Exorcistas experientes respaldam Padre Gabriele Amorth: o novo ritual de exorcismo é ineficaz.

Secretum Meum Mihi | Tradução: Fratres in Unum.com – Interessante entrevista em Religión Digital, de 18 de julho de 2011, do Padre Antonio Doñoro, na qual se reafirma, após consultar exorcistas experientes, o que foi dito tantas vezes pelo Padre Gabriele Amorth: o novo ritual de exorcismos é ineficaz (aqui); embora na entrevista o assunto seja matizado, dizendo que ele é útil nos casos leves.

Um jovem sacerdote da diocese de Madri, Antonio Doñoro, licenciado em Teologia Litúrgica pela Faculdade de São Dámaso, acaba de publicar sua tese exatamente sobre este assunto: Exorcismos. Fuentes y teología del Ritual de 1952 (Toledo, 2011), com prefácio de José Rico Pavés, diretor do Instituto Teológico de San Ildefonso, que a publicou. Na obra ele aborda também, com um estudo pioneiro, a situação das dioceses espanholas quanto aos exorcismos nos últimos cinqüenta anos.

Ele conversou com ReL sobre ambos os aspectos.

O senhor compartilha da opinião de Gabriele Amorth?

Como exorcista experiente que era e continua sendo, o Padre Amorth dá a sua opinião conforme sua experiência. Creio que em algum ponto, todavia, suas afirmações podem ser matizadas, porque não têm a precisão que requer uma afirmação teológica.

Qual seria este matiz?

No meu estudo, e após consulta a exorcistas experientes que passam anos realizando esta tarefa (exercendo-a desde antes de 1999), comprovei que eles substancialmente estão de acordo com o Padre Amorth. O matiz consistiria em precisar a palavra “ineficaz”. Na minha visão, e pela mesma experiência de outros exorcistas, o novo ritual é, sim, eficaz, válido e útil em alguns casos.

Em quais?

A experiência diz que é necessário distinguir nas possessões os casos mais graves e mais leves. Para estes últimos, o novo ritual é sim eficaz.

Não para os mais graves?

No meu livro, cito um caso concreto atendido por um exorcista de Cartagena, um caso grave de possessão sobre o qual o ritual novo não se mostrou eficaz, enquanto o foi, todavia, o antigo.

Tudo depende do ritual?

Não, a eficácia do exorcismo também depende principalmente da colaboração da pessoa a quem ele é aplicado e da santidade do sacerdote. Não obstante, Deus pode ter, em cada caso razões, particulares conhecidas por Ele para se opor à saída dos demônios, e assim o poder de exorcizar não seria eficaz de modo algum.

Quais são as principais diferenças entre os rituais de 1999 e 1952?

No âmbito das orações. A principal diferença é que o ritual de 1999 introduz orações ex novo, totalmente novas, enquanto que o antigo era composto de orações que tinham muitíssimos séculos, e que ao longo da história da Igreja tinham provado sua eficácia.

Por que algumas orações são mais eficazes que outras?

É que não se deve esquecer que o exorcismo é um sacramental muito especial, pois ao realizá-lo há orações que se dirigem aos anjos caídos. E os demônios são seres pessoais, por isso não é absurdo pensar que reajam de maneiras distintas conforme falemos a eles. No ritual antigo, encontramos dois aspectos que o novo não tem: o modo contundente de ordenar aos demônios e as ameaças do castigo eterno que lhes espera (o inferno). E penso que pode haver outra razão. Dizia Santo Atanásio que as orações dos santos reforçam a luta contra o demônio. Quem sabe a maior eficácia do ritual antigo não se deve ao fato de terem sido elaboradas por santos como Santo Ambrósio ou São Martin de Tours?

É uma idéia interessante…

Ainda que nos movamos no campo da reflexão teológica, não é um ensinamento definitivo do Magistério.

Quando nasceu o ritual estabelecido em 1952?

A primeira edição é do Papa Paulo V, em 1614, após o Concílio de Trento. Mas já antes havia rituais particulares, como o Liber sacerdotalis do teólogo Alberto Castellani, ou o Ritual do Cardeal Santori, que recolhia orações que haviam demonstrado sua eficácia, e que foram incluídas no ritual de 1614. Inicialmente ele não era obrigatório, mas acabou sendo o oficial.

E continua sendo possível usá-lo…

Quando foi editado o de 1999, uma nota da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos abriu a porta para que se continuasse a usar o de 1952. O sacerdote tem que pedir ao bispo, e este à Congregação, que concede o uso, afirma a nota, “com gosto”… E penso que esta concessão não se refere apenas às orações, mas pode alcançar também à normativa do exorcismo. Por exemplo, às prescrições que eram necessárias cumprir quando se exorcisava uma mulher e que agora desapareceram.

