“Santo Padre, coragem! Santo Padre, fale!”. Segunda carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.

Padre João Batista - Consagração da Capela Santa Maria das Vitórias

Pe. João Batista - Consagração da Capela Santa Maria das Vitórias em Anápolis, GO.

Beatíssimo Padre.

Há mais de um ano dirigi-me a Vossa Santidade para expressar-lhe meu apoio diante dos ataques desfechados contra sua augusta pessoa por haver praticado um ato de justiça ao anular o decreto de excomunhão contra os quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Agora dirijo-me com o propósito de encorajar Vossa Santidade a continuar sua obra iniciada apesar de toda ira e sanha que se levantam contra Vossa Santidade por parte dos inimigos da Igreja (internos e externos). Estão furibundos porque percebem que Vossa Santidade,  pouco a pouco, repõe a Igreja em seu devido lugar.

Permito-me, com todo respeito, compartilhar com Vossa Santidade algumas idéias que me acodem à mente diante de fatos recentes.

Em primeiro lugar, desejaria dizer a Vossa Santidade que estive em Roma em maio último (quando rezei especialmente por Vossa Santidade na Basílica de São Pedro) e ouvi de um prelado digno do maior respeito e confiança que os rumores sobre as conversações doutrinais entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X são positivos, mas, ao que parece, Vossa Santidade não tem a intenção de pronunciar-se a respeito. Porque uma palavra de Vossa Santidade iria agravar a divisão  da Igreja. Vossa Santidade, disse-me o prelado, espera que se encontre uma saída honrosa para ambas as partes. Devo dizer-lhe que isto me parece muito dificultoso.

Mas sendo assim as coisas, é necessário aplicar um remédio para sarar uma ferida que gangrena a Igreja. Refiro-me à arbitrária supressão canônica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, levada a efeito de forma ilegal, draconiana, à maneira como Stalin pôs fim às repúblicas bálticas.

Se as conversações entre a Fraternidade correm o risco de não se concluir com uma palavra do Papa que esclareça os problemas do Vaticano II (como, aliás, deseja o eminente teólogo Brunero Gherardini em sua importante obra Vaticano II, um disurso da fare), é necessário que ao menos a Santa Sé repare aquela tremenda injustiça cometida contra Mons. Lefebvre, sua obra e milhares de católicos apegados à tradição. Com efeito, sua obra foi brutalmente posta na ilegalidade porque ele dizia o que Vossa Santidade diversas vezes disse. Ele criticava a missa nova. Vossa Santidade também apóia uma crítica severa à reforma litúrgica, tal como no prefácio ao livro de Mons. Gamber, o qual disse que a reforma de Paulo VI foi mais radical que a de Lutero! Ele dizia que a missa tradicional jamais poderia ser abolida. Vossa Santidade disse a mesma coisa por ocasião do motu proprio.

Por outro lado, Vossa Santidade com freqüência enaltece a memória de seu predecessor João Paulo II, o qual ,devo dizer-lhe, teve diversas atitudes que me parecem chocantes e pasmosas como, por exemplo, o encontro de Assis, o beijo do Corão etc, etc. Pois bem. Uma das atitudes chocantes de João Paulo II foi quando no jubileu do ano 2000 pediu perdão público pelos pecados e erros cometidos pela Igreja ao longo de sua história. Um anacronismo censurado por intelectuais católicos respeitadíssimos como Paul Johnson (Quando Deus pedirá perdão por haver destruído Sodoma?, escreveu ele então) e por Romano Amério em Stat Veritas.

Se João Paulo II pediu tal perdão, porque não pedir perdão agora aos tradicionalistas da Fraternidade São Pio X por haver cometido contra eles uma abuso de poder ao decretar  extinção canônica da Fraternidade e restituir-lhes o estatuto jurídico que lhes compete conforme o melhor direito?

