Pio XI, o papa dos desafios.

IHUEleito papa de surpresa no dia 6 de fevereiro de 1922, depois de apenas sete meses da sua designação como arcebispo de Milão, Achille Ratti era um homem acostumado desde jovem a escalar montanhas, a conquistar com tenacidade qualquer cume. Era “um desafiante que não gostava de ser desafiado”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 29-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De caráter forte e determinado, Pio XI, o papa dos Pactos Lateranenses, das corajosas encíclicas contra o fascismo (Não precisamos), o nazismo (Mit Brennender sorge) e o comunismo ateu (Divini Redemptoris), ele se impôs desde as primeiras horas que se seguiram à sua ascensão ao Sólio pontifício. Ele quis que sua antiga doméstica de Brianza, Teodolida Banfi, ao seu serviço há muito tempo, permanecesse como governanta do apartamento pontifício. Foi-lhe explicado que não era conveniente que uma mulher desempenhasse esse serviço, já que não havia nenhum precedente a esse respeito. “Todo precedente teve um início”, respondeu o papa. “Isso não pode nos impedir, portanto, de criar um precedente”.

Pio XI raramente perdia a paciência, mas, quando isso acontecia, todos se lembravam disso por um bom tempo. Como aquela vez em que não se conseguia encontrar um determinado documento nos arquivos do Santo Ofício, e o Papa Ratti convocou um de seus colaboradores, dizendo: “Ou esse papel aparece, ou todos os dirigentes da Suprema Congregação desaparecem”. O documento foi encontrado em menos de uma hora.

Outra vez, o pontífice não havia hesitado em retirar o chapéu cardinalício de um purpurado. Ocorreu em 1926, com o cardeal jesuíta Ludovico Billot, um dos membros mais influentes do Santo Ofício, colaborador na elaboração da encíclica antimodernista Pascendi de Pio X (1907). Havia sido justamente Billot, como substituto do cardeal protodiácono, que estava doente nesses dias, que colocou sobre a cabeça de Ratti a tiara papal durante a faustosa cerimônia da coroação.

Em 1926, Pio XI havia condenado a Action Française, o movimento do agnóstico Charles Maurras, que “se servia da Igreja sem servi-la” e que havia assumido “um agressivo e provocador espírito nacionalista que gerava acusações e calúnias ao papa”. Pio XI não aceitava que a fé católica fosse instrumentalizada para um projeto político, e vice-versa.

O cardeal Billot, no entanto, considerava aquela formação política francesa como um baluarte contra o liberalismo e, depois da condenação pontifícia, havia manifestado a sua solidariedade pessoal a Maurras com um bilhete, que foi publicado por um jornal, levantando a ira de Ratti. Convocado para uma audiência em setembro de 1927, Billot entrou como cardeal e saiu como simples padre jesuíta. No posterior dia 9 de dezembro, durante o Consistório, o Papa Pio XI explicou assim esse clamoroso gesto ao Sacro Colégio: “A sua ilustríssima ordem sofreu uma grave perda, quando o eminentíssimo Ludovico Billot renunciou à sagrada púrpura, voltando a ser um simples religioso da gloriosa e benemérita Companhia de Jesus. Quando ele nos escreveu de sua própria mão para que lhe concedêssemos a renúncia da excelsa dignidade, pareceu-nos que os motivos de renúncia apresentados eram generosos e espirituais, propostos, além disso, em graves circunstâncias. Assim, considerada a questão longamente, consideramos compatível com o nosso ofício ratificar a renúncia”. Na realidade, parece que a escolha do purpurado não foi tão espontânea…

Mas a audiência mais tempestuosa das concedidas por Pio XI foi a do arcebispo de Viena, o cardeal Theodor Innitzer. Este, no dia 15 de março de 1938, três dias depois do Anschluss (anexação) da Áustria à Alemanha, tinha recebido Adolf Hitler calorosamente e havia publicado uma carta que convidava todos os austríacos a se pronunciar pelo “nosso retorno glorioso ao Grande Reich” e terminava com as palavras “Heil Hitler”. O papa e o seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli, convocaram o cardeal ao Vaticano, onde ele foi obrigado a assinar uma retratação já escrita, na qual declarava que os bispos estão subordinados às diretrizes da Santa Sé e que os fiéis austríacos não devem se sentir vinculados em suas consciências à acolhida favorável que a hierarquia eclesiástica havia reservado ao Führer de Berlim.