O senhor realizou o primeiro estudo sistemático sobre a presença de exorcistas nas dioceses espanholas dos últimos séculos…

Sim. Já em seu tempo, o bispo auxiliar de Madri, Mons. Eugenio Romero Pose (que descanse em paz), sugeriu a necessidade de um estudo sobre a situação na Espanha desta pastoral na segunda metade do último século. Eu quis colocar um primeiro degrau e oferecer esta reflexão para que possa servir à Igreja na Espanha, embora muitos dados devam ser completados.

Há uma atenção suficiente a este problema?

Atualmente, apenas 26% das 69 dioceses espanholas têm exorcistas. Parece-me insuficiente. Atribuo isso ao fato de muitos sacerdotes não crerem nos exorcismos, o vejam como um instrumento desnecessário, ou pensam que a ação extraordinária do Maligno é escassa. Em minha opinião, não é tão escassa. O exorcismo é um ofício de caridade da Igreja (como a pastoral dos migrantes), e a Igreja tem que dar uma resposta a esta necessidade.

Porque se há casos…

Afirma-se que com a difusão universal do cristianismo o demônio viu seu poder diminuído. Todavia, hoje se dá um processo inverso: o que está acontecendo nos países outrora cristãos é uma proliferação de seitas e do secularismo. Por isso Bento XVI criou o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, exatamente em países de tradição cristã! As potências do mal estão avançando. Mas obviamente a resposta não se reduz aos exorcismos, consiste, sobretudo, na vida sobrenatural: a oração, os sacramentos…

Ele é só um instrumento, mas…

Sim, mas na Espanha há muito poucos exorcistas. Inclusive em uma diocese pequena, de cem mil habitantes, não haverá uma só pessoa que necessite desse serviço? Creio que este aspecto seja descuidado. Uma das finalidades da Nova Evangelização é promover formas e instrumentos adequados para realizá-la. E ela o é. E o foi para a primeira evangelização. Jesus Cristo envia os apóstolos para evangelizar com a autoridade “de expulsar os espíritos imundos”.

Os filmes de exorcismo ajudam a compreender sua natureza ou a deformam?

Os filmes podem servir para fazer constar esta ação que a Igreja realiza. O cinema tende a mostrar o mais espetacular, sim… mas o certo é que os exorcistas relatam levitações, e também o fazem os Santos Padres. Porém, mais que recordar a realidade do demônio para ter medo, estes filmes podem servir para nos recordar que existe um poder superior ao dos demônios: Jesus Cristo Ressuscitado, diante do qual tremem os espíritos malignos, e lhe obedecem. Diante Dele, não podem fazer nada.

17 Comentários to “Exorcistas experientes respaldam Padre Gabriele Amorth: o novo ritual de exorcismo é ineficaz.”

  1. Se na Espanha a situação já é difícil pela escassez de sacerdotes exorcistas, imaginem então no Brasil!!!

  2. Recentemente, no cinema, o tema do exorcismo foi ou tem sido tratado por dois filmes interessantes. O Exorcismo de Emily Rose, baseado no caso real de Anneliese Michel, uma moça alemã que foi vítima de bruxaria:

    http://www.universocatolico.com.br/index.php?/o-exorcismo-de-emily-rose-critica-do-filme.html

    E também o filme O Ritual:

  3. “O exorcismo é um ofício de caridade da Igreja (como a pastoral dos migrantes), e a Igreja tem que dar uma resposta a esta necessidade.” Pe. Antonio Donõro

    É triste, senão trágico que a maioria dos bispos e padres achem que caridade só se faz de em questões sociais, excluindo os problemas espirituais.

  4. Exorcismos funcionam “ex opere operantis”! O pior hoje é o bando de carismáticos histéricos atendidos por padres ávidos de serem publicamente vistos como exorcistas. Por vezes se torna um meio de ter prazer com pessoas que “exalam” certos vícios, como homossexuais e mulheres mal-amadas.
    Quanto menos “show”, melhor! Atender zona rural atrai menos fama…O mesmo se diga do confessionário.
    Quanto ao ritual, valem as mesmas críticas que se fazem ao restante da reforma litúrgica. Precisamos uma reforma da reforma de todos os livros litúrgicos. Uma continuidade com a Tradição que não exija um esforço hermenêutico para ser percebida.

  5. “Dizia Santo Atanásio que as orações dos santos reforçam a luta contra o demônio. Quem sabe a maior eficácia do ritual antigo não se deve ao fato de terem sido elaboradas por santos como Santo Ambrósio ou São Martin de Tours”.

    Acorda Santo Padre!

  6. “Precisamos uma reforma da reforma de todos os livros litúrgicos. Uma continuidade com a Tradição que não exija um esforço hermenêutico para ser percebida”.

