A homilia filo-romana de Mons. de Galarreta nas ordenações da FSSPX.

Ontem, na Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo [dia 29 de junho], foram realizadas, como de costume, as ordenações diaconais e sacerdotais no seminário de Ecône na Suíça, da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Treze novos sacerdotes e quinze novos diáconos foram ordenados pelas mãos do bispo espanhol de Galarreta (foto), que também é o coordenador dos teólogos da FSSPX que participam das conversações doutrinárias do Vaticano, recentemente concluídas.

A homilia do Bispo, que, junto com Mons. Fellay, não é considerado da ala dura da Fraternidade, ao contrário do coirmão Tissier de Mallerais (para não mencionar Williamson), era esperada porque poderia deixar perceber qual o estado das conversações e das relações com Roma.

A espera não decepcionou.

Na homilia de três quartos de hora, que está disponível em formato áudio neste link, o prelado demorou-se longamente, na primeira parte da homilia, sobre a funesta ilusão do Concílio Vaticano II de conciliar a Fé Católica com alguns dos princípios do Iluminismo e da Revolução Francesa; e, para testemunhar aquela intenção falaz, chama o próprio Joseph Ratzinger, que chegou a definir um ‘contra-silabo’ os textos do Concílio e considerou que a Igreja deveria fazer próprios, purificando-os, alguns ideais nascidos fora dela, e particularmente do liberalismo.

Mas se esta é a pars destruens do sermão de Mons. de Galarreta, vem, então, a pars construens e a defesa apaixonada da exigência de buscar em Roma a solução dos problemas da Igreja.

Declarando previamente a gravidade da situação e dos erros doutrinários tão difundidos na Igreja conciliar, dever-se-á, então, abandoná-la à própria sorte? Pergunta-se, retoricamente, o prelado. Muito pelo contrário, responde com emoção: “Por princípio temos que ter contato e por princípio temos que ir a Roma“. Primeiro – observa – porque somos católicos, apostólicos e ROMANOS. Depois, porque, se Roma é o centro do Catolicismo, é de Roma que a solução deve vir. Então, vale mais o pouco de bem que pode ser feito em Roma, do que o muito bem que se pode fazer em outro lugar.

E, depois, charitas Christi urget nos, acrescenta o prelado. Que declara entender que é extremamente difícil abandonar os erros de toda uma vida, quebrar com atitudes e hábitos associados a ensinamentos errados e adquiridos com o consentimento das autoridades. Reconhece que não é fácil e convida os seus a ter compaixão. A caridade é um dever; quem se opõe, por princípio e ferozmente, a todo contato com os modernistas, com Roma, deveria se lembrar de uma passagem do Evangelho: quando o Senhor não foi recebido em uma cidade, Tiago e João pedem-lhe para fazer descer o fogo divino sobre ela. Mas Jesus os repreende: eles ainda não tinham recebido o Espírito, que é Espírito de caridade.

O amor de Nosso Senhor se manifestou não na guerra, nos anátemas, nas condenações, fazendo descer raios do céu, mas na humildade, na humilhação, na obediência, na paciência, no sofrimento, na morte, e ainda perdoando os inimigos na Cruz. Em Sua vida, Ele tentou de todas as formas fazer admitir a Verdade aos fariseus para lhes oferecer a salvação e o perdão. Aqui está o exemplo a seguir. E assim conclui (paráfrase nossa):

Não vejo como a firmeza da Verdade seria oposta à leveza, à engenhosidade e, até, à ousadia da caridade. Nem a intransigência doutrinária é contrária às vísceras da misericórdia e ao sal missionário e apostólico de caridade. Não há que se escolher entre a fé e a caridade, devemos abraçar ambas. Sem a caridade, nada sou: se eu mover montanhas e der tudo aos pobres, sem a caridade, nada sou, como diz a epístola aos Coríntios. A caridade é paciente, a caridade é boa, não é invejosa, não busca o próprio interesse e não leva em conta o mal. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Eis como podemos cooperar para a restauração da Fé, para a restauração de todas as coisas em Cristo. E se o remédio consiste em Cristo, este remédio passa necessariamente pelo Coração de Nossa Mãe, a Santa Virgem Maria. É ela, a Mãe de Cristo, a Mãe de Deus, a Mãe de todos os homens, a Corredentora, a Medianeira de todas as graças; é a Rainha de toda a criação, do Céu e da terra.

