Oficiais italianos confiscam fundos e lançam investigação por lavagem de dinheiro contra Banco do Vaticano.

Pouco depois da conclusão da dramática visita de quatro dias do Papa Bento XVI à Escócia e Inglaterra, oficiais italianos lançaram uma investigação de “lavagem de dinheiro” mirando o banco do Vaticano, lançando a sombra de escândalo novamente sobre a Santa Sé. Qual é a história real?

Por Robert Moynihan – Carta 48, 2010, Inside the Vatican

Tradução: Fratres in Unum

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Lavagem de dinheiro?

Hoje, na Itália, oficiais da receita confiscaram cerca de US$ 30 milhões de fundos mantidos numa conta do banco do Vaticano num banco italiano.

A ação levanta o espectro de outro escândalo, desta vez financeiro, em acréscimo aos anos de escândalos envolvendo abusos sexuais de jovens por padres.

Em suma, é um novo e poderoso golpe contra o pontificado do Papa Bento XVI (foto).

Essa é uma história real, e não, simplesmente, uma acusação verbal: os fundos realmente foram colocados sob custódia — US$ 30 milhões, uma quantia considerável.

Ainda mais importante, os funcionários da receita italiana dizem agora que estão investigando as alegações de “lavagem de dinheiro” contra a mais elevada autoridade financeira do Papa, o proeminente banqueiro católico italiano e estudioso de economia Prof. Ettore Gotti Tedeschi (foto abaixo).

Gotti Tedeschi foi escolhido pelo Papa Bento XVI para chefiar o Instituto per le Opere di Religione do Vaticano (“Instituto para as Obras da Religião”, normalmente conhecido como o banco do Vaticano ).

Também sob investigação está o “número dois” de Gotti Tedeschi, o diretor geral do banco, Paolo Cipriani.

A Reação do Vaticano

Qual a reação do Vaticano a esse ataque?

Hoje, numa declaração, o Vaticano se diz “perplexo e surpreso” por esses acontecimentos e ter “a maior confiança” nesses dois homens.

A declaração também dizia que o Vaticano já vem trabalhando para uma maior transparência em suas finanças, para cumprir com as novas regulamentações bancárias internacionais.

Mais questões, e alguns panos de fundo

Então, por que isso está acontecendo agora? É justamente o que não está claro.

Gotti Tedeschi, um católico devoto e membro da Prelazia do Opus Dei, ensinou ética financeira na Universidade Católica de Milão. É um consultor próximo do Ministro da Fazenda italiano, Giulio Tremonti.

Nos encontramos e conversamos com alguma demora sobre as funções do banco do Vaticano e problemas no mundo da economia. Dos meus contatos com ele, considero-o um homem de considerável integridade e elevados ideais. Isso não significa que as acusações contra ele não possam ser verdadeiras, mas que eu teria que ser persuadido por evidências de peso antes de chegar à conclusão de que ele fez algo intencionalmente ilegal.

Ele contribuiu no processo de elaboração do rascunho da encíclica do último verão do Papa sobre economia, Caritas in Veritate (“Caridade na Verdade”), que era crítica aos excessoes selvagens e desregulados do atual sistema econômico internacional, onde o capital pode mudar em tamanho, com impressionante rapidez, melhorando ou destruindo as perspectivas para indústrias e nações, literalmente do dia para noite.

Estive nos escritórios do IOR muitas vezes.

De fato, conheci muito bem o predecessor de Gotti Tedeschi, o finado arcebispo americano Paul Casimir Marcinkus (foto) e frequentemente conversei com ele em seus escritórios.

Marcinkus, também, fora acusado de crimes financeiros há 30 anos, no fim da década de 70 e começo da de 80.

A nunca houve um esclarecimento completo sobre o que realmente aconteceu na ocasião.

Algumas pessoas juram que Marcinkus se envolvera em transações nefandas; outras, juram o oposto, dizendo que ele era ingênuo ou estava fora de sua área, tendo então sido apanhado em negócios para os quais nunca fora preparado.

(Em grande parte, isso é verdade: ele não era um banqueiro ou economista formado, como ele mesmo me contou, e esse é parte dos motivos pelos quais o Vaticano decidiu ter leigos formados nessas posições delicadas. “Ele não tinha experiência no sistema bancário internacional antes de sua nomeação, em 1971, tendo sua única preparação sido um curto e rápido curso de sistema financeiro na Universidade de Harvard”, escreveu, na época de sua morte, David Willey, da BBC. Veja: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/4738134.stm)

O IOR administra, principalmente, fundos para o Vaticano e instituições religiosas por todo o mundo, tais como organizações de caridade e ordens religiosas de padres e freiras.

Sim, você pode ver muitas irmãs na agências do banco Vaticano fazendo depósitos e saques.

A Igreja precisa da capacidade de dar apoio a missionários e outros esforços pelo mundo através de instituições financeiras, assim como ela precisa ter acesso a vistos para viagens, ou amparo legal para fundar e construir orfanatos e escolas.

A Igreja está “no” mundo — embora ela não deva ser “do” mundo.

Essa necessidade por uma rede de apoio institucional foi excepcionalmente resumida por Marcinkus numa frase de certa forma escandalosa para um arcebispo: “Não se pode manter a Igreja com Ave Marias”.

Mas essa frase pode ser considerada como um sinal de um saudável realismo, o mesmo tipo de realismo expresso nas palavras do próprio Cristo quando disse: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”.

Neste mundo, um mecanismo para troca de bens e serviços (dinheiro) é um meio que os membros da Igreja, como todos os outros em sociedade, frequentemente precisam usar.

Então, um ponto pode ser feito sobre esse último acontecimento: ele atinge diretamente a capacidade da Igreja de ter a estrutura bancária institucional que ela precisa para apoiar sua missão global.

E esse golpe vem logo depois do momento em que Bento XVI parecia ter recuperado um considerável capital moral para a Igreja com a sua serena, eloquente visita ao próprio coração “da Cidade” (Londres) — a mais influente capital financeira do mundo, ao menos até recentemente.

Marcinkus, como chefe do IOR, estava envolvido num escândalo mundial em 1982 quando o IOR estava emaranhado numa falência fraudulenta do Banco milanês Ambrosiano, o maior banco privado da Itália.

O IOR mantinha uma pequena participação no Ambrosiano, cujo presidente, Roberto Calvi, foi encontrado pendurado sob a Ponte Blackfriars, de Londres, naquele ano. (Uma primeira investigação concluiu que se tratava de suicídio, mas uma investigação mais recente concluiu se tratar de um homicídio. Não foram nomeados suspeitos do assassinato.)

Marcinkus, que morreu no Arizona em 2006, sempre manteve — também para mim — que o Vaticano não foi responsável pelo colapso do Banco Ambrosiano.

Ele me contou que ele se opôs a fazer o que o Vaticano posteriormente chamou de “pagamento de boa vontade” de US$ 242 milhões para compensar os credores do Ambrosiano — o Cardeal Agostino Casaroli, então Secretário de Estado, foi quem convenceu o Papa a fazer o pagamento, contra as fortes objeções de Marcinkus, contou-me ele uma vez.

E então o problema foi resolvido, embora uma sobra permanecesse sobre o nome de Marcinkus.

(Em 1990, Marcinkus me disse, “Antes de minha morte, venha conversar comigo. Contarei coisas que o deixarão de cabelo em pé”. Então ele se retirou para Sun City, Arizona. No começo de 2006, liguei para ele: “Seria agora o momento oportuno para eu ir conversar consigo?”, perguntei. Ele disse: “Ainda não”. Uma semana depois, liguei outra vez — senti que era hora de vê-lo, já que havia se passado 16 anos de nosso último encontro. “Ainda não, em breve”, ele me disse. Alguns dias depois, ele morreu).

Banco do Vaticano ligado a escândalo de lavagem de dinheiro

Segue a matéria de Rachel Donadio, repórter de assuntos ligados ao Vaticano e à Itália do New York Times, sobre esse último caso (link: http://www.nytimes.com/2010/09/22/world/europe/22vatican.html)

ROMA — As autoridades monetárias italianas disseram na terça-feira que confiscaram US$ 30 milhões do banco do Vaticano e colocaram dois altos executivos sob investigação em conexão ao inquérito sobre lavagem de dinheiro. O anúncio equivaleria a outra tempestade potencial confrontando o papado de Bento XVI, que luta contra os efeitos dos escândalos de abusos por padres.

