Papa aos bispos do regional Centro-Oeste: a Conferência Episcopal deve “evitar de colocar-se como uma realidade paralela ou substitutiva do ministério de cada um dos Bispos”.

Queridos Irmãos Bispos,

Estou feliz por vos dar as boas-vindas na ocasião da vossa visita ad Limina. Viestes à cidade onde Pedro, por último, cumpriu a sua missão de evangelização e deu testemunho de Cristo até à efusão do seu próprio sangue; viestes ver e saudar o Sucessor de Pedro. Deste modo fortaleceis os fundamentos apostólicos da Igreja no vosso país e expressais visivelmente a vossa comunhão com todos os demais membros do Colégio episcopal e com o próprio Pontífice romano (cf. Pastores gregis, 8). Deste teor são as amáveis palavras que o Senhor Arcebispo de Brasília, Dom João Braz, me dirigiu em vosso nome e que agradeço, enquanto vos asseguro do meu cordial afeto e das minhas orações por vós e por todas as pessoas confiadas aos vossos cuidados pastorais.

Com a visita do Regional Centro Oeste, se encerra este ciclo de encontros dos Prelados brasileiros com o Papa que se iniciou há mais de um ano. Por uma feliz coincidência, na data do discurso que dirigi ao primeiro grupo de Bispos era a vossa Festa Nacional da Independência, enquanto o último discurso que hoje pronuncio tem lugar justamente no dia em que se recorda a proclamação da República no Brasil. Aproveito o fato para sublinhar uma vez mais a importância da ação evangelizadora da Igreja na construção da identidade brasileira. Como bem sabeis, a atual sociedade secularizada exige dos cristãos um renovado testemunho de vida para que o anúncio do Evangelho seja acolhido como aquilo que é: a Boa Notícia da ação salvífica de Deus que vem ao encontro do homem.

Neste sentido, há quase 60 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é um ponto de referência da sociedade brasileira, propondo-se sempre mais e acima de tudo como um lugar onde se vive a caridade. Com efeito, o primeiro testemunho que se espera dos anunciadores da Palavra de Deus é o da caridade recíproca: «Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 32). A vossa, como aliás as demais Conferências Episcopais, nasceu como concreta aplicação do afeto colegial dos Bispos em comunhão hierárquica com o Sucessor de Pedro, para ser um instrumento de comunhão afetiva e efetiva entre todos os membros, e de eficaz colaboração com o Pastor de cada Igreja particular na tríplice função de ensinar, santificar e governar as ovelhas do próprio rebanho.

Ora, a Conferência Episcopal apresenta-se como uma das formas, encontradas sob a guia do Espírito Santo, que consente exercitar conjunta e harmoniosamente algumas funções pastorais para o bem dos fiéis e de todos os cidadãos dum determinado território (cf. Código de Direito Canônico, cân. 447). De fato, uma cooperação sempre mais estreita e concorde com os seus irmãos no ministério ajuda os Bispos a cumprir melhor o seu mandato (cf. Christus Dominus, 37), sem abdicar da responsabilidade primeira de apascentar como pastor próprio, ordinário e imediato sua Igreja particular (cf. Motu próprio Apostolos suos, 10), fazendo-a ouvir a voz de Jesus Cristo, que “é o mesmo, ontem, hoje e sempre” (Hb 13, 8).

Assim sendo, a Conferência Episcopal promove a união de esforços e de intenções dos Bispos, tornando-se um instrumento para que possam compartilhar as suas fatigas; deve, porém, evitar de colocar-se como uma realidade paralela ou substitutiva do ministério de cada um dos Bispos, ou seja, não mudando a sua relação com a respectiva Igreja particular e com o Colégio Episcopal, nem constituindo um intermediário entre o Bispo e a Sé de Pedro.

Entretanto, no fiel exercício da função doutrinal que vos corresponde, quando vos reunis nas vossas Assembléias, queridos Bispos, deveis sobretudo estudar os meios mais eficazes para fazer chegar oportunamente o magistério universal ao povo que vos foi confiado. Essa função doutrinal será desempenhada nos termos indicados por meu venerado predecessor, o Papa João Paulo II, no Motu Próprio “Apostolos suos“, também ao abordar as novas questões emergentes, para depois poder orientar a consciência dos homens para encontrarem a reta solução para os novos problemas suscitados pelas transformações sociais e culturais.

De modo especial, alguns temas recomendam hoje uma ação conjunta dos Bispos: a promoção e a tutela da fé e da moral, a tradução dos livros litúrgicos, a promoção e formação das vocações de especial consagração, elaboração de subsídios para a catequese, o compromisso ecumênico, as relações com as autoridades civis, a defesa da vida humana, desde a concepção até a morte natural, a santidade da família e do matrimônio entre homem e mulher, o direito dos pais a educar seus filhos, a liberdade religiosa, os outros direitos humanos, a paz e a justiça social.

Ao mesmo tempo, é necessário lembrar que os assessores e as estruturas da Conferência Episcopal existem para o serviço aos Bispos, não para substituí-los. Trata-se, em definitiva, de buscar que a Conferência Episcopal, com seus organismos, funcione sempre mais como órgão propulsor da solicitude pastoral dos Bispos, cuja preocupação primária deve ser a salvação das almas, que é, aliás, a missão fundamental da Igreja.