Ademais, desejaria dizer a Vossa Santidade que não me parece coerente um discurso que admite uma crítica à reforma litúrgica e ao mesmo tempo isenta o Vaticano II do desastre que vivemos na Igreja em todos os campos. Lex orandi, Lex credendi. O cardeal Benelli disse uma vez que a missa tradicional jamais poderia ser restabelecida na Igreja porque correspondia a uma eclesiologia ultrapassada. Agradeço-lhe a sinceridade mas não lhe perdôo a heresia.

Pelas palavras do cardeal, fica demonstrado que o Vaticano II tem seus problemas. A reforma litúrgica com tuas suas ambigüidades não nasceu do nada. Ela expressa uma nova teologia. De onde?

Santo Padre, coragem! Santo Padre, fale! São Pedro condenou à morte Ananias e Safira por haver fraudado a comunidade dos primeiros cristãos. Santidade, exerça sua autoridade: faça que a terra engula também os fraudadores, não de bens materiais, mas da doutrina sagrada, esses hereges que se recusam a obedecer-lhe não corrigindo, por exemplo, a forma da consagração do cálice na santa missa, conforme ordenado por Vossa Santidade há alguns anos já.

Para nossa tranqüilidade, Vossa Santidade tem reiteradas vezes condenado o relativismo hodierno. Mas devo dizer-lhe que, não obstante o discurso de Vossa Santidade, o ecumenismo e  o dialogo inter-religioso hoje praticados favorecem sobremaneira um clima de relativismo e indiferentismo em toda sociedade. Bispos e padres com a maior desfaçatez, dizendo-se acobertados por Vossa Santidade, promovem as mais escandalosas cerimônias em que se realiza abominável communicatio in sacris. O mal causado às almas é enorme, incalculável. Hoje, a quase totalidade dos católicos acha que todas as religiões são boas; que é uma discriminação e intolerância dizer que a única religião verdadeira é a Igreja Católica.

Por derradeiro, Santo Padre, como um filho que confia em seu pai, quero dizer-lhe que uma das coisas mais tristes que vivemos na Igreja hoje é a falta de amor à verdade. Ama-se tudo menos a verdade. Ama-se o poder, amam-se as vantagens materiais, cargos, prebendas, prestigio, adulam-se os poderosos, mas não se ama a verdade. Ama-se um falso amor pentecostal, mas não se ama a verdade. O dístico de Vossa Santidade, Cooperatores Veritatis, representa para mim um consolo.

Não sei o que me custará essa carta. Talvez nada, talvez passe despercebida. Talvez me custe a cabeça, como a meu santo e venerado patrono São João Batista. Mas cumpro meu dever de consciência. Não suporto ver a injustiça que se cometeu contra Mons. Lefebvre, o bispo que preservou minha fé no deserto da Igreja pós-conciliar.

Rogando a bênção de Vossa Santidade, asseguro-lhe minhas orações.

Cor Mariae Imaculatum, spes nostra esto.

Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Anápolis, 28 de junho de 2010

Vigília de São Pedro e São Paulo

Fonte: Santa Maria das Vitórias

16 Comentários to ““Santo Padre, coragem! Santo Padre, fale!”. Segunda carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.”

  1. Magnífica carta, Padre João Batista.
    Sua benção.

    Roberto F Santana
    robertofsantana@aol.com

  2. Se Deus ainda tem piedade de todos nós é por pessoas como o Padre João Batista.
    Abençoada é a cidade e os fiéis que o tem como Padre.
    Padre João, se estiver lendo, hoje rezarei o Terço pelo sr.

  3. Concordo, deve ser uma grande benção ter perto um sacerdote dessa qualidade de Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa. Que outros sacerdotes sigam o seu exemplo e que o Santo Padre leia essa carta.

