Patriarca chamado ao Vaticano para se explicar sobre ordenação de mulheres.

O cardeal-patriarca de Lisboa foi chamado a uma audiência com o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, por causa da sua afirmação de que não há obstáculos teológicos à ordenação de mulheres. A conversa foi em Castelgandolfo, a residência estival do Papa nos arredores de Roma, antes de dia 14 de Julho, por ocasião de uma ida de D. José Policarpo a Roma, para uma reunião do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, de que faz parte.

Por António Marujo – Público.pt

Numa entrevista à revista da Ordem dos Advogados, publicada em meados de Junho, o patriarca afirmava, sobre a ordenação de mulheres: “Penso que não há nenhum obstáculo fundamental. É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja.”

Por causa desta afirmação, transcrita e comentada em Roma, por dois “vaticanistas”, o cardeal Bertone falou com D. José Policarpo. Segundo o PÚBLICO soube – o facto tem sido tema de conversa entre o clero de Lisboa desde então -, o patriarca foi bem tratado, pois o Vaticano temia que D. José pudesse reagir mal a uma advertência severa. “Foi tratado nas palminhas”, nota um padre de Lisboa, falando do tom da audiência.

Dias antes desse encontro, o patriarca recebera uma carta do cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (cargo anteriormente ocupado pelo actual Papa Bento XVI), órgão que zela pela Teologia oficial. A carta foi-lhe entregue em mão pelo núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) em Lisboa, a 2 de Julho, dia em que o patriarca presidiu a uma missa de ordenações no Mosteiro dos Jerónimos. Outro padre afirma que o cardeal manifestou um ar grave após ter lido a carta.

Doutrina é “infalível”

Logo a seguir, no dia 6, o patriarca publicou um esclarecimento no site do patriarcado de Lisboa na Internet. No texto, afirmava que, na entrevista, não tivera “na devida conta as últimas declarações” dos papas sobre o tema, dando assim azo a “reacções várias e mesmo indignação”.

O facto tem provocado controvérsia entre muitos padres e outros católicos que entretanto vão sabendo do que se passou – e que questionam tanto a afirmação centralista do Vaticano como o modo como D. José recuou da sua posição inicial. Já não é, de facto, a primeira vez que o patriarca diz o que pensa sobre o assunto. Só que, desta vez, as declarações foram citadas por dois jornalistas do Vaticano, o que aumentou o seu efeito.

A 4 de Julho, o PÚBLICO deu notícia desses comentários. John Allen Jr., correspondente do National Catholic Reporter em Roma, notou que as declarações do patriarca apareceram um mês e meio depois de um bispo australiano ter sido demitido por causa da mesma questão. William Morris, bispo de Toowoomba, admitira em 2006 o debate sobre o tema. No início de Maio deste ano, o Vaticano forçou-o a sair do cargo. Numa carta em que lhe anunciava a decisão, o Papa Bento XVI dizia que a doutrina da Igreja sobre o tema é “infalível”.

Na mesma altura, ainda na segunda quinzena de Junho, o Vatican Insider, site de informação religiosa do diário italiano La Stampa, o vaticanista Andrea Tornielli acrescentava que as declarações do patriarca desalinhavam do que já tinham dito João Paulo II e Bento XVI.

De facto, não é nova a ideia expressa pelo patriarca. Em 1999, com um ano no cargo, dizia D. José, no livro-entrevista Igreja e Democracia (ed. Multinova): “Que [as mulheres] eram capazes – as que tivessem vocação para isso – não tenho dúvidas. (…) As razões pelas quais a Igreja Católica não se abriu ainda a essa hipótese são sobretudo as da tradição apostólica, que foi sempre de homens.” E acrescentava: “Terão de ser as comunidades e a Igreja, como um todo, a amadurecerem o assunto. É um facto que hoje, mesmo dentro da Igreja Católica, se aceitam mulheres em papéis que há trinta anos eram impensáveis.”

“Se Deus quiser”

Em Maio de 2003, em Viena de Áustria, D. José Policarpo respondeu no mesmo sentido a uma pergunta de uma jornalista, numa conferência de imprensa do Congresso Internacional para a Nova Evangelização.

Na entrevista agora em questão, o patriarca falava de uma carta do Papa João Paulo II, de 1994, e de um esclarecimento, um ano depois, da Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Os dois textos diziam que o tema pertencia ao “depósito da fé”.

