Uma guinada na restauração?

Romano Libero | Golias – tradução: Fratres in Unum.com: Deve-se crer em uma mudança de direção do atual pontificado? Um giro que corrigiria a orientação tradicionalista até então dominante ou ao menos emergente em proveito de um novo alinhamento que não se saberia ao certo qualificar de progressista, mas que nos afastaria, em todo caso, de uma restauração old style digna deste título. Muitos no seio da galáxia tradicionalista estão hoje convencidos disso. Estão desapontados por um Bento XVI hesitante em abraçar verdadeiramente a causa da tradição e multiplicando as iniciativas em sentido contrário, quer por concessão, quer — o que seria pior do ponto de vista tradi — por indecisão de fundamentos (ou flutuação de convicção). De qualquer forma, a beatificação de João Paulo II, a hipótese de um decreto de aplicação que limita o retorno à antiga liturgia, e, sobretudo, Assis III foram a gota d’agua. A confiança está doravante  abalada.

Monsenhor Charles Scicluna

Monsenhor Charles Scicluna

Acrescenta-se a estes três pontos essenciais a suspeita quanto às verdadeiras intenções do Cardeal Antonio Canizarès, prefeito da Congregação para o Culto Divino, à qual se imputa a sombria intenção de conter o máximo possível o parêntese misericordioso (para retomar uma expressão do bispo francês Pierre Raffin [ndr – referência a esta frase: “A situação atual é um parêntese misericordioso para as pessoas que devem se apropriar progressivamente do Ordo Missae de Paulo VI, porque não se trata de fazer do rito tridentino (missa tradicional) um novo rito latino como ele existiu e ainda existe” (La Nef, nov. 1992)]). Dom Canizarès pertenceria à linha chamada de “conservadores de Paulo VI”: uma corrente fundamentalmente hostil aos “abusos” litúrgicos e adaptações excessivamente livres, mas que recusam também o retorno em larga escala da liturgia anterior ao Concílio. Esta corrente preconiza um respeito mais estrito à disciplina eclesial como existe atualmente, mas sem um voltar atrás.

Todos sabem que a Cúria Romana e o episcopado universal são basicamente divididos em três tendências, com, naturalmente, muitos matizes e vasos comunicantes. A primeira destas tendências, em nítido retrocesso, é a dita progressista, que vê na reforma litúrgica um ponto de partida a avançar. Certos bispos americanos ou franceses se mantêm ainda sobre esta linha. Com o apoio discreto de outrora de Dom Piero Marini, mestre das cerimônias pontifícias, removido por Bento XVI. A segunda, amplamente majoritária, agrupa todos os bispos ligados às mudanças do Concílio, mas que recusam outras inovações, sobretudo as lançadas às raízes. É necessário reconhecer que certos prelados desta tendência estão nela sobretudo… por defeito, por interesse pessoal muito limitado para com as questões litúrgicas, particularmente na Espanha ou Itália. Por último, uma terceira tendência ganhou espaço nestes últimos anos, sobretudo desde a eleição de Bento XVI. Sem colocar em questão — ao menos oficialmente — a nova liturgia, ela deseja um certo regresso às antigas e, num maior prazo, uma “reforma da reforma”, noutros termos, uma modificação da liturgia atual aproximando-a da antiga, daquilo que se chama às vezes de tradição. Levantam-se nesta tendência os Cardeais Raymond L. Burke (EUA, Cúria) e Malcolm Ranjith (Colombo).

João Paulo II, apóstolo da alma e sobretudo preocupado com a comunicação, não se incomodava muito com a liturgia e tinha confiança em Dom Marini. Alguns o situavam no encontro entre a primeira e a segunda tendências. Em contrapartida, Bento XVI é muito preocupado em trazer de volta toda sua sacralidade ao culto. Seria classificado de bom grado como um dos tidos por moderados da terceira tendência. E o motu proprio de 2007, que legitima amplamente o recurso à forma extraordinária da celebração da missa (S. Pio V) confirmaria esta orientação de fundo. Mesmo que o Papa tenha se comprometido neste sentido com grande prudência. Devido à oposição de muitíssimos bispos, incluindo, por outro lado, os moderados ou conservadores (como o francês Vingt-Trois ou o espanhol Rouco Varela). E de uma revolta silenciosa na Cúria insuflada, dizem, pelo Cardeal Giovanni Battista Re e Dom Fernando Filoni, Substituto (espécie de ministro do interior). A isso se acrescente a extrema reserva de prelados ratzingerianos, mas não sobre esta questão, como o Cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

