Fratres in Unum.com

Dom Fellay fala sobre o atual estágio das relações Santa Sé-FSSPX.

Apresentamos nossa tradução de um excerto do sermão de Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, proferido por ocasião das ordenações, na Festa de Pentecostes, no seminário de Winona (EUA).

Fonte: DICI | Tradução: Fratres in Unum.com

Vós quereis certamente, caríssimos irmãos, ouvir também alguns comentários sobre a situação atual da Fraternidade. Onde estamos nós? O que se passa? Eu gostaria de poder vos dizer que tudo é luminoso ou completamente obscuro, mas é, antes, como o tempo hoje, nebuloso e ensolarado ao mesmo tempo! Até um certo ponto, desde pelo menos dois anos, nos encontramo constantemente diante de contradições. Há dois anos, em 2009, pedi uma audiência ao Secretário de Estado, o Cardeal Bertone, devido a este problema: nós nos encontramos diante de contradições. Eu não exagero na palavra: contradição. O que ela quer dizer? Quer dizer que recebemos da parte de Roma mensagens contraditórias; uma diz isso, outra diz aquilo; e não há somente divergências, mas contradições.

Ao refletir, nos interrogamos: por que as coisas são assim, de onde isso vem? Na nossa opinião, em Roma, como em toda a Igreja, há diversas correntes; vamos chamá-las, para simplificar, de corrente progressista e corrente conservadora. Certos eclesiásticos estão próximos de nós e gostariam de nos ver avançar, outros nos odeiam,  é a única palavra exata para qualificar a sua conduta para conosco. Eles nos odeiam e estão em Roma. Às vezes as mensagens vêm deles, às vezes provêm dos outros.

Vos dou um exemplo. No ano passado, em setembro, um padre acabava de se juntar a nós. Pertencendo a uma ordem religiosa, ele recebeu uma carta de seu Superior Provincial lhe dizendo que não era mais membro da sua ordem e que estava excomungado. A esta carta estava juntada um ofício de confirmação, emanado da Congregação para os Religiosos em Roma. Este ofício da Congregação para os Religiosos continha a seguinte frase: “O Padre X não é mais membro da vossa ordem, está excomungado por ter abandonado a fé ao se unir formalmente ao cisma de Dom Lefebvre”. Era datada de setembro passado. Logo, fui a Roma e questionei sobre isso o Secretário da Comissão Ecclesia Dei. Ele nem mesmo me deixou terminar a leitura desta carta: “Eu sei, me respondeu ele, e nós — a Congregação para a Doutrina da Fé — dissemos à Congregação para os Religiosos que eles não tinham o direito de afirmar isso. Eles não são competentes e devem rever seu julgamento”. Depois continuou: “Eis o que deve fazer com esta carta” [gesto de jogar fora], esse é gesto que fez. Noutros termos, pegue a carta e a jogue no lixo! Portanto, uma autoridade em Roma me pede que jogue fora uma decisão de outra autoridade romana. Não é uma contradição? E o Secretário da Comissão Ecclesia Dei prosseguiu: “O senhor deve dizer aos seus padres e fiéis que tudo aquilo que vem de Roma não vem do Papa!” Eu o respondi: “É impossível, como querem que os fiéis, os padres vejam essa opinião? O que vem de Roma, vem do Papa! Ou então se dirá facilmente: o que me agrada vem do Papa e o que me desagrada não vem do Papa!”

Com isso, caríssimos irmãos, deveis compreender que há um grave problema em Roma. Se uma autoridade nos diz: “Atenção! Tudo o que sai de Roma não sai do Papa”, de onde sai então? E como isso é possível? Roma, os serviços do Vaticano devem normalmente ser como a mão do Papa. Isso significa que o Papa não tem mais o controle. Eis o sentido desta frase.

Quando falo de contradições, significa que alguns em Roma estão prontos a nos considerar como fora da Igreja, excomungados, que perdemos a fé, heréticos… E há outros que nos reconhecem verdadeiramente como católicos. Dom de Galarreta e os nossos padres, quando vão a Roma para as conversações doutrinais, dizem a sua missa em São Pedro! Como pode haver essas duas posições ao mesmo tempo? Vede como a contradição é profunda. É por isso que podeis compreender o quanto nos mantemos em alerta. Não vamos nos meter nessa tormenta, sabendo saudar o sol quando ele se apresenta, ao mesmo tempo  que nos protegendo das nuvens quando elas nos ameaçam.