D. José Policarpo acrescentava: “Penso que a questão não se dirime assim; teologicamente, não há nenhum obstáculo fundamental; há esta tradição, digamos assim… Nunca foi de outra maneira.” E, antecipando o que a si próprio lhe iria acontecer, dizia ainda: “No momento que estamos a viver, é um daqueles problemas que é melhor nem levantar… Suscita uma série de reacções.” A mudança, terminava, acontecerá “se Deus quiser que aconteça, e se estiver nos planos Dele acontecerá”.No esclarecimento publicado a 6 de Julho, e que pode ser lido na íntegra no site do patriarcado, o cardeal dizia que nos primeiros tempos do Cristianismo “é notória a harmonia entre o facto de o sacerdócio apostólico ser conferido a homens e a importância e dignidade das mulheres na Igreja”. E, depois de citar a carta de João Paulo II, afirmava que seria para ele “doloroso” que as suas palavras “pudessem gerar confusão” na adesão “à Igreja e à palavra do Santo Padre”.

13 comentários sobre “Patriarca chamado ao Vaticano para se explicar sobre ordenação de mulheres.

  1. Irmãos, essas coisas eu não entendo. Ora, D. José Policarpo já deu deu mostras em diversas ocasiões de seu pensamento (e ação) digamos…heterodoxos. Agora, uma vez mais fala o que quer, e em claro tom de provocação. E qual a preocupação do Vaticano? ” (…) que D. José pudesse reagir mal a uma advertência severa”. Santo Deus!! Mas tudo o que D. José merece é uma advertência severa, e de há muito.
    Às vezes acho que essa Tradição meia-bomba que temos hoje não vai a bom termo. Mas confiemos no Santo Padre, que é quem tem o timão da Santa Igreja.
    Estejam todos na paz de Cristo.

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  2. Dá-lhe “Plena Comunhão”!

    “Terão de ser as comunidades e a Igreja, como um todo, a amadurecerem o assunto. É um facto que hoje, mesmo dentro da Igreja Católica, se aceitam mulheres em papéis que há trinta anos eram impensáveis.”

    Obrigado Vaticano II por mais esse sacerdote “culto e democrático”.

    O patriarca de Lisboa mostra em uma única frase como o Vaticano II mudou toda a tradição.

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  3. Segundo me consta, quem chama para o sacerdócio é Deus. O cardeal- patriarca é um abençoado, pois escutou diretamente de Deus que ele precisa agora das mulheres para o sacerdócio.

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  4. “Foi tratado nas palminhas”, nota um padre de Lisboa, falando do tom da audiência.”

    Plena Comunhão é plena comunhão !!
    Certamente tudo acabou em pizza e um bom vinho portugues

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  5. Alguém ser ” tratado nas palminhas” é uma expressão portuguesa que quer dizer: tratado como um cuidado especial, bem tratado, como que levado na palma na mão (palminhas).

    Portugal está na miséria com senhores como este. Este é só o mais visível. Todo o Episcopado português pensa como ele.

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  6. E ainda por cima, vai ficar mais dois anos a frente da Sé de Lisboa. O mesmo acontecerá com o Arcebispo de Aparecida, que ainda ficará dois anos…

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  7. Por que o Papa, com o poder que Deus deu ao sucessor de São Pedro, não define esta questão de uma vez por todas? enquanto não surgir uma manifestação clara, ex-cathedra, volta e meia algum padre, bispo ou cardeal (!) vão se manifestar a favor. Ou será que este debate agrada ao Papa?!

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  8. Refazendo a pergunta: por que o Papa não define de UMA FORMA CLARA? É necessário que seja de uma forma límpida e certa, porque eu acho até BEM POSSÍVEL que no futuro algum Papa queira fazer essa experiência, essa “abertura ao mundo”. Talvez vocês não concordem que um Papa vá fazer isso, mas lembro a todos que São Pio V garantiu perpetuamente a qualquer padre o direito de celebrar a Missa Tradicional. A Bula Quo Primum Tempore é claríssima! Mas, mesmo com uma afirmação tão categórica, o que aconteceu? padres perseguidos, ridicularizados, sabotados e a Bula, na prática, desrespeitada e pisoteada.
    Sinceramente, eu acho que o Vaticano gosta desse debate e não quer fechar questão, pelo menos agora.

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