De acordo com certos rumores recentes, o Papa finalmente teria consentido a uma espécie de recuo estratégico sobre a posição de fundo da segunda [tendência], ainda que seja sob a forma mais tradicional possível. O indício mais conclusivo seria a sua renúncia à ideia de celebrar publicamente a missa segundo a forma extraordinária. E o Cardeal Canizarès, até então discreto sobre as suas próprias convicções, faria atualmente de tudo para um esclarecimento do Vaticano a respeito da liturgia antiga no sentido da restrição: basicamente, tratar-se-ia de um regresso à situação anterior a 2007. A forma extraordinária seria justamente tolerada, mas o ideal seria a aplicação estrita da liturgia oficialmente em vigor, tal como codificada nos livros, e expurgada de certas adaptações, e mais ainda das improvisações consideradas inaceitáveis. Em linhas gerais, trata-se de uma posição “conservadora” mas que recusa o regresso a São Pio V e mesmo a idéia de uma nova reforma da reforma, desta vez num sentido mais tradicional. Posição defendida, por exemplo, em Bolonha durante longos anos de um ratzingeriano de ferro, o Cardeal Giacomo Biffi.

Canizarès desejaria, em certa medida, reestabelecer a ordem na liturgia. Punindo os desvios de esquerda, mas limitando também o máximo possível as concessões aos tradis. Seu aliado neste combate seria o prelado maltês da Secretaria de Estado, Mons. Charles Scicluna. O mesmo Scicluna que goza de toda a confiança de Bento XVI por sua recusa a qualquer concessão no dossiê ultra-explosivo dos costumes do fundador dos Legionários de Cristo, Padre Maciel. Scicluna se tornaria o novo secretário da Congregação para o Culto Divino, substituindo o arcebispo americano Joseph Augustine Di Noia, um dominicano, que se tornaria o novo Penitenciário Apostólico, esperando ser criado cardeal por ocasião do próximo consistório. Mons. Scicluna, jovem (52 anos) e intrépido, seria o artesão de uma espécie de aperto de parafusos sem precedentes… mas igualmente em detrimento dos que mantêm a liturgia antiga. Seria “toda a reforma litúrgica e nada além da reforma litúrgica”. Daí preocupar aqueles que permanecem unidos à missa Pia [ndr: referência a São Pio V]! Certamente, um recuo de Bento XVI em relação a tudo que ele escreveu sobre o assunto há mais de um quarto de século. Canizarès e Scicluna estão decididos a impôr de todo maneira aos padres e comunidades que continuam unidos à antiga liturgia a celebração igualmente da nova. Começando por concelebrar com o bispo local.

Um indício acaba de ser dado da forte plausibilidade de tal guinada — que não exclui uma posterior mudança em sentido oposto do mesmo Bento XVI – pela recusa do Cardeal de Madri, Dom Antonio Maria Rouco Varela, em autorizar uma missa na forma extraordinária prevista para o próximo dia 10 de março, na igreja de San Manual e San Benito, em Madri. Esta missa finalmente não ocorrerá, embora os organizadores tenham recebido a garantia da parte do pároco, Pe. José Ignacio Alonso Martínez. Com efeito, o arcebispo de Madri considerava que a missa tradicional só podia ser celebrada exclusivamente em um só lugar, um mosteiro, e não em outro.

