Catequese do Papa Bento XVI sobre São Pio X.

Apresentamos nossa tradução do discurso do Santo Padre, o Papa Bento XVI, pronunciado às 10:30 da manhã de hoje, no Palácio Apostólico de Castel Gandolfo.

Queridos irmãos e irmãs!

Giuseppe Melchiorre Sarto, São Pio X

Giuseppe Melchiorre Sarto, São Pio X

Hoje gostaria de me concentrar na figura do meu predecessor São Pio X, cuja memória litúrgica comemora-se no próximo sábado [ndr: no calendário tradicional comemora-se em 3 de setembro], destacando algumas características que podem ser úteis aos pastores e os fiéis do nosso tempo.

Giuseppe Sarto, assim se chamava, nasceu em Riese (Treviso), em 1835, de uma família de camponeses e, depois de estudar no Seminário de Pádua, foi ordenado sacerdote aos 23 anos. No começo, foi vice-pároco em Tombolo, depois pároco em Salzano, posteriormente cônego da catedral de Treviso, com o cargo de chanceler episcopal e diretor espiritual do Seminário diocesano. Naqueles anos de rica e generosa experiência pastoral, o futuro Pontífice mostrou aquele amor a Cristo e à Igreja, aquela humildade e simplicidade e aquela grande caridade para com os mais necessitados, que foram características de toda a sua vida. Em 1884, foi nomeado bispo de Mântua e, em 1893, Patriarca de Veneza. Em 04 de agosto de 1903 foi eleito Papa, ministério que aceitou com hesitação, porque não se considerava digno de um dever tão alto.

O pontificado de S. Pio X deixou uma marca indelével na história da Igreja e foi caracterizado por um notável esforço de reforma, resumido no lema Instaurare omnia in Christo, “renovar todas as coisas em Cristo”.

Suas intervenções, de fato, envolviam os diversos âmbitos eclesiais. Desde o início,  dedicou-se à reorganização da Cúria Romana; em seguida, deu início aos trabalhos de redação do Código de Direito Canônico, promulgado pelo seu sucessor, Bento XV. Promoveu, posteriormente, a revisão dos estudos e do “processo” de formação dos futuros sacerdotes, fundando também vários seminários regionais, equipados com boas bibliotecas e professores preparados.

Outra área importante foi a de formação doutrinal do Povo de Deus.  Ainda nos anos em que era pároco tinha redigido um catecismo e durante o episcopado em Mântua trabalhou a fim de que se alcançasse um catecismo único, se não universal, ao menos italiano.

Como autêntico pastor, havia compreendido que a situação da época, até pelo fenômeno da emigração, tornava necessária um catecismo ao qual todos os fiéis pudessem se referir, independentemente do local e das circunstâncias de vida. Como Pontífice, preparou um texto da doutrina cristã para a diocese de Roma que se difundiu por toda a Itália e mundo. Este Catecismo chamado “de Pio X” foi, para muitos, um guia seguro no aprendizado das verdades da fé em linguagem simples, clara e precisa, e pela eficácia expositiva.

Dedicou considerável atenção à reforma da liturgia, especialmente da música sacra, para conduzir os fiéis a uma vida de oração mais profunda e a participação mais plena nos sacramentos.

No Motu Proprio Tra le sollecitudini (1903, primeiro ano de seu pontificado), afirma que o verdadeiro espírito cristão tem a sua primeira e indispensável fonte na participação ativa nos santos mistérios e na oração pública e solene da Igreja (cf. ASS 36 [ 1903], 531). Por isso, recomendou a aproximação freqüentemente dos sacramentos, favorecendo a freqüência diária, bem preparada, à Sagrada Comunhão e antecipando oportunamente a primeira Comunhão das crianças em torno dos sete anos de idade, “quando a criança começa a raciocinar” (cfr. S. Congr. de Sacramentis, Decretum Quam singulari : AAS 2[1910], 582).

