Os tubarões soltaram rojões e deram vivas a Chalita!

Professor Hermes é vereador e presidente da Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira, estado de São Paulo. Católico, é autor da revisão da Lei Orgânica do município, considerada a primeira lei orgânica pró-vida do país. Candidato a deputado federal na última eleições, escreveu ao povo católico uma excelente carta; ao fim do pleito, obteve  3359 votos. Nosso agradecimento por sua autorização para publicarmos seu desabafo.

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Apontamentos da campanha eleitoral para deputado federal em 2010

Por Prof. Hermes Rodrigues Nery

Chego ao final de uma campanha eleitoral, que foi realmente uma empreitada para além das minhas forças.

Como fazer uma campanha deste porte, residindo talvez no menor dos municípios do Estado de São Paulo, incrustado nas montanhas da Serra da Mantiqueira? Com que recursos, com que meios?  Mas houve um imperativo. Não podia me omitir. A causa da vida urge! Os tomadores de decisão estão votando contra a dignidade da vida, contra a família, contra os princípios cristãos. Temos que nos mobilizar em defesa da vida.

Aceitei atuar no campo legislativo não por ambição, mas pelo sentido da missão, especialmente a missão evangelizadora. A leitura da vida de São Luis, por Jacques Le Goff, inspirou-me o ideal do político cristão (capaz de heroísmo, renúncia e sacrifício por fidelidade ao projeto de Deus, sempre em vista a dimensão soteriológica da vida eterna. “Começamos aqui o que decidimos ser na eternidade). E também Thomas Morus, padroeiro dos políticos, mártir por não negar o primado do sucessor do apóstolo Pedro. Das alturas azuis destas montanhas, li com grande proveito espiritual a vida de São Luis, pai de família exemplar, legislador notável e, acima de tudo, um rei cruzado.

 

 

Houve discernimento e aconselhamento, e coragem de me lançar numa campanha que foi uma façanha e tanto!

Viagens de ônibus, dormindo em casas de família, uma cirurgia de apendicite, muito pouco recurso, um desinteresse enorme de muitos pela causa defendida: a causa da vida, da família, da Igreja e da Pátria. Mais fácil o ceticismo, o indiferentismo, as generalizações. Eu dizia que esta eleição era crucial para a vida da Igreja no Brasil, pois forças adversas ao cristianismo estão se estruturando e vão lançar seus dardos cada vez mais fortes contra os princípios e valores cristãos em nosso País. Mas vi claramente que a maior parte das pessoas hoje não se movem mais por convicções, mas puramente por interesses imediatistas. Preferiram então a aparência, e faltou o discernimento.

Partilho aqui alguns fatos que me impactaram:

O que mais me chocou neste processo foi o alto índice de corrupção eleitoral e a constatação de que vivemos mesmo numa plutocracia, em que triunfa o cinismo e a demagogia. Espantou-me ver como o dinheiro se tornou ídolo, ídolo mesmo, cultuado, adorado enfim. Tudo por dinheiro!

Logo no início da campanha, indicaram-me um empresário em São Paulo, que talvez pudesse me fazer uma doação para viabilizar as despesas de campanha. De cara, ele me perguntou: “Você tem noção de quanto você vai gastar em sua campanha?” E ficou mais de uma hora dizendo que eu iria precisar disso e daquilo, que se tratava de uma campanha muito cara, e que o conceito de democracia como oportunidades iguais para todos era uma falácia (pura retórica), pois o que prevalecia mesmo era o poder econômico. “Ganha quem tem para gastar”, era a sua tese. Muitos na campanha, não prestaram atenção ao que eu tinha a dizer, porque não havia aparato, nem mesmo assessoria. Um padre se surpreendeu de eu ter ido à sua casa de ônibus. Fez questão de me acompanhar até o ponto. Quando me viu no ônibus lotado, junto ao povo, fez recomendações a um auxiliar próximo: “É melhor a gente apoiar o Chalita. Este não tem dinheiro!”

“Você foi bobo!”, afirmou um colega vereador. “Devia ter feito caixa dois como Presidente da Câmara. A maioria faz isso com gordas porcentagens, até mesmo com parte dos salários dos assessores de confiança. Honestidade não dá voto, meu amigo! Agora, como é que vai fazer campanha?”

