Papa aos bispos do Regional Nordeste V da CNBB em visita Ad Limina: « não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo ».

Discurso pronunciado pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, aos bispos brasileiros do regional Nordeste V da CNBB em visita ad limina apostolorum:

Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.

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24 Comentários to “Papa aos bispos do Regional Nordeste V da CNBB em visita Ad Limina: « não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo ».”

  1. Não vai adiantar nada.

    Os bispos da CNB do B já estão comprometidos com o marxismo-leninismo. Ou o Santo Papa está sendo ingênuo ou está mal-informado em relação aos desmandos da diabólica CNBB.

  2. Não Renato, mais claro do que isso só a luz do próprio Deus!

    O Papa está informadíssimo sobre as posições intestinas e se posiciona CLARAMENTE, apontando o que NÃO SE PODE NEM DEVE ACEITAR.

    Vamos todos correr nos nossos emails e encaminhar o máximo de vezes possível essa mensagem para contrapor às atitudes vergonhosas daqueles Bispos que além de não ajudar, prejudicam !!

    ADMDG,

    Renata

  3. Belíssimas e importantíssimas as palavras do Santo Padre!!!
    Ele está muito bem informado sobre a situação do Brasil neste momento.
    Por isso discordo do comentário do amigo Renato aqui em cima. O Papa não está sendo ingênuo não. Está sim é dando um alento aos bispos que se mantiveram fiéis como d. Bergonzini e mostrando aos que não defenderam a vida inocente como deveriam ter agir/agido. É claro que o Papa conhece os desmandos da CNB do B. Mas, não é tão simples assim mandar tudo as favas.

  4. D. Bergonzini não disse que reclamaria do que anda acontecendo para o Papa? Creio que este seja o resultado.

    Uma coisa bonita de se ver!

  5. Sem dúvida nenhuma o Papa está muitíssimo informado do que se passa no Brasil, sobretudo, sobre a questão vergonhosa devido a tal malfadada e degringolada eleição.
    O que acontece é que os Bispos, em sua maioria, fazem ouvidos moucos em relação a tudo que vem de Roma.
    Eu presenciei uma cena que esclarece a situação pela qual estamos passando. Um Bispo, ainda titular hoje, pegou o documento “Veritatis Splendor”, de João Paulo II, recém publicado, folheou-o, abriu a gaveta da mesa do seu escritório e disse:”com documentos desse tipo, agente faz isso”, e jogou a Encíclica dentro da gaveta e fechou-a. Arrematou dizendo:”coisas da Cúria Romana que estão a anos luz atrás da nossa realidade”…
    Uma cena curiosa se passou na visita dos Bispos do regional norte 1 e noroeste. D. Moacir Grechi, que saudou o Papa em nome dos outros Bispos, foi o único que estava sem a veste talar. Não entendi o motivo, coisa que nem D. Casaldáliga conseguiu quando foi forçado, literalmente, FORÇADO, pelo então cardeal Ratzinger, a fazer a visita ad limina na época.
    Um pequeno sinal, mas, que revela quanta resistência este Papa está sofrendo.
    Os Bispos quando foram ter com o Papa na Catedral da Sé em SP, receberam, no convite, o pedido expresso de estarem vestidos com a veste talar, e o mesmo acontece quando vão a Roma. Por isso é super estranho essa atitude do Arcebispo de Porto Velho, ou melhor, dele ter conseguido tal proeza…

  6. Eu tinha a íntima certeza de que o Papa na primeira oportunidade que tivesse daria a indicação do rumo certo aos bispos do Brasil. E deu, ainda a tempo.
    O Papa não podia deixar-nos sem luz. Não podia deixar-nos com tempestades na consciência ao determinar os rumos a tomar no futuro.
    Haverá bispos que não ligam ao que o Papa diz. mas passamos a saber que esses bispos não são católicos e que, portanto, não temos de lhes obedecer. Um Bispo para ser católico tem de estar em união com o Papa.
    Assim, o discurso do papa foi providencial para a Igreja: para nós, leigos, para os padres e para os bispos.
    Graças a Deus

  7. Caro Renato, desculpe-me dizê-lo, ingenuidade é somente olhar o efeito deste discurso na estrutura burocrática da CNBB.

    O Santo Padre deu mostras de que está muito bem informado sobre o que está acontecendo no Brasil – qual é a situação da Igreja em nosso País – e além disso quis atuar a sua maneira, fazendo um discurso aos Bispos do Nordeste.

    “Para bom entendedor, meia palavra basta.” Ou num provérbio tupiniquim: “Para bom entendedor, um pingo é letra!”

    Podemos com acerto pensar que os destinatários últimos das palavras do Papa somos nós, clérigos, religiosos e leigo que lutamos em prol da Igreja e do Brasil.

    Suas palavras são um incentivo aos Bispos que se pronunciaram,a D. Aldo Pagotto, aos Bispos do Sul-1, especialmente D. Bergonzini, todos os que receberam em troco ameaças e desprezos, inclusive da esquerda católica.

    Devemos fazer o maior eco possível deste discurso papal, especialmente fazendo-o junto aos jornais e canais de notícias. Não foi por acaso que ás vésperas destas eleições, das mais importantes do País, o Santo Padre quisera discursar a Bispos Brasileiros sobre o tema: Política, Defesa da Vida e Missão dos Bispos de instruir e ensinar a verdade, ainda a custo da impopularidade!

    Saibamos nós fazer bom uso de suas palavras em nossos apostolados.

    Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil nos abençoe, nos proteja e nos conduza por um caminho de Vitórias e de Fé!

    Salve Maria!

