A visão equilibrada.

Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno.” (Mateus, 5, 37)

Por Marcela A. de Castro

– Pois é, foi o tio dele, o Cônego Oscar de Souza, quem o ajudou a ter uma visão equilibrada das coisas. Parece que o Pe. Hamilton estava indo por um caminho tradicionalista muito exagerado e o tio desempenhou um papel fundamental para que ele ficasse mais aberto às diferenças eclesiais – disse Kátia com grande entusiasmo.

– Kátia, meu bem, você poderia me dizer o que significa “um caminho tradicionalista muito exagerado”? – indagou Evinha a sua amiga. Pelo que sei, o Cônego Oscar nunca foi simpático ao catolicismo tradicional e nunca moveu uma palha a favor da Missa Tradicional, como é que ele pode saber o que significa a tal visão equilibrada se ele está completamente por fora do universo trad? – argumentou Evinha com certa irritação na voz.

– Isso eu não sei te dizer, Evinha. Só sei que agora o Pe. Hamilton não fala mais daquela maneira que costumava falar. Está mais equilibrado. Bom, amiga, vou ter que desligar agora porque o Pedrinho vem me buscar daqui a pouco para irmos ao shopping e eu preciso me embonecar. Beeeeeijos.

– Tchau Kátia. A gente se fala. Fica com Deus, disse Evinha meio atordoada, colocando o fone no gancho.

O que dizer da conversa que acabara de ter com sua amiga de longa data? Em uma palavra, Evinha sentia-se frustrada. Sentia-se frustrada com os prelados como o Cônego Oscar, sentia-se frustrada com o Pe. Hamilton, que aparentemente abandonara o combate pela Tradição, sentia-se frustrada com seus amigos conservadores e, principalmente, sentia-se frustrada consigo mesma por não saber transmitir seu amor ao catolicismo tradicional.

Foi até a cozinha; precisava fazer alguma coisa para pôr os pensamentos em ordem. Abriu a geladeira e viu que ainda restava uma boa fatia de pizza de atum e uma latinha de coca-cola. Aqueceu a pizza no microondas; sentou-se na mesinha da cozinha para lanchar e ficou pensando com seus botões.

Por mais que tentasse explicar o ponto de vista dos católicos tradicionais à Kátia, era como se tudo que lhe explicava entrasse por um ouvido e saísse pelo outro. Não que Kátia fosse burra ou católica não praticante. Pelo contrário, Kátia era a pessoa mais enfurnada nas pastorais da Igreja que conhecia. Mas porque cargas d’água Kátia achava que os católicos tradicionais engajados na promoção da Missa Tradicional eram todos exagerados? Talvez nem ela mesmo soubesse explicar.

Certamente, havia alguns exageros e gente estranha dentre os chamados católicos tradicionais. Ela mesma não conseguia aceitar que alguns trads desconfiassem de absolutamente todos os santos canonizados depois do Concílio ou que outros fossem um pouco esquentados ao explicar seus pontos de vista. Contudo, esses exageros nem se comparavam àqueles encontrados entre os conservadores, que aceitavam ou se calavam em face das coisas mais bizarras e inimagináveis para a Fé Católica, tudo em nome da “caridade”. Quem eram eles para dizer o que era uma postura tradicionalista exagerada, se nem mesmo se davam o trabalho de estudar o ponto de vista que atacavam? Muitos católicos conservadores até admitiam que se pudesse gostar da Missa Gregoriana, mas se alguém lhes dissesse que ela era superior à Missa Nova na expressão da Fé Católica ou que havia uma grave crise na Igreja, isso logo era motivo para serem considerados exagerados ou radicais.

E lá estava ela atracada na pizza. O que faria uma alma carmelitana numa hora dessas? – indagou-se. Certamente, não apelaria para guloseimas, apertaria o cinto ainda mais e rezaria. Sim, então era o que precisava fazer. Daria um pulo na capela das Irmãs de Santa Teresinha para rezar o Terço e entregar a situação confusa nas mãos daquela que era o Refúgio dos Pecadores.

* * *

– Irmã Graça, o que você acha de usarmos essa linha especial para bordar as pétalas? – perguntou Irmã Maria Auxiliadora à sua companheira.

– Parece ótimo, Irmã Auxiliadora. Assim, elas ficarão mais gordinhas, respondeu Irmã Graça com sotaque típico do interior paulista.

– Acho que esse fio de ouro ficará muito bem para bordar o contorno da cruz e fará o contraste com o branco das pétalas.

– Concordo. Essa casula vai ficar linda!

– Temos que trabalhar rápido, Irmã. Os paroquianos do Pe. José Leite pediram a encomenda para meados de janeiro. Ele ainda não sabe de nada.

– É verdade. Eles querem fazer uma surpresa para o dia da Sagrada Família. Mas agora o sino nos chama, irmãzinha. A gente recomeça na parte da tarde – respondeu irmã Graça levantando-se.

As duas religiosas caminharam até a capela em silêncio. Rezariam a Sexta e depois almoçariam.

* * *

– Eles vieram me procurar outro dia e perguntaram se eu não queria entrevistar o tal padre lá na rádio. É claro que eu dei pra trás. É preciso tomar muuuuito cuidado com esse povo – disse o Pe. Matias enfaticamente, para o espanto das religiosas que o olhavam atônitas.

Bastou a Madre Maria Leonor falar que assistira uma Missa Gregoriana celebrada pelo Pe. José Leite Prado da Silva, para que o diretor da rádio diocesana começasse a despejar todo o seu preconceito contra os católicos tradicionais.

