Um dos últimos Romanos…

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Em 3 de agosto de 1979, morria o Cardeal Alfredo Ottaviani na colina do Vaticano, na mesmíssima cidade em que ele havia nascido, o centro físico e espiritual do nosso mundo católico. Embora repetidamente envolvido em armadilhas, enganado, humilhado antes, durante e depois do Concílio, ele foi um agente poderoso de Deus para impedir o pior – e basta simplesmente ler os documentos do Concílio (e, certamente, todos os relatos escritos daqueles dias decisivos, por todos “os lados”) para perceber quão pior poderia ter sido.

Dois queridos padres leitores nos enviaram recordações da morte deste, um dos últimos grandes Romanos – o último Secretário do Santo Ofício e primeiro Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé -, incluindo algumas recordações pessoais:

Sobre o falecido grande Cardeal Ottaviani, tive o privilégio de assistir duas vezes a sua Missa privada na capela de seu apartamento no Santo Ofício. Em ambas as ocasiões, tomamos o café da manhã com Sua Eminência após a Missa. Na segunda visita, ele me presenteou com o seu livro, que ele autografou, “Il Baluardo“. Ele apontou para si mesmo e disse: “Io sono Il Baluardo della Chiesa“, (“Sou um vigia da Igreja”), e já disseram que ele teria dito em algum outro lugar: “Sou um vigia da Igreja, mesmo sendo cego”. O Cardeal sofria de diabetes, e tinha visão bastante limitada. Porém, ele era bastante orgulhoso de seu papel como Prefeito para a Congregação do Santo Ofício, porque sabia que naquele momento vigiar a Fé era algo crucial.

Sua Eminência era muito dedicado a um orfanato que havia estabelecido para órfãos de Trastevere, seu setor nativo de Roma. Creio que ele estava sob o patrocínio de Santa Agnes. Todo domingo, ele era levado ao orfanato para passar a tarde com os seus queridos órfãos. Aqui estava o mais poderoso e ocupado Príncipe da Igreja que tinha a humildade e o amor para se voltar aos pequeninos de Cristo.

Outro querido padre envia-nos esta lição do Cardeal a todos os sacerdotes:

O que eu gostaria de mencionar de maneira especial, embora, seja algo que o padre X me contou. Ele disse que antes da Missa, quando o cardeal rezava a Formula Intentionis, elevava sua voz um pouco ao pronunciar as palavras “Et pro felici statu Sanctae Romanae Ecclesiae” [“e pelo bom estado da Santa Igreja Romana “]. Parece-me que se –todos– os padres dissessem toda a Formula Intentionis antes de cada Missa, as coisas indubitavelmente seriam melhores. Não posso crer que estaríamos no atual estado ou permaneceríamos nele se todos os padres rezassem essa oração fielmente.

Ego volo celebráre Missam, et confícere Corpus et Sánguinem Dómini nostri Iesu Christi, iuxta ritum sanctæ Románæ Ecclésiæ, ad laudem omnipoténtis Dei totiúsque Cúriæ triumphántis, ad utilitátem meam totiúsque Cúriæ militántis, pro ómnibus qui se commendavérunt oratiónibus meis in génere et in spécie, et pro felíci statu sanctæ Románæ Ecclésiæ. Amen.

Gáudium cum pace, emendatiónem vitæ, spátium veræ pæniténtiæ, grátiam et consolatiónem Sancti Spíritus, perseverántiam in bonis opéribus tríbuat nobis omnípotens et miséricors Dóminus. Amen.

Que ele descanse em paz. [Imagem: Cardeal Ottaviani celebra Missa em 10 de dezembro de 1963, na igreja de Santa Maria di Loreto, Roma – fonte: Biblioteche di Roma – Cinecittà Luce archives.]