Muitos tradicionalistas, e naturalmente os integristas da Fraternidade São Pio X, se dizem inquietos por este momento decisivo de um pontificado que se anunciava mais favorável. Dom Bernard Fellay, bispo outrora sagrado por Dom Lefebvre e Superior desta Fraternidade, parte em cruzada contra Assis III. Segundo com ele, a “verdadeira doutrina católica” não permitiria uma tal impostura. De acordo com Fellay, que está aflito, Bento XVI “entende o ecumenismo da mesma maneira” que Karol Wojtyla, o que em sua boca não tem nada de elogio. Dom Fellay explica esta guinada pelas pressões que o Papa teria sofrido. Segundo as nossas fontes, trata-se antes de um certo destempero moral do Pontífice (casos de pedofilia, perseguições contra os cristãos…) que o faria ao mesmo tempo se concentrar sobre o essencial do anúncio cristão (de onde o bemol sobre a liturgia) e aproximar-se das escolhas de Karol Wojtyla.

Diante destas nuvens que ainda não são negras, mas que se aproximam, o superior do Instituto do Bom Pastor (IBP), o Padre Philippe Laguérie, publica em seu blog um longo texto, bem ao seu estilo, sobre três assuntos importantes: a beatificação de João Paulo II, o decreto de aplicação do Motu Proprio e Assis III. Em vez de reconhecer diretamente certa guinada pontifical que se anuncia, Laguérie, contrariamente que ao que havia insinuado ao qualificar Bento XVI de “Papa tradicionalista”, sugere que o Pontificado atual, com efeito, nunca teria sido o de um grande retorno à tradição:

“Quero sim tratar de todas as guinadas que querem,  contanto que me conveçam que efetivamente haja uma guinada. Isso supõe que estejamos em plena linha reta, não é? Concluiria antes que não há nada de novo debaixo do Sol, exceto se, desde o pontificado de Bento XVI, tudo estivesse o melhor dos mundos. Ah, como dizem, se assim fosse…”

Com efeito, o Padre Laguérie nos faz uma bela pirueta. Permitamo-nos interpretar paradoxalmente como um reconhecimento que não ousa falar da decepção cada vez mais maciça do campo traditionalista. E da sua apreensão crescente enquanto se prepara Assis III.

35 Comentários to “Uma guinada na restauração?”

  1. A Páscoa nos mostrará o arremate desta partida de xadrez, apenas uma entre outras tantas. Esperamos aflitos o novo Motu Proprio.

  2. O Padre Ratzinger era um perito dos progressitas no CVII

  3. Dividir para conquistar, eis o lema.

  4. Que Bento XVI não deseje voltar ao que era antes, sempre foi claro. Recordo uma expressão muito repetida na Sagrada Escritura: não ter medo. Mas quem pode fazer com que autoridades eclesiásticas não o tenham. Hoje Nosso Senhor pede que as autoridades eclesiásticas não tenham medo do islã, não tenham medo da maioria dos católicos, não tenham medo dos protestantes, não tenham medo das falsas religiões, não tenham medo de celebrar ou autorizar uma ampla abertura para a celebração em rito tridentino.
    A questão do rito tridentino deve alicerçar-se na questão da doutrina da fé.
    Certas situações na Igreja deixam-nos aflitos. Sobre os sinais precedentes do fim Nosso Senhor diz para não temer, pois não será ainda o fim. O Papa Bento certamente não quer o retorno a João Paulo II, nem o fará. Vem à minha mente a beatificação de João XXIII e as quantas vezes que, no Summorum Pontificum, cita-o como beato para falar do Missal que se autoriza e amplia o uso. Creio que a questionável beatificação de João Paulo II servirá, em momentos oportunos – se neste pontificado ou em outro, Deus o sabe -, para “endireitar” as coisas.
    Mas não se deve esperar muita coisa. A tendência é de criar espaços para que todos se sintam bem, sem incomodar e sem ser incomodado. Lamentável, mas real.
    E demos graças a Deus!

  5. Pe. Marcelo,

    Pelo menos para mim, suas considerações têm sido verdadeiros consolos.

