Dom Fellay e o método Bonaiuti.

Por Enrico – Messa in Latino

Tradução: Giulia D’Amore – Blog Pale Ideas

No dia de ferragosto [1], Mons. Fellay, Superior da Fraternidade Sacerdotal S. Pio X (FSSPX), fez um relatório, em Saint-Malo, sobre o atual estágio das relações com Roma. Em vista, como todos sabem, da reunião no Vaticano prevista para 14 de setembro, na qual os dois lados, terminada a fase das “discussões doutrinárias”, enfrentarão a questão capital: ”E agora, o que fazemos?”.

O discurso do bispo quer ser, e é, marcado pela maior transparência possível, mesmo à custa de cautela diplomática. O texto é longo e muito revelador. Podem encontrá-lo na íntegra, em francês, no site La Porte Latine [o Fratres in Unum publicou um excerto aqui].

Em primeiro lugar, não se faz qualquer mistério sobre o fato – já bem noto, no entanto, graças às indiscrições – de que os colóquios doutrinários não tiveram o fruto (esperado?) de uma suavização das diferenças de posições teológicas. Aqui está o que refere Fellay:

Dessas discussões doutrinárias me fica que, de per si, não trazem algum bem de imediato, porque é o encontro de duas mentalidades que se chocam. Guardo a imagem de um torneio onde dois cavalheiros cruzam as espadas, se lançam, mas passam um do lado do outro. Não há mesmo como dizer que estamos de acordo. Se há um ponto sobre o qual estamos de acordo é que sobre algum ponto não estamos de acordo! Certamente, se falamos sobre a Trindade estamos de acordo… Mas o problema não está aí: quando se trata do Concílio, fala-se sobre certos problemas novos, que chamamos de erros.

Isto implica um “adeus e obrigado” por parte da Fraternidade? Não, nos faz compreender Fellay. Sua mensagem de fundo parece-nos que seja esta: o Papa é um good fellow [2], bem disposto em relação à FSSPX e, sobretudo, tem o grande mérito de ter despertado um movimento de pensamento que olha com esperança e favor para a Tradição:

Deste ponto de vista, a ascensão de Bento XVI foi como um clique. O que quer que se diga sobre a própria pessoa dele, emergiu uma nova atmosfera. No Vaticano, esta chegada deu coragem àqueles, vamos chamá-los conservadores, que até então andavam de cabeça baixa! Talvez ainda a tenham baixa, porque a pressão ou a opressão dos progressistas ainda existe; o que torna até mesmo quase impossível o governo. Mas a atmosfera em todo caso mudou. Isto é evidente na nova geração, não mais ligada ao Concílio. Para as novas gerações e para todos aqueles que têm hoje 20 anos, o Concílio, o milênio passado, é algo de muito antigo. Esta geração que não conheceu o Concílio, e que vê a Igreja em um estado deplorável, inevitavelmente se coloca questionamentos. E os coloca de uma maneira completamente diferente daqueles que viveram o Concílio, daqueles que o fizeram e lhe são visceralmente ligados, porque queriam demolir o passado, porque queriam virar a página. […]

Um elemento muito importante, verdadeiramente muito importante, são os primeiros ataques ao Concílio que não vêm de nós, mas de pessoas notáveis, que possuem um título, como Mons. Gherardini, que não se contentou em escrever apenas um livro, mas continua a escrever e em maneira mais e mais ousada. Quando o conheci, me fez este discurso: “há 40 anos que eu tenho essas coisas na minha consciência, não posso comparecer diante do bom Deus sem tê-las dito”. De fato, ele está, por assim dizer, conosco, mas utiliza uma forma de expressão muito romana, muito cuidadosa, detalhada, mesmo dizendo o que tem a dizer.

Nesse mesmo contexto, no dia 22 de dezembro de 2005, o Papa pronunciou seu famoso discurso à Cúria no qual ele condena uma linha de interpretação do Concílio, a famosa linha da ruptura. Antes de ler, devo confessar que havia pensado que estava contra nós. Mas então percebi que havia falado dos progressistas.

