A panfletagem.

“Ora et labora”

(São Bento de Núrsia)

Por Marcela A. de Castro

– Por favor, aceite este folheto para o senhor ler com calma quando chegar à casa, disse Evinha a mais um passante que parara para olhar aquele grupo inusitado de gente rezando o Terço na praça em plena sexta-feira.

– Acho que já entregamos bem uns duzentos folhetos até agora, sussurrou o Sr. Francisco para Evinha. – Queira Deus que esse povo vá à Missa.

– Se Deus quiser, Sr. Francisco. Se não fizermos isso, ninguém vai ficar sabendo de nada. O Padre José Leite já celebra a Missa Tridentina há 5 meses lá na igrejinha do Sagrado Coração de Jesus e até agora o jornal diocesano nunca publicou nada a respeito. Eles dizem que esse tipo de assunto não é para ser divulgado.

– É minha filha, nós sabemos bem o porquê – exclamou o Sr. Francisco com um suspiro enquanto meneava a cabeça. – Até tentei uma entrevista com o Padre José Leite na ‘Voz da Diocese’, mas eles negaram o meu pedido terminantemente. Disseram-me que não queriam nada que lembrasse os ‘cismáticos’. Não sei o que eles querem dizer com isso. Essa gente permite tudo, mas quando chega na hora da Missa Tradicional fazem uma verdadeira conspiração do silêncio.

– É, seu Francisco, isso é incrível mesmo. Outro dia estava folheando o jornal diocesano e fiquei estarrecida com o conteúdo. Encontros ecumênicos para cá, encontros inter-religiosos pra lá, padres cantores, shows, CDs e tudo mais. Basta ler para entender porque eles não têm nenhum interesse em divulgar algo sobre a Missa de nossos antepassados.

– Eu também liguei para o diretor da “Voz da Diocese”, mas ele nem me deu bola, acrescentou Luiz Antonio, que a tudo ouvira. – Meu medo é que eles acabem chamando um liberal ou um neo-conservador para falar da Missa Gregoriana e aí passem uma imagem preconceituosa para os incautos.

– Meus queridos, o Padre José Leite já vai começar o Segundo Mistério. No intervalo, distribuímos mais folhetos, admoestou o Dr. Oswaldo. – Vamos!

– Então, vamos nessa, respondeu o Sr. Francisco.

Novamente, o grupo interrompeu a distribuição dos folhetos e se voltou para a estátua de Nossa Senhora das Graças, no meio da Praça das Rosas.

Era por volta das cinco da tarde quando Padre José Leite anunciou o Segundo Mistério Doloroso. Aquela era a primeira ação ao ar livre para a divulgação da Forma Extraordinária do Rito Romano na periferia de Taboão da Serra. Era tudo muito simples; rezariam um Terço integralmente e, no intervalo entre um mistério e outro, o grupo distribuiria tantos folhetos quanto possível aos transeuntes, enquanto Padre José Leite faria uma catequese usando um megafone.

E assim foi. Após a recitação de cada mistério, o jovem cura fazia uma pequena prédica. Começava falando um pouquinho sobre o mistério contemplado e depois o relacionava a um tema específico. Ora, era sobre a presença de Jesus na Eucaristia; ora, sobre o combate espiritual; depois, a Confissão freqüente; o Espírito Santo e, finalmente, o papel de Nossa Senhora como modelo de virtudes. Tudo era dito de maneira muito simples e precisa, terminando sempre com um apelo para que se conhecesse mais o Rito Antigo.

Como previsto, lá estavam algumas senhoras da Liga Mariana de Oração, grande parte dos membros da Confraria de Santa Gertrudes, alguns paroquianos que haviam começado a assistir a Missa Gregoriana na paróquia, os dois acólitos e mais seis seminaristas da diocese de Pato Dourado, que haviam viajado duas horas e meia para ver de perto o que estava ocorrendo na igrejinha do padre José Leite e, para tal, passariam o final de semana acampados na casa paroquial.

O fluxo de passantes começava a aumentar, porque muitos já estavam chegando do trabalho. Alguns olhavam atentamente para o Pe. José Leite e estranhavam que ainda existissem padres tão piedosos, especialmente, sendo tão jovem. Outros se indagavam sobre a origem do grupo e porque as mulheres estavam todas vestidas daquele jeito. Seriam da TFP ou dos Arautos, indagavam-se.

Os folhetos haviam sido impressos em uma gráfica no centro da cidade. Além dos fiéis habituais da paróquia, Padre José Leite recebera uma doação generosa de um instituto tradicionalista da Itália, o que lhe permitiu encomendar uma tiragem de 2.000 folhetos em papel glacê. Estes nada mais eram do que uma folha em formato A-4 com três dobraduras, contendo as informações básicas sobre o Rito Antigo e uma bela foto na capa.