  4. Isto que é padre! Sem meias palavras! Bravo!
    Carta claríssima e perfeita, sem emendas possíveis.

  5. Sim, Padre João é sincero e em sua carta é fiel às suas convicções.
    Porém, um amor exacerbado ao que não é essêncial pode deixar em falta uma necessária tolerância e uma compreenção piedosa.
    Obediência cega às normas , ao ritos, aos homens, nos torna cegos para o sofimento do próximo. Como nos tornamos parecidos com os doutores da lei, que Nosso Senhor tanto nos advertiu a respeito.
    Os erros existem e sempre existiram, e os fariseus, também, nunca deixaram de existir, assim como os santos e mártires.
    Acho justo e necessário que se resgate e preserve o sentido de sagrado e que se tenha zelo pela liturgia e pelos bens da igreja, agora, desconsiderar o principal, passar por cima de uma conversão verdadeira, deixar de buscar a santidade, para, no curso do caminho mais fácil exigir decisões e normas que sejam conveniente às nossas vaidades, é , com certeza, muito mais fácil.
    Ser luz, ser sal, ser diferenciado, entregar-se verdadeiramente, atrair os demais pelo amor incondicional a Cristo, se interessar, amar e considerar o sofrimento do próximo , e, na sequência, quase involuntariamente, vazer brilhar toda a riqueza da Igreja, tudo que é verdadeiramente sagrado, com zelo, dedicação e sem qualquer interesse particular.
    CRISTO NOS CHAMA!

  6. Perfeita a carta de nosso bravo e querido Pe João Batista que assim como nós, é um filho de Dom Lefebvre. Sempre é essencial amar a verdade e a justiça!

    Comentário estranho esse comentário do Wagner. Qualquer um dos nossos sabe que se amando a tradição, se ama a cruz. Consequentemente se sabe pelo e porque se deve sofrer. Assim não se ama e se considera todo e qualquer sofrimento do próximo, mas tão somente os sofrimentos cruz. Para se considerar e amar todos os sofrimentos do próximo, sem distinção, deve se adentrar ao culto do homem. Ademais eram três cruzes, mas apenas os

    Dom Lefebvre e Dom Mayer, ensinaram nos a obediência real em detrimento da obediência aparente ou ao politicamente correto. Foram sal e são luzeiros nestes tempos tenebrosos…

    Por enquanto fico por aqui…

    Fiquem com Deus!

  7. Que eu saiba Pe. João Batista deixou a FSSPX. Por que entao? Nao entendo. Acho tb que a FSSPX deveria dar algum passo em direção ao Papa que sofre tanto para fazer-lhes bem.Bom assim penso né.

  8. O comentário do Wagner torna patente um total desconhecimento do que seja “amar o próximo” e um desconhecimento ainda maior sobre o apostolado do Pe. João Batista, a ponto de afirmar levianamente que o mesmo defende “suas convicções”, quando é justamente contra isso que se luta: contra as convicções particulares!

    A FSSPX, o Pe. João Batista, os que amam a Santa Igreja e sua bimilenar tradição lutam pela Verdade Católica, infinitamente superior a qualquer mera convicção de butequim.

    A caridade pressupõe que amemos ao próximo por amor a Deus. “Amar o próximo pelo próximo” é um humanismo tolo que se encaixa muito bem na crítica feita por Bento XVI, em seu livro “Jesus de Nazaré”, à nova religião do homem (pós CVII), sem Deus, cujo objetivo é tão somente a instauração do “Reino” oferecido por Satanás a Cristo na terceira tentação: um “Reino” de paz(não a de Deus), de justiça (social) e de respeito à criação (ecologia).

    O único consolo é saber que comentários desse tipo são tão comuns que parecem ser tirados das cartilhas de focolares, de cursilhos, ou das de pastorais. Debruçam-se sempre sobre a mesma máxima: que o amor nos leve à Verdade! Mas é a Verdade que nos conduz a amar. O amor à Verdade é que impulsiona-nos a amar o próximo.

    E quanto bem às almas dos próximos tem feito Deus por intermédio do apostolado do Pe. João Batista.