Naturalmente, as posições do Papa (que defende o Concílio, embora em uma versão – a da “reforma na continuidade” – que nunca havia visto a luz) não são as de Fellay, “mas contudo”, reconhece o último, “condena uma linha, é um começo.” Uma análise similar foi feita sobre o discurso de Mons. Pozzo em Wigratzbad, o qual ainda se acautela por atrás da defesa de um Concílio “em potencial”, nunca realizado (Mons. Fellay se diverte em zombar da frase de Pozzo, para quem “uma ideologia para-conciliar apossou-se do Concílio desde o início, substituindo-se àquele”: bela maneira de defender o Concílio, explica, afirmar que tudo o que foi dito em 40 anos é falso; e as autoridades romanas que deveriam corrigir os erros dormiam talvez nestes lustros?); mas a novidade mais do que positiva é que se trata de um início de admissão, mesmo que ainda temperado com cautelas e “equilibrismos” tendentes a salvar, pelo menos na aparência, o tabu do Concílio, mesmo atacando todo o invólucro.

E, por falar de manchas e equilibrismos, Mons. Fellay passa a falar sobre o que está sendo tramado em Roma e nos altos postos do episcopado, para explicar as contradições e as lutas aspérrimas nos bastidores. Relata, assim, como o presidente da Conferência Episcopal Alemã, o famigerado Zollitsch, tenha prometido a um grupo de deputados, logo após o levantamento das excomunhões dos bispos lefebvrianos, que, “até o final do ano [3], a FSSPX estará novamente fora da Igreja”. E fala de como chegaram dos episcopados, e também por parte de amplos setores da Cúria Romana, pressões fortíssimas contra a aproximação do Papa com os tradicionalistas.

Também havia sido lançado um duro comunicado da Secretaria de Estado, que estabelecia que a FSSPX nunca teria sido reconhecida se não tivesse aceitado o Vaticano II. Mas, como relatou o card. Castrillon logo após a Fellay, aquele texto “não é assinado”, tem apenas um valor “político”, e, de qualquer maneira, aquele não é o pensamento do Papa…

O mesmo Mons. Pozzo disse a Fellay: “deveis dizer a vossos sacerdotes e vossos fieis que nem tudo que vem de Roma vem do Papa”. Em outras palavras: o Papa não tem o pleno controle de sua cúria, imagine da Igreja universal.

Esta é uma mensagem gravíssima, mas de cuja veracidade não se pode duvidar, visto que a situação está sob os olhos de todos (basta pensar no cisma rastejante acontecendo no Reich teutônico e na Ostmark, com os padres desobedientes que exigem padres-mulheres, divórcios, casamentos gay etc. etc.). Mas, ao mesmo tempo, Mons. Fellay, ao relatar essas considerações, parece querer convidar os seus a não se focarem nesta ou naquela declaração ou comportamento da Igreja “oficial” que vai contra a Tradição, porque, diz ele, “não vem do Papa”. Como dizer: não rasgai as vossas vestes, e não vos erguei por esta ou aquela mancha: há uma guerra de gangues, e os modernistas são fortes. Uma maneira talvez deselegante, mas sincera e persuasiva de defender o Papa e seu trabalho, separando a sua responsabilidade daquela de muitos de seus “subordinados”.

E eis, no final do discurso, as frases reveladoras da atitude do Superior da FSSPX em face das propostas romanas de acordo que todos esperam (mesmo que ele lembre não saber ainda nada):

