Fonte: Distrito Sul-americano da FSSPX
Tradução: Fratres in Unum.com
A primeira parte desta entrevista pode ser lida aqui.
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29. A próxima beatificação de João Paulo II cria um problema?
Um problema grave: de um pontificado que avançou a grandes passos no sentido errado, na direção do progressismo e de tudo aquilo que se chama “o espírito do Vaticano II”. Por isso, não é somente uma consagração da pessoa de João Paulo II, mas também do Concílio e de todo o espírito que o acompanhou.
30. Há um novo conceito de santidade desde o Vaticano II?
É de se temer! É um conceito de santidade para todos, de santidade universal. É verdade que há um chamado, uma vocação à santidade, feito a todos os homens; o falso é rebaixar a santidade a tal nível que leva a pensar que todo mundo vai para o céu.
31. Como Deus poderia permitir verdadeiros milagres para chancelar uma falsa doutrina, com motivo das muitas beatificações e canonizações feitas nas últimas décadas?
Esse é o problema: trata-se de verdadeiros milagres? Trata-se de verdadeiros prodígios? Para mim, há dúvidas. Estou muito surpreso, pelo que pude saber, pela rapidez com que eles lidam com esses assuntos.
32. Se as canonizações comprometem a infalibilidade pontifícia, é possível recusar os novos santos canonizados pelo Papa?
É verdade que há um problema nas atuais canonizações. Contudo, é possível se perguntar se na fórmula utilizada pelo Sumo Pontífice existe uma verdadeira vontade de empenhar a infalibilidade. No caso da canonização, mudou-se a fórmula, os termos são muito menos expressivos que antes. Creio que isso caminha junto com a nova mentalidade, que não quer fazer definições dogmáticas comprometendo a infaliblidade. Pois bem, admitamos que estamos diante de hipóteses… Não há respostas convincentes, exceto aquela sobre a intenção da autoridade suprema de empenhar ou não sua infalibilidade.
33. Pode-se escolher entre os santos recentemente propostos à veneração dos fiéis? O que fazer com Padre Pio?
Creio que não se deve escolher. No entanto, sempre se poderá ter em conta os critérios que foram universalmente reconhecidos no passado. Assim, quando se está diante de uma devoção popular massiva – como é o caso do Padre Maximiliano Kolbe ou do Padre Pio – não deveria haver dificuldades. Reitero, aqui não há mais que opiniões, em razão da ausência de um juízo magisterial pronunciado dogmaticamente.
34. E Dom Lefebvre? O senhor conhece exemplos de graças concedidas por sua intercessão?
Sim, são conhecidas, e várias. Não sei se correspondem à ordem dos milagres… talvez sim, em um ou outro caso. No caso de cura de enfermidades, não temos, que eu saiba, todos os documentos médicos necessários. Muitas graças por intercessão de Monsenhor. Mas não vou mais adiante do que isso.
35. A Fraternidade acaba de comemorar um importante aniversário. Como resumiria estes quarenta anos?
Uma história apaixonante… lágrimas – muitas – em meio a grandes alegrias. Uma das maiores alegrias é comprovar até que ponto Deus nos permite estar associados a muitas das bem-aventuranças que pregou no Sermão da Montanha, como é a de poder sofrer por causa de seu nome. E no meio de todas as vicissitudes da crise atual, vemos que esta obra continua se expandindo, algo que, humanamente, é quase impossível. Aí está a mão de Deus nesta obra de Dom Lefebvre.
36. Existe um aumento de vocações? Se sim, quais são as causas?
Creio que exista uma grande estabilidade. Desejaria que houvesse mais vocações. Acredito que será necessário relançar a cruzada das vocações. O mundo é muito hostil, como tal, ao surgimento das vocações: por isso devemos tentar reestabelecer os meios nos quais as vocações possam voltar a surgir, porque há vocações, mas com freqüência não chegam a amadurecer por causa deste mundo materialista.
37. Recentemente, por ocasião do Congresso de “Sim, Sim, Não, Não”, o senhor falou sobre uma reunião com cerca de trinta sacerdotes diocesanos da Itália em que participou. O que estes sacerdotes esperam hoje em dia da Fraternidade?
Sobretudo, estes padres nos pedem a doutrina, o que é um sintoma excelente. Se eles se aproximam de nós é porque querem a missa antiga, evidentemente, mas depois de descobrir a missa antiga querem outra coisa. Querem algo mais, porque descobrem todo um mundo de cuja autenticidade são conscientes. Não duvidam de que ali esteja a verdadeira religião. Por isso, precisam renovar seus conhecimentos teológicos. Alí eles não se enganam, vão diretamente a Santo Tomás de Aquino.