No âmbito dos discursos de tons muitas vezes realmente ‘duros’ dos membros da Fraternidade, especialmente quando se destinam precipuamente a um auditório interno e, mais ainda, em uma circunstância tal como as ordenações anuais no principal seminário da Fraternidade, o sermão de Mons. de Galarreta se destaca pelas nuances filo-romanas que transparecem claramente do texto e induzem a um moderado otimismo sobre os humores internos da FSSPX em relação à oferta vaticana de regularização canônica. Clara é de fato a censura que o bispo reserva àqueles que querem a interrupção dos contatos com Roma e anseiam pelo esplêndido isolamento de uma ruptura cismática. Com São Paulo, os considera ‘címbalos que tinem’; homens zelosos e diligentes que, no entanto, faltam da única característica que faria suas atividades virtuosas: a caridade, ou seja o amor ao próximo. Ainda mais clara é a mensagem que ele expressa lembrando quão melhor é o pouco bem feito em Roma, ou seja: no coração da Igreja, que o muito bem feito em outros lugares, ou seja: fora dela. A Fraternidade sente que tem uma missão benéfica a cumprir em favor da Igreja. Mas, para isso, lembra o prelado, se deve passar por Roma, pois é de Roma que deverá vir a solução para a atual crise na Igreja.

Enrico.

Fonte: Messainlatino.it

Tradução: GdAblog Pale Ideas

24 Comentários to “A homilia filo-romana de Mons. de Galarreta nas ordenações da FSSPX.”

  1. Um lindo texto.

    Talvez a melhor colocação já feita sobre a correta postura dos católicos tradicionais.

  2. Gostei imensamente do sermão de Sua Ex.cia Rev.ma Dom Galarreta. Com certeza todo seu pensamento deve estar condensado nesta frase belíssima: “Por princípio temos que ter contato e por princípio temos que ir a Roma.Primeiro porque somos católicos, apostólicos e ROMANOS. Depois, porque, se Roma é o centro do Catolicismo, é de Roma que a solução deve vir. Então, vale mais o pouco de bem que se pode ser feito em Roma, do que o muito bem que se pode fazer em outro lugar”. Belíssima também a aplicação desta frase de São Paulo: “Charitas Christi urget nos”… Que Nossa Senhora, de quem Sua Ex,cia Rev.ma é tão devoto, conceda-lhe luzes e graças especialíssimas. Que haja sempre uma grande união entre os quatro bispos e os 550 padres da FSSPX, e que, em breve, se fôr da santíssima vontade de Deus, todos sejam reconhecidos oficialmente verdadeiros filhos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica e ROMANA. Eles, na verdade já o são, mas falta o reconhecimento oficial(pleno) por parte da Santa Sé. Cabe a todos os verdadeiros católicos rezar e fazer penitência para que o que fôr feito seja realmente da vontade de Deus e para Sua maior Glória e a da Santa Madre Igreja.

  3. Muita gente vai chiar…
    E sabem por que?
    Porque dentro da Tradição, a qual eu me incluo, o pior, muitas vezes, são os tradicionalistas!
    Que, por exemplo, muitas vezes acham que ao entrar uma mulher de calça dentro de uma igreja, o padre devia tirar uma disciplina de dentro da batina e sair correndo atrás dela, gritando: SEM MODESTIA!!!! SEM MODESTIA!!!!

    Que Dom Fellay possa fazer a melhor escolha, não pensando na mentalidade cismática de muitos, mais na Santa Igreja.