  8. Deus seja louvado por tão excelso pontífice. Como já disse, ao menos estas eleições servirão para se separar o joio do trigo na Igreja do Brasil.

  9. Revenrendo Pe. Anderson,

    Sua benção!

    O senhor tem toda razão. Nós frequentemente ficamos revoltados com o silêncio das autoridades frente a atrocidades cometidas pelo clero e pelo bispado brasileiros. Agora que o Papa falou, e falou em ótima hora, temos que agradecer a Deus e comemorar!

    Que as coisas continuem assime a ssim sejam daqui para frente!

    Salve Maria!

  10. Enquanto isso, o Pe. Marcelo, junto com o Cardeal Hummes, declarou que “a Igreja deve ficar na dela”.

    ***

    Viva o Papa!

  11. Concordo com o padre Anderson Batista. Esse discurso do Santo Padre é mais que oportuno. Estamos a poucos dias das eleições. Em outras palavras, o Santo Padre está dizendo: “abram a boca, vocês são pastores, falem abertamente sobre os temas morais no âmbito político.”

    O Papa trata basicamente dos pontos mais controversos do PNDH3. E qual é o partido que defende esse plano infeliz? Basta juntar o nome à pessoa. Logo, esse é um pronunciamento que se bem disseminado e trabalhado poderá surtir efeitos positivos para as eleições.

    Hoje Dom Bergonzini, Dom Pestana e os poucos bispos que fizeram o que o papa está pedindo dormirão o sono dos justos.

  12. O esforço e o sofrimento de Dom Bergonzini não foram em vão!
    O pronunciamento de S.S. Bento XVI caiu como uma tora de madeira maciça sobre as coinsciências dos bispos, padres e religisoso “amigados” do PT e de sua candidata. Claro que cão de rua, apanha mas não perde a pulga.
    Entretanto, eles já sabem que sua autoridade não é mais “lá essas coisas”, portanto, receberão a paga do que semearam. Pra eles o carnaval acabou! As máscaras não servem mais!
    Fica a certeza de que, ainda que não pareça, a virtude e a sabedoria dos poucos bons ainda falam mais alto.

  13. Too late?

  14. Pois é Marcelo, eu acho too late tb!

    Mas ao menos a impetuosa posição de Dom Bergonzini já estragou bastante a alegria dos ímpios (ao menos no 1º turno).

    Rezemos e o ajudemos para que surta efeitos neste 2º tb. Agora, claro, com o muito tardio respaldo de nosso doce mas veemente Chefe.

  15. Roma locuta, causa finita est.

  16. E ele so citou documentos pos-CVII!

    Habemus Papa!

    Deo Gratias!

  17. Concordo plenamente com a opinião do A. Neto, que este alerta do Papa é exatamente por causa da carta de Dom Bergonzini. E tem mais a globo no JN de hoje quando foram entrevistar a Dilma sobre este assunto ela mais uma vez se enrolou toda, até que a Globo resolveu tirar o microfone, parece que para protegê-la do embaraço. Parabéns D. Bergonzini que Deus o abençoe e ilumine. Depois de tudo isso se o povo votar no PT não digam que não foram avisados.
    Paz e Bem

  18. VIVA O PAPA !!!

  19. É a regional onde estou situado… Oremos para que as palavras do Santo Padre sejam frutíferas.

  20. Tenho um link no Sucessão de todos os discursos dessas visitas, tudo muito bonito, mas nada mudou.

    Marcelo Rossi ganhou prêmio, tenho pânico de pensar no fábio botox ganhando prêmio e discursando: minha gente, o que importa é o amor. O vaticano é humano, humano demais.

  21. Renata, n foi por causa de Dom Bergonzini que as eleições foram para o segundo. Se alguém ficou surpreso, certamente n foram os petralhas, pq eles compraram as pesquisar para dizer que ela ganharia.

    O colégio eleitoral da comunista é Nordeste e Norte, lá a voz de Dom Bergonzini n chega, sem contar que há um grande número de Católicos contra o que ele diz.

    O efeito do segundo turno será os eleitores da Mariana Silva que ela liberou para votar em quem quiser.

    ************* Serra está com 52 % das intenções de votos e a comunista com 48%. O mesmo GPP acertou sobre a situação no primeiro turno, masss isso n sai na mídia.

    http://movimentoordemvigilia.blogspot.com/

  22. Não esqueçam de D.Odilo que, numa homilia, lavou as mãos ao dizer “Vocês decidem!”

    http://www.arquidiocesedesaopaulo.org.br/noticias/2010/noticias_1010_voces_decidem.htm

    De qq forma, não desanimemos e defendamos sempre nossa fé.

  23. Nunca, mas nunca mesmo, nos esqueçamos do Padre Norman Weslin – preso por defender a vida:

    https://fratresinunum.com/2009/05/19/cai-o-pano-consagracao-da-apostasia-e-do-secularismo-nas-universidades-catolicas/

  24. Muito forte, claro e incisivo o discurso do Papa.Curioso, o bispo que o saudou, Dom Gilles, foi um dos prelados que assinou um manifesto há poucas semanas em favor da candidatura Dilma, junto com Frei Beto, Leonardo Boff e outros que tais. Os jornais de hoje e a TV estão dando destaque ao pronunciamento papal. Terão as palavras do Santo Padre influência no 2ºturno da eleição? Não sei. Um padre me dizia que dizia há pouco que talvez até leve alguns ‘católicos’ a votar na Dilma, pois são críticos a tudo do Papa. É claro, enfim, que o pronunciamento de Bento XVI não tem valor só para este instante eleitoral, devendo incentivar os bispos a falar claramente quando for o caso, em defesa de valores morais.

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