In Te Projectus.

Sermão proferido pelo reverendíssimo Monsenhor José Geraldo Caiuby Crescenti, insígne canonista e amigo de Dom Manoel Pestana e de Dom José Cardoso, por ocasião da Santa Missa de 7º dia celebrada na Catedral de Santos:

O falecimento de um fiel oferece ocasião para discorrer sobre os dons de que era ornado e agradecê-los a Deus.

Falar de Dom Manoel Pestana Filho como inteligência brilhante, cultura universal e profunda; homem totalmente desprendido de si, para dedicar-se febrilmente a Deus e às almas; humilde, bondoso que atraiu inumerável legião de pessoas; empolgante mestre, pai espiritual para muitos de seus alunos – seria por demais sabido.

O que mais caracterizou Dom Pestana foi o amor à verdade, fruto de seu caráter retilíneo e de amor à Igreja.

Apesar de sua extrema bondade e retidão, foi incompreendido e criticado por não poucas pessoas.

Para se compreender devidamente esse fato seria importante retroagir no tempo e recordar os anos posteriores ao Concilio Vaticano II, encerrado em 1965.

Instalou-se, então, em boa parte da Igreja, sob o pretexto de desejável renovação, uma onda de rebelião contra o passado.

Paulo VI, na audiência geral de 18 de setembro de 1968, condenou esse “espírito de crítica corrosiva, tornado moda em alguns setores da vida católica” . E, em outras oportunidades, alertou contra a contestação na Igreja sobre diversos pontos .

Bento XVI, em 22 de dezembro de 2005, a respeito da interpretação do Concílio Vaticano II, fala de uma “hermenêutica de descontinuidade e ruptura”, “apoiada não raramente pela simpatia da grande mídia e também por uma parte da teologia moderna”, causadora de confusão, “pois leva a uma ruptura entre a Igreja preconciliar e a Igreja posconciliar” .

Dom Pestana, com serenidade, procurava defender a Santa Igreja contra as errôneas interpretações do Concílio Vaticano II.
Isso lhe valeu, por parte de alguns, as acusações, em síntese, de retrógrado e rebelde.

Sua nomeação ao Episcopado foi uma reparação a essas acusações, uma declaração de inocência, pois a vida de um candidato a Bispo passa por severo crivo da Santa Sé, mediante minucioso e secreto processo informativo.

Sua sagração episcopal a 18 de fevereiro de 1979, nesta Igreja Catedral, foi um verdadeiro triunfo!

A diocese de Anápolis, para a qual fora nomeado bispo, era extremamente carente de clero.

Convencido de que a obra de evangelização não pode ser feita devidamente sem o sacerdote, abriu, logo no ano seguinte à sua chegada, o Seminário Diocesano, hospedando em sua própria residência os primeiros candidatos ao sacerdócio.

Como norma pastoral, costumava nortear-se pelos seguintes princípios, que citava algumas vezes: Omnia videre, multa tolerare, pauca corrigere (ver tudo, tolerar muito, corrigir pouco). Em outras palavras: após atenta observação, corrigir apenas o principal.

Mas, ao notar algo que lhe parecesse importante corrigir, não pecava por omissão, lembrando a frase de Santa Catarina de Siena: “o mundo morre pelo silêncio” e outra de Leão XIII: “a audácia dos maus se alimenta pela covardia dos bons”, ambas as frases também frequentemente por ele citadas.

Assim, notando o abuso da absolvição coletiva, tornada praticamente habitual em Anápolis, corrigiu essa falha, e deu o exemplo de confessar pessoalmente os fiéis.

Apesar de sua bondade e critério, sofreu, durante três anos, duras críticas e incompreensões, por parte de alguns elementos da cidade de Anápolis – poucos, mas afoitos e organizados – que não toleravam suas orientações. As acusações se tornaram públicas, mas Dom Manoel Pestana, imitava o silêncio de Jesus diante de Pilatos e não se defendia.

Tornando-se mais grave a situação, correram em defesa do inocente Bispo, publicamente e por escrito, os sacerdotes seculares da cidade de Anápolis.