Fiel à missão de confirmar os irmãos na fé, São Pio X, diante de algumas tendências que se manifestaram no âmbito teológico no final do século XIX e início do século XX, intervém decisivamente condenando o “Modernismo”, para defender os fiéis de concepções errôneas e promover um aprofundamento científico da Revelação em consonância com a Tradição da Igreja. Em 07 de maio de 1909, com a Carta Apostólica Vinea electa, fundou o Pontifício Instituto Bíblico. Os últimos meses de sua vida foram marcados pelo fulgor da guerra. O apelo aos católicos do mundo, lançado em 02 de agosto de 1914 para expressar “a amarga dor” da hora presente, era o grito de sofrimento do pai que vê os filhos se enfileirarem uns contra os outros. Morreu pouco tempo depois, em 20 de agosto, e sua fama de santidade começou a se espalhar rapidamente entre o povo cristão.

Queridos irmãos e irmãs, São Pio X nos ensina a todos que na base da nossa atividade apostólica, nos vários campos em que atuamos, deve sempre haver uma íntima união pessoal com Cristo, a cultivar e crescer dia após dia. Este é o núcleo de todo o seu ensinamento, todo o seu empenho pastoral. Somente se estivermos apaixonados pelo Senhor seremos capazes de levar os homens a Deus e abrir a eles o Seu amor misericordioso, e, assim, abrir o mundo à misericórdia de Deus.

Saudação em língua portuguesa:

A minha saudação a todos os peregrínos víndos do Brasil, de Portugal e demais países lusófonos, com uma bênção particular pára os alúnos do Seminário do Verbo Divino, de Tortoséndo: na vossa formação, empenhái-vos em seguír o exemplo dos grándes pastores como São Pio X, sendo sempre humildes e fiéis servidores da Verdade. Que Deus vos abençóe!

Fonte: Il Magistero di Benedetto XVI

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14 Responses to “Catequese do Papa Bento XVI sobre São Pio X.”

  1. “Fiel à missão de confirmar os irmãos na fé, São Pio X, diante de algumas tendências que se manifestaram no âmbito teológico no final do século XIX e início do século XX, intervém decisivamente condenando o “Modernismo””

    Bons tempos aqueles !!! Essa luta empreendida pelo Papa São Pio X contra o modernismo e os liberais terminou com o Concilio Vaticano II. No CVII triunfou as nefastas heresias a saber : Liberalismo Ecumenismo.. A partir de então a orientação da Igreja é outra totalmente oposta.

    Essa “nova” orientação ecumênica humilha a memória de São Pio X , é como se tudo o que o São Pio X fez para defender a Igreja Católica dos modernistas e liberais fosse inútil .

    Como lí num livro : NO CVII triunfou os ideais da maçonaria!!!

  2. Ler uma catequese de Bento XVI conforta e traz alegria.
    Ouvir sua voz baixa e trêmula dá confiança e tranquiliza.
    O Santo Padre fala de São Pio X, leva esperança aos católicos tradicionais e faz ranger os dentes dos modernistas.
    Bento XVI já deu outra direção ao século XXI “libertando” a Missa e vai continuar São Pio X.
    Só falta a Missa pública.Eu, já estou pronto para dar glórias e comemorar.

    Roberto F Santana
    robertofsantana@aol.com

  3. Bela catequese! Aos amigos, deixam uma questão(sem entrar nos pormenores do contexto):

    A hermenêutica da ruptura, não é o suficiente para provar-se o estado de necessidade alegado por Dom Lefebvre?

    Ainda não vi nenhuma abordagem neste sentido. Alguém viu?

    Fiquem com Deus.

    Abraços

  4. Gederson,

    Acredito que a hermeneutica da ruptura era vivida pelos papas anteriores como a é pelo Papa atual. Não existe hermeneutica da continuidade, pois é impossível provar a continuidade entre CVII e Magistério anterior.
    Além do mais, se Bento XVI falou de São Pio X, ao mesmo tempo, elogiou recentemente (11/08/2010) o herege protestante Roger de Taizé chamando-o de “incansável testemunha do Evangelho de paz e reconciliação”.

  5. uma cacetada nesses bispos da CNB do B.