38. Este movimento de sacerdotes que se aproxima da Fraternidade é, em graus diferentes, o mesmo em todos os países?
Existem diversos graus, certamente, e quantidades distintas, segundo os diferentes países. No entanto, o fenômeno se reproduz um pouco por todas as partes: um sacerdote, em geral jovem, que se aproxima da missa tradicional, que descobre com grande entusiasmo este tesouro e que pouco a pouco percorre o caminho em direção à Tradição que, ao fim, transforma-o em cem por cento tradicional.
39. O senhor tem esperança de que semelhante interesse também possa se estender a certos bispos, a ponto de antever uma futura colaboração?
Já temos contatos com bispos, ainda que, por ora, tudo esteja bloqueado pelas conferências episcopais e por pressões ao redor. Mas não há qualquer dúvida de que no futuro seja possível haver, com alguns bispos, alguma colaboração.
40. O senhor estaria disposto a ensaiar a experiência da Tradição com um bispo, no âmbito de uma diocese?
As coisas não estão maduras para isso, ainda não chegamos a esse ponto, mas penso que acontecerá. Será difícil, será necessário ver exatamente como se poderá concretizar. Será necessário que isso ocorra com bispos que tenham compreendido realmente a crise e que verdadeiramente queiram trabalhar conosco.
41. Os fiéis são cada vez mais numerosos. Multiplicam-se as capelas. O estado de necessidade permanece existindo. O senhor planeja sagrar outros bispos auxiliares para a Fraternidade? Acredita que Roma possa atualmente ser favorável à sagração de bispos na Tradição?
Para mim a resposta é muito simples: haverá ou não bispos se as circunstâncias que prevaleciam na primeira sagração se repetirem ou não.
42. Excelência, temos a alegria de vê-lo com freqüência nos Estados Unidos. O senhor gosta de passar por aqui. Algum comentário?
Meu comentário: amo todas as almas que Deus nos confia e há muitas nos Estados Unidos. É tudo!
43. Já pôde se encontrar com o Cardeal Burke?
Tentei vê-lo várias vezes, mas ainda não pude fazê-lo.
44. Muitos bispos dos Estados Unidos deram seu apoio à Marcha pela Vida; um deles interveio energicamente contra um hospital que favorecia o aborto. Existem esperanças de que eles se dêem conta de que a crise atual também afeta a fé?
Creio que, infelizmente, entre os clérigos modernos há de se distinguir a moral da fé; então se poderá ver que há mais bispos lúcidos diante dos problemas morais que bispos comprometidos com as questões de fé. Todavia, é possível dizer que, se alguém se põe a defender valentemente a moral católica, deve necessariamente ter a fé, e, ainda, que sua fé será fortalecida por isso… É o que espero, embora reconhecendo que há algumas exceções…
45. Os bispos norte-americanos querem revisar juntos as diretrizes dadas por João Paulo II às universidades. Quais deveriam ser, de acordo com o senhor, as medidas urgentes a tomar para que as universidades atuais sejam verdadeiras universidades católicas?
A medida urgente, a primeira, é voltar à escolástica. É necessário se livrar das filosofias modernas, voltar à sã filosofia, a filosofia objetiva, realista. Santo Tomás – como já ocorrem no começo do século XX – deve voltar a ser a norma. Outrora as 24 teses tomistas eram obrigatórias. É necessário voltar a isso, absolutamente necessário. Depois desta restauração filosófica será possível continuar na mesma linha com relação à teologia.
46. Dom Robert Vasa, bispos de Baker (Oregon), recordou recentemente que as declarações da Conferência Episcopal não obrigavam ao bispo com relação à sua diocese. É um desafio à colegialidade promovida pelo Concílio?
Não só um bispo falou sobre este tema da colegialidade. O próprio Papa, falando à Conferência episcopal do Brasil, dirigiu palavras enérgicas, voltando a pôr em seu lugar o papel das conferências episcopais, insistindo sobre a autoridade dos bispos e suas relações diretas com o Santo Padre.
47. O seminário de Winona é o mais importante em número de seminaristas. Como explicar este fato?
Penso que se deva simplesmente à generosidade deste país, que se deixa entusiasmar facilmente por uma boa causa.
