O Leão de Campos (VI): O bispo de Campos e o Magistério de Paulo VI.

Carta de Dom Antonio de Castro Mayer, bispo diocesano de Campos, ao Papa Paulo VI.

Campos, 25 de janeiro de 1974.

Beatíssimo Padre,

Prostrado respeitosamente aos pés de Vossa Santidade, peço vênia para submeter-lhe à consideração os estudos que seguem com a presente carta.

O envio destes estudos é feito em obediência à ordem de Vossa Santidade transmitida por carta do Eminentíssimo Cardeal D. Sebastião Baggio ao Eminentíssimo Cardeal D. Vicente Scherer, da qual este último me deu ciência oralmente em encontro que com ele tive no Rio de Janeiro a 24 de setembro próximo passado.

Em 15 de outubro último, tive a honra de escrever a Vossa Santidade, afirmando meu filial acatamento a tais ordens.

Entre estas, estava a de que, dada a eventualidade de “em consciência não estar eu de acordo” com “atos do atual Magistério Ordinário da Igreja”, “manifestasse livremente à Santa Sé” meu parecer. É o que faço com toda a reverência devida ao Augusto Vigário de Jesus Cristo, ao entregar a Vossa Santidade os três estudos anexos.

Com isto – digne-se Vossa Santidade notá-lo – não pratico outra coisa senão um ato de obediência à Sua veneranda determinação. As apreciações que neles externo, eu as formei ao longo de anos de reflexão e de oração. Não é minha intenção entregá-los ao público, certo de que minha reserva agradará a Vossa Santidade.

Eis que, Santo Padre, a obediência me obriga agora a comunicar a Vossa Santidade pensamentos que talvez lhe tragam pesar. Faço-o, no entanto, com paz de alma, pois estou na via da sinceridade e da obediência, na qual conto permanecer com a graça de Deus.

Mas, se está tranqüila minha consciência, ao mesmo tempo está triste meu coração.

Com efeito, toda a minha vida de Sacerdote e de Bispo vem sendo marcada pelo empenho de – no meu limitado ambiente de ação – ser, por meu devotamento irrestrito, e por minha obediência inteira, motivo de alegria para os vários Papas sob cuja autoridade tenho sucessivamente servido.

Ora, na presente conjuntura, o devotamento e a obediência me levam a contristar a Vossa Santidade.

Um episódio da História da França no século passado me acode ao espírito neste passo. Narra-o Chateaubriand nas “Mémoires d’Outre Tombe”. Certa vez o Rei Luís XVIII lhe solicitou a opinião sobre uma medida que o monarca acabava de tornar pública. A sinceridade impedia o escritor de elogiar tal medida. Mas o receio de contristar o Rei movia-o a calar-se. Esquivou-se, pois, de externar seu pensamento. Vendo isto, Luís XVIII mandou formalmente ao escritor que falasse com inteira franqueza. Este, atendendo ao nobre mandato, e antes de abrir-se a seu Rei, lhe dirigiu este pedido: “Sire, pardonnez ma fidélité”. É o que peço a Vossa Santidade: perdoe-me a fidelidade com que cumpro Suas ordens.

Suplico a Vossa Santidade compaixão para a obediência deste Bispo já septuagenário, que vive neste momento o episódio mais dramático de sua existência. E peço a Vossa Santidade que me dispense pelo menos uma parcela dessa compreensão e desse benevolência que tem tantas vezes manifestado não só em torno de si, como também com pessoas estranhas, e até inimigas do único redil do único Pastor.

Ao longo dos anos foi tomando corpo em meu espírito a convicção de que atos oficiais de Vossa Santidade não têm, com os dos Pontífices que o antecederam, aquela consonância que com toda a alma eu neles desejava ver.

Não se trata, é claro, de atos garantidos pelo carisma da infalibilidade. Assim, aquela minha convicção em nada abala a minha crença irrestrita e enlevada nas definições do Concílio Vaticano I.

Receando abusar do valioso tempo do Vigário de Cristo, dispenso-me de mais amplas considerações e limito-me a submeter à atenção de Vossa Santidade três estudos:

1.        Sobre a “Octogésima Adveniens”.

2.        Sobre a Liberdade Religiosa.

3.        Sobre o novo “Ordo Missae”.

(Esse último de autoria do advogado Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, a cujo conteúdo me associo).

Supérfluo será acrescentar, que neste passo, como já em outros de minha vida, darei cumprimento, em toda a medida preceituada pelas leis da Igreja, ao Sagrado dever da obediência. E neste espírito, com o coração de filho ardoroso e devotíssimo do Papa e da Santa Igreja, acolherei qualquer palavra de Vossa Santidade sobre este material.

De modo especial suplico a Vossa Santidade queira declarar-me:

a.        Se encontra algum erro na doutrina exposta nos três estudos anexos;

b.       Se vê na atitude assumida nos ditos estudos face aos documentos do Supremo Magistério, algo que destoe do acatamento que a estes devo como bispo.

