Paulo VI e a suposta “renúncia” de 1977.

IHU – Em 1977, quando completava seus 80 anos, Paulo VI, cansado e já muito provado, havia pensado seriamente em apresentar a sua renúncia. E já havia pensado no mosteiro beneditino de Einsiedelncomo o lugar, ou um dos possíveis lugares, para onde ir para passar a última temporada da sua vida.

A análise é do jornalista e teólogo Gianni Gennari, articulista do jornal Avvenire, dos bispos da Itália, em artigo publicado no sítio Vatican Insider, 07-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Escrevo hoje, dia 6 de agosto de 2011, como que “provocado” pelo L’Osservatore Romano, que, na primeira página, recorda amplamente que, há 33 anos, justamente na Festa da Transfiguração, Giovanni Battista Montini – desde o dia 21 de junho de 1963, Paulo VIconcluiu a sua aventura terrena.

De fato, ele morreu em Castel Gandolfo, e isso indica que foi um imprevisto, e não como consequência de uma doença grave que significaria o retorno a Roma e/ou, mesmo antes, o adiamento da transferência para a residência de verão de Castel Gandolfo.

Deve-se lembrar que Pio XII também havia morrido no descanso de verão, no dia 8 de outubro de 1958, mas, naquele momento, algumas circunstâncias dessa morte não eram muito favoráveis àqueles do seu entorno, particularmente da equipe médica…

Coisas conhecidas, mas uma “provocação” posterior – para mim, de algum modo também pessoal – veio também e sobretudo de um belo artigo de comemoração que o próprio L’Osservatore publica na página 5, quase inteira, assinado por Eliana Versace. O título é longo: Um lema para o arcebispo. Giovanni Battista Montini e a espiritualidade beneditina.

Nele se lê este testemunho de Mons. Antonio Travia, um dos seus amigos mais próximos: no momento de se tornar bispo, Montini queria escolher como lema episcopal “Cum Ipso in monte” (Com ele no monte), que é não só uma clara alusão à própria cena da Transfiguração, mas também um motivo específico da espiritualidade beneditina.

O artigo também menciona os lugares beneditinos queridos e frequentados pelo futuro Paulo VI, entre estes também Einsiedeln, mosteiro suíço visitado também como papa, e lembra que foi justamente ele, em 1964, que proclamou São Bento padroeiro da Europa

Renúncia

Onde está a provocação? No fato de que eu tive testemunhos pessoais, até mesmo por carta, seja em sentido afirmativo quanto negativo – entre eles uma carta pessoal de Mons. Pasquale Macchi, secretário do Papa Paulo VI –, de que, em 1977, exatamente em setembro, quando ele completava seus 80 anos, Paulo VI, cansado e já muito provado, havia pensado seriamente em apresentar a sua renúncia e que já havia pensado justamente no mosteiro beneditino de Einsiedeln como o lugar, ou um dos possíveis lugares, para onde ir para passar a última temporada da sua vida.

Entre parênteses: sobre Paulo VI e o seu aniversário, posso aqui recordar um outro detalhe: ele havia sido batizado em Concesio, sua terra natal, na igreja dedicada ao Batista, na tarde do dia 30 de setembro de 1897, nas mesmas horas em que, em Lisieux, Thérèse Martin morria, a Teresa do Menino Jesus, hoje santa e doutora da Igreja, que declarou à irmã Madre Agnes que queria oferecer seus últimos momentos “a todas as crianças batizadas neste mesmo dia”. Entre elas, estava o pequeno Giovanni Battista Montini, evidentemente predileto entre os tantos batizados naquele dia.

Voltemos a Paulo VI e a 1977: além da razão da saúde e do cansaço, ele também tinha um motivo totalmente pessoal para pensar, naquele momento, nessa “renúncia”. Foi ele que, em novembro de 1970, havia estabelecido com a sua Ingravescentem Aetatem que os cardeais, aos 80 anos, deviam sair dos cargos efetivos e do grupo dos cardeais chamados a eleger um novo papa no conclave. Com procedimentos semelhantes, se chegará depois a fixar aos 75 anos a idade da renúncia dos bispos.

Muitos, no Vaticano, naquele 1970, também tinham lido na decisão papal uma espécie de revanche totalmente humana de Montini contra alguns cardeais da Cúria, mais idosos do que ele, entre os quais seguramente Ottaviani, Pizzardo, Canali e outros, que sempre tiveram problemas com ele e que talvez haviam sido os autores ou haviam sugerido a decisão de Pio XII, em 1954, de afastar Montini do seu cargo na Cúria, substituto da Secretaria de Estado, e de “promovê-lo” à sede de Milão, sem nomeá-lo cardeal, porém, por quase cinco anos. E, de fato, foi João XXIII que, recém-eleito papa, preencheu esse vazio prático que pareceu ser punitivo a muitos.