* * *

Seis e meia e o Terço já havia terminado. Algumas pessoas se aproximavam do Padre José Leite apenas para pedir uma benção. Um homem de meia idade queria saber se gente velha podia fazer a Primeira Comunhão. Outros ainda perguntavam se isso ou aquilo era pecado. Um rapaz de uns trinta e cinco anos queria saber como fazer para se casar na igreja, embora já coabitasse com sua companheira há dez anos. Padre José Leite respondia a todos com amabilidade, porém, de maneira sucinta, convidando-os a freqüentar as missas e encontros catequéticos da paróquia.

Enfim, a panfletagem pró-Missa Gregoriana resultara numa oportunidade de evangelização muito mais abrangente do que inicialmente previsto.

* * *

– Me diga o que está acontecendo, meu filho. Que estória é essa envolvendo os garotos do seminário de Pato Dourado? – Perguntou Dom Irineu Serra com um olhar inquisidor, acentuado ainda mais por suas espessas sobrancelhas grisalhas que se uniam em ‘v’ acima do nariz. – O reitor do seminário de lá, Padre Régis, me ligou essa semana muito preocupado, porque alguns seminaristas voltaram muito estranhos de um final de semana que teriam passado na sua paróquia. Eu posso saber o que está acontecendo?

Padre José Leite estava lívido. Então, era esse o motivo da reunião convocada às pressas no gabinete do seu bispo. Ele que fora preparado para dar uma explicação sobre os folhetos ou alguma reclamação adicional da Equipe de Liturgia, agora se deparava com uma questão totalmente diferente.

– Dom Irineu, de fato, acolhi esses seis rapazes do Seminário de Pato Dourado no último fim de semana. Quatro são do Propedêutico e dois da Filosofia. Há cerca de um mês eles me mandaram um e-mail perguntando se poderiam visitar a nossa paróquia para conhecer um pouco mais sobre a Missa Gregoriana. Eles queriam passar um fim de semana conosco. Eu apenas lhes respondi que por mim seria uma alegria conhecê-los, nada mais. Na sexta-feira eu e meus paroquianos fomos rezar um Terço na Praça das Rosas e lá estavam os garotos. Eles simplesmente souberam do Terço na praça e acharam que era uma boa hora para fazer a tal visita. Eles chegaram com as suas mochilas e eu não podia fazer nada além de levá-los para a paróquia. Não podia mandá-los de volta, pois eles queriam ficar até o domingo.

– Pois é, mas agora quem está em apuros é o Padre Régis. Disse-me que esses meninos só falam no que viram por aqui e que estão questionando as coisas por lá e que a culpa é toda sua, que andou colocando caraminholas na cabeça deles.

– Sinto muito, Dom Serra. Não tive a intenção de causar qualquer transtorno para o seminário de Pato Dourado.

– Está bem meu filho. Era só isso que eu tinha para lhe falar. Só queria deixar bem claro que não podemos interferir no governo das dioceses vizinhas. Sempre tivemos um ótimo relacionamento com Pato Dourado e gostaria que as coisas continuassem desse jeito. Da próxima vez, é melhor que esses rapazes tragam uma carta de recomendação antes de virem para cá, para não termos problemas futuros. – Agora pode ir, meu filho. Terei um compromisso daqui a dez minutos. Dê lembranças ao Pe. Antonio.

* * *

Padre José Leite suspirou aliviado ao sair do gabinete de Dom Irineu e foi caminhando a pé até o ponto de ônibus pensando na conversa que tivera. Como estariam os meninos a essa hora, indagou-se. Imaginou o cara do Pe. Régis e teve vontade de rir.

O Seminário São Carlos Borromeu, na diocese de Pato Dourado, era simplesmente um dos mais progressistas de todo o país. Os relatos davam conta de coisas do arco da velha. O tempo todo se falava em capacitação de leigos, inculturação litúrgica, atividades ecumênicas, inter-religiosas, evangelização pelos meios de comunicação e algumas outras coisas que até poderiam ser interessantes, mas que jamais poderiam excluir a vida de oração e piedade na formação dos seminaristas. Estes, em número cada vez mais reduzido, simplesmente não tinham uma direção espiritual consistente. Muitos passavam horas ociosas apenas fuçando a Internet. Alguns freqüentavam bares e locais não muito recomendáveis nos finais de semana e os que não se sentiam muito confortáveis com o ambiente excessivamente liberal eram isolados pelos demais.  Isso sem contar com a presença de professores com tendências ultraprogressistas, alguns dos quais até mesmo com orientação sexual duvidosa. Dizia-se em São Carlos Borromeu que a oração estava embutida na ação e que os pobres eram sacramentos vivos.