    Rezemos

  4. Talvez para alguns seja uma surpresa, mas o que Dom de Galarreta disse é o que sempre nos ensinaram no seminário.
    Dão tanto medo os que se esquecem da Caridade e guardam a Fe quanto o contrario.

  5. Monsenhor del Galarreta afasta da FSSPX assim a tese sedevacantista, a qual não passa, ao lado do carismatismo “católico”, doutrina de protestantes trasvestidos de católicos.

  6. São dulcíssimas essas palavras!

  7. O que este trecho de homilia tem de filo-romana? Absolutamente nada.

    Monsenhor Lefebvre sempre ensinou o perigo do “zelo amargo”; os bispos da FSSPX também ensinam a mesma coisa sem deixar de lembrar que Nosso Senhor veio trazer a espada.

    Uma coisa não nega a outra.

  8. “Talvez a melhor colocação já feita sobre a correta postura dos católicos tradicionais”.
    (2)

  9. A homilia de Galarreta parece olvidar grandes reflexoes de Lefebvre: Roma perdeu a Fé! Não se pode colaborar com eles. Isso é impossivel!

  10. Jesus escolheu os que Ele quis; os Papas que Ele quis. Do mesmo jeito que fomos gerados de pais que Deus quis. Reservada a praxe disciplinar e doutrinal da FSSPX a ampliação da visibilização da comunhão por via de “solução canônica”, é um bem para toda a Igreja, em especial nos focos locais de crise agravada.
    Trocaria a palavra “caridade” por “misericórdia”, “paciência”, “compreensão” ou outra, evitando uma confusão com a virtude teologal.

  11. Para minha maior alegria, vi nas fotos das ordenações que os 4 Bispos estavam presentes.

  12. “Depois, porque, se Roma é o centro do Catolicismo, é de Roma que a solução deve vir. Então, vale mais o pouco de bem que pode ser feito em Roma, do que o muito bem que se pode fazer em outro lugar.” Dom Galarreta, SSPX.

    Quantas vezes eu disse isso… Quantas vezes os seguidores da SSPX me atiram pedras por isso…

  13. Que contraste!!! Depois os fanáticos dizem que não existe, entre os clérigos da FSSPX, divergência de idéias e posturas! Faça um paralelo com os discursos de Dom Williamson e Dom Tissier e se vislumbrará duas tendências inconciliáveis.

    Enquanto Dom Galarreta diz: “A solução virá de Roma”! Dom Tissier diz: “Fora da FSSPX tudo está corrompido. A FSSPX é coração da Igreja”

    Enquanto Dom Galarreta diz: “Somos Católicos e Romanos”. Dom Williamson diz sempre aos se referir à hierarquia de Roma: “Aqueles romanos…” Termo caro ao ex-anglicano.

    Enquanto Dom Galarreta diz: “Roma é o centro do mundo. É do Papa que virá a solução”. Dom Tissier diz: “Há um papa em Roma? Se for para ficar pior, não há necessidade”.

    Quanta devoção ao Papa manifesta Dom Tissier.

    A divisão existe! Só os cegos fanáticos que não enxergam o óbvio querendo transformar uma simples congregação em um paraíso indefectível, imune a erros e a contradição.

    E isso levado ao extremo, pode desembocar na idolatria!

    Deus livre os fanáticos dessa desgraça!

    Robson.

  14. O que monsenhor coloca não é nenhuma novidade, quem conhece a vida de Monsenhor Lefebvre sabe que ele sempre se dirigiu a Roma, e foi lá muitas e muitas vezes sempre que via uma possibilidade de resolver os problemas. Porém o que alguns que entram na linha fssp e IBP se esquecem que a FSSPX não está negociando e conversando para buscar um bem para a congregação, e resolver a situação dela , o ponto X é conversar e negociar para mostrar que Roma se desviou do verdadeiro caminho da tradição, e isso é o diferencial.
    Quanto à criação de prelazias etc… Dois pontos têm que ser considerados, 1º que a FSSPX tem capelas onde ela quer e precise, ao contrario dos outros institutos que dependem dos bispos locais que são em sua maioria contrários em receber esses institutos, segundo que a FSSPX só existe em função de lutar e combater pela tradição, se a mesma deixar de fazer isso, como é proposto etc…ela deixa de existir.
    O que não dá é esse pessoal que não pode ver o papa de casula romana e já acham que a tradição esta restaurada etc…