Queridos irmãos, no final do nosso encontro, gostaria de vos convidar a olhar para o futuro com os olhos de Cristo, depondo n’Ele a vossa esperança, pois «a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Reiterando o meu profundo afeto pelo povo brasileiro, confio o Brasil à intercessão materna da Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida, modelo de todos os discípulos: Ela vos conduza pelos caminhos de seu Filho. E, lembrando cada um dos Prelados brasileiros que, durante estes últimos catorze meses, passaram por aqui em visita ad Limina e também aqueles que não puderam vir por problemas de saúde, de todo o coração concedo-vos, assim como aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas, aos catequistas e a todos os vossos diocesanos, a Bênção Apostólica.

Discurso do Santo Padre, o Papa Bento XVI, aos bispos do Regional Centro-Oeste da CNBB em visita ‘Ad Limina Apostolorum’, 15 de novembro de 2010.

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20 Comentários to “Papa aos bispos do regional Centro-Oeste: a Conferência Episcopal deve “evitar de colocar-se como uma realidade paralela ou substitutiva do ministério de cada um dos Bispos”.”

  1. As palavras vão ficando cada vez mais claras. Deo Gratias.

  2. Há um texto do papa Bento XVI, ainda como cardeal, em que ele considera a estrutura das Conferências episcopais sem base na Tradição apostólica. Este discurso está neste contexto.

  3. um tapa bem dado na cara da CNBB

  4. Bel sermão para os Bispos da CNBB. Parabéns a Bento XVI!

    Antônio, as Conferências Episcopais além de não encontrarem base na tradição (embora se pretenda uma analogia ao esquema oriental de Pentárquia…), representam uma ruptura com a tradição. Não houveram e não haverão mais Concílios Regionas. Eles foram substituídos pelas Conferências (como a de Aparecida), que possuem uma finalidade social…

    Fique com Deus.

  5. Belas palavras as de Bento XVI. Cheias de fé, de esperança e de caridade. Um correção sistemática da agulha magnética. Um farol para que o rumo não seja ignorado e, pelo contrário, seja apetecido e procurado por todos.
    Mas as palavras do Papa que têm para nós, leigos, um valor enorme, valerão para os bispos o mesmo que para nós. Quem não viu os impropérios de alguns bispos à cerca da posição da Igreja sobre a vida? Quem não viu o silêncio da maioria dos bispos sobre o assunto? Eles que nunca tiveram tempo de meditarem sobre o assunto, te-lo-ão agora?
    Ou o bom coração da CNBB aproveita o momento e submete a “banda podre” a uma cirurgia de limpeza (quem não viu agora a posição da CPT, da CIMI e da CJP, tudo sub-divisões da CNBB, a cerca do PNDH-3 e das alianças espúrias que foram feitas) ou a CNBB torna-se num organismo anti católico, possivelmente, anti cristão.

  6. O Bispo da minha diocese está aí… Espero que tenha entendido o recado e não se faça de surdo…

  7. Comparem a foto do artigo do Fretres, com essa outra, também da visita, mas, digamos… “mais real”

  8. Belíssimo !!!! Bravo!!! Será ideal a dissolução da CNBB, depois de uma dessa.

  9. Caro Erasmo,
    Ótima sua comparação. E depois acusam de cismáticos aqueles que falam de duas Romas.
    O pior cego é aquele que não quer ver.

  10. Argh!

    Essa foto Erasmo dá enjôo!

    Vou vomitar!

    Não suporto mais ver esta realidade…

  11. Discurso com a cnbb n resolve!
    Tem agir!!!

  12. A CNBB não sente dor com os tapas que leva pois tem a cara de pedra. Depois do discurso de S.S. eles, no mínimo, saíram com aquele sorriso cínico de desprezo.

  13. É o diálogo…
    Diálogo…diálogo…diálogo…
    Ou se usa o verbo no imperativo – coisa que nos últimos 40 anos só se faz com os que querem se manter fiéis a tradição – ou tudo irá continuar no mesmo…

  14. Ana Maria,

    Concordo totalmente.

    Frase que valeria para as eleições…

    É necessário ação, ameaçar o poder daqueles que são puros burocratas…

  15. O discurso do D. João é breve, mas bonito. Espero e rezo para que o Espírito Santo ilumine nossos pastores.

  16. Pedro é pedra. Eles não tem cara de pedra, muito menos de Pedro… Tá mais pra cara de pau.

    Essa foto Erasmo dá enjôo! [2]

    Deus e Senhor Nosso, protegei a vossa Igreja. Dai-lhe Santos Pastores e dignos Ministros (não extraordinários). Que o rebanho não se perca por falta de pastores.

    Senhor, tende piedade de nós.

  17. Erasmo…
    A sua idéia de comparar as 2 fotos foi muito feliz!!!
    Por que insistirmos em tapar o sol com a peneira?
    Os Bispos, em sua maioria esmagadora, detestam a batina, proíbem, peremptoriamente, seus seminaristas que a usem, proíbem aos padres (quando esses são tontos e não conhecem o CDC) também, e agora posam, artisticamente, farisaicamente, na presença do Papa… Chega de hipocrisia, chega de mascarar a rebeldia do Episcopado brasileiro…
    A veste dos padres e dos Bispos, como está no CDC, é a batina ou clarygman. Eles só usam na frente do Papa, em Roma, porque são obrigados, isso é desobediência. A segunda foto prova isso categoricamente.

  18. Vladimir, mas n vai acontecer, né?! Ao menos tãoooooo cedo!!!

  19. Eles saem da sala e ficam rindo. Não gostam do Papa. Tudo isso é apenas encenação. Poucos são os Bispos Brasileiros alinhados com Roma.

  20. Desanimadora a foto do Erasmo. Mas, como se diz na minha terra, “Deus tá vendo”…