Portanto, em 1970, a decisão da Ingravescentem Aetatem pareceu ser a muitos quase como uma “vingança” sutil, com a exclusão do Conclave e das funções reais na Cúria daqueles idosos cardeais que, nas vozes correntes, estiveram na origem da “promoção-remoção” de Montini não criado cardeal senão depois de cinco anos e que, depois de nove anos, se tornou Paulo VI. O procedimento certamente não agradou os excluídos, pertencentes em geral ao número daqueles cardeais que não haviam sido entusiastas tanto de João XXIII quanto do Concílio e do seu desenvolvimento…

Aposentadoria

Ao longo desses 33 anos, alguns também falaram mais ou menos abertamente, em um sentido ou outro, sobre a aposentadoria dos bispos e dos cardeais. Sobre o tema, haveria muito a pensar e a discutir hoje. O fato de que, aos 75 anos, os bispos devem se aposentar, como que por rotina, mesmo que estejam muito bem, mesmo que sejam queridos e que, finalmente, possam ter conhecido a fundo as suas dioceses e em particular os seus padres, não tem só aspectos positivos por causa da troca e por causa do evidente poder “soberano” de aceitar ou não a sua renúncia, mas também tem o resultado de um crescimento do número de bispos, às vezes supérfluo, e uma constatação singular: entre nós [na Itália], temos um presidente da República de 84 anos e, como bispo de Roma, um teólogo e pastor muito lúcido e magistral quase coetâneo; mas um grande número de bispos muito mais jovens já são agora “eméritos”, sem cargos na Igreja. Talvez isso também seja um inconveniente, pelo menos em muitos aspectos…

Portanto: voltando àquele verão de 1977, talvez a profundidade da consciência de Montini, conhecido por todos como delicado e escrupuloso, lhe sugeria que, no momento de completar os seus 80 anos, isto é, em setembro de 1977, era bom que ele também desse um exemplo de adequação ao seu decreto que lhe rendera tantas críticas até na Cúria… Foi assim, pois, que, se aproximando dessa data, Paulo VI manifestou aos seus íntimos essa intenção que para ele também tinha – testemunha disso, como escreve agora o L’Osservatore, foi o amigo Mons. Anthony Travia – o tom de um retorno ao ideal beneditino. Naquele “cum ipso in monte” também estava contida uma alusão – perceptível só post factum à solenidade da Transfiguração, a festa do dia 6 de agosto, que também seria o dia do seu retorno à casa do Pai…

Nessa perspectiva, aconteceu que ele havia comunicado a sua decisão também a Mons. Giovanni Benelli, substituto da Secretaria de Estado, e seu fidelíssimo, o verdadeiro homem das decisões importantes para todo o pontificado montiniano, e havia respondido às objeções de Benelli assegurando-lhe a “liberação” da sua pesada tarefa já desenvolvida há mais de 10 anos, e a nomeação a arcebispo de Florença, sede cardinalícia. Por isso, no final de junho de 1977, os jornais tinham relatado, quase de repente, a notícia das “renúncias aceitas”, pelo papa, do cardeal Florit de Florença e a nomeação de Benelli como seu sucessor, depois criado cardeal na festa de São Pedro, no dia 29 de junho. Era como que o primeiro passo para o anúncio, destinado para setembro, da decisão da  renúncia do papa.

”Vozes malignas”

E por que não ocorreu desse modo? Por uma razão complexa, totalmente imbuída de humanidade e de cálculos também puramente humanos, ou seja, o fato de que, nesse ponto, quando já estava certo que Benelli, o homem forte, o verdadeiro executor de todas as ordens papais, aquele que tinha em mãos toda a Cúria Pontifícia, iria embora, justamente ao lado de Paulo VI, alguém – e, de modo específico, os mais próximos, em particular o Mons. Pasquale Macchi, secretário particular, o cardeal Jean Villot, secretário de Estado, e o Pe. Virgilio Levi, vice-diretor do L’Osservatore Romano, pensaram que, com a saída de Benelli, arcebispo de Florença e quase cardeal, teria finalmente chegado o tempo em que se teria mais espaço nas escolhas de governo do próprio papa e fizeram com que a decisão da renúncia fosse retirada.

Aconteceu, portanto, que, friamente, em pleno verão de 1977 – exatamente como nestes dias –, na primeira página do L’Osservatore, apareceu um artigo do Pe. Levi, que afirmava sem fundamento as “vozes” malignas que falavam de “renúncia” papal. Não era verdade: à Cruz de Cristo e à paternidade universal do Sucessor de Pedro não se renuncia…

Foi como uma palavra de ordem, e de todo o mundo chegaram ao papa rumores que incitavam a continuar carregando o peso dessa Cruz, a exercer essa paternidade… Assim, Paulo VI renunciou à ideia da “renúncia”, segundo várias fontes já concretizadas também nos acordos pessoais com Benelli e em alguns preparativos logísticos entre Einsiedeln e Montecassino, mosteiros beneditinos “Cum Ipso in Monte” – como agora recorda o testemunho de Mons. Travia no L’Osservatore Romano.