    Ad Maiorem Dei Gloriam

    Frederico

  9. Não sabia que o padre João alguma vez tenha sido padre da FSSPX…

  10. Não! Não! Frederico e Gederson, vcs estão interpretando precipitadamente e estão omitindo o principal! Não me venham com doutrinas estranhas a Cristo! Não imponham condições à caridade! Não arrazem com a reputação de tantos santos que deram a vida por muitos: limpando as feridas; socorrendo os abandonados; acolhendo os orfãos; desafiando as doenças contagiosas; tudo, por amor e compaixão pelo próximo sim, e lógico, por um desinteressado e espontâneo amor a Deus! Então a regra é amar o próximo por interesse do amor de Deus, ou suportar o próximo por amor a Deus? HERESEIA! ANÁTEMA!CORAÇÃO DE PEDRA! Amar o próximo e até o nossos inimigos! Amar os amigos e os “nossos”, até os pagãos fazem. Suportar o próximo por interesse e por amor a nossas ambições, até os humanistas fazem. Não confundam amor e compaixão com legitimar o pecado, o erro, a abominação, a profanação. Amor e compaixão no sentido de socorro do que sofre e de resgate da alma pela VERDADE, é completamente diferente de legitimar as trevas!
    SENHOR, TENDE PIEDADE DE NÓS!
    CRISTO, TENDE PIEDADE DE NÓS!

  11. Preocupante a informação de que o Santo Padre não vai se pronunciar sobre as conversações. Se o que se busca é uma saìda honrosa para ambas as partes, as conversações sobre o CVII e temos acordos. Caso se confirme a excusa do Santo Padre em se pronunciar por temer um agravamento da divisão na Igreja, então realmente as ações em prol da FSSPX, visam apenas fazê-la aceitar o CVII. Sempre o Papa deve falar para que claro os que estão na Igreja. Se o Papa não fala nós ficamos sem saber por qual verdade se une e reúne a Igreja. Neste sentido, continua-se a nova forma de exercício do primado petrino. Mas e a Fraternidade, aceitaria o desvio da finalidade das conversações? É preciso muita prudência em face dessas informações!

  12. Excelentes as observações do Frederico! Evidentemente existem condições para se considerar qualquer obra que seja, como obra de caridade. Primeiramente deve se saber que obras de misericórdia temporal podem ser ou não, manifestações da virtude teologal da caridade. Os espiritas e os msçons fazem obras de misericordia temporal, eles não são caridosos!

  13. O Wagner não percebeu ainda que a carta do Pe João Batista tem por objeto o sofrimento do próximo, uma vez que a FSSPX foi suprimida como foram suprimidas as republicas balticas. Não a nisso sofrimento, como não houve sofrimento do proximo na proibição tiranica da Missa de sempre! Sr Wagner, nem só de pão viverá o homem…

  14. Realmente, Gederson,

    Nem só de pão…

    Mas fico pensando: compensa argumentar isso com o dileto Wagner?

    Afinal de contas já fomos todos precipitados na fogueira pelas ecumênicas e caridosas palavras do mesmo! rs…

    Os defensores da fraternidade universal são tão caridosos!

    Doce coração de Maria, seja a nossa salavação!

    Ad Maiorem Dei Gloriam

    Frederico

  15. Alguém disse que o P. João batistas “saiu” da FSSPX. Outro se surpreendeu: “Não sabia que o padre João alguma vez tenha sido padre da FSSPX…”.

    Até onde sei, o P. João Batista estudou em La Reja na mesma época que os primeiros seminaristas de Campos foram para lá. Ele tinha contato com o, então, P. Possidente, hoje, monsenhor. Acho que saiu antes de ser ordenado sacerdote.

  16. Caro Frederico, aqui no Fratres in Unum tem um texto intitulado “a casa edificada sobre areia” de Dom Mayer. Neste texto, ele manifesta pesar pela diminuição do papel da inteligencia no processo de conversão. Veja, isto se aplica perfeitamente a nosso amigo Wagner que se apressou em proferir anatema e heresia, estando ele completamente errado. Assim, essa notável diminuição faz reslmente pensarmos se realmente compensa falarmos. Mas se estamos na fogueira demos a nossos adversarios
    mais lenha psra nos queimarem. Fique com Deus !

    Abraço
    Abraco