* * *

É oportuno recordar ainda o relato do Pe. Ralph Wiltgen:

No dia 30 de outubro, dia seguinte a seu 72º aniversário, o Cardeal Ottaviani interveio para protestar contra as modificações radicais a que se estava propondo submeter a Missa. “Estamos procurando suscitar o espanto, até o escândalo no povo cristão, introduzindo modificações em um rito tão venerável que foi aprovado através de tantos séculos e que continua sendo tão familiar? Não está certo tratar o rito da Santa Missa como se fosse um pedaço de pano que se submete à moda, segundo a fantasia de cada geração.” Falando sem ler, em razão de sua cegueira parcial, ele ultrapassou os dez minutos a que se tinha pedido que todos se limitassem. O Cardeal Tisserant, decano dos Presidentes do Concílio, mostrou seu relógio ao Cardeal Alfrink, que presidiu a sessão. Quando o Cardeal completou quinze minutos com a palavra, o Cardeal Alfrink tocou a sineta. Mas o orador estava tão empolgado com o assunto que não a escutou – a não ser que a tenha deliberadamente ignorado. A um sinal do Cardeal Alfrink, um técnico desligou o microfone. O Cardeal Ottaviani verificou o fato apalpando seu microfone, e humilhado teve que voltar ao seu lugar. O mais poderoso Cardeal da Cúria tinha sido reduzido ao silêncio e os Padres Conciliares aplaudiram com alegria.” (“O Reno se Lança no Tribre”, Pe. Ralph Wiltgen, página 34 – Editora Permanência, 2007.)

13 Comentários to “Um dos últimos Romanos…”

  1. Foi sem dúvida uns dos poucos e grandes baluartes da Igreja. Hoje, alguns causam calafrios.

  2. Fui praticamente reduzido às lágrimas ao ler: “A um sinal do Cardeal Alfrink, um técnico desligou o microfone. O Cardeal Ottaviani verificou o fato apalpando seu microfone, e humilhado teve que voltar ao seu lugar. O mais poderoso Cardeal da Cúria tinha sido reduzido ao silêncio e os Padres Conciliares aplaudiram com alegria.”

    Como o Diabo opera suprimindo os que falam em favor da Santa Igreja…

    Não sei o sentido do aplauso dos padres, acredito ter sido em favor de S. E. R. “Il Baluardo”.

    Mas, antes, senti-me com um fogo novo como que se reavivasse em nós a chama da batalha e de nunca desistir, ao ler: “Falando sem ler, em razão de sua cegueira parcial, ele ultrapassou os dez minutos a que se tinha pedido que todos se limitassem. O Cardeal Tisserant, decano dos Presidentes do Concílio, mostrou seu relógio ao Cardeal Alfrink, que presidiu a sessão. Quando o Cardeal completou quinze minutos com a palavra, o Cardeal Alfrink tocou a sineta. Mas o orador estava tão empolgado com o assunto que não a escutou – a não ser que a tenha deliberadamente ignorado.”

    Santa desobediência e, como nos diz São Josemaria Escrivá, desvergonha!
    Desobediência aos protocolos, que, não poucas vezes, nos distanciam de Deus, como vimos e até hoje vemos…

    Nossa Senhora da Piedade, ora pro nobis!
    E, atrevendo-me, [S.] Cardeal Ottaviani, Il Baluardo della Chiesa, ora pro nobis!

  3. O Cardeal Alfrink foi um dos mais diabólicos no CVII. Salvo engano o Pe. Ratzinger era seu perito oficial. Ou teria sido do Cardeal Frings? Alguem refresque minha memória.

  4. Não podemos nos esquecer que foi o cardeal Ottaviani que sugeriu ao Venerável Pio XII e, depois ao Beato João XXIII que reabrisse o Concilio Vaticano. De certa forma, ele convidou as humilhações!

