se cuide. E tem mais, do jeito que as coisas andam, os jovens vão sair da igreja. Soube outro dia que ele vai começar a celebrar a Missa Antiga. Aquela em que o padre fica de costas para o povo.

– Peraí… Tu tá falando sério? É aquela missa em latim, aquela que ninguém entende nada? – Indagou Ana com a testa franzida e um meio sorriso debochado.

– É essa mesmo – respondeu Álvaro. – Sabia que ele está forçando a barra para as pessoas comungarem na boca? E ainda disse que as pessoas que quisessem podiam se ajoelhar na hora da comunhão. Ouvi dizer que vai mandar colocar um genuflexório na hora da Comunhão. E a gripe suína? E a Aids? Por acaso Jesus deu a Comunhão na boca dos Apóstolos?

– Temos que fazer alguma coisa. Se a situação não melhorar, teremos que marcar uma audiência com Dom Irineu Serra.

– E o pior é que há quem goste, disse Débora.

– Ouvi dizer que ele até fundou um grupo: uma tal de Confraria de Santa … Santa Genoveva ou Germana, Santa Alguma Coisa, não me lembro bem. Eles ficam na casa de um aposentado estudando a tal da Missa Antiga. Deve ser um bando de gente velha e ultrapassada. Onde já se viu, missa de costas para o povo.

– As senhorinhas da Liga Mariana de Oração estão adorando. Dona Jurema até assa bolinhos e tortas para ele. – “Oh, o pobrezinho é magrinho, precisa se alimentar.” – caçoou João Vicente enquanto arregalava os olhos e fazia a voz fina e adocicada de Dona Jurema.

* * *

– Come mais um pedacinho de pudim de pão, padre, por favor. Eu fiz pro sinhô – disse Dona Jurema fitando o jovem padre com um olhar carinhoso, enquanto colocava ela mesma mais uma lasca de pudim no seu prato.

Dona Jurema morava numa casinha simples de quatro cômodos, um pouco afastada da igreja do Sagrado Coração de Jesus. As paredes da sala, pintadas de azul claro, imploravam por uma pintura nova. Delas pendiam um crucifixo de madeira, um quadro do Papa João Paulo II, uma pombinha do Divino Espírito Santo com o bico e pés dourados e uma gravura do Sagrado Coração de Jesus ao lado do Imaculado Coração de Maria. Havia também alguns retratos de família espalhados nas paredes. O principal era sua fotografia de casamento com o falecido Jorge, pedreiro de mão cheia, como costumava dizer. Na mesinha do canto, forrada com uma toalha branca com bordas de crochê, repousavam Nossa Senhora Aparecida, Santa Filomena, Santo Antônio e Santa Teresinha, além de uma Bíblia com orelhas amassadas, um jarrinho de flores de plástico e um castiçal de vidro com a vela pela metade.

Agora que seus filhos estavam todos criados, uma de suas maiores alegrias era cuidar do jovem padre José Leite, como se fora ele mesmo um de seus netos queridos. Aos setenta e sete anos, a maranhense descendente de escravos ainda tinha energia o bastante para cuidar da casa, fazer compras, cuidar da horta no fundo do quintal, tomar conta dos netos quando suas filhas e noras precisavam ir ao centro da cidade e participar das atividades da igreja.

Dona Jurema era um exemplo vivo do catolicismo tradicional, daquele catolicismo autêntico e despretensioso que parece ter desaparecido das capitais. Sem muito estudo teológico e alheia a qualquer discussão doutrinal, ela simplesmente vivia o seu dia-a-dia seguindo os ensinamentos que aprendera de seus pais. Caminhava vinte minutos todos os dias para assistir a missa das sete, rezava o Terço à tardinha e aos sábados participava das reuniões da Liga Mariana de Oração. De vez em quando, ela e suas companheiras da Liga se reuniam para bordar as toalhas e paninhos que seriam usados na igreja. Nessas ocasiões não apenas rezavam, como também colocavam os assuntos pessoais em dia, trocavam receitas culinárias e davam umas boas gargalhadas das coisas mais bobas possíveis. Não tinha TV nem computador. “E por que haveria de precisar dessas geringonças que não prestam pra nada?” – se indagava.

– Desse jeito vou virar um elefante, Dona Jurema – disse padre José Leite piscando o olho direito. – Mas vou aceitar só mais um pedacinho. Seu pudim está uma delícia!

– Que bom que o sinhô gostó, padre José Leite – respondeu Dona Jurema juntando as mãos em frente da boca com um pequeno estalo.

Aquele havia sido um dia exaustivo. De manhã bem cedo, a Missa Gregoriana sine populo na paróquia. Em seguida, o atendimento semanal aos doentes do hospital, que lhe tomava a manhã toda. Depois, almoço e uma horinha de cochilo, para logo em seguida correr com os dois acólitos para a casa de Dr. Oswaldo, onde daria catequese para os membros da Confraria de Santa Gertrudes. Finalmente, missa paroquial às 18:30h. Assim, estar na casa da boa Dona Jurema no final da noite para fazer um lanchinho era tudo o que ele precisava.

Lamentavelmente, muitos se esquecem que os padres também são seres de carne, osso e sentimentos e que, sobretudo, os mais jovens, sentem falta de um acalanto na alma, de uma avózinha postiça que amorosamente lhes coe um café fresquinho, com aquele aroma que nenhum bar, por melhor que seja, consegue reproduzir, de alguém que lhes sirva bolos de fubá e pão com manteiga passado na frigideira.

A família do jovem Padre José Leite morava em outra cidade, a muitos quilômetros de distância. Assim, era lá que o jovem cura ia, de vez em quando, para reabastecer suas energias afetivas para recomeçar a batalha no dia seguinte.

– Dona Jurema, por favor, reze pelo meu apostolado. Soube que algumas pessoas da paróquia não estão muito contentes com a minha chegada. Alguns não entendem que a Santa Missa não é um teatro ou um show e que precisamos fazer de tudo para restaurar o silêncio e a devoção. Alguns paroquianos não entendem que precisamos restaurar a Missa Antiga.

– Ai, minha Nossa Senhora Aparecida! O que o sinhô tá me dizendo, padre? – exclamou Dona Jurema enquanto esbugalhava os olhos daquela maneira que só ela sabia fazer e que muitas vezes causava o riso imediato de quem a via com aquela expressão.

– Padre, quando eu era mocinha a gente só conhecia essa missa. Naquele tempo havia silêncio dentro das igrejas. Agente podia rezar o Terço sossegado antes das missas. As moças não iam pra Missa quase peladas do jeito que vão hoje em dia e até as crianças se comportavam melhor. Essas pessoas não vão conseguir prejudicar o sinhô.

– Por favor, não comente isso com ninguém, Dona Jurema. Apenas reze. Sei que posso confiar na senhora.

– Vô rezá pro sinhô, sim, padre. Meu São Benedito, valei-nos!

* * *

No dia seguinte, Padre José Leite celebrou a Missa Nova das 18:30h, como de costume. No entanto, parecia mais aliviado e sereno do que nas semanas anteriores. Nem mesmo os rumores que haviam chegado aos seus ouvidos naquela manhã de domingo sobre uma possível queixa a Dom Irineu Serra por parte da equipe de liturgia conseguiam perturbar sua paz interior. Sentia como se um grande peso tivesse saído de suas costas. Em uma palavra: queria fazer a vontade de Deus!

Assim, na parte destinada aos avisos, antes da ‘Benção Final’, padre José Leite anunciou alto e em bom tom: “Meus queridos irmãos e irmãs, gostaria de convidá-los para a celebração da Missa Gregoriana aqui na paróquia, a começar no próximo domingo, às 16h. Não acabaremos com essa missa das 18:30h, apenas acrescentaremos mais uma Missa em outro horário. Vamos precisar nos esforçar para aprender mais sobre o Rito Antigo. Quem puder venha à reunião no próximo sábado, às 20h, onde faremos uma exposição resumida de como devemos nos comportar nessa Missa. Por favor, peguem os folhetos explicativos com o Sr. Francisco à saída da igreja.”

– O Senhor esteja convosco! – aclamou padre José Leite.

– Ele está no meio de nós. – responderam os fiéis.

– Abençoe-vos Deus todo-poderoso: Pai, Filho e Espírito Santo.

– Amém!

– Ide em paz e o Senhor vos acompanhe.

– Graças a Deus! – Responderam os fiéis e logo em seguida entoaram um canto em honra à Nossa Senhora.

* * *

Os membros da Equipe de Liturgia não podiam acreditar no que acabavam de ouvir.

– Não é possível. Então, era verdade! – exclamou Débora de queixo caído.

– Caramba! Ele embirutou de vez! – pensou Álvaro.

Enquanto isso, Dona Jurema, as senhorinhas da Liga Mariana de Oração, os membros da Confraria de Santa Gertrudes e os dois coroinhas não conseguiam esconder seu contentamento. Finalmente, a muralha de Jericó havia caído!

Três dias mais tarde o evento seria anunciado num famoso blog brasileiro especializado em notícias da Tradição Católica. Vinte e oito leitores enviariam seus comentários felicitando os católicos de Taboão da Serra. Deo Gratias!

Os nomes dos personagens e os fatos narrados neste conto são fictícios, qualquer semelhança é mera coincidência.

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2 Comentários to “A equipe de liturgia.”

  1. Não sei quem é a Marcela, mas já sou fã dela!

    Que belos textos ela nos traz sempre.

  2. Coincidência ou não, é assim que parte do clero começará a agir… Coincidência ou não… É assim que os progressistas ficarão, de queixo caído!!!

    Que Nossa Senhora Aparecida proteja este jovem padre!!!

    Alegrai Taboão da Serra!!! Espero um dia poder compartilhar da mesma alegria…

    Pax Domini sit semper vobiscum…