Assim, como ele poderia deixar aqueles pobres rapazes sem uma perspectiva de sacerdócio mais elevada? Indubitavelmente, aquele fora um final de semana marcante para os rapazes e era natural que agora vissem o mundo com outros olhos. E, ainda por cima, eles queriam voltar no próximo feriadão…! “Agora eu tô lascado!”, pensou Pe. José Leite com os seus botões, rindo para si mesmo da encrenca em que se metera.

* * *

– Freeeitas! Dá um pulo aqui na minha sala, por favor.

– Sim, chefe, tô indo. – respondeu o repórter descolado enquanto se levantava de sua mesa para ir ao encontro do chefe.

– Pega esse folheto, leia. Quero que você faça uma matéria com esse padre. Minha mulher tava andando pela praça na sexta-feira passada e disse que tinha um grupo de católicos meio diferentes rezando o Terço ou coisa parecida. Ela foi à tal missa do folheto com a minha sogra e agora fica buzinando no pé do meu ouvido para fazer uma entrevista com esse padre. Parece que eles rezam em latim e fazem umas coisas esquisitas durante a Missa.

– Ah, pela foto é aquela Missa Antiga antes do Concílio.

– Sei lá. Investigue você. Fale com o padre, entreviste alguns fiéis. Tire fotos das mulheres de véu. Quero fotos! – pediu o redator chefe do “Diário de Taboão da Serra”.

– Ok. Deixa comigo, chefe. Vou ligar para a igreja agora mesmo.

Os nomes dos personagens e os fatos narrados neste conto são fictícios, qualquer semelhança é mera coincidência.

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5 Comentários to “A panfletagem.”

  1. Está muito interessante ler o desenrolar desta história.
    Uma curiosidade. Os fatos estão sendo narrados conforme acontecem, ou já aconteceram a muito tempo?

  2. Marcela,
    Salve Maria!

    Cabe-me a grande honra, que é simultaneamente um enorme prazer, de proferir um elogio aos seus escritos.

    Continue escrevendo!

    Que Nossa Senhora de Fátima a proteja.

  3. Prezados(as),
    Salve Maria!

    Como diria um conhecido professor, e me perdoem o italiano:

    “Si no eh vero, é bem trovatto”

    Estes temas poderão gerar um bom livro, que dará bons frutos, com a graça de Deus!

    AMDG,
    RVGarcia

  4. Essa série de crônicas é muito interessante… A gente fica querendo cada vez mais ver o desenrolar da história…

  5. Coincidência ou não, um Grupo Católico de Brasília, ao qual tenho a graça de pertencer, também fez neste fim-de-semana, um apostolado pró-Missa Tridentina durante um evento carismático que ocorre anualmente. O apostolado foi desenvolvido através de panfletagem que foram entregues diretamente às pessoas que chegavam para o evento.

    Foram confeccionados mais de 5000 panfletos com uma imagem que representa a celebração da Santa Missa onde, é possível observar em sua parte superior a comunhão dos Santos, a Igreja Triunfante assistindo a renovação do Augusto Sacrifício, no centro o altar, com o sacerdote consagrando a hóstia com a assistência da Igreja Militante e na parte inferior, no Purgatório, a Igreja Padecente, recebendo as graças advindas da Santa Missa. No verso, textos com instruções referente o caráter sacrifical da Santa Missa, com o titulo de “Missa Tridentina”, uma vez que o objetivo é divulgar a Santa Missa em seu Rito Extraordinário e informações dos locais onde é celebrada em Brasília. Embora com mesma gravura, o panfleto teve duas versões de textos sobre a Santa Missa, onde, um trata do seu valiosíssimo significado, o sacrifical, e, outro texto com caráter histórico, com um breve resumo referente ao Rito Extraordinário, ou Missa Tridentina, como é mais comumente conhecido o Rito.

    O panfleto foi fruto da união de idéias de membros do Grupo que trabalharam para pôr em pratica o objetivo da divulgação da Santa Missa, pois, não há por parte da Arquidiocese qualquer forma de publicidade a respeito da Santa Missa, que muito pelo contrário, vê com maus olhos a celebração desta “Missa retrograda”, embora o Santo Padre, o Papa, a queira em todas as paróquias.

    Estimamos que durante o evento, tenham sido entregues mais de 4000 panfletos e esperamos em Deus, que surta um efeito positivo, para maior glória de Deus, Nosso Senhor, da Santa Igreja e para salvação das almas.

    Salve Maria!