Depois de ter posto a sua assinatura no documento, Innitzer foi recebido pelo Papa Ratti: quem estava na antessala havia referido que foi possível ouvir nitidamente os gritos e a concitação. O cardeal austríaco retornaria a Viena com o rabo entre as pernas, mesmo que a sua retirada pública não mudaria o resultado da votação: 99,08% dos seus concidadãos dariam o seu próprio consentimento à “reunificação da Áustria com o Grande Reich“.

Conta-se que, um dia, o papa perguntou a um prelado o que se dizia dele na Cúria vaticana. Este respondeu: “Diz-se que Vossa Santidade é um bom pontífice, mas de pulso muito firme”. Na verdade, os curiais estavam acostumados a defini-lo com as palavras do Dies Irae: “Rex tremendae majestatis”. Ratti respondeu: “O papa não deve ser uma pessoa pusilânime, já que, como dizia o duque de La Rochefocauld, ‘a fraqueza se contrapõe mais à virtude do que ao vício'”.

Quando Hitler visitou Roma, acolhido triunfalmente por Benito Mussolini, Pio XI deu ordens de que nenhuma bandeira fosse exposta nas sacadas dos palácios da Santa Sé, abandonou a capital, retirando-se para Castel Gandolfo, e fez escrever no L’Osservatore Romano que o ar do Castelo lhe fazia bem, enquanto o de Roma lhe fazia mal.

O Papa Ratti desdenhava qualquer forma de nepotismo, jamais concedeu audiências especiais a parentes e, quando um sobrinho seu, engenheiro, executou alguns trabalhos no Vaticano, Pio XI deixou por escrito que ele não seria retribuído. Também era alérgico aos bajuladores. Papa de grandes impulsos missionários, sob o seu pontificado foram concluídas 18 concordatas com vários Estados, a fim de garantir a maior liberdade possível para a Igreja. No dia 13 de maio de 1929, ele disse: “Quando se tratar de salvar alguma alma, sentiremos a coragem de tratar com o diabo em pessoa”.

O seu caráter forte não lhe impedia de se comover, como testemunham as expressões em favor dos judeus pronunciadas no dia 6 de setembro de 1938, quando recebeu de presente um antigo missal de um grupo de peregrinos belgas. Abrindo a página em estava impressa a segunda oração depois da elevação da hóstia consagrada, o Papa Ratti leu em voz alta a passagem em que se suplicava que Deus aceitasse a oferta do altar com a mesma benevolência com que havia aceito uma vez o sacrifício de Abraão. “Todas as vezes que eu leio as palavras ‘o sacrifício de Abraão’ – disse –, não posso evitar de me comover profundamente. Notem bem: nós chamamos Abraão de nosso patriarca, o nosso antepassado. O antissemitismo é inconciliável com esse elevado pensamento, com a nobre realidade expressa por essa oração… Espiritualmente, somos todos semitas”.

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10 Comentários to “Pio XI, o papa dos desafios.”

  1. Maravilhoso o artigo sobre Pio XI. Ele, não raras vezes, é um pontífice esquecido. Viva Pio XI!

  2. Tenho grande admiração pelo Papa Ratti, mas como não acrescentar ao relato a atitude do Pontífice em relação à Fátima?

    É sabido que desdenhava as aparições e sequer permitia tocar no assunto; Nossa Senhora praticamente lhe atribui a explosão da II Guerra, tendo se recusado a cumprir suas determinações. Um mistério!