Gostaria de dizer uma última coisa: algumas coisas mudam, e nestas mudanças, há almas sedentas, que veem o atual estado desastroso da Igreja, elas não chegam como almas perfeitas, mas é necessário atendê-las. Até aqui tivemos uma atitude de defesa [até aqui!]. Contudo, não é necessário temer introduzir um elemento de ataque, um elemento mais positivo: ir aos outros para tentar ganhá-los, ao mesmo tempo dando prova de grande prudência, porque as hostilidades não acabaram. Imaginem que Roma nos reconheça de repente [note-se bem este termo: um ‘reconhecimento unilateral’, contra o qual a Fraternidade poderia se permitir uma aceitação passiva no lugar de um consentimento formal, livraria Mons. Fellay de muitas batatas quentes em seu fronte interno], tenho dificuldades de acreditar nisso [mas não de esperar], mas o que ocorreria então? Acreditam que os progressistas vão mudar no que diz respeito a nós [Monsenhor passou do condicional ao indicativo…]? Mas de forma alguma! De um lado, vão continuar a nos rejeitar como sempre fizeram, ou vão tentar nos fazer engolir o seu veneno; nós nos recusaremos e o conflito recomeçará com novo vigor, não se iludam. Se Roma nos reconhecesse, seria ainda mais duro que agora. Hoje, gozamos certa liberdade. A Igreja um dia terá que nos reconhecer como católicos, mas não será fácil.

Como dizer: um acordo com Roma (ou melhor: um reconhecimento por parte de Roma) nunca será um gesto de apaziguamento, de covardia ou de renúncia à santa batalha, como estão pelo contrário pregando os vários Williamson dentro da Fraternidade. Pelo contrário, a luta pela Fé e a Tradição continuará ainda mais dura e amarga, na coexistência armada e hostil com as gangues dos modernistas, mas também com a possibilidade de um campo de ação muito mais amplo onde encontrar um grande número de “almas“ “sedentas”, que nada mais esperam do que conhecer a Tradição. Nas palavras de Mons. de Galarreta, o pouco bem que se pode fazer em Roma vale mais do que o muito bem que se pode fazer em outro lugar. Os modernistas tiveram uma intuição semelhante, e a realizaram com determinação científica [4]. Agora se trata de avançar na direção oposta em relação aos modernistas, mas o método[5] não poderá senão ser o mesmo.

Enrico


[1] N.Trª.: No Ferragosto (do latim: Feriae Augusti) é comemorada a Assunção de Maria pelos italianos, no dia 15 de agosto. É também ponto de partida das férias na Itália.

[2] N.Trª.: Em inglês: bom companheiro.

[3] N.A.: O ano era 2009.

[4] N.A.: Ernesto Bonaiuti escreveu: “quis-se reformar Roma sem Roma, ou até mesmo contra Roma. Precisa-se reformar Roma com Roma; fazer com que a reforma passe pelas mãos daqueles que devem ser reformados. Este é o verdadeiro e infalível método; mas é difícil. Hic opus, hic labor”.

[5] N.A.: Ou seja, a estrada, o caminho a percorrer: meth’odòn em grego.

5 Comentários to “Dom Fellay e o método Bonaiuti.”

  1. Ótimo que D. Fellay tenha “entendido” da problema na Igreja nestes tempos.
    É hora de estar ao lado da Igreja e do Papa.
    Muitos não querem a FSSPX lá, trabalham para isso.
    A “briga” tem que ser dentro dela.

  2. “É hora de estar ao lado da Igreja e do Papa” E eu me pergunto, talvez ingenuamente, quando foi que a FSSPX não esteve ao lado da Igreja e do Papa?

    Pergunta retórica. Easy!

    Depois de amanhã, se dará mais uma etapa desse longo e doloroso caminho. Que a Santa Cruz nos conduza nesta jornada!

  3. “Seja o vosso falar ‘sim, sim; não, não’. O que passar disso é de procedência maligna” (Mateus 5:37).

    ” Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas. (Mt 10:16)

    Isso me parece um estratagema, uma tramóia, e não vejo simplicidade ou prudência nessa estratégia que os modernistas utilizaram… Será que Nosso Senhor usaria de uma estratégia deste tipo?

  4. Dom Fellay é um exemplo de fidelidade ao Papa e à Igreja, não pela carreira, mas pelo amor ao Reino de Deus, desprezando opiniões à direita e à esquerda para seguir sua consciência divinamente iluminada. Que bom que Bento XVI compreenda que o problema da Igreja nestes tempos seja a ruptura – sempre condenada por Dom Fellay – com a Tradição.

  5. Que Dom Fellay não recue por receio dos guetos fiéis a Dom Williamson!

    Que venha o acordo!

    Que venha a guerra!

    Robson!