Foi quando uma liderança de uma cidade próxima me telefonou dizendo que iria me apoiar e que tinha uma proposta a fazer. No dia seguinte, veio acompanhado de alguns assessores de um candidato a deputado estadual propondo uma dobrada com ele. “Do jeito que você está, se não dobrar com algum tubarão, não se elege!” E foi pragmático: “A gente fez um estudo e achamos que você pode conseguir uns mil votos. Isso nos interessa.” E prosseguiram dizendo que ofereciam trinta mil reais pela dobrada, porque tinham informações de que eu poderia realmente ter mais de mil votos na região. E disseram que no dia seguinte viriam me pegar e me levar para o escritório do tubarão, onde tudo seria resolvido. Eu teria o suporte financeiro para fazer uma campanha bem suced ida. “Sem dinheiro, você não ganha. Fé não enche barriga!” Um vereador soube da visita do assessor do magnata, e veio correndo falar comigo, dizendo que o homem tinha bala na agulha. Queria fazer parte do esquema. “Se te derem trinta mil, me arruma cinco e eu te consigo os mil votos, ‘do jeito profissional'”, pois ele sabia como as coisas funcionam.

Chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi pesquisar no Google o perfil do candidato, e fiquei chocado com o que vi, principalmente com as várias denúncias em vídeos do youtube, de desvios de verbas, formação de caixa dois, compra de votos, etc. E ainda mais, o candidato estava indeferido pelo TRE, com vários processos na Justiça. Liguei imediatamente para um dos seus asseclas, para ele não vir, pois não tinha como fazer a tal “dobrada”, inclusive porque ele era de um partido que não estava na minha coligação. E expliquei que, pela lei, aquilo não podia ser feito, com risco de ser denunciado e ter impugnada a minha candidatura. Ao que o assessor me respondeu: “Deixa disso, Presidente, bobagem! Não vai acontecer nada, você não vai deixar de ganhar trinta mil reais por causa disso, vai?” Ao que tive de ser categórico: “Não dá!”.

Mesmo assim, no dia seguinte vieram pessoalmente em minha casa, prontos para me levar ao tubarão. Fomos a um restaurante aos pés da Pedra do Baú (nome que significa guardião) e reafirmei que não dava, porque ele estava indeferido, tinha processos nas costas e não era do partido da minha coligação. Então veio o clássico murro da mesa: “Ele fechou com 148 vereadores em todo o Estado de São Paulo. Como é que você vai fazer a sua campanha? Vai pagar mico, quebrar a cara e ter pouco voto. Veja bem! É campanha de grande porte. Nos interessa os mil votos que você pode ter, entende? E então? Vamos logo resolver isso. O que há, quer mais? Enquanto degustávamos uma truta com pinhão, prato típico da cidade, voltei a dizer que não dava. E eles insistiram: “Presidente, fique sossegado, temos bons advogados. Não há o que a gente não resolva. Olha! Para te tranqüilizar ainda mais: nossos advogados são da equipe da Dilma Roussef.” Aquilo foi fulminante. E encerramos a conversa, por ali: “Não dá!”

O colega vereador ficou inconformado com a recusa, e começou a sair vociferando impropérios, desqualificando-me junto a população. De que a campanha não ia decolar, de que eu ia quebrar a cara, e de que eles, sim, sabiam fazer a coisa. Irado, desgostoso, foi buscar outras opções. Dias depois, uma das lideranças locais trouxe um candidato a deputado federal, de helicóptero, na cidade, e no restaurante fecharam um negócio em torno de quarenta mil reais. Não demorou muito e a cidade foi invadida de banners por toda a parte, de um ilustre desconhecido, garotão bonito, que logo começou a fazer sucesso entre os jovens da praça principal. Banners, cavaletes, folhetos, só dava o garoto mimado na cidade. Nunca ninguém o havia visto por lá, mas o líder local conseguira montar o esquema que queriam. E logo veio uma profusão de cavaletes nas calçadas das ruas e avenidas, que ficaram intransitáveis. “Ganhamos quarenta mil, vamos fazer mil votos e lhe ensinar uma lição! O nosso candidato agora vai ser o primeiro na lista na cidade. Com dinheiro na mão, a gente transforma estrume em doce!”

Continuei a campanha com algumas poucas doações, utilizando meu salário para cobrir despesas emergenciais. E enquanto eu ia apresentando a causa da campanha, levando as pessoas à conscientização das questões em defesa da vida, na cidade, os cabos eleitorais dos “tubarões” promoviam churrascos, jogos de truco nos finais de semana, entrega de cestas básicas, cerveja liberada para o povo, etc. “Tem que ser assim, se não você morre na praia”.

E perguntei: “Vai trinta, quarenta mil reais nisso?”