    Pe. Clécio

  3. Era o tempo em que um Papa DAVA ORDENS, conseguia se impor sobre a Igreja a qual efetivamente governava por mercê de Deus. Um leão rugindo na Cátedra Petrina, e não os gatinhos que surgiriam mais tarde nos tempos da Colegialidade primaveril, que não mais ordenam e convocam, mas apenas “solicitam”, convidam, aconselham, emitem notinhas de lamento quando não são obedecidos…

    Apesar de ter sido diplomata (foi núncio na Polônia), ao subir ao Trono Petrino deixou a diplomacia de lado. Li numa biografia de Pio XII que, quando Mussolini lançou as diretrizes fascistas para a educação dos jovens, Pio XI chamou o Embaixador da Itália junto à Santa Sé, Cesare Maria dei Vecchi, e lhe pediu em tom firme, mas educado: “Diga ao primeiro-ministro [Mussolini] que seus métodos me desgostam”. O embaixador sorriu e afirmou pachorrentamente que dizer isto ao Duce seria “passar dos limites”. O Papa então, perdendo a calma, puxou o solidéu pra cima das orelhas e gritou: “Então diga-lhe que lhe tenho nojo, que ele me faz vomitar!”

    Em 10 de fevereiro de 1939, assim que Benito Mussolini soube da morte do Papa Pio XI, ligou imediatamente para o genro Ciano e comunicou com alegria: “Finalmente morreu aquele velho teimoso, estamos livres dele para sempre!”

    O Embaixador Heitor Pereira da Lyra, serviu como adido na Embaixada do Brasil junto à Santa Sé em 1930, qualificou o Papa Pio XI em seu livro de memórias como um homem afável, mas de movimentos bruscos e semblante pouco simpático.

  4. Andrea Tornielli Quase todas essas declarações sobre o Papa Pio XI estão num excelente livro deste jornalista. “PIO XII O PAPA DOS JUDEUS” – Livraria Civilização editora – 399 Páginas. Não está editado no Brasil mas pode se conseguir a edição portuguesa.

  5. Foi um grande papa, mas errou e cometeu grave injustiça condenando a Ação Francesa de Charles Maurras, o que só favoreceu a esquerda e a nefanda democracia cristã. Que puseesse no Index algumas obras de Maurras que representavam algum perigo para a fé, mas condenar em bloco um movimento político que constituia uma esperança para a França e toda a cristandade foi deplorável. Que condenasse, sim, a democracia nascida da Revolução Francesa. Ao contrário de Pio XI, São Pio X havia abençoado a obra de Maurras.
    João

  6. Perfeito, só Deus. Mas gostaria de ver mais autoridade nos Papas. Tirar o chapéu cardinalício de alguns prelados não é má idéia. Imaginem só se o Patriarca de Lisboa vivesse nos tempo de Pio XI, acho que teria perdido a língua tb.

  7. João, leia o seguinte parágrafo de Roberto de Mattei, que explica o equívoco de afirmar que “São Pio X havia abençoado a obra de Maurras”:

    “A atitude prudente de São Pio X, que resumiu o seu juízo sobre os escritos de Maurras na fórmula “damnabiles non damnandos”, constitui um ponto de referência irremovível (139). O Papa Sarto aprovou a condenação de Maurras, mas adiou a sua promulgação pública, julgando-a inoportuna num momento de aberto conflito com o governo francês. Os sequazes de Maurras colocaram o acento sobre o segundo termo, o qual, porém, manifesta somente um juízo contingente, de carácter diplomático, indicador de uma oportunidade e não de uma avaliação. No damnabiles de São Pio X permanece toda a substância de um claro juízo doutrinal, que não permite a nenhum verdadeiro católico inspirar-se em Maurras como num mestre.”