– Esse padre é jovem, mas parece que não regula muito bem. Não era pra ele ter essas idéias do tempo do onça. Onde já se viu querer voltar no tempo. Os fiéis querem participar. Ninguém quer ir à Missa pra sair sem entender nada. É preciso ter uma visão equilibrada. E se ele continuar com essa catequese do século passado, esse pessoal vai ficar bitolado.

Irmã Graça olhou para Irmã Maria Auxiliadora ruborizada. Seus lábios tremiam e sua respiração ficou pesada. Baixou os olhos em direção ao prato e pediu o auxílio divino para se controlar. Irmã Auxiliadora tocou seu braço gentilmente por debaixo da mesa e tentou tranqüilizá-la. As duas sentiam como se tivessem levado uma punhalada no peito. Pe. Matias fora até lá para encomendar paramentos litúrgicos, aproveitara o almoço e ainda tinha a cara de pau de falar mal do pobre Pe. José Leite, que, não obstante todas as suas atividades pastorais, ainda arranjava tempo para visitá-las e prestar-lhes algum auxílio espiritual sempre que solicitado.

Madre Maria Leonor olhou para as duas como que pedindo para ficarem calmas. Com quase trinta anos de profissão religiosa, Madre Leonor tornara-se uma perita em desvencilhar-se de situações embaraçosas. Tivera que lutar durante anos para aprender a controlar suas emoções. Mesmo assim, ao ouvir aquelas palavras tão duras de Pe. Matias a respeito do jovem Padre José Leite teve que envidar esforços extraordinários para não dizer o que pensava.

– Coma mais um pouco dessa farofa de torresmo, Pe. Matias. Irmã Anastácia, por favor, coloque mais uma coxa de frango no prato do padre, pediu a madre superiora com um sorriso todo peculiar. “Vamos mantê-lo com a boca bem ocupada para não falar tantas bobagens”, pensou consigo mesma, enquanto percebia o olhar divertido de suas companheiras, que imediatamente entenderam suas intenções.

– Ah, obrigado, madre. Vou comer mesmo. Vocês freiras cozinham como ninguém.

* * *

– Esse diretor da rádio é um herege!, – bradou Antonio Luiz.

– Eles vivem pedindo dinheiro para a rádio. E o povo ainda contribui. Eles fazem uma promoção danada do sentimentalismo pentecostal, convidam um monte de gente que não pratica a Fé Católica para dar entrevistas e de quebra ainda apresentam uns programas culturais chatos e dissociados da mentalidade católica. Certa vez convidaram um advogado meio abortista para uma mesa redonda. É lógico que não vão querer entrevistar o senhor, Pe. José Leite. – explicou o Sr. Francisco exaltado.

– Apostataram, perderam a Fé! – irritou-se Zé Otávio.

– Eu gosto do programa do Pe. Tito Pitanga. Ele é muito piedoso. Ele fala mesmo as coisas que tem que falar. Outro dia ele falou tão bonito sobre os bebezinhos abortados… – contemporizou Dona Jurema, sempre com seu jeito suave. – Eu também gosto do Terço. Acompanho todos os dias pela rádio – acrescentou.

Evinha olhou para Dona Jurema e se comoveu com sua doçura e ingenuidade. Em todas as discussões, Dona Jurema conseguia sempre ver um lado bom das coisas e não o fazia por dissimulação, era como que uma reação natural.

– Dona Jurema, querida. O que estamos discutindo aqui não é que a Rádio seja ruim de todo. Como a senhora mesmo disse, eles até apresentam algumas coisas boas, como o Terço e o programa do Pe. Tito. O problema é que no meio dessas coisas boas eles colocam umas coisas que não são legais para a Fé Católica.

– Ah…. exclamou Dona Jurema, arregalando os olhos com cara de espanto.

– Meus queridos, temos que ter muito cuidado com as nossas palavras, – admoestou Pe. José Leite de maneira ponderada. – Não podemos nos esquecer que estamos numa guerra. Até mesmo algumas pessoas que freqüentam as nossas missas não enxergam que há uma crise na Igreja. As pessoas a nossa volta pensam que gostamos da Missa Antiga apenas por um capricho. Muitos de nossos parentes não nos entendem. Estamos estudando essa questão da liturgia há alguns anos e já percebemos muita coisa. A maior parte dos católicos não teve acesso a um décimo do que estudamos até agora e muitos nem se interessam em estudar o catolicismo. Basta olhar a nossa volta. No mês passado tivemos a visita de seis seminaristas da diocese vizinha, e o que eles me contaram sobre a vida no seminário de Pato Dourado é de deixar o cabelo em pé.

– Então, como fazer padre? – indagou Evinha curiosa.

– Aconselho que os mais exaltados tenham cuidado na hora de expressar suas idéias. Falar sempre a verdade, mas com simplicidade e evitar a vanglória – respondeu o prudente sacerdote. – Não caiamos na tentação de nos acharmos melhores do que os outros.

– Ah…! Exclamou Dona Jurema, fitando o jovem padre com olhar enternecido.

– Agora vamos levantar para tomar um cafezinho e comer os biscoitos que vocês trouxeram – disse Pe. José Leite piscando o olho direito com ar zombeteiro. Na segunda parte da nossa reunião ouviremos o Rorate Caeli, uma bela canção, própria para o Advento.

* * *

Os nomes dos personagens e os fatos narrados neste conto são fictícios, qualquer semelhança é mera coincidência.

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