A Missa Tridentina finalmente retorna à Croácia.

Após muita luta, a Missa Tridentina volta a terras croatas. Segue um resumo de como isso ocorreu. Quem preferir pular o contexto histórico e ir direto para as conversas com a Ecclesia Dei, elas estão expostas mais ao fim do artigo.

Por Vladimir Antonio Sesar

CONTEXTO HISTÓRICO

A Croácia sempre foi o único lugar que tinha a Santa Missa rezada no Rito Romano, porém no idioma eslavo antigo e com grafia Glagolítica, com permissão especial concedida pelo Papa Inocêncio IV. A influência do latim parecia ameaçar, por motivos óbvios, a manutenção de tal cultura típica das terras croatas, mas nunca ao ponto de suprimi-la. O que realmente é interessante é que, justamente após as mudanças litúrgicas pós-Vaticano II, com a quase total abolição da liturgia Tridentina, a liturgia eslava-glagolítica perdeu forças e praticamente foi esquecida em terras croatas. Vê-se com isso que a Missa Nova não só diminuiu a liturgia que utilizava o latim, mas a mesma liturgia que utilizava um outro idioma centenário. Falamos de um ataque central a culturas. Passou-se então a se rezar a Missa Nova no antigo idioma croata, e curiosamente, o empobrecimento da liturgia ficou patente com vestimentas agora muito menos cuidadas, movimentos menos nobres, músicas litúrgicas péssimas se afastando dos cantos populares baseados no eslavo antigo, enfim, mais uma vez mostrando que não adianta se ter o idioma sem se ter a liturgia.

Neste contexto, tanto da história da nação Croata quanto da história recente da liturgia católica, entendemos porque a liturgia Tridentina perdeu força e por que a necessidade de sua volta é tão dificilmente entendida pelo povo croata.  Algo muito importante e que pesa no entendimento é o fato de protestantismo nunca ter tido força na Croácia. É quase unânime a conclusão de que isso se deve à proteção da Virgem Maria, que teria recompensado a fidelidade do povo croata de outros tempos. O duque Branimir, no século IX, oficialmente se colocou diante do Papa Joao VIII como um “filho piedoso e que promete obediência em todas as coisas a São Pedro e ao Santo Padre”.  A Catedral da capital Zagreb foi erguida em honra da Assunção da Virgem Maria, e tem em uma de suas paredes, escrito em glagolítico, um texto que coloca todas as terras croatas sobre proteção eterna da Virgem Maria. Ora, sem a influência protestante, ficaria mais difícil a comparação para entender os perigos da nova liturgia. Para que os leitores tenham uma idéia, somente nos últimos tempos é que a renovação carismática começou a atuar na Croácia, e bem timidamente. Outro fator que ajudou aos croatas ignorarem os problemas da nova liturgia foi a mazela do comunismo, que tomou conta da região logo após o Concilio. O Beato Cardeal Stepinac estava sendo ameaçado para que criasse uma igreja nacional croata, para que facilitasse, assim, a atuação dos comunistas, mas, com apoio do povo católico, manteve-se fiel à Roma e toda demonstração de lealdade era importante naquele contexto politico, inclusive, e infelizmente, lealdade às novas definições litúrgicas.

Com isto, é possível entender porque a liturgia de sempre perdeu força e a este acontecimento não foi dada a devida atenção por parte do povo croata. Soma-se a isso, ainda, a guerra dos anos 90 que causou a destruição de uma série de igrejas. As novas igrejas construídas se afastavam muito do espirito litúrgico minimamente católico como muitos leitores já devem imaginar. Veja exemplos aqui. A guerra trouxe a liberdade e a nova democracia, e infelizmente um espirito que fez com que os croatas trocassem, em sua maioria, a religião católica por um nacionalismo romântico exagerado.

MISSA TRIDENTINA EM ZAGREB

Antes do Motu Proprio, havia já um grupo na capital croata pedindo a celebração da Missa Tridentina. O pedido deles foi totalmente ignorado pela arquidiocese.