“Não! Respondeu o edil.

“Como assim?”

“Você vai precisar de dinheiro para a reta final, você entende? Especialmente para o dia da eleição.”

E me explicou: “Vou ser prático e lhe explicar sucintamente o que acontece: escolhemos lideranças de bairro, que conhecem os mais vulneráveis, o pessoal que aceita qualquer negócio. No dia das eleições, conseguimos aí uns vinte, trinta carros particulares, que vão aos bairros da zona rural buscar eleitores. Em cada carro, vêm três, quatro, até cinco pessoas. E lá dentro, no trajeto das casas até a escola, aonde se vota, entregamos os envelopinhos, junto com a colinha, com dez, vinte e até trinta reais, dependendo da pessoa. Entendeu? Se não for desse jeito, meu amigo, você não ganha. Por isso o pessoal gasta uma nota em campanha, e muitos são reeleitos assim, cada vez mais aprimorando o esquema. Compra-se o voto em todo o País. Se você não fizer isso, vai pagar mico.”

Com uma equipe muito reduzida, consegui viajar por mais de doze municípios, muitos me reembolsando o transporte. Os poucos banners que obtive não foram suficientes para dar visibilidade à minha candidatura. Muitos, até o último dia, ficaram sem saber que eu era candidato, enquanto os tubarões fizeram uma propaganda bastante ostensiva e agressiva. Parte da correspondência com o material que ia pelo correio ficou em casa, por falta de recurso. Não foi possível visitar todos os bairros, porque alguns funcionam como feudos. Uma das lideranças de um dos bairros mais populosos da zona rural se desculpou dizendo que achava bonita a minha causa, mas ele havia sido “comprado” por um dos tubarões, porque tinha que terminar a reforma de sua casa. “Mas deixa aqui seus santinhos, que consigo uns votinhos para você lá!”

Na visitas em outras cidades, fiz deslocamentos de grandes distâncias, para reuniões com 10, 20 pessoas. “Olha! A gente tem conversado com o pessoal, mas eles vão votar mesmo no Chalita.” Religiosos chegaram a dizer: “A Igreja estará bem representada com o Chalita! Ele tem mais chance de nos ajudar em nossas ONGs. As nossas paróquias funcionam como ONG, você entende? Precisamos de recursos e o Chalita pode nos oferecer mais”.

Foi uma campanha difícil, dificílima. Devo levar alguns meses para pagar as dívidas. Os tubarões venceram, soltaram rojões. Deram vivas ao Chalita, ao Tiririca. E no começo da noite, um dos vereadores me ligou para me dar o resultado: “agora você viu como se ganha eleição? Fica aí com os teus votos limpos, pois nós é quem vamos para Brasília.”

16 Responses to “Os tubarões soltaram rojões e deram vivas a Chalita!”

  1. Não é surpreendente ler esse texto uma vez que os votos são comprados e fraudados desde a época da República Velha. Isso também mostra claramente o quanto a honestidade é incompatível com política neste país incrível. Não sou católica e sempre soube que Chalita é um inútil e imbecil desde a época que era secretário da Educação do estado de São Paulo. Acho que a canção nova deveria não apoiar candidatos e sim uma diretriz de acordo com os princípios da ICAR mas vejo que esse lado carismático da mesma traz mais prejuízos que defesa para os valores da mesma.

  2. Moro no Sul do Brasil e aqui os votos e eleições são decididos do mesmo jeito.
    Alguém do blog acredita em Sufrágio Universal e Eleições Limpas? Queria ouvir com sinceridade.

  3. Nada disso me surpreende, mas fiquei chocada de qualquer forma…

  4. Ele teve o meu voto!

  5. Parabéns ao autor da carta.
    São Bento do Sapucaí, berço do grande escritor e político Plínio Salgado. Berço também do filósofo e jurista Miguel Reale. Na cidade não há nenhuma homenagem a um dos seus mais ilustres filhos, por ter sido um político que ousou contestar os dogmas da religião democrática. Mais uma prova de que a democracia é uma farsa.
    Pe. João Batista Costa

  6. E tem gente que ainda acredita em ficha limpa.

    “agora você viu como se ganha eleição? Fica aí com os teus votos limpos, pois nós é quem vamos para Brasília.”

    Sem mais ….