  6. Grato, Eduardo.
    Viu que texto maravilhoso nos foi ofertado: linguagem livre de sentimentos aflorados, apresentação de argumentos consitentes. Artigo assim é que eu gosto, e tenho certeza que muitos gostam. Este blog tem uma função muito importante pela publicidade do mesmo. Todo mundo lê Fratres in Unum. É preciso cuidar para não bater na ovelha ferida que vem aqui, ou mesmo no pastor ferido…
    Preciso compartilhar um tema que precisa ser tratado em alguma oportunidade com a mesma dignidade de linguagem do artigo acima. A questão dos “partidos” episcopais. Um deles, ao qual o Papa João Paulo estava bastante ligado, é o dos movimentos e, mais explicitamente, o Focolares, que prega a espiritualidade da unidade, o que, em outras palavras, cairá na questão ecumênica, que descamba no falso irenismo. O ecumenismo do Papa João Paulo foi, de certa forma, o focolarinismo lubichiano. Aliás, quando será a beatificação de Chiara?
    Importa entender que a constituição de grupos ideológicos não é o ideal, mas uma realidade. Seria importante à Tradição (entenda-se aqui a realidade ampla dos revisionistas conciliares de direita) unir-se mais e bater menos para representar-se mais e conseguir para a Igreja mudanças mais profundas. Um caso bonito foi a iniciativa recente do Pe. Ononda em favor da vida.

  7. Eu temo que um passo em falso de Bento XVI arruine os principais avanços que a Santa Sé conquistou no diálogo com a FSSPX.

    Só que desta vez, depois de ter permitido a abertura das discussões acerca do Vaticano II, quero acreditar que não estaremos sozinhos.
    Anunciam-se grandes tempestades. Mas se o céu irá desabar, ou se elas passarão sem atingir a terra, disso eu não sei.

    Enquanto isso, o estado de necessidade permite. Li ontem que um convento de irmãs alemãs aderiu à FSSPX, depois de tantos anos de sofrimento.

    (merece até um tópico aqui no Fratres… http://www.fsspx.com.br/exe2/?p=1766

    A FSSPX pode se encontrar numa posição relativamente confortável, pois não responde a propostas modernistas sob pena de perder posição nas paróquias ou dioceses. Mas certamente ninguém está feliz com esse estado de coisas. Ninguém está torcendo contra. É lamentável, é doloroso constatar que o caminho de restauração parece obstruir-se.
    Mas em pior situação devem se encontrar a maioria dos padres que situam-se sob a comissão Ecclesia Dei… que deve estar bem… Afflicta…

    Mas falo de alguns padres. Melhor falar desta maneira do que envolver instituições inteiras, afinal sabemos bem que há grupos ditos tradicionalistas que na prática funcionam como o PMDB da Igreja: sem convicções, exceto a de se atrelar ao papa da vez, para se manter junto do poder, que chamam PLENA COMUNHÃO.
    Mas falo de outros padres. Especialmente dos que romperam com a FSSPX na esperança de que, depois do motu proprio, tudo estaria bem.
    Se o artigo acima estiver correto, e houver uma ordem vinda da Curia para que os padres tradicionalistas sejam obrigados a concelebrar com bispos e rezar missa nova… Não seria o caso de pensar: “No final, a FSSPX estava certa, e fez muito bem em manter-se prudentemente onde estava”?

    Sob certo aspecto, como o que se refere ao caso da “camisinha do prostituto” ou da condecoração dos abortistas portugueses, eu quase me atrevo a dizer “com JP II, éramos felizes e não sabíamos”…
    O que sei: enquanto estivermos na rocha firme da Igreja, orando, recebendo os sacramentos e com os pés firmes na Tradição imutável, estaremos seguros. Que venham os tsunamis, que venham os terremotos, que venham os vendavais. Que venham papas melhores, que venham piores. Nada nos separará da Igreja, nem da Fé Apostólica. E nem da Sé romana.