  15. Enfim,em breve a FSSPX estará em PLENA COMUNHÃO com a Santa Igreja Católica Romana. Deo Gratias !
    Rezemos.
    Beato João Paulo II, rogai por nós !

  16. http://www.radiovaticana.org/it1/Articolo.asp?c=501635

    A notícia acima, a meu ver, só mostra o quão importante seria o aceite do Ordinariato.

  17. Faço minhas, as palavras do Fernando Zanelatto.

  18. Robson,

    Dom Williamson é um estranho (intruso) no ninho da FSSPX.

  19. O estado de necessidade proporciona aos clérigos da FSSPX o direito e dever de administrar sacramentos, isto é, atender a necessidade espiritual das almas privadas desses benefícios em tempos de crise. Entretanto, estabelecer capelas indepentes ou paróquias, ultrapassa os limites dessa suplência, pois que, diferente do que ensina a heresia jansenistas, a jurisção vem do Papa, e para ter poder de governo sobre uma parcela do rebanho de Cristo, é preciso recebê-lo do Papa.

    Esse pensamento é bem Lourenciano: “Nossa vida católica nas capelas tradicionais é de pleno direito. Não devemos nada a ninguém”. (http://www.capela.org.br/Crise/nulidade.htm)

    Ouça Dom Galarreta, Dom Lourenço. Como disse Dom Fellay: “A Igreja não se resume em nossas capelas”.

    Robson

  20. Faço minhas as palavras do Padre Alejandro. É o que serpe disseram no seminário (tive a graça de lá estar por um ano). É o mesmo que Dom Williamsom sempre dizia, e o mesmo que Dom Tissier e Dom Fellay sempre colocaram em suas palestras, em suas visitas à La Reja, ou em visitas ao Priorado de São Paulo. Roma é o centro da cristandade, de onde virá a solução apra crise… mas, aí está a parte do discurso de Dom Galarreta e de Dom Fellay, que não interessa a muitos, e que é tomada com a veemência própria da personalidade de Dom Williamsom e Dom Tissier, Roma solucionará a crise, VOLTANDO AOS PRINCÍPIOS que o V2 e seu espírito abandonaram. Estar unido a Roma por caridade e pelo diálogo de Dom Galarreta, não significa deixar o combate e se submeter ao Vaticano II e às posteriores deformas que os quatro bispos ainda sutentam. Por isso, desde muito, Dom Fellay já deixou claro que NUNCA aceitaria um acordo meramente prático, como prelazia, ordinariato, ou o que seja que possa vir a limitar a ação e o apostolado da FSSPX.

  21. Acordo a vista…

    http://www.osservatore-vaticano.org/relations-avec-la-fspx/la-fraternite-st-pie-x-est-desormais-prete-pour-un-accord-avec-rome

    Lembrando que, em diversos tempos, houve grandes crises no clero, mas nem por isso os santos tiveram que se separar formalmente de Roma para continuarem católicos. Ficaram ligados a Roma permanecendo católicos e combatentes. Submissão e combate. É o que os sedevacantistas não admitem.

  22. Senhor Allan,
    Me perdoe, porém foi o senhor quem sempre atirou pedras na FSSPX alegando que ela é cismática e contra o papa. Ou eu estou errado e o senhor nunca disse isso?? O que os seguidores da FSSPX fizeram foi se defender destas falsas acusações que o senhor sempre dirigiu a eles.

  23. Quantas divergências!!! Mas há algo sobre o qual não pode haver divergência: “É preciso orar sempre e nunca deixar de o fazer”.