Em 2009, foi ordenado o primeiro padre croata de um grupo tradicional, da Fraternidade Sacerdotal São Pedro, o padre Ante Sumic. Ele anunciou que rezaria a Missa Tridentina num pequeno mosteiro franciscano no centro de Zagreb, e quando isso fora anunciado na Internet, os franciscanos lançaram uma nota dizendo que iriam fechar as portas do mosteiro e que ninguém poderia entrar. Isto não aconteceu, mas o mosteiro nunca mais pôde ser usado para tal fim.

Os editores do blog TomaBlizanac, a maior referência virtual sobre a luta pela liturgia antiga na Croácia, enviaram um carta na época para o “GlasKoncila” (Voz do Concilio), maior jornal católico da Croácia, para que publicassem uma nota sobre a ordenação do padre Sumic, e eles responderam dizendo que aquela notícia não tinha a menor relevância, visto que aquilo era tudo coisa do passado. Imaginem então os leitores, qual não é o nível de clareza em relação a tal assunto para o povo croata em geral.

Ocorreu então a apelação à arquidiocese de Zagreb justamente feita por parte dos editores do blog. Em fevereiro, em março e em maio de 2008 foi enviado um email para a secretaria da arquidiocese de Zagreb, e as respostas eram sempre as mesmas promessas de levar o assunto ao arcebispo, Cardeal Josip Bozanic. Em fevereiro de 2009 a pergunta foi repetida, e desta vez foi enviada uma resposta pelo Bispo auxiliar Dom Ivan Sasko dizendo que o pedido não poderia ser atendido, uma vez que estava vindo de uma pessoa e não de um grupo regularmente mantido e com raízes na liturgia antiga, e ainda, disse que não exisita tal grupo que mantivesse tal continuidade histórico-litúrgica, invocando o Art. 5 § 1 do Motu Proprio. No entanto, havia um documento comprovando que 30 pessoas estavam interessadas no rito Tridentino, e este havia sido enviado para um padre de Zagreb de uma Igreja que não era uma paróquia, ou seja, parecia o local ideal para ocorrer a missa no rito extraordinário. Mesmo após outra tentativa em outubro de 2009, evidenciando a existência destes fatores, o mesmo bispo auxiliar disse agora que ainda não se satisfaziam todos os requisitos, porém sem nunca deixar claras quais eram exatamente as condições necessárias ou mesmo, sem quantificá-las. Qual é o número exato de fiéis necessário? Quantos anos de relação com a liturgia antiga eram necessários? O que significa um grupo estável de fiéis? A má vontade do Bispo se evidencia até em minúcias, quando ele tentou insinuar que a petição seria forjada, pelo fato de haver vários nomes com o mesmo sobrenome.

Foi então que Tomislav, editor do blog, em nome do grupo, enviou uma carta à Ecclesia Dei contando todo o ocorrido com as tentativas junto à Arquidiocese até ali. Isso foi feito em 9 de novembro de 2009 e a resposta da Ecclesia Dei chegou em 22 de dezembro do mesmo ano, simplesmente dizendo que foi feito contato com o Cardeal e Arcebispo de Zagreb e nada mais. Em 26 de março de 2010, outra carta foi enviada à Ecclesia Dei perguntando se houve algum progresso após a última conversa que a Comissão teria tido com o Cardeal Bozanic. Sem reposta da ED, outra carta foi enviada a oito de novembro de 2010, relembrando todos os contatos feitos anteriormente, e oferecendo mais ajuda além das orações, mostrando a vontade de voltar a assistir a Missa rezada diariamente pelo Beato Cardeal Stepinac. Finalmente, no dia 25 de novembro de 2010, chegou a resposta diretamente de Monsenhor Guido Pozzo dizendo que sua Eminência Cardeal Bozanic se comprometeu a promover a Missa Tridentina em uma das Igrejas de Zagreb. Em 5 de janeiro de 2011, uma nota oficial da arquidiocese foi lançada, dizendo que o Reverendo Monsenhor Stanislav Vitkovic, que nunca havia rezado a Missa Tridentina, ficaria responsável pela celebração da Missa Tridentina em Zagreb e que se daria inicio às celebrações semanais a partir do dia 20 de fevereiro de 2011 na Igreja de Sveti Martin.