  7. É difícil não consentir de que o mundo precisa realmente de um castigo, como se anuncia em Fátima. Somente com uma tribulação mundial, que destrua estes ídolos da modernidade–a avareza, a soberba, a luxúria, a gula–, que reduza tais deuses ao pó é que viabilizará o triunfo da Igreja sobre a Cidade do Homem, cuja pretensão de auto-suficiência terminará na sua completa destruição e falência.

    Prof. Hermes, o Sr. já ganhou a Coroa da glória pelo simples fato de caminhar na virtude quando tudo à sua volta o convidava ao desespero de ceder aos inimigos, e fazer do vício, do erro e do pecado caminhos para o Bem. Não há batalha que justifique a aliança com o demônio e seus servos, pois para Deus, defender a Sua causa não significa vencer sempre, mas lutar sempre, já que as derrotas também santificam e nos ajudam a sempre permanecer na humildade, na fidelidade e na esperança. Cristo venceu o mundo reinando numa Cruz, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Tenha a segurança, prof., de que Nosso Senhor nos dará a vitória final contra a aparente segurança daqueles cujo ídolo é o dinheiro.

  8. Vereador moro em Vitória de Santo Antão cidade de Pernambuco e há alguns meses já tinha visto na internet reportagens sobre o o senhor e sua lei orgânica, inclusive sugeri ao Presidente de nossa câmara municipal que olhasse a matéria ele foi receptivo. Tentaremos instigar para que o mesmo ocorra aqui na nossa cidade. Temos dois Padres que fazem campanha contra a ” onda da morte” que se aproxima de nós. Entretanto temos outros que nos fazem vergonha: um é ligado a “teologia da libertação (cria de Dom Helder Câmara, foi até ordenado por ele), e o outro exerce um cargo estadual de “animador” de pastorais escolhido por Dom Fernando Saburido (outro Bispo que segue a linha modernista)! Os que aqu defendem a vida são Monsenhor Padre Renato, e o fundador da Fraternidade Arca de maria, Padre Rodrigo Maria, a esses e ao senhor minhas gratidões. e que Deus vos proteja. Salve maria!

  9. Infelizmente não consegui divulgar muito o nome do prof. Hermes, porém teve o voto da minha família. É uma pena que não conseguimos enviá-lo para Brasília.

  10. Pobre Brasil, sem Rei, sem lei e sem Deus …

  11. Luciano Padrao.
    Essa frase é de Frei Vicente de Salvador?

  12. Prof. Hermes

    É uma honra vê-lo neste site. Estive com o Sr no CODIVAP de vereadores em Paraybuna ( Super Flumina ) eu o admiro e tenho guardado comigo uma frase que o Sr disse ” vamos trabalhar e dar trabalho para quem não quer tabalhar” sou assessor parlamentar em Caçapava. Algo digno assim só poderia ter vindo de alguém como o Senhor. Fique com Deus.

  13. Se paróquia funciona como ONG, a igreja local não tem mais vida espiritual, mas vida empresarial. Padres que são sociólogos e empresários, que não têm fé e não sabem mais rezar e que, muito menos, ficam no confessionário à espera das almas como São Padre Pio, adoram o Santíssimo e prestam auxílio e direção espirituais às famílias, às almas doentes e aos moribundos. Foi isso que a TL conseguiu para seus sectários, fazer as paróquias de sindicatos e as pastorais clubes de fofocas e de deboches. Todos perderam a fé e se evitam com um silêncio sepulcral e desconfiado. Desde Câmara a Boff, querendo fazer sua igreja de pobres sem libertação individual dos vícios (principalmente, aquela da pingaiada), conseguiram isso, um aglomerado de afetados que não sabem olhar Deus e o destino de suas almas no face-a-face e com santa violência contra seus próprios defeitos.

  14. Compartilho de todo o desgosto expressado na carta. Também parabenizo o Prof. Hermes por não compactuar com essa sujeira. Mas também quero ressaltar um fato: quem vende o voto também é culpado! Enquanto existirem pessoas querendo vender, também vão existir pessoas comprando. Chega de vender voto Brasil!

  15. Existem poucas resistências morais meu caro professor Hermes e você é uma delas. Só lamento por aqueles que se deixam envolver pela corrupção, notadamente alguns membros da igreja que inescrupulosamente se deixam navegar por águas imundas, tudo em nome da vaidade e do poder político. Contudo, fico mais animado, por sentir que nem tudo está perdido.
    Não tem dinheiro que compre a dignidade do verdadeiro homem.
    Parabéns pela sua atitude! E peço a Deus que continue te iluminando, para que sirva de luzeiro para a queles que o cercam.
    E sigamos em frente, em favor da Vida!…

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