  8. Errata:
    o estado de necessidade PERSISTE.

  9. A cada “recuo estratégico” o papa parece perder forças e ceder mais as pressões dos inimigos.
    Não deixarei de rezar por ele, porém, cada vez mais acredito no que disse o Padre Paul Kramer que ,segundo o estigmatizado romano Antonio Ruffini, quem fara a consagração da Rússia ao Imaculado Coração será o sucessor de Bento XVI mas não antes de o castigo previsto no Terceiro Segredo ter começado.
    http://www.fatimacrusader.com/cr82/cr82pg11.asp

  10. Seria importante à Tradição (entenda-se aqui a realidade ampla dos revisionistas conciliares de direita) unir-se mais e bater menos para representar-se mais e conseguir para a Igreja mudanças mais profundas.

    Concordo com o senhor, os grupos leigos de tradicionalistas quase que se matam mutuamente. Conheço pessoas que lutam para formarem grupos pela Missa e não conseguem porque discordam em aspectos meramente incidentais e acidentais, embora concordem em amplo na matéria, leia-se que isso é soberba.

  11. há grupos ditos tradicionalistas que na prática funcionam como o PMDB da Igreja: sem convicções, exceto a de se atrelar ao papa da vez, para se manter junto do poder, que chamam PLENA COMUNHÃO.
    No alvo!

  12. Como o Pe. Marcelo disse, todos sabem que nunca foi o desejo do Papa Bento XVI de voltar ao que era antes do Concílio Vaticano II, ele sempre defendeu o verdadeiro respeito às normas litúrgicas do Missal Romano, a verdadeira interpretação do Concílio.
    Entretanto, ele também não aceitava essa decretação de que o rito extraordinário devia morrer, nunca mais ser celebrado!
    Não sabemos ao certo o que está ocorrendo ao redor do Sumo Pontífice e nem podemos culpá-lo. Até agora está em vigor a política da boa-vizinhança, que busca agradar gregos e troianos.
    Li esse dias alguns jornalistas dizendo que um dos pontos em que o Cardeal Ratzinger não concordava com o Papa João Paulo II era justamente o ecumenismo, as orações multi e interreligiosas, bem como o “excesso” de beatificações e canonizações!
    Confiemos no Senhor, na Virgem e acreditemos em Bento XVI

  13. Aos caros comentaristas que invocam uma soberba para se poder criticar o papa ou outras autoridades:
    A única Teologia é aquela ligada ao Magistério, segundo o próprio papa, o que exige dos leigos que a repitam e cobrem fidelidade à mesma. Se repetimos o que a Igreja ensina, somos fiéis como reflexo de sua Teologia pela observância do Magistério, o qual existe para ser imposto. Quantos às “teologias particulares”, as mesmas devem ser constantemente vigiadas para que todos acusemos quando desviam para a esquerda ou para a direita, porque a Igreja é assistida pelo Espírito Santo exatamente para dizer o que vem e o que não vem de Sua divina inspiração. Ora, se não usamos da inteligência que Deus de Sua parte deu como assistência e como socorro aos seus filhos, vamos obedecer como? Vamos obedecer pela forma (um título, ainda que se faça oco), abstraindo-a do conteúdo (fidelidade ou infidelidade à assistência do Espírito Santo)? Então, que Igreja queremos continuar sendo? Ou não queremos ser Igreja nenhuma ou apenas um arcabouço de Igreja? Entretanto, se o Magistério existe para salvar e se nós o lembramos, então, trabalhamos para salvar almas, ou seja, para que elas não se deixem enganar.

  14. Então, não vou comentar nada de meu raciocínio, mas apenas lembrar que o Magistério (e Santo Tomás de Aquino enquanto referendado pelo ensino de papas) lecionou que o céu é verdadeiramente um lugar e que Deus permanecerá, de certo modo, sem alcance total possível às criaturas. Agora, leiam o que o papa atual disse na Festa da Assunção (15/08) de 2008,
    sobre o céu:
    “A festa de hoje leva-nos a elevar o olhar para o céu. Não um céu feito de ideias abstractas, nem sequer um céu imaginário criado pela arte, mas o céu da verdadeira realidade, que é o próprio Deus: Deus é o céu. É Ele a nossa meta, a meta e a morada eterna de onde provimos e para a qual tendemos”.
    E mais adiante:
    “Contemplando no céu nossa Senhora da Assunção compreendemos melhor que a nossa vida de cada dia, embora marcada por provas e dificuldades, desliza como um rio em direcção ao oceano divino, em direcção à plenitude da alegria e da paz. Compreendamos que o nosso morrer não é um fim, mas o ingresso na vida que não conhece a morte. O nosso entardecer no horizonte deste mundo é um ressurgir na aurora do mundo novo, do dia eterno”.