Apesar de nunca ter rezado a missa, Monsenhor Vitkovic “de forma digna e piedosa celebrou a Missa de acordo com o Missal de 1962″, de acordo com o blog TomaBlizanac. Em relação a outras necessidades, o missal foi gentilmente cedido pela arquidiocese de Zagreb, assim como a casula e a estola, mas infelizmente não encontraram um manípulo roxo. Quase todos os itens tiveram de ser comprados, como o cálice, patena, cibório, prato de comunhão, vinho, candelabros e velas, véus e outros.

Nossa Senhora de Bistrica, Padroeira da Croácia, rogai por nós!

Nossa Senhora de Bistrica, Padroeira da Croácia, rogai por nós!

Algo interessante é que eles não foram autorizados a mover o altar novo (a mesa), e nem a tirarem algumas cadeiras para que ficasse mais fácil se ajoelhar no momento da comunhão. Nos anos 90, os bancos que permitiam se ajoelhar foram trocados por cadeiras que acabaram ocupando o espaço que era utilizado para comunhão de joelhos.

Aqui estão algumas fotos da Missa celebrada dia 20 de fevereiro.

Artigo sobre a Missa no blog TomaBlizanac (inglês)

Todos as cartas trocadas com a arquidiocese de Zagreb e com a comissão Ecclesia Dei, é bem importante para quem precisar de um modelo para enviar uma carta/petição à Ecclesia Dei(croata e inglês):

CROÁCIA

População: 4,5 milhões
Idioma: Croata
Surgimento: Aproximadamente no século sétimo.
Religião Católica, catequização por missões do Papa Paulo IV já no século sétimo. Titulo de “AntemuraleChristianitatis” concedido pelo Papa Leao XIII.
Santos:NikolaTavelic, LeopoldMandic, MarkoKrizevcanin e Ivan Trogirski, e em breve o Beato Cardeal Stepinac que será canonizado pelo Papa Bento XVI.
Padroeira: Nossa Senhora de Bistrica (não Medjugorje como alguns pensam…)

Anúncios

6 Comentários to “A Missa Tridentina finalmente retorna à Croácia.”

  1. É através de socos e pontapés e chicotadas que a MIssa Tridentina está voltando. Graças a Deus !

  2. Muito parecida a luta desses irmãos na fé com a luta que travamos do lado de cá…

    Engraçado mesmo é a morosidade da Ecclesia Dei… Aff

  3. A colônia croata parece ser mais piedosa, já que tivemos Missa na Croatia Sacra Paulistana.

  4. Bem, pois se é assim, quem não tem missa alguma, que peça VÁRIAS vezes por escrito. Peça à Arquidiocese, e em seguida peça à Ecclesia Dei. A cada carta para a arquidiocese, enviem duas à Ecclesia Dei. Com certeza a arquidiocese terá conhecimento do pedido por duas fontes…

  5. “Bem, pois se é assim, quem não tem missa alguma, que peça VÁRIAS vezes por escrito. Peça à Arquidiocese, e em seguida peça à Ecclesia Dei. A cada carta para a arquidiocese, enviem duas à Ecclesia Dei. Com certeza a arquidiocese terá conhecimento do pedido por duas fontes…”

    Os católicos estão numa situação de moradores de favela que tem que ter a autorização do “dono da boca” pra poder abrir um comércio ou para exercer qualquer direito que possa entrar em conflito com os interesses do manda-chuva local, uma autoridade auto-constituída na base da violência e que manda por ter mais força.