À provocação, portanto, uma resposta de cronista, também com base em vários testemunhos e nos comportamentos do cardeal Benelli, que, depois daquele verão, quase não quis mais ir a Roma, nos momentos imediatamente seguintes, porque havia se sentido enganado. Eu tivera com ele, antes, relações de colaboração estrita, em 1967 e nos anos seguintes: lembro que, quando eu era chamado por ele, os seus secretários me acolhiam, entre eles o então Pe. Sergio Sebastiani, depois bispo e cardeal e, agora, desde o dia 11 de abril passado, também ele “emérito”, no sentido de não ser mais cardeal eleitor. Ocorreu, porém, depois, que, na ocasião do episódio sobre a lei do divórcio (1974), houve com Benelli uma divergência não de doutrina, mas de pura disciplina, que rompeu as nossas relações…

Pois bem: no momento da sua nomeação a Florença, tendo ele entrado na diocese dizendo aos fiéis que se apresentava a eles “com as mãos vazias”, eu lhe escrevi uma carta de felicitações, lembrando que aquelas palavras haviam sido usadas justamente por Teresa de Lisieux nos seus manuscritos… Guardo uma resposta sua, dialeticamente polêmica, do dia 20 de agosto de 1977…

Também devo registrar que o Mons. Pasquale Macchi sempre desmentiu qualquer rumor de renúncia de Paulo VI, e, no dia 30 de maio de 2002, tendo eu falado sobre o caso justamente no jornal La Stampa, ele me enviou uma carta manuscrita em que define toda a história da renúncia de Paulo VI como “fruto de fantasia e de fofocas”.

O que eu posso dizer? Que, por muitas e convergentes razões, tendo falado com muitas pessoas envolvidas também no caso, penso que não seja totalmente assim, e a recordação de 33 anos atrás, daquele 6 de agosto, Festa da Transfiguração de Jesus e dia da morte de Paulo VI, foi uma “provocação” também para o Vatican Insider. Daí o motivo deste texto.

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6 Comentários to “Paulo VI e a suposta “renúncia” de 1977.”

  1. Que pena não ter renunciado, pena mesmo.
    Poderia mesmo ter entrado no Mosteiro, feito penitência, penitência e penitência e muiita, jejum e muita oração, pelos estragos causados pela fundação desta seita maldita pós Vaticano II que se instalou na Igreja, graças ao mesmo “c”oncílio.. Pois como Nosso Senhor disse: A demônios que somente são expulsos com jejum e oração. E sinceramente, os demônios conciliares….
    Libera nos Domine!

  2. Então o Papa Paulo VI foi obrigado a continuar exercendo seu pontificado por uma manobra do Mons. Pasqueale Maqui e do Pe. Virgílio Levi???

  3. “Muitos, no Vaticano, naquele 1970, também tinham lido na decisão papal uma espécie de revanche totalmente humana de Montini contra alguns cardeais da Cúria, mais idosos do que ele, entre os quais seguramente Ottaviani, Pizzardo, Canali e outros, que sempre tiveram problemas com ele e que talvez haviam sido os autores ou haviam sugerido a decisão de Pio XII, em 1954, de afastar Montini do seu cargo na Cúria, substituto da Secretaria de Estado, e de ”promovê-lo” à sede de Milão, sem nomeá-lo cardeal, porém, por quase cinco anos. E, de fato, foi João XXIII que, recém-eleito papa, preencheu esse vazio prático que pareceu ser punitivo a muitos.”

    O falecido pe. José Comblin também ja falou algo semelhante, numa conferência, transcrita e publicada no site ADITAL, que tem p.ex., como articulistas Leonardo Boff e Frei Betto. Assim diz Comblin:

    “Bom… As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por ‘não saber nada a respeito, que nada provoque temor’. Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana.

    O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: ‘Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar’. Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.”

    E o que veio?

    O artigo “É preciso sonhar” completo do pe. José Comblin pode ser lido aqui: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=55138

    PA

  4. Falar dos mortos, em particular da Igreja, desde Voltaire, sempre rendeu fama e dinheiro.

  5. è… Espero que a renúncia dos Bispos continue sendo sempre aos 75 anos. Embora alguns com 70,73 ou até mais cedo seria muito bom!
    Que Paulo VI descanse em paz!

  6. No livro A Candeia do padre Calderón, está escrito, uma nota de rodapé sobre a ‘nossa’ bomba atômica, que Paulo VI tinha um diário (achei ridículo) e escreveu que: talvez Deus tenha querido que fosse assim.

    Se forçaram ele a ficar, bem feito. Seria muito digno que ele sofresse conosco toda as consequências dos seus atos. Que sofresse tb a aventura de ficar horas na via Dutra para poder assisitir uma Missa ou quem sabe, talvez, ouvir um sermão que nem na cracolândia ‘se ouviria’…