Os jesuítas brasileiros organizam um congresso internacional sobre a teologia da libertação, programado para ocorrer entre 8 e 11 de outubro, exatamente um ano antes da grande reunião mundial dos jovens.
Giacomo Galeazzi – Vatican Insider | Tradução: Fratres in Unum.com
Leonardo Boff e Jon Sobrino.
Agitação no país com mais católicos no mundo. A sede da próxima JMJ (Rio de Janeiro, de 18 a 23 de julho de 2013) foi anunciada por Bento XVI na conclusão da mega reunião de Madri. E enquanto a Santa Sé designa ao Brasil a Jornada Mundial da Juventude de 2013, os jesuítas brasileiros organizam um congresso internacional sobre a teologia da libertação, programado para ocorrer entre 8 e 11 de outubro de 2012.
Como na Espanha, também no Brasil o “Woodstock católico” será precedido pelas “Jornadas Diocesanas”, isto é, a confraternização entre as dioceses do país anfitrião e aquelas dos países de onde virão os jovens. Enquanto isso, um ano antes da JMJ, os “adversários teológicos” de Joseph Ratzinger (que como prefeito do antigo Santo Ofício havia reconduzido à ordem os teólogos da libertação que tinham se inclinado em direção ao marxismo) voltam à cena através de um congresso mundial dedicado à esquerda terceiro-mundista católica. Os responsáveis pela promoção no sul do Brasil são os Jesuítas da “Humanitas Unisinos”, o instituto da Universidade Unisinos especializado em diferentes áreas de estudo: antropologia, direito, teologia, ciências sociais e políticas, filosofia e música.
A universidade jesuíta do Vale do Rio dos Sinos (quarenta mil estudantes) é um prestigioso centro difusor de cultura para toda a América do Sul, e recentemente promoveu uma série de seminários internacionais para analisar o projeto de globalização desenvolvido pela Companhia de Jesus desde os primórdios até a época contemporânea, com suas repercussões ao longo dos séculos. O objetivo, em particular, é se concentrar na ação e na participação da ordem religiosa na formação e difusão da cultura moderna, e em seu rol espiritual e cultural no Brasil e na América hispânica através do apostolado missionário e do compromisso educativo. O país com a maior quantidade de católicos no mundo (140 milhões) se encontra na situação de ter que lidar com uma difícil convivência entre a Igreja Católica e as chamadas seitas de matriz cristã (em sua maioria, pentecostais) que reúnem cada vez mais fiéis, sobretudo nas camadas mais baixas da população. Em maio de 2007, o primeiro encontro do Papa com os jovens colocou em evidência as dificuldades que atravessa a Igreja Católica no Brasil: os organizadores esperavam por setenta mil jovens (quarenta mil no estágio e trinta mil fora).
Na realidade, os números foram definitivamente inferiores: no estádio ficaram vários espaços e lugares vazios, enquanto que na parte de fora os jovens eram poucos. No total, os participantes foram 35 mil, segundo os dados fornecidos pelos próprios organizadores: não muito, quando se tem em conta que São Paulo tem 11 milhões de habitantes. Do todo modo, o estilo Ratzinger, sóbrio e essencial, se impôs também na viagem de 2007 ao Brasil. O Papa não se preocupou com os números, mas se concentrou na mensagem. Despreocupado com as deserções, Bento XVI dirigiu aos jovens um discurso longo e desafiante, no qual lhes convidou a deixar de lado os medos e a ter confiança em Cristo, guardar a castidade e defender o valor do matrimônio, reagir à violência e evitar toda forma de corrupção. A única concessão aos temas mais sentidos pelos jovens: o pedido de salvar a Amazônia, juntamente com a oferta de duzentos mil dólares doados pelo Papa para salvar a mata e para projetos de desenvolvimento das populações indígenas. De resto, Bento XVI não buscou o consenso, mas se esforçou em lançar mensagens claras. A visita incluiu a missa de canonização, em São Paulo, do beato Frei Galvão (o primeiro santo nascido no Brasil) e o encontro no santuário mariano de Aparecida (a 170 quilômetros de São Paulo) para a inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que foi a razão principal da viagem do Pontífice ao Brasil. “Junto a outras organizações teológicas – explica Moisés Sbardelotto, porta-voz do Instituto ‘Humanitas Unisinos’,– nossa universidade está organizando um congresso teológico continental para 2012, que ocorrerá nas dependências da universidade, para celebrar o 50º aniversário de convocação do Concílio Vaticano II e o 40º aniversário da publicação do livro de Gustavo Gutierrez, Uma teologia da libertação. Mas a idéia, observa Moisés Sbardelotto, “não é somente a de celebrar a memória, mas também a de propor novas perspectivas para uma teologia progressita do continente americano”.