Quem vencerá na Santa Sé? Há tantos exemplos que ilustram o fato de que quando o Papa quer fazer bem, ele é freado, paralisado. Um exemplo de primeira mão, entre tantos outros. Um Padre Abade, superior a única abadia trapista da Alemanha, pediu ao Papa autorização de não somente voltar à missa tridentina, mas de poder retornar à Regra e às Constituições anteriores ao Vaticano II. O Papa deu a autorização e retirou esta abadia da jurisdição da Congregação dos Beneditinos, que seguem as regras modernas, a fim de lhe permitir seguir o uso antigo, antes do Vaticano II. O Papa, então, colocou esta abadia diretamente sob sua autoridade. Seis meses depois, o Abade liga para um de seus amigos em Roma para lhe perguntar: “O que aconteceu? Não tenho notícias!” E o seu amigo lhe responde: “Escreva outra vez ao Papa, mas me envie a carta que eu a entregarei pessoalmente”. Foi o que fez, levou a carta ao Papa e lhe pediu por aquela abadia. Muito surpreso, o Santo Padre respondeu: “Mas eu dei esta permissão há seis meses!” Um investigação foi feita e se concluiu que alguém – nós sabemos exatamente quem – colocou a carta do Soberano Pontífice numa gaveta da Secretaria de Estado. Desta vez, o amigo do Abade — que me contou esse caso diretamente, não se trata portanto de “ouvi dizer” – pediu ao Santo Padre: “Escreva ‘concesso’ (concedido) na própria carta e eu me encarregarei de levar pessoalmente a notícia à abadia”. Tiveram então que driblar a Secretaria de Estado para poder levar a notícia desta decisão do Papa. Esse é apenas um exemplo.

Para vos mostrar até onde o próprio Soberano Pontífice está limitado em sua ação, olheis para o último documento sobre a missa tridentina. Ali temos um belo exemplo das forças contraditórias que atuam em Roma. Por um lado, é muito evidente que há neste texto uma vontade de estender por toda parte a missa tradicional, tornar possível para todas as almas o acesso não somente à missa antiga, mas o modo como os sacramentos eram administrados anteriormente: todos os livros litúrgicos são colocados à disposição de todos. Mas há, por outro lado e ao mesmo tempo, surpreendentes restrições. A primeira, muito impressionante, é que os seminaristas diocesanos não podem se beneficiar do rito antigo, apenas os que dependem da Comissão Ecclesia Dei podem ser ordenados segundo o rito antigo. Por que se diz então que o Pontifical que contém o rito antigo da ordenação está colocado à livre disposição?

Há ainda pior. Por um lado, constata-se essa vontade de pôr à disposição de todas as almas, no mundo inteiro, a missa antiga; posteriormente, descobrimos o artigo 19 que declara que aqueles que querem  se beneficiar não devem pertencer, nem mesmo apenas ajudar, a grupos que são opostos à nova missa. Mas 95% dos que querem a missa antiga se opõem à nova! Por que nós queremos a missa antiga? Se estivéssemos satisfeitos com a nova, nós sequer pensaríamos na antiga! Aqueles mesmos que são contra a validade ou a legitimidade da missa nova são privados da missa antiga: para eles, nada, nada! Mas isso não é mais um ato de reconciliação, é um ato de guerra!

Penso que são precisamente essas contradições dentro do próprio Vaticano que explicam que tais divergências possam ser encontradas num mesmo texto: cada partido tenta obter algo. E estamos assim no meio desta desordem.

Então, ouvimos toda espécie de rumor, absolutamente tudo o que é possível e mesmo impossível de ouvir! Peço-vos, caríssimos irmãos, não sigais estes rumores. Quando soubermos de algo, vos diremos. Nunca escondemos nada e não temos nenhuma razão para esconder o que se passa. Se, portanto, não vos dizemos nada, é porque não se passa nada de novo. Alguns dizem que algo está prestes a acontecer. Não, não é verdade! A verdade é que fui convidado a me encontrar em Roma com o Cardeal Levada, e que isso será em meados de setembro [ndr: segundo o blog Messa in Latino, a reunião será no dia 14 de setembro, quando Summorum Pontificum completará quatro anos]. É tudo o que sei. Isso diz respeito às conversaçoes que tivemos com Roma, após as quais, como foi dito, “os documentos de síntese serão entregues às autoridades mais elevadas”. São as palavras exatas, e é a única coisa que conheço do futuro, todo o resto não é mais que invenção. Então, peço-vos, não sigais rumores.

Tudo isso mostra que o combate continua. Ora, hoje há dois perigos. Um consiste a dizer que tudo está em ordem, todo acabou, o combate está terminado: é uma imensa ilusão. Posso vos garantir, caríssimos irmãos, que se um dia Roma regularizar finalmente a nossa situação canônica, o combate começará, não será o fim! Mas nós ainda não estamos lá! Quanto tempo teremos que esperar? Não sei, não tenho a mínima idéia! Portanto, continuamos dizendo que há uma crise na Igreja. Às vezes é bem entediante, pois em Roma dão a impressão que tudo vai bem, mas no dia seguinte falamos com eles… E eis as palavras que ouvimos da boca do Secretário da Congregação para a Fé [ndr: o Arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ]: “O senhor sabe, são os padres, os bispos, as Universidades Católicas que estão repletos de heresias!” Aí está o que nos disse, em junho de 2009, o Secretário da Congregação para a [Doutrina da] Fé! Eles sabem, portanto, que a situação da Igreja é dramática. Se são capazes de dizer que estamos cheios de heresias por todo lado, isso significa realmente alguma coisa! Mas ao mesmo tempo, agem como se tudo estivesse em ordem. É decepcionante, é desconcertante, reconheço, mas essa é a situação.

DICI n° 237 do 25/06/11