Nessa ocasião, foi-lhe de especial auxílio o Exmo. Revmo. Sr. Dom José Silva Chaves, então Bispo da diocese de Uruaçu (GO), vizinha à diocese de Anápolis.

Esse insigne Bispo, hoje emérito, goiano de nascimento, profundo conhecedor da região e do povo goiano, transitava amiúde por Anápolis. Tomou, assim, conhecimento da situação em que se encontrava o novo Bispo, a quem passou a admirar. Conhecia bem a origem das injustas acusações e seus acusadores. Promoveu e obteve, em favor de Dom Pestana, uma manifestação de apoio dos Bispos do Regional Centro-Oeste e da Assembléia Geral da CNBB.

Serenados os ataques, pôde Dom Pestana continuar o trabalho em prol das vocações sacerdotais, construindo o belo e amplo edifício do Seminário Maior, enriquecendo a Diocese de Anápolis de dezenas de sacerdotes, por ele bem formados.

Fez vir da Europa os Cônegos Regulares da Santa Cruz, que construíram o Mosteiro, onde receberam e recebem sólida formação intelectual os seminaristas da diocese de Anápolis.

Estimulou os movimentos de leigos da Diocese, merecendo especial menção o Movimento Pró-Vida, que se tornou ponto de referência no Brasil.

Não faltaram, todavia, a Dom Pestana, fora da diocese de Anápolis, ataques contra sua orientação, que ele suportou com imperturbável tranquilidade.

Donde provieram tanta coragem e serenidade a esse grande homem, tão sofrido, para carregar heroicamente a sua pesada cruz?

A chave de explicação encontra-se na vivência de seu lema episcopal In Te projectus, tirado do Salmo 21, v. 11, e que poderia ser traduzido: eu fui arremessado (lançado) para Vós (ó Senhor).

Trata-se da visão profética dos sofrimentos de Cristo que, num clamor, deposita no Pai toda a sua confiança.

Dom Manoel Pestana vivia arremessado, engolfado em Deus. E em Deus encontrava irradiante conforto para quantos o procuravam.

Na oração e na penitência purificava sua alma para poder bem exercer seu ministério.

Penitência: sou testemunha pessoal de que, durante alguns anos consecutivos, Dom Manoel Pestana, em Anápolis, em cada sexta-feira da semana, dedicava-se a total jejum, abstendo-se completamente de alimento sólido ou líquido, tomando apenas água natural. Por prescrição médica foi obrigado a suspender posteriormente essa prática.

Em suas visitas a Santos hospedava-se ultimamente numa casa religiosa dedicada a moradores de rua. Aí foi encontrado morto, jazendo no solo. Entregou sua bela alma a Deus como sempre viveu: escondido, humilde, pobre entre os pobres.

No desprendimento total de si, voltado para Deus, transmitia Deus aos homens!

Oxalá aprendamos desse amigo, irmão e pai, a lição que nos deixou: viver intensamente para Deus, IN TE PROJECTUS!

Amém. Assim seja!

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Cfr. Di fronte alla contestazione- Testi di Paolo VI – A cura di Virgilio Levi – Milano: Rusconi Edittore, 1970, p. 21.
Cfr ibidem et passim
Cfr. AAS vol. XCVIII (2006), pp. 45-46; Insegnamenti di Benedetto XVI, vol. I (2005, p.1024.

3 Comentários to “In Te Projectus.”

  1. Caro Ferreti.

    Não precisa publicar este comentário.

    A citação de Leão XIII no texto está ao contrário.

    No texto está: “a audácia dos bons se alimenta pela covardia dos maus”.

    O certo seria “a audácia dos MAUS se alimenta pela covardia dos BONS”.

    Abraço

  2. Mons. Crescenti viu e pede desculpas pelos erro de redação na frase: “a audácia dos bons se alimenta pela covardia dos maus”; leia-se: “a audácia dos bons se alimenta pela covardia dos maus”. Obrigado.