“É preciso evangelizar em profundidade a alma africana”.

Numerosos movimentos sincretistas e seitas surgiram na África durante os últimos decénios. Por vezes não é fácil discernir se são de inspiração autenticamente cristã ou simplesmente fruto de um entusiasmo por um líder com a pretensão de possuir dons excepcionais. A sua denominação e o seu vocabulário prestam-se facilmente a confusão e podem enganar fiéis em boa fé. Aproveitando-se de estruturas estatais ainda não estáveis, do desmoronamento das solidariedades familiares tradicionais e duma catequese insuficiente, estas numerosas seitas exploram a credulidade e oferecem uma caução religiosa a crenças multiformes e heterodoxas não cristãs. Destroem a paz dos casais e das famílias, por causa de falsas profecias ou visões. Seduzem mesmo responsáveis políticos. A teologia e a pastoral da Igreja devem individuar as causas deste fenómeno, não só para deter « a hemorragia » dos fiéis que saem das paróquias para elas, mas também para estabelecer as bases duma condigna resposta pastoral à atracção que estes movimentos e seitas exercem sobre aqueles. Por outras palavras, é preciso evangelizar em profundidade a alma africana.

[…] Apoiando-se nas religiões tradicionais, a feitiçaria conhece actualmente uma certa recrudescência. Renascem temores, que criam laços de sujeição paralisadores. As preocupações com a saúde, o bem-estar, os filhos, o clima, a protecção contra os maus espíritos levam de vez em quando a recorrer a práticas das religiões tradicionais africanas que estão em desacordo com a doutrina cristã. O problema da « dupla pertença » – ao cristianismo e às religiões tradicionais africanas – permanece um desafio. Para a Igreja que está na África, é necessário guiar as pessoas, através de uma catequese e uma inculturação profundas, para a descoberta da plenitude dos valores do Evangelho. Convém determinar o significado profundo de tais práticas de feitiçaria, identificando as implicações teológicas, sociais e pastorais que esta calamidade acarreta.

Da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Africae Munus do Santo Padre, o Papa Bento XVI.

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One Comment to ““É preciso evangelizar em profundidade a alma africana”.”

  1. A partir do século XVI as monarquias católicas da Europa ao invés de evangelizar a Africa, escravizou-a.
    A liberdade, que devia vir pela Caridade a partir de então, veio só nos tempos modernos, pelas leis “humanitárias” ou pelas armas, mais de 300 anos depois.
    A Escravidão, uma das maiores vergonhas da história do Homem, na face da Terra…
    Agora, A Igreja (que sempre foi contