“Resisti com o melhor de minhas forças ao espírito do liberalismo na religião”.

… alegra-me dizer que me opus desde o começo a um grande mal. Durante trinta, quarenta, cinquenta anos, resisti com o melhor de minhas forças ao espírito do liberalismo na religião. Nunca a Santa Igreja necessitou de defensores contra ele mais urgentemente que agora, quando infelizmente é um erro que se expande como uma armadilha por toda a terra! E nesta ocasião, em que é natural, para quem está em meu lugar, considerar o mundo e olhar a Santa Igreja tal como está, e seu futuro, espero que não seja considerado fora de lugar se renovar o protesto que fiz tão frequentemente.

O liberalismo religioso é a doutrina que afirma que não há nenhuma verdade positiva na religião, que um credo é tão bom quanto outro, e este é o ensinamento que vai ganhando solidez e força diariamente. É incongruente com qualquer reconhecimento de qualquer religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são matéria de opinião. A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento ou gosto; não é um fato objetivo nem milagroso, e está no direito de cada indivíduo fazer dizer tão somente o que impressiona sua fantasia. A devoção não está necessariamente fundada na fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e católicas, podem aproveitar de ambas e não pertencer a nenhuma. Podem se confraternizar juntos com pensamentos e sentimentos espirituais sem ter nenhuma doutrina em comum, ou sem ver a necessidade de tê-la. Se, pois, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e uma posse tão privada, devemos ignorá-la necessariamente nas inter-relações dos homens entre si. Se alguém sustenta uma nova religião a cada manhã, a ti o que importa? É tão impertinente pensar sobre a religião de um homem como sobre seus rendimentos ou o governo de sua família. A religião em nenhum esntido é o vínculo da sociedade.

O caráter geral desta grande apostasia é um e o mesmo em todas as partes, mas em detalhe, e em caráter, varia nos diferentes países…”

Discurso do Cardeal John Henry Newman em Roma ao receber o Biglietto em que lhe era anunciada sua designação cardinalícia pelo Papa Leão XIII (12 de maio de 1.879)

6 Responses to ““Resisti com o melhor de minhas forças ao espírito do liberalismo na religião”.”

  1. Nunca vi uma declaração tão antimodernista e tão clara como esta. Que Nossa Senhora ajude os bons sacerdotes.

  2. Hoje o Beato Newman já teria infartado.

  3. Ora ora.. o Eminentíssimo Cardeal Newman estava errado!!! Esse pensamento dele é ultrapassado!! É tradicional demais. Os tempos mudaram e o Vaticano II ensinou que todas as religiões são boas e conduzem ao céu. Afinal somos uma irmandade universal. Viva o Ecumenismo!!
    Ass: Gaudium et Spes

    “Os homens podem ir a igrejas protestantes e católicas, podem aproveitar de ambas e não pertencer a nenhuma. Podem se confraternizar juntos com pensamentos e sentimentos espirituais sem ter nenhuma doutrina em comum, ou sem ver a necessidade de tê-la. Se, pois, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e uma posse tão privada, devemos ignorá-la necessariamente nas inter-relações dos homens entre si.”

    O que diria o Santo Cardeal se ele visse o encontro de Assis …. sem comentário !!

  4. E ainda há quem diga que ele foi percursor do Concílio!

    Sim, ele teve ideias muito à frente – basta ler as obras dele. Mas a mania de muitos é considerar liberal tudo e mais alguma coisa que se assemelhe a «progresso». Bato e baterei nesta tecla ad infinitum, porque nem todo o progresso é mau e não tem de ser catalogado como liberal.

    Belo discurso, boa lembrança! Liberalismo é o princípio do indiferentismo. Defender, por exemplo, a condenada (e condenável) liberdade absoluta de todas as falsas religiões e cultos é Liberalismo, é o princípio do indiferentismo, que seria só a sua consequência natural.

    Agora o erro é rotular tudo de liberal, só porque é progresso. Não aceito.

  5. Newman

    O texto apresentado é uma das facetas dos escritos do Cardeal Newman. Cuidado na consideração de sua ortodoxia.
    Os demais escritos dele tem a influencia clara da escola de Tubingen, na época centro do liberalismo, As ideias de Dollinger eram levadas ao debate na Inglaterra pelo lord Acton, grande amigo de Newman.
    Não é a toa que é considerado o precursor do Concilio Vaticano II.
    Por isso “basta ler as obras dele” com os oculos da Verdade e perceberão a sua tese da evolução do dogma subjacente em seus escritos.
    Por isso é que ele é um conhecido com liberal em sua época.
    Claro que como todo o liberal tambem escreveu textos corretos.

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