  5. S. E. R. Cardeal Frings, até onde sei.

  6. Pe Ratzinger era perito do cardeal Frings de Colônia.

  7. Caro Ferreti e demais leitores:

    Em italiano existe um ótimo trabalho do Cardeal Ottaviani, sobre a liberdade religiosa. O trabalho tem o título “”DOVERI DELLO STATO CATTOLICO VERSO LA RELIGIONE” – “Deveres do Estado diante da verdadeira religião”, que pode ser lido no endereço:

    http://www.doncurzionitoglia.com/Cristianita_Ottaviani_stato_religione.pdf

    Uma tradução para o português deste trabalho, seria um presente para a Igreja no Brasil.

    Fiquem com Deus.

    Abraço

  8. Salve Maria, Gederson!

    A tradução já existe. Foi publicada em: Vozes de Petrópolis. Revista Católica de Cultura, de julho/agosto de 1953, vol. 11, fascículo 4, pp. 350-367.

    Bons (e idos) tempos, em que a Vozes não era Vozes do Inferno!

    Abraços,
    Em JMJ,
    Felipe

  9. Há algum tempo o SBT passou um filme sobre a vida de João XXIII na sessão “Cine Belas Artes” de sábado à noite, se não me engano. Se ainda não estou equivocado o filme se chamava “João, o Papa Bom” e era um filme italiano. Neste filme o principal VILÃO era justamente o Cardeal Alfredo Ottaviani, um homem arrogante, manipulador, ambicioso, um mandão cercado de assessores servis e disposto a tudo pelo poder. Do Orfanato que Sua Eminência mantinha em Roma eu soube apenas agora lendo o artigo, pois o filme não dá o menor indício disso. No Conclave o PERSONAGEM Ottaviani inflava-se de orgulho cada vez que recebia um voto para tornar-se Papa. Já o PERSONAGEM Angelo Roncalli era um abobado provinciano repleto de bondade e qualidades morais, desapegado dos odiosos dogmas romanos. O Ecumenismo de Roncalli é lindamente pintado no filme quando salva um casal judeu que o Vaticano misteriosamente não quis salvar dos nazistas (!) e ao ecumenizar-se com os Ortodoxos na Bulgária, onde foi núncio apostólico.
    Não me esqueço de uma cena bem estúpida, de diálogo que só poderia ter saído da cabeça do roteirista, mas jamais de um coroinha de Missa dominical em 1958! O então Patriarca de Veneza dom Roncalli e um coroinha conversavam após a Missa e o coroinha pré-conciliar pergunta:
    – Dom Angelo, porque temos que rezar a missa em latim e de costas para o povo?
    Docemente dom Angelo responde:
    – Porque o Papa quer assim (!), mas eu prometo que vou falar com ele!
    No fim do filme, o “vilão” Ottaviani depois de ter feito o pobre Papa Bom de gato e sapato, ajoelha-se ao seu leito de morte e pede perdão, convertendo-se ao “aggiornamento”…
    O que me alivia é que poucos assistem ao Cine Belas Artes do SBT.

  10. Pedro, talvez o diretor do filme tenha sido Dom Rifan, afinal, hoje ele vive dizendo por aí que o Cardeal Ottaviani “se converteu”…

  11. É verdade Marco: ouvi da boca de uma fiel da Administração (i.é, pessoalmente) que também dom Antonio Mayer “converteu-se” no fim da vida!

    Para os campestres, o que dom Lefebvre e dom Mayer fizeram foi errado.

    O próximo parágrafo será uma ironia.

    Talvez fosse melhor dom Mayer ter aceitado o Concílio, assim não existiria a União Sacerdotal São João Maria Vianney e por conseguinte a Administração Apostólica…

  12. Pedro Pelogia,

    Esse roteirista do filme sobre a vida de João XXIII é um bricalhão.

  13. Caro Felipe Coelho,
    Viva Cristo Rei! Salve Maria!

    Obrigado pela indicação. Realmente a Vozes se transformou, agora são “as vozes” do inferno, como você muito bem disse!

    Parabéns pela tradução dos textos de Don Curzio Nitoglia!

    Fique com Deus.

    Abraço