48. O que é necessário fazer para multiplcar as vocações sacerdotais e religiosas?
Rezar, rezar e rezar! E fazer sacrifícios.
49. Quais são os pontos fortes da Tradição nos Estados Unidos?
Creio que há esta generosidade, à qual acabo de me referir, e as escolas. É verdade que existe uma quantidade importante de sacerdotes e que precisaríamos de mais; mas diria que as escolas, sobretudo, são indispensáveis. Do mesmo modo é necessário promover a ajuda às famílias tradicionalistas. Devemos iniciar um movimento para as famílias, para apoiá-las, para formá-las. É a célula básica da sociedade, é fundamental na ordem natural e na ordem sobrenatural.
50. Qual é a importância que o senhor dá às escolas?
É fundamental, é o futuro. A juventude será católica se receberem uma boa formação. E para isso precisamos contar com escolas católicas.
51. As famílias numerosas e generosas às vezes se vêem obrigadas a seguir cursos de educação à distância. O que o senhor recomenda aos que têm acesso a bons colégios?
Aos que têm acesso a bons colégios católicos, não devem duvidar um instante sequer: que coloquem seus filhos nestes colégios! A educação à distância nunca substituirá uma boa escola. Se não há um bom colégio, a situação muda completamente.
52. O senhor planeja, Excelência, convocar uma nova cruzada de rosários? O que recomenda aos fiéis hoje?
Sim, a situação do mundo, a situação da Igreja – vê-se muito bem – continua sendo muito sombria; ainda que haja alguns reflexos de esperança, os fatores inquietantes obrigam, mais do que nunca, a intensificar nossas orações, recorrendo à Santíssima Virgem. Para os fiéis de hoje em dia o indispensável é a oração, a oração em família, reiterada, freqüente, acompanhada daquilo que educa a alma cristã, o espírito de sacrifício.
53. Excelência, no ano que vem o senhor celebrará seus trinta anos de sacerdócio, dezoito dos quais à frente da Fraternidade São Pio X. Quais foram os acontecimentos mais significativos ao longo de todos estes anos?
É todo um enredo! Em primeiro lugar, precisamos, certamente, mencionar as sagrações! Os acontecimentos importantes incluem também a alegria de ter estado próximo ao Monsenhor, a alegria de ter estado próximo do Padre Schmidberger e de haver aprendido muito com ele; a alegria de ter podido trabalhar também com outros bispos da Fraternidade, bem como com todos os nossos sacerdotes neste grande movimento de zelo pela fé e pela preservação da Igreja Católica.
54. Um desejo para os próximos anos?
Que a Igreja volte a seus trilhos! É uma metáfora, mas é verdadeiramente nosso desejo. E para isso é preciso que chegue o triunfo do Coração Imaculado da Santíssima Virgem! Precisamos muito dele!
Muito obrigado, Excelência, por sua disposição em responder a nossas perguntas.
Entrevista concedida no Seminário Santo Tomás (Winona, EUA), em 2 de fevereiro de 2011, festa da Apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Purificação da Santíssima Virgem.







"... muitos dos que se dizem católicos ajudam os «revolucionários» . São esses, sempre «moderados», que estimam a «tranquilidade pública» como o bem supremo. Esses católicos tolerantes, condescendentes, brandos, doces, amáveis ao extremo com os maçons e furiosos inimigos de Jesus Cristo, guardam todo seu mau humor para os que gritam «Viva a Religião!» e a defendem sofrendo contínuas penalidades e expondo suas vidas. Para eles, esses últimos são «exagerados e imprudentes, que tudo comprometem com prejuízo dos interesses da Igreja» ".
Que tenho eu, Senhor Jesus, que não me tenhais dado?… Que sei eu que Vós não me tenhais ensinado?… Que valho eu se não estou ao vosso lado? Que mereço eu, se a Vós não estou unido?… Perdoai-me os erros que contra Vós tenho cometido. Pois me criastes sem que o merecesse… E me redimistes sem que Vo-lo pedisse… Muito fizestes ao me criar, muito em me redimir, e não sereis menos generoso em perdoar-me. Pois o muito sangue que derramastes e a acerba morte que padecestes não foram pelos anjos que Vos louvam, senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem… Se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos; Se Vos tenho injuriado, deixai-me louvar-Vos; Se Vos tenho ofendido, deixai-me servir-Vos. Porque é mais morte que vida, a que não empregada em vosso santo serviço… - Padre Mateo Crawley-Boevey