  15. Caríssimos,

    Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Façamos uma análise fria.

    1) Encontro de Assis: Não há nada de novo aqui. É o velho Papa Bento XVI em ação. De fato, o diálogo interreligioso sempre foi um dos pontos a que o atual Pontífice deu maiores atenções. Não nos esqueçamos que ele é o Papa que mais vezes visitou mesquitas na história. Contudo, o tom dado por ele a tal diálogo sempre foi diverso do dado por seus antecessores. Assim, não é de se estranhar um novo Assis. Estranharei apenas se for igual ao Assis de JPII.

    2) Beatificação de JPII: também nada de novo. Desde o primeiro dia de seu pontificado, Bento XVI deixou clara sua intenção de fazer o necessário para que seu antecessor fosse canonizado o mais rapidamente possível. Não percebo qualquer recuo (mesmo estratégico) quanto a este ponto.

    3) Instruções sobre o Motu Proprio: se o texto tiver o teor apontado por Andrea Tornielli (o que fez com que muitos leitores daqui dessem um “Deo gratias”), não haverá, novamente, qualquer recuo. Mas é necessário aguardar-se o teor do texto para vermos.

    O fato é que jamais Bento XVI foi o Papa tradicionalista que todos gostaríamos. Mas é igualmente fato que seu pontificado foi (e está sendo) substancialmente melhor do que o de seus antecessores imediatos. Não há, ao menos da minha parte, qualquer desilusão justamente porque nunca tive qualquer ilusão quanto a ele. Bento XVI é e sempre foi de “centro”, sem se inclinar demasiadamente à direita ou à esquerda, ao conservadorismo ou ao liberalismo.

    O que, obviamente, não deve nos impedir de rezar por ele, de amá-lo enquanto Pastor Supremo da Igreja e de ser grato por todos os avanços já obtidos nos últimos cinco anos. Avanços que podem não ter sido tantos quantos gostaríamos, mas cuja existência é inegável.

  16. Eu interpretei de forma errada, ou o “parentese misericordioso” tem alguma coisa a ver com a timida liberdade ao Rito Antigo concedidad no fim da decada de 80?

    Pergunto pois achei estranho a citação ser de 1992.

    Vindo do Cardeal Canizares, pareceu um resumo fiel das intenções da Ecclesia Dei:

    “A situação atual é um parêntese misericordioso para as pessoas que devem se apropriar progressivamente do Ordo Missae de Paulo VI, porque não se trata de fazer do rito tridentino (missa tradicional) um novo rito latino como ele existiu e ainda existe” (La Nef, nov. 1992)])

    Mas realmente a palavra é desapontamento. Independente das três correntes, nenhuma parece se ocupar dos problemas doutrinarios gravissimos que são impulsionados pelo Vaticano II e expostos na Missa Nova. Bento XVI tem pensamento modernista, e pronto…

    A comparação do Bruno foi ótima: em geral, os grupos que se aproveitam do Motu Proprio sem poder expor convicção alguma por medo politico, talvez até por não terem tais convicções, parecem mesmo é o PMDB.

    E é isso mesmo. Ser PLENA COMUNHAO mas carismatico, ou, ser da primeira, da segunda ou da terceira corrente liturgica, mas correr o risco de estar desagradando a Deus, ué, com essa confusão, o que adianta? Quem responde? Ficaremos esperando Roma se decidir?

    Repito o que o Bruno disse: enquanto estivermos na rocha firme da Igreja, orando, recebendo os sacramentos e com os pés firmes na Tradição imutável , estaremos seguros.

