Bento XVI: “As dominações, os poderes caem e tornam-se súditos do único Senhor Jesus Cristo”.

Assim, neste momento, podemos lançar o olhar no segundo Salmo desta Hora Média, o Salmo 81, onde se vê uma parte desse processo. Deus está entre os deuses – ainda então considerados em Israel como deuses. Nesse Salmo, em uma grande concentração, em uma visão profética, vê-se o enfraquecimento dos deuses. Aqueles que pareciam deuses não são deuses e perdem o caráter divino, caem por terra. Dii estis et moriemini sicut nomine (cf. Sal 81, 6-7): o enfraquecimento, a queda da divindade.

Esse processo que se realiza no longo caminho da fé de Israel, e que é sintetizado em uma única visão, é um processo verdadeiro da história da religião: a queda dos deuses. E assim a transformação do mundo, o conhecimento do verdadeiro Deus, o enfraquecimento das forças que dominam a terra, é um processo de dor. Na história de Israel vemos como esse libertar-se do politeísmo, esse reconhecimento – “somente Ele é Deus” – realiza-se em meio a tantas dores, começando pelo caminho de Abraão, o exílio, os Macabeus, até Cristo, E na história continua esse processo de enfraquecimento, do qual fala o Apocalipse no capítulo 12; fala da queda dos anjos, que não são anjos, não são divindades sobre a terra. E realiza-se realmente, exatamente no tempo da Igreja nascente, onde vemos como, com o sangue dos mártires, são enfraquecidas as divindades, começando pelo imperador divino, todas estas divindades. É o sangue dos mártires, a dor, o grito da Mãe Igreja que lhes faz cair e transforma assim o mundo.

Essa queda não é somente o conhecimento de que esses não são Deus; é o processo de transformação do mundo, que custa o sangue, custa o sofrimento das testemunhas de Cristo. E, se vemos bem, percebemos que esse processo não acabou. Realiza-se nos diversos períodos da história de formas sempre novas; também hoje, neste momento, com a dor, o martírio das testemunhas. Pensamos nos grandes poderes da história de hoje, pensamos nos capitais anônimos que escravizam o homem, que não são mais algo do homem, mas são um poder anônimo ao qual os homens servem, pelos quais os homens são atormentados e até mesmo massacrados. São um poder destrutivo, que ameaçam o mundo. E, em seguida, o poder das ideologias terroristas. Aparentemente em nome de Deus é feita violência, mas não é Deus: são falsas divindades, que devem ser desmascaradas, que não são Deus. E, em seguida, a droga, esse poder que, como uma besta voraz, estende as suas mãos sobre todas as partes da terra e destrói: é uma divindade, mas uma divindade falsa, que deve cair. Ou também o modo de viver propagado pela opinião pública: hoje se faz assim, o matrimônio não conta mais, a castidade não é mais uma virtude, e assim por diante.

Essas ideologias que dominam, que se impõem com força, são divindades. E na dor dos santos, na dor dos fiéis, da Mãe Igreja, da qual nós somos parte, devem cair essas divindades, deve realizar-se o que diz a Carta aos Colossenses e aos Efésios: as dominações, os poderes caem e tornam-se súditos do único Senhor Jesus Cristo.

Desta luta na qual nós estamos, deste enfraquecimento de deus, dessa queda dos falsos deuses, que caem porque não são divindade, mas poderes que destroem o mundo, fala o Apocalipse no capítulo 12, também com uma imagem misteriosa, da qual, parece-me, podem ser feitas diversas belas interpretações. É dito que o dragão coloca um grande rio de água contra a mulher em fuga para oprimi-la. E parece inevitável que a mulher seja afogada neste rio. Mas a boa terra absorve esse rio e ele não pode produzir danos. Eu penso que o rio seja facilmente interpretável: são essas correntes que dominam a todos e que desejam fazer desaparecer a fé da Igreja, a qual não parece mais ter lugar diante da força dessas correntes que se impõem como a única racionalidade, como único modo de viver. E a terra que absorve essas correntes é a fé dos simples, que não se deixa abater por esses rios e salva a Mãe e salva o Filho. Por isso o Salmo diz – o primeiro salmo da Hora Média – a fé dos simples é a verdadeira salvação (cf. Sal 118,130). Essa salvação verdadeira da fé simples, que não se deixa devorar pelas águas, é a força da Igreja.

Palavras do Papa na 1ª Congregação do Sínodo para Oriente Médio

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2 Comentários to “Bento XVI: “As dominações, os poderes caem e tornam-se súditos do único Senhor Jesus Cristo”.”

  1. Disse o Santo Padre: “E a terra que absorve essas correntes é a fé dos simples, que não se deixa abater por esses rios e salva a Mãe e salva o Filho. Por isso o Salmo diz – o primeiro salmo da Hora Média – a fé dos simples é a verdadeira salvação (cf. Sal 118,130). Essa salvação verdadeira da fé simples, que não se deixa devorar pelas águas, é a força da Igreja.”
    O que significa a fé dos simples?? Indicaria que grande parte da hierarquia perdeu a fé?? A fé do povo católico sustenta a sua Igreja??

  2. Quando o Papa estava ainda no avião, corriga-me se eu estiver enganado, viajando para Portugal houve um fato interessante.

    Foi com aquela onda de escândalos da mídia para atingi-lo e também a Igreja que presenciamos; ele mesmo ficou admirado com os fatos.

    Porque demonstrou a todos que a Mensagem de Fátima é atualizada. Quer dizer, estava realizando conforme a mesma Mensagem, embora oculta ao público ainda, segundo Bento XVI com os casos de pedofilia.

    Disse, além disso, que os inimigos da Igreja, com os vários casos de pedofilia, estão dentro dela.

    Todavia, não quero ser sensacionalista ou algo parecido com isso:

    Mas será que está no mesmo contexto essa afirmação papal com os tempos de agora e ainda não sabemos?

    E principalmente no nosso país?

    Acho, é opinão somente e nada de forçar enganosamente uma doutrina segundo alguns com a “Tradição Viva” aqui, que só o futuro vai nos dizer.

    O restante é rezar e confiar em Nossa Senhora.