  6. Sr. Roberto F. Santana,

    Concordo que o ” Santo Padre fala de São Pio X, leva esperança aos católicos tradicionais e faz ranger os dentes dos modernistas.” Porém gostaria muito de ter esperanças que o Papa celebre uma Missa Tridentina para o orbe católico. O sr. tem notícia de algo nesse sentido? Eu escuto falar que essa missa será celebrada mas nunca se realiza…

  7. Caro Christiano,
    Infelizmente não tenho nenhuma boa nova nesse sentido.
    Mas por favor, permita-me te dar esperanças compartilhando com você e os amigos um raciocínio que humildimente me atrevo a dizer.
    Um dos maires feitos de Bento XVI foi o Sumorum Pontificum da Missa de Sempre e o outro, é claro, foi o levantamento das excomuhões.
    Ora, mas é difícil achar no meio tradicional, uma resposta convincente do porque Bento XVI “autorizasse” a Missa.
    Penso que sua intenção principal foi de corrigir um erro grave que Paulo VI cometeu, a proibição da missa.
    Faço aqui uma pausa:
    Bento XVI é muito inteligente e com certeza uma das pessoas mais cultas de nosso século mas ao mesmo tempo, pelo menos no meu caso, parece misterioso e difícil de entender.
    Eu costumo dizer que a pessoa que mais conhece Bento XVI é o Cardeal Joseph Ratzinger!
    Mas voltando a Missa, em sua autobiografia “A Minha Vida” o papa fala várias, ou algumas vezes dessa proibição.De fato, com um estudo mais sério, veremos que Paulo VI proibiu a Missa.
    Bento VI sabe disso e sabe que Paulo VI não podia ter feito isso.
    Vulgarmente poderíamos dizer que Bento XVI está correndo atrás do prejuízo.
    Então o que me leva a crer que ele ainda vai rezar a Missa, é a lógica e a moral (se eu estiver certo!).
    Antes de morrer ele teria esse dever.
    Sempre achei estranho aquela história de que João Paulo II teria consultado um punhado de cardeais para saber se missa tinha sido proibida.
    Um papa fazendo isso?!
    E o mais incrível, só um disse que sim!
    Taí um cardeal que valeria a pena conhecer…
    No mais, meu amigo, pegue seu terço e reze.
    Mas, é que falo aos modernistas e sedevacantistas,(e para os padres),
    Vai chegar o dia!
    Preparem-se para cairem de suas cadeiras!

    P.S.Talvez eu tenha empregado mal o uso dos termos lógica e moral, mas é isso aí.

    Roberto F Santana
    robertofsantana@aol.com

  8. Ainda em choque com o ecumenismo de santidade :((

  9. O pontificado de São Pio X coincidiu com o período que ficou conhecido na História como “paz armada”. Nesta época, a arrogância política e econômica das nações desenvolvidas chegou ao seu mais elevado estágio, bem como a prepotência intelectual, fundada pelo Iluminismo, de afirmar que é possível construir algo de inteligente e racional sem a presença de Deus.
    O trabalho de São Pio X frente a este estado de coisas foi grandioso. Para libertar o homem da fatal cilada de seu orgulho, apontou e denunciou, com coragem, os erros das ideologias modernistas, fundadas no agnosticismo Iluminista. Ao lado disso, conduziu uma revalorização da Liturgia da Igreja, especialmente da Santa Missa. Pio X via a Liturgia como aquilo que de fato ela é: um culto público a Deus oferecido não pelas faculdades humanas, mas pelo Filho de Deus, que com seu Sacrifício eleva o homem a Deus. Sabia o Santo Padre que se tirarmos este caráter da Liturgia estaremos perdendo a fé de que a salvação não é algo que alcançamos por nós mesmos, mas que é gratuitamente oferecida pela Misericórdia Divina. S. Pio X rogai por nós!

  10. Caro Renato, penso como você. Mas os neo-conservadores não pensam como nós. Como será que responderiam este questionamento?

  11. Se a hermenêutica da ruptura prova o estado de necessidade. Os acontecimentos em torno das excomunhões de 1988 mudam de figura e levantam uma série de outros questionamentos. Porque se a hermenêutica prova o estado de necessidade, as excomunhões provam exatamente que JPII e Bento XVI, a praticam. Se a hermeneutica da ruptura prova o estado de necessidade, nao ha que se falar em retirada das excomunhoes como um ato de clemencia do santo Padre. Mas sim em anulamento como um ato de justiça devido aos envolvidos.

  12. Estou acessando do celular… Não posso escrever muito… Mas esta questão tem pertinência para os neo-conservadores e também para Campos.

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