  17. Ferretti,

    Obrigado pela informação, confundi-me bem então.
    Desculpem-me pessoal!
    Pesquisei rapidamente sobre o Cardeal Raffin e parece que ele apoiou um padre que se negou a celebrar um matrimonio de um casal que havia decidio não ter filhos. Achei muito bom! http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=1086

    De qualquer forma continua parecendo um resumo das intenções da Ecclesia Dei.

  18. Como disse o Padre Marcelo, “a tendência é de criar espaços para que todos se sintam bem, sem incomodar e sem ser incomodado”. Nisto residem todos os problemas, pois a Igreja não é lugar de todos. Nosso Senhor sempre utilizou-se da plantação de trigo, para fazer uma analogia a Igreja. Naqueles tempos, Ele disse que o inimigo vinha a noite para semear o joio. Hoje o inimigo nem precisa vir a noite, ele pode semear o joio em pleno meio-dia. É algo um tanto quanto misterioso que os inimigos da Igreja, sejam tratados, como filhos da Igreja. Quando se concede a hereges e heterodoxos, a possibilidade de serem chamados de católicos, é porque não existe mais o SER que identifica o nome católico. Trata-se apenas de um nome que não possuí elementos particulares que o identificam.

    Agora este negócio de recuo estratégico, é algo demasiadamente humano, que não aponta para o transcendente. É dificíl imaginar um São Pio X, um Pio XI ou um Pio XII recuando ou fazendo concessões aos progressistas. Mas é fácil vermos os papas conciliares negociando com tudo e com todos. Parece que entramos na era da Igreja negociante de Laodicéia. Quando existe o recuo em face de um inimigo, tem se também o reconhecimento de sua força. Não sei, mas me parece que o bem das almas, deveria obrigar os Papas conciliares, a não recuar. Mas como o Padre Marcelo disse, eles estão preocupados em fazer com que todos se SINTAM bem dentro da Igreja. Isto é algo curioso, pois os maus não deveriam se sentir bem da Igreja. Pelo contrário, deveriam ser colocados para fora, para que se arrependem-se e retornassem a Igreja. Mas… mas…

    Fiquem com Deus.

    Abraço

  19. Desculpem-me pela segunda vez!

    Estão vendo como é dificil falar que você acha uma pessoa boa, como eu falei do Cardeal Raffin, por um ato isolado?

    Vejam outras frases dele:

    “para mim foi um progresso pela nova relação que ele instaurou entre o padre e a assembléia, por uma concepção renovada da dimensão sacrifical da missa graças às três novas orações eucarísticas e à transformação dos ritos do ofertório, sem falar da maior riqueza do conjunto de orações proposto pelo novo Missal”.

    “A missa não é um santo espetáculo ao qual assistem fiéis recolhidos. O espírito do atual Missale Romanum, promulgado por Paulo VI seguindo o Sacrosanctum Concilium, se reflete na preocupação constante e primordial da assembléia, apresentada como o primeiro ator da celebração”

    Pior ainda:
    “”A Missa [de Paulo VI] tem, sim, um ofertório, mas ele não está localizado onde se acreditou durante vários séculos”… ”

    Terrível!

    (Estou confiando na tradução feita pela Montfort de um artigo publicado no Le Forum Catolique)
    http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=lobos_papa&lang=bra

  20. Prezados irmãos, a fonte do artigo – La revue Golias – não é uma das publicações mais progessistas e declaradamente inimigas da Tradição?

    De todo modo, como bem disse o Alexandre, nada disso me surpreende, já que não nutro ilusões quanto ao Papa . Quem leu a história do Concílio, e das negociações entre Roma e Dom Lefebvre, sabem muito o que pensa e como foi formado nosso amado Bento XVI.

    Que Deus tenha misericórdia de nós.

    • Caro sr. Robson, o fato de ser um site ultraprogressista não significa que eles não possam escrever artigos com reflexões úteis como este; não se pode negar que eles são muito bem informados.

  21. Como o Bruno já disse sobre o PMDB, vou denunciar o PT dos comentários: os papólogos cegados pela máscara da doce submissão, recusam a usar o talento da inteligência e reconhecer que o papa é estranho.

    N é à toa que Nossa Senhora em Fátima pediu jejum e oração do rosário.

  22. Eu estou com o Alexandre.

  23. Sim, concordo plenamente, isso não desqualifica a matéria. Tanto que deixei claro que, pelo que sabemos, era de se esperar um recuo do Papa Bento XVI. Para S.S. não há erros no Concílio, há apenas falsas interpretações que precisam ser corrigidas, logo…

  24. “e naturalmente os integristas da Fraternidade São Pio X”

    é verdade: “A integridade da vida Católica”

    ….e não só partes sem conexão

    “bonum ex integra causa”
    “malum ex quacumque defectu”

    Para uma coisa ser boa ela deve ser toda boa, mas para chamar alguma coisa de má é suficiente qualquer defeito.

    Que bom ser integrista!

  25. Realmente muitos aqui como eu estão decepcionados com Bento XVI.

    Analisando essses 6 anos de pontificado de Bento XVI, começo a achar que nada mudou. Encontros como o de Assis iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Era só questão de tempo.

    Hoje eu me pergunto: Por que essas loucuras ecumênicas a La João Paulo II não aconteceram antes?

    Será que era devido a idade avançada de Bento XVI?

    Ter que viajar para vários encontros ecumênicos na idade dele deve ser muito cansativo.

    Por que a omissão em condenar as falsas religiões que perseguem os católicos pelo mundo a fora?; Onde se vê claramente o medo de ofender os “irmãos separados” ou membros de outras seitas religiosas.

    Se isso não é seguir fielmente o Concílio Vaticano II eu não sei mais o que é!

    Por que não se condena os escândalo feitos pelos sacerdotes e movimentos claramente ofendendo a Sã Doutrina como muito se vê por ai, aos montes?

    Como é costume depois do Vaticano II, condenar aqueles que querem manter e seguir a verdade. Os que estão no escândalo e pregando o mesmo, os olhos estão fechados e não e vê absolutametne nada, e fingem não ver.

  26. Eu concordo com todos que falaram que estas são tentativas para que todos se sintam bem dentro da Igreja.

    :(

    Imagine… Como se fosse possível uma coisa dessas. Só falta um cardápio na porta da Igreja:

    Santa Missa do dia:
    – Missa Tridentina
    – Missa Carismática
    – Missa TL
    – Missa Fraternidade, Igualdade e Liberdade
    – Missa das Católicas pelo direito de matar

    É até um pecado colocar o nome do Santo Sacrifício no meio de tanto absurdo.

    Outra coisa:

    Tem gente que acha que amamos a Santa Missa de Sempre só por que ela é “bonitinha” e por isso podemos fazer a Missa Nova também bonitinha.

    Não é isso.

    É questão doutrinária e não de beleza.

  27. “Por que não se condena os escândalo feitos pelos sacerdotes e movimentos claramente ofendendo a Sã Doutrina como muito se vê por ai, aos montes?”

    Porque os papas do pós-concílio são todos adeptos do liberalismo e condenações não são uma atitude liberal – exceto as condenações dos contrários ao liberalismo.

  28. Estou com o Padre Alejandro!

  29. Eu idem, Padre A. Rivero.

    OBRIGADA, GOLIAS, PELA ELOGIOSA DISTINÇÃO.

  30. Eu já sabia : O Papa cedeu a pressão do progressismo e dos moderacionismo reinante.Até Pedro teve medo de testemunhar Jesus…e hoje os Papas são refens deste mesmo medo que cometeu Pedro.
    As exigências são sempre sobre os tradicionais- a esses nenhuma concessão é dada e o pouco que é dado tiram.A esses até a excomunhão é oferecida.Emquanto isso o progressismo goza de liberdade civla na Igreja e nenhuma condenação a ele se fará.Hoje os hereges e semi hereges tem liberdade de expressão na Igreja; só quem não tem são os tradicionais.
    Para mim o artigo é revelador : mostra que a Igreja está nas mãos de uma máfia que não está nem aí para a verdade da fé.Mesmo assim devemos mantar a fé nela pois ela é divina e ficar com sua perene tradição contra as novidades.