    Conclusão brilhante pe.
    Uma reforma de todos os livros litúrgicos…
    Uma reforma, pela raiz, de todo estudo e ensinamento dados nos Seminários. É ilusão querer exigir dos padres formados e mergulhados na falsa teologia nascida na putrefata tl que ajam de acordo com a TEOLOGIA verdadeiramente CATÓLICA, embasada na Tradição bi milenar da Igreja e ancorada nos SANTOS PADRES e DOUTORES da Igreja.
    Não duvidemos: a Igreja Católica não nasceu na década de 60. O Vaticano II e todo progresso verdadeiro da Teologia não podem e não estão em contradição ou negação com o que foi ensinado sempre na Igreja, senão, continuaremos a ver o espetáculo pavoroso que assistimos hoje, ou seja, cada padre, cada “teólogo” (a), cada Bispo, cada catequista, ensinam e agem de acordo com seus achismos e, o pior, em nome do Vaticano II, e de um pseudo “magistério”.
    Não assistimos há pouco, o Sr. Genésio, ao lado de um teólogo “católico”, professor de uma Faculdade que se diz ligada à Igreja e que forma padres e “teólogos” (as), “doutores” (as), meter o pau nos Papas e ficar tudo por isso mesmo???

  7. Como bem disse o Padre Marcelo Masi ( e aproveitando, rogo a sua benção padre…e reze por mim!) o exorcismo hoje esta banalizado pela ação dos carismáticos.
    O que antes era uma prova de extrema caridade com a vítima ( expulsar demônios) hoje se tornou um fato corriqueiro e muito mal administrado pelos sacerdotes cuja a incubencia é fazer uma paródia dos neopentecostais no melhor estilo ” prá inglês ver”.
    Li os livros de padre Amorth e percebi que o rito do exorcismo é uma ação de extrema responsabilidade que exige preparação de quem o faz ( digo o sacerdote).
    Relata o Pe Amorth que o Papa JPII expulsou demonios de uma mulher que sofria há sete anos, e quando tudo parecia rersolvido, a legião tornou a possuir a moça.
    Eu de minha parte queria muito mesmo que o Padrte gabriel fizesse uma “visitinha” na CNBB…
    Olegario.

  8. Curiosamente nas traduções bíblicas modernas, alguns exorcismos realizados por Nosso Senhor, aparecem como sendo cura de epléticos…

  9. Gederson, uma coisa não implica a outra… Um doente não pode estar possuído? Ou um possuído não pode desenvolver doença neurológica/mental? Há é que saber onde começa uma coisa e termina outra. Daí excluir sempre primeiro as causas naturais.

  10. “Não duvidemos: a Igreja Católica não nasceu na década de 60.”

    Na verdade a pior decadência moral , espiritual e da fé nasceu sim na década de 60 com os teólogos cardeais do SUPER PASTORAL concílio e curiosamente hoje grande parte são apóstatas .
    Além de Pe Amorth constatar que o novo ritual de exorcismo é ineficaz. ele também tem conciência que foi elaborado por religiosos que sequer crê que exista o diabo .

  11. Precisamos uma reforma da reforma de todos os livros litúrgicos. Uma continuidade com a Tradição que não exija um esforço hermenêutico para ser percebida.(2) Diz muito bem o padre Marcelo Gabert. Agora, será que seu bispo concorda com sua coloção PADRE? o que ele diz sobre o assunto?

  12. O insuspeito, a questão é que em todas as traduções antigas, o que as traduções modernas chamam de ataques epiléticos, são relatados como exorcismos. Logo, se uma coisa não implica outra, então explique nos:

    Por que eles mudaram o relato dos exorcismos para epilepsia?

  13. Osires,
    Meu bispo não se opõe às minhas reflexões. Penso que também não se oponha ao comentário que fiz. Às vezes discorda de propósito, para “esquentar” a nossa conversa! Reze por ele, pois na idade em que está, prestes a entregar a diocese da qual é o primeiro bispo, é o que mais precisa, como todo idoso: nossas orações e o carinho, seja ele um santo como você ou um pecador como eu. Grato também se rezar por minha conversão (Nosso Senhor tem tido muita dificuldade comigo).

    Deus abençoe a todos!

  14. Pe. Marcelo Gabert,

    Muito obrigado por ter me elevado as honras dos altares SEM DECISÃO PAPAL, onde me inscreveu solenemente, no corpo da Igreja, com excepcionais virtudes cristãs, onde pratiquei reconhecidos milagres, no número dos santos honrados pelo culto. Hoje em dia se canoniza numa velocidade, não é mesmo.

  15. Caríssimo Osires,
    as canonizações já foram bem mais velozes. Que o digam São Francisco de Assis http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Francisco_de_Assis e Santo Antônio de Pádua http://www.derradeirasgracas.com/2.%20Segunda%20P%C3%A1gina/Santo%20Ant%C3%B4nio%20de%20P%C3%A1dua.htm. Hoje demora mais – dizem que é por prudência – mas creio que é porque o pessoal é pecador mesmo. Tem que dar tempo para sair do purgatório!

  16. Pe. Marcelo Gabert,

    A regra não é essa e sim as exceções. O reverendo citou grandes santos. E hoje? JPII canonizou mais candidatos do que toda a história da Igreja antes do seu pontificado, mas parecendo uma produção em série.