Ontem foi lançado oficialmente o sítio do evento em inglês e espanhol (http://www.unisinos.br/eventos/congresso-de-teologia/), e os organizadores estão planejando “reunir teólogos como o próprio Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Jon Sobrino e outros ‘pais’ da Teologia da Libertação”. “Será um momento muito especial para nossa Igreja – afirma Moisés Sbardelotto –. E confiamos que também na Europa haja interesse em divulgar esta boa nova do Espírito”.
Em maio de 2007, uma incomum batalha judicial acompanhou o encontro de Bento XVI com os jovens brasileiros. Os organizadores haviam escolhido o pequeno estádio municipal do Pacaembu para este encontro, um dos momentos mais significativos da visita do Papa a São Paulo, no Brasil. Mas, apenas duas semanas antes, o mesmo estádio havia sido palco de um grande encontro promovido por uma das igrejas pentecostais que estão atraindo uma quantidade cada vez maior de fiéis arrancados da Igreja Católica (nos últimos trinta anos, a porcentagem de católicos brasileiros, sobre o total da população, caiu de 91,7 a 73,8 %, ao passo que a porcentagem de fiéis das igrejas protestantes evangélicas subiram de 5,5 a 17,9%). Os pentecostais haviam organizado um evento muito concorrido de música e oração, que tinha paralizado completamente a região. Por este motivo, os residentes recorreram à justiça federal, pedindo que o encontro com o Papa fosse cancelado ou transferido para outro lugar, a fim de evitar que em poucos dias o bairro se encontrasse novamente submergido no caos.
Não houve o que fazer: o governo interveio para contestar, afirmando que o encontro com o Papa era de interesse nacional e que se desenvolveria de qualquer modo. Por outro lado, teria sido incrível se, a menos de dez dias da visita de Bento XVI, o encontro com os jovens fosse cancelado por causa de uma associação de bairro. O episódio, entretanto, foi sintomático do díficil clima que se respira na Igreja e na sociedade brasileira. Os cristãos de base atribuem a João Paulo II e a seu guardião da ortodoxia, Joseph Ratzinger, o haver “normalizado”, nos anos 80 e 90, o clero e o episcopado sul-americano, e de tê-lo enchido de expoentes do Opus Dei e dos Legionários de Cristo, marginalizando aqueles teólogos da libertação que haviam desviado muito para a esquerda o centro de gravidade da Igreja, dialongando com aquele comunismo que, por sua vez, o Vaticano estava combatendo no Leste Europeu. E a atual, dramática hemorragia de fiéis para as seitas evangélicas seria o fruto também da marginalização dos sacerdotes que estavam mais em contato com as classes populares e com as massas das favelas.
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[Atualização: 29 de agosto de 2011, às 08:26] Após realizarmos esta tradução no domingo, chegamos, na manhã desta segunda-feira, ao conhecimento da seguinte matéria:
Publicamos aqui a nota de esclarecimento enviada ao jornalista italiano Giacomo Galeazzi, do sítio Vatican Insider e do jornal La Stampa, após a publicação da notícia Brasil, ‘duelo teológico’ entre JMJ, Vaticano II e teologia da libertação, que esteve em destaque na capa do sítio Vatican Insider, publicado em italiano, inglês e espanhol, neste domingo (imagem abaixo).
A notícia fazia referência ao Congresso Continental de Teologia, que será realizado na Unisinos em 2012, e contém importantes imprecisões, às quais a nota enviada faz referência.
Eis o texto.
Estimado Sr. Galeazzi,
A partir da publicação da notícia «Brasile, “duello teologico” tra Gmg, Vaticano II e teologia della liberazione», em destaque neste domingo na página inicial do sítio Vatican Insider, esclarecemos:
1. O Congresso Continental de Teologia não é organizado pelos “jesuítas brasileiros”, nem pela Unisinos, universidade jesuíta. A idealização e a promoção do evento são da Fundación Ameríndia (www.amerindiaenlared.org), que convidou diversas outras instituições para colaborar na preparação e na organização do evento. Dentre elas, encontram-se: Conferência Latino-Americana de Religiosos (CLAR, Colômbia); Instituto Teológico-Pastoral para América Latina (Itepal, Colômbia); Pontifícia Universidade Javeriana (PUJ, Colômbia); Red Teológico-Pastoral (Guatemala); Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter, Brasil), Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital, Brasil); Associación de Teólogos de México (ATEM, México).
2. Essas diversas organizações convidaram a Unisinos para sediar este evento acadêmico. Isso se deu por intermédio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Afirmar que ‘os jesuítas brasileiros’ organizam o evento é um despropósito.
3. O Congresso quer celebrar os 50 anos de convocação do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro de Gustavo Gutiérrez Teologia da Libertação. Perspectivas.
Os seus leitores merecem este esclarecimento. Esperamos que lhes seja concedido.
Agradecemos a atenção e lhe enviamos as nossas saudações.