Numa declaração, o Vaticano expressou “perplexidade e surpresa” pelo fato do presidente do banco, Ettore Gotti Tedeschi, e seu diretor geral, Paolo Cipriano, tenham sido colocados sob investigação. Ela acrescentava que tinha “a maiora confiança” nos dois homens e que trabalhava por maior transparência em suas finanças.

A investigação é a primeira no banco do Vaticano desde o começo da década de 80, quando se envolveu no colapso de um banco italiano cujo diretor apelidado de “Banqueiro de Deus” foi misteriosamente encontrado morto, pendurado na Ponte Blackfriars, em Londres.

As autoridades italianas historicamente se esquivam de investigar as finanças do Vaticano — tanto por consideração para com a Igreja como devido às relações complexas entre a Itália e a Santa Sé, um estado soberano.

“A era de omertà acabou”, disse Gianluigi Nuzzi, autor do bestseller de 2009 “Vaticano S.P.A.”[ndt: S.P.A.  = sociedade por ações na Itália], usando o termo italiano “omertà” para o código de silêncio da máfia.

A investigação foi realizada por conta de uma nova diretriz do Banco da Itália. Procurando prevenir o financiamento de grupos terroristas e a lavagem de dinheiro, ela agora exige de todos os bancos estrangeiros operando na Itália — incluindo o banco do Vaticano — o fornecimento de informações detalhadas sobre as origens do dinheiro que eles transferem.

Oficiais disseram que o sr. Gotti Tedeschi e o sr. Cipriano estavam sob investigação por terem falhado em explicar adequadamente a origem dos fundos transferidos de uma conta do Banco do Vaticano para outras duas que ele mantém. Eles disseram que o confisco foi preventivo e que ninguém foi formalmente acusado ou preso. Nos próximos meses, espera-se que um juiz determine se a investigação prosseguirá.

Ela poderia potencialmente arruinar a ficha do sr. Gotti Tedeschi, um respeitado banqueiro e antigo chefe de operações na Itália para o banco espanhol Santander, que foi trazido pelo Papa no ano passado para limpar as turvas finanças do banco do Vaticano, um banco privado formalmente conhecido como Instituto para as Obras da Religião, ou IOR, que administra fundos objetivando obras de caridade.

A nova investigação surgiu mais comum, mas não menos explosiva.

Oficiais disseram que abriram a investigação na segunda-feira depois do Banco da Itália, que aderiu às diretrizes anti lavagem de dinheiro, alertá-los para duas transferências suspeitas, em 6 de setembro, de uma conta mantida pelo banco do Vaticano numa filial em Roma do Credito Artigiano S.P.A., um banco sediado no norte da Itália.

Uma transferência de US$26 milhões era dirigida para uma conta mantida pelo banco do Vaticano numa filial em Frankfurt do banco americano J.P. Morgan, e outra de US$4 milhões para uma conta que ele mantinha numa agência de Roma do Banca di Fucino.

Sob a lei italiana, exige-se que magistrados abram uma investigação se houver suspeita de que um crime possa ter sido cometido. Os magistrados em Roma abriram a investigação porque as contas em questão estavam em agências bancárias em Roma.

No ano passado, notícias deram conta de que os mesmos magistrados abriram uma ampla investigação em contas bancárias mantidas por oficiais do Vaticano e entidades de caridade em bancos de Roma.

Em ambos os casos, os investigadores contornaram a soberania da Santa Sé ao verificar contas italianas que receberam os fundos do banco do Vaticano.

Numa declaração, a Santa Sé disse expressar “perplexidade e surpresa pela inicitiva da corte de Roma, considerando que todos os dados necessários já haviam sido disponibilizados para o órgão competente no Banco da Itália e operações similares estão em andamento com outras instituições de crédito italianas”.

Ela acrescentava que os fundos eram transferências de origem do próprio banco do Vaticano, e que o banco estava trabalhando para ingressar na “lista branca” da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a mais alta classificação em seu quadro de transparência.

No começo da décade de 80, o banco se envolveu num escândalo no banco italiano Ambrosiano, que faliu após o sumiço de US$1,3 bilhões em empréstimos para empresas na América Latina. O banco do Vaticano negou o delito, mas pagou US$250 milhões aos credores do Banco Ambrosiano.

A nova investigação parece mostrar uma postura mais agressiva do Banco da Itália, um aparelho nas complexas forças dinâmicas na Itália contemporânea. “Ele tem um papel central, enquanto antigamente tinha um papel subalterno”, disse o sr. Nuzzi.

Um porta-voz do Banco da Itália disse ele age sob diretrizes da União Européia.

(fim da matéria do New York Times)

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“Diretrizes da União Européia”

É justamente esta última frase deste artigo que chama minha atenção.

Aqui, na última frase da matéria, tomamos conhecimento de algo que vira toda a história de cabeça para baixo, por assim dizer.

Por toda a matéria, ficamos com a impressão de que alguém no Banco da Itália foi responsável por essa decisão de sequestrar os fundos do Vaticano e abrir uma investigação sobre dois dos mais altos oficiais do banco do Vaticano.

Então, aqui, no fim da matéria, soubemos que o Banco da Itália estava “agindo sob diretrizes da União Européia”.

Sabemos que a União Européia começou — com considerável entrada de lideranças católicas leigas, como Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi, Robert Schuman — como uma estrutura política para tentar assegurar que os europeus nunca mais se empenhariam numa guerra civil fratricída.

Sabemos que a Europa se tornou algo diferente daquilo que esses três homens previam: um lugar onde as raízes cristãs da Europa são renegadas, e onde muitas crenças morais cristãs são jogadas de lado.

Quais foram as “diretrizes da União Européia” que levaram a essa ação contra o Vaticano pelo Banco da Itália. Quem lançou essas diretrizes, e por que razão?

Essas são questões abertas.

6 Comentários to “Oficiais italianos confiscam fundos e lançam investigação por lavagem de dinheiro contra Banco do Vaticano.”

  1. Me desculpe, Ferreti e demais amigos realmente da Tradição Católica, por este comentário não tem ligação nenhuma com esta postagem.

    Mas, é de suma importancia no destino do nosso país:

    http://ucho.info/saude-de-dilma-rousseff-obriga-o-pt-palaciano-a-trabalhar-com-%E2%80%9Cplano-b%E2%80%9D

    Que Nossa Senhora Aparecida nos livre do comunismo.

  2. Pra mim, parece claro que o Grande Oriente está por trás disso.

  3. Não só o Grande Oriente, mas também o que está POR TRÁS do Grande Oriente, porque toda a sociedade secreta é exotérica e esotérica.

    Temos que rezar muito pelo Papa, pois o plano contra o Pontificado de Bento XVI aparenta se realizar através de fases, as quais, progressivamente, visam desmoralizá-lo.

    Entretanto, não é de se surpreender que o fim desse plano seja a morte do Papa.

  4. Estas investigações legais ou não, verdadeiras ou mentirosas, confirmam a tese de Andrea Tornielli (e outro vaticanista) em recente livro sobre a tentativa de intimidar o Santo Padre na sua missão. A cada pronunciamento ou atitude do Papa tentam desviar o foco para algum fato que possa constrange-lo ou à Igreja.

    Rezemos pelo Santo Padre, principalmente com a proximidade do mês de outubro, Mês do Rosário, com a oração a S. José pela Santa Igreja, composta e prescrita pelo papa Leão XIII para encerrar o terço durante este mês.

  5. Gente, o que o João tem pleno sentido. O martírio está sendo gradual.

  6. É … sem dúvida o pontificado de Bento XVI está indo contra a letra e o espírito do Vaticano II (dominado de liberalismo maçonico) . E isso está incomodando os inimigos infiltrados no aparelho de estado do vaticano. Por isso tanta perseguição contra ele, querem ridicularizá-lo e desacreditá-lo .

    Não duvido que o pior já esteja sendo pensado.