O banqueiro do Papa.

(IHU) Ettore Gotti Tedeschi (foto), administrador do Banco do Vaticano é o homem do compromisso entre catolicismo e liberalismo. O ministro italiano Giulio Tremonti é um distinto admirador além de apoiador de Tedeschi, que foi nomeado há um ano pelo Vaticano.

A análise é do jornalista italiano Alberto Statera, publicada no jornal La Repubblica, 22-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ironia do destino: enquanto o banqueiro do Unicredit, Alessandro Profumo, laico, de esquerda, eleitor nas primárias do Partido Democrático italiano, que continua sendo definido pela imprensa alemã como Mister Arrogance, estava sob processo pela decapitação de parte dos seus acionistas, Ettore Gotti Tedeschi, católico, membro da Opus Dei (mas ele nega), papista e liberal antikeynesiano, presidente do Banco do Vaticano, que foi artífice das piores vilanias perpetradas na primeira República, acaba sendo investigado pela magistratura por lavagem de dinheiro.

Logo ele, que havia prometido fazer do IOR, o banco extraterritorial alocada no Torreão de Nicolau V ao lado do Palácio de Sisto V, no qual transitaram centenas de bilhões de liras de subornos italianos, o reino da celeste harmonia. Uma promessa para exorcizar os fantasmas dos delinquentes que, do cardeal Marcinkus em diante, haviam manchado o IOR durante décadas para a vergonha de Sua Santidade.

O que o papista exemplo do capitalismo católico, amigo pessoal do Papa e do cardeal Bertone, tem em comum com o banqueiro laico e arrogante do Unicredit – exonerado nesta terça-feira depois de ter enfrentado Cesare Geronzi e os potentados representados hoje na Itália por um emaranhado berlusconiano que corresponde a nada menos do que pela dupla Letta-Bisignani, em que Bisignani Luigi é o maçom piduista [afiliado à loja maçônica P2, dissolvida por lei em 1981] que levava fisicamente ao Torreão as quantias de dinheiro a serem lavados (veja-se o grande suborno Enimont) – seria complicado de dizer se não houvesse uma prova. Trata-se de um livro. Um livro que, incredibile dictu, o banqueiro vaticano, professor de Ética das Finanças da Universidade Católica de Milão, escreveu a duas mãos com Profumo e é intitulado “Spiriti animali, la concorrenza giusta” [Espírito animais, a concorrência justa].

Hoje, o banqueiro do Torreão, que o Papa Ratzinger gostaria que fosse prêmio Nobel de Economia, talvez não goste muito do paralelo com o seu colega do Unicredit, que pagou nesta terça-feira também por uma espécie de declaração de autonomia com relação aos poderes dominantes que estão reajustando como querem os equilíbrios das altas finanças. Na ausência de antigas personalidades carismáticas como Enrico Cuccia ou Cesare Merzagora – que, há quase meio século, rejeitou Silvio Berlusconi que já se candidatava como acionista da Generali de Trieste [empresa de seguros], escrevendo-lhe que na verdade não eram apreciados, entre aqueles acionistas distintos, ricos construtores como ele, comprometidos com a política.

O ético Gotti Tedeschi reivindica a sua imagem virtuosa no dia da desonra judiciária: “Há seis meses – diz-nos de noite, depois do choque do aviso de garantia, enquanto entra no Banco da Itália para falar, talvez, com o governador –, busco resolver os problemas que encontrei no IOR. Mas aqui no comunicado trata-se de operações normais de tesouraria”.

Talvez o presidente da ética curva ainda não resolveu o problema das triangulações de suborno em nome de Andreotti, com a fundação norte-americana intitulada ao cardeal Spellman, que por meio do seu banco transitavam livremente. Ele também, o banqueiro ético que tende à celeste harmonia, autor dentre outros de um texto intitulado “Denaro e Paradiso” [Dinheiro e paraíso], para quem, naturalmente, o dinheiro não é esterco do diabo, não está ausente de alguma investigação política planetária: “Talvez alguém pensou em manchar o sucesso que o Papa recém obteve na Inglaterra“. Quem atenta contra Gotti para atingir o Papa? A maçonaria, como o Grão-Mestre do Grande Oriente, Gustavo Raffi, que recém celebrou com tons altos, em Roma, a tomada da Porta Pia?

A maçonaria nacional? A internacional? A laico-católica dos Gelli e dos Bisignani, que hoje, de fato, governa do palácio Chigi? Perguntamos timidamente a Gotti se a investigação que o envolve não é, no fundo, um antigo legado do Banco de Roma de Cesare Geronzi, que por meio da agência bancária da Via della Conciliazione, na Cidade do Vaticano, fazia transitar as operações, digamos, de risco, também chamadas de sujas. Ele diz não saber, mas nós sabemos que, apenas nomeado para o IOR, ele nos garantiu que a era Bisignani, da lavagem de dinheiro da Itália, já estava extinta e quase nos convenceu com as suas intervenções no L’Osservatore Romano e até no jornal dos ateus devotos de Giuliano Ferrara.

Piacentino [da região da Piacenza], pai de cinco filhos (“todos com a mesma mulher”, é preciso dizer nestes tempos), ex-Mc Kinsey, ex-Akros, ex-Santander do membro da Opus Dei Emilio Botin, Gotti Tedeschi é um personagem absolutamente singular no mundo católico, não só da Opus Dei, talvez uma teórica encarnação do compromisso do mundo católico encarnado pelo novo Papa com o capitalismo. Um turbo-liberal papista que menospreza Keynes, contra boa parte da Igreja real, e propõe o hiperliberalismo. Nascido, segundo ele, não com Lutero, mas muito antes, de matriz católica. Não temos certeza, mas Gotti, no almoço, nos convencerá com paixão que o liberalismo, independentemente do que nos disserem, já imperava nos mosteiros medievais. No máximo, foi posteriormente enfraquecido pelo “negocismo” protestante.

Não queremos investigar mais longamente sobre a insidiosa relação Dinheiro-Paraíso, da qual, na verdade, com todo o respeito ao banqueiro vaticano, foge-nos o nexo. Aquilo que sabemos é apenas que a celeste harmonia invocada pelo novo banqueiro de Deus, como talvez o seu colega pós-conciliar Giovanni Bazoli poderia testemunhar, está rompida.

A investigação judiciária, seguida pelos sinais do Banco da Itália, naturalmente é sacrossanta. Mas trata-se de entender se, em nome do sempre mais poderoso ministro da Economia Giulio Tremonti, que é um distinto estimador e apoiador do “Mc Kinsey boy” iluminado pela fé, até o turbo-liberal papista se tornará um objeto a ser atacado eventualmente por causa da persistência perene do Chefe, alérgico a todo contendente possível ao cargo de primeiro-ministro.

One Comment to “O banqueiro do Papa.”

  1. Parece que tem alguém psicografando Orlando Fedeli…O estilo é o mesmo.