    (139) Em 2 de Janeiro de 1914 a Congregação do Index julgou que cinco livros de Maurras (“Chemin de Paradis”, “Anthinea”, “Les amants de Venice”, “Trois idées politiques”, “L’avenir de l’intelligence”) e a revista L’Action Française por ele dirigida mereciam condenação. São Pio X reputou oportuno adiar a promulgação do decrecto de 29 de Janeiro de 1914, mas a excomunhão foi lançada mais tarde por Pio XI, em 1926. Em 1939, depois de ter sido assinada, por parte do conselho director da Action Française, uma declaração de submissão, as sanções, relactivas ao jornal, foram retiradas por Pio XII (cfr. Decreto do Santo Ofício de 10 de Julho de 1939; resposta da Sagrada Penitenciária de 24 de Julho do mesmo ano; continuou em vigor a condenação dos escritos de Maurras indicados pelo Index), Cfr. também Lucien THOMAS, “L’Action française devant l’Eglise. De Pie X à Pie XII”, Nouvelles Edítions Latines, Paris, 1965; Michael SUTTON, “Nationalism, positivism and catholicism: the politics of Maurras and French catholics”, Cambridge University Press, Londres, 1982; Oscar L. ARVAL, “Ambivalent alliance. The catholic church and the Action française. 1899-1939”, University of Pittsburgh Press, Pittsburgh, 1985; André LAUDOUZE, “Dominicains français et Action Française”, Les Editions Ouvrières, Paris, 1989.

    Retirado da biografia de Roberto de Mattei sobre Plinio Correa de Oliveira: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/Cruzado0416.htm

  8. Prezado Fidelis Antonio.
    Conhecia a distinção entre “condenáveis e devem ser condenados” no que concerne à obra de Maurras. Corção refere-se a ela em O Século do Nada. Refiro-me à bênção que a Mãe de Maurras pediu a São Pio X para seu filho em audiência com o Santo Padre Pio X. Na ocasião, o papa disse-lhe “todas nossas bênçãos para seu filho.”
    São Pio X via com clarividência que o único remédio para o deletério Le Sillon de Marc Sagnier, que havia condenado, era representado pela obra política de Maurras, apesar de todos defeitos que ela tivesse.
    Estou convencido de que o grande papa Pio XI errou.
    Cordialmente,
    João

  9. É complicado falar sobre Maurras, pois o mesmo foi pego pela palavra.
    Quando Pio XI decidiu usar de rigor contra ele, havia dois pontos a censurar. O “naturalismo positivista” que o próprio Maurras não escondia ser, e o “nacionalismo exagerado”. Maurras sempre se reportava a Auguste Comte, um dos mestres do humanismo ateu.
    Charles Maurras tinha uma concepção de Igreja como admirável somente por ser um “organismo de disciplina social”, ou seja, era boa por ser uma força de ordem… Mas considerar a Igreja apenas por isso não é a mesma coisa que esvaziá-la de sua substância espiritual?
    A verdadeira razão de ser da Igreja não consiste em organizar a sociedade, mas em salvar as almas. Por isso um bispo francês daqueles tempos, monsenhor Ricard, bispo de Nice, dizia que essa proposta consistia em “descristianizar o catolicismo”. Estava certo.
    Em suma: os grandes erros da Action Française eram o primado do político sobre o moral, esvaziamento espiritual do cristianismo e exaltação do egoísmo nacional.
    O porém é que haviam elementos católicos excelentes, e que não eram necessariamente impregnados dos erros maurrasianos. E esses elementos foram arrastados no redemoinho, quando Charles Maurras e a Action Française sucumbiu. Le Foch, Billot… Homens realmente anti-modernistas, cujo espaço vago só beneficiou a esquerda…
    O cardeal Billot foi uma grande perda para a causa católica…

  10. O fato é que Charles Maurras estava longe de ser católico. Ele estava bem próximo dos Orleanistas – Usurpadores liberais – e escreveu grandes blasfémias contra Nosso Senhor Jesus Cristo, além de incentivar frequentemente o neopaganismo e até o nazismo – motivo este pelo qual foi preso. Mas é certo que haviam bons indivíduos na AF. Pio XI sem dúvida merecia muito mais a beatificação do que JXXIII ou JPII – Embora tenha cometidos grandes erros.