Suplicando queira Vossa Santidade conceder-me, como à minha Diocese, o precioso benefício da Bênção Apostólica, sou de

Vossa Santidade

Filho humilde e obediente.

Antônio de Castro Mayer

Bispo de Campos

[Dom Antônio não obteve resposta a esta carta]

Fonte: FSSPX – Brasil

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4 Comentários to “O Leão de Campos (VI): O bispo de Campos e o Magistério de Paulo VI.”

  1. Esta é uma pequena demonstração da conduta de Dom Antônio durante sua vida. Seu compromisso com a Fé era independente de qualquer acordo ou atitudes exteriores.

  2. Tive a honra de conhecer pessoalmente D. Castro Mayer, já alquebrado, morando ao lado do Seminário.

    Realemente sua simplicidade, seu despojamento,sua espiritualidade profundamente mariana, eram invejáveis a qualquer católico.

    Com certeza esta carta não chegou às mãos de Paulo VI. Aqui no Brasil, Bispos anarquistas e populistas, perseguiam e denegriam, constantemente, a D. Antônio, imagine em Roma, no auge da bagunça infernal e da dilapidação da Liturgia da Igreja, liderada por Bugnini e companhia ltada, que em nada fizeram o que pede a Sacrossanctum Consilium, pelo contrário, fizeram o o que quiseram e do modo que quiseram a reforma da Liturgia.

    Quando D. Antônio recebeu, em mãos, o novo Missal de Paulo VI, chorando, o mostrou ao então Pe. José Possidente, e disse: “Olha o que fizeram com a Missa, padre”…

    A canalhice e a má fé dos famosos “liturgistas” de então, foi tão escandalosa que, essa primeira edição do Missal, teve que voltar pra Roma e ser revisada imediatamente, e uma segunda que vigorou, tamanho era a pouca vergonha e a traição que fizeram da Missa a uma simples ceia protestante, a um culto protestante…

    Assim foi D.Antônio, pequeno no tamanho, grande na sabedoria e no zelo pela Igreja de Deus…

    Um Bispo, já falecido, aqui do Brasil, que trabalhou junto com D.Antônio no Concílio disse: “As intervenções dele( de D. Antônio), na ala conciliar, apesar de que eu não concorde com certa rigidez de pensamento dele, são inteligentíssimas, de uma lógica impecável”…

    Respeito e admiro D. Fernando mas, penso, que a Fraternidade S. João Maria Vianey, que deve sua existência a D.Antônio, deveria falar e propagar mais os escritos de D. Antônio. Ter tido um Bispo do quilate de D. Antônio, é uma graça muito grande de Deus…

    É uma pena que na CNBB e no Brasil a fora, só se exaltem e se falem em D. Hélder, D. Luciano, D. Oscar Romero,etc, que tiveram seus méritos, não negamos, mas o nosso D. Antônio, não está, nem de longe, aquém desses e de outros Bispos tão propalados “ad nauseam”, pela esquerda festiva e agonizante da CNBB.

    Se bem que ser comemorado e elogiado por certos tipos da famigerada e degringolada TL, não é nada agradável…

    Bento XVI está dando o golpe de misericórdia nessa esquerda fétida, caduca, infeliz e mórbida, de assessores e assessoras, que não assessoram nem seus conventos, imaginem a assessorar a CNBB, que insistem em gangrenar a Igreja e a vida religiosa no Brasil, que promovem uns tais novinter, postulinter, etc…que não passam de encontros indecorosos e indecentes, com bailes e forrós, no mesmo local onde celebram a Missa, entre os postulantes e noviços(as) das mais variadas “congregações” religiosas do Brasil…

    Que esses tais padres, religiosos(as) e até Bispos, falem mal de D. Antônio e sua obra, é um favor, é uma graça, é uma honra para D. Antônio.

    S. Pio X, rogai por nós!

  3. Marcelo, segundo a própria carta, Dom Antônio enviou os estudos em obediência a um pedido do Papa feito através de um Cardeal que queria saber o pensamento dele a respeito de suas posições.

    O estudo foi enviado e a resposta foi: “O material enviado por Vossa excelência chegou a seu destino”.

    Rezemos por sua alma pelo grande bem que fez à Igreja que tanto amou, como filho e como legítimo sucessor dos Apostolos.

    Com você, também digo: S. Pio X, rogai por nós!

  4. Antônio, grande organista, será que o covil de liberais, que cercava Paulo VI e estavam no auge naquela época, permmitiram que uma material, antípoda daquilo que eles pregavam e destilaram no Concílio, fundamentado na mais genuína TRADIÇÃO, que envenenaram o Concílio, mas que não tinham argumentos, porque não os há realmente, de contra-argumentar D. Antônio dentro da TRADIÇÃO bi-milenar da igreja, deixaram chegar às mãos de Paulo VI esse documento?

    Tomara que vc tenha razão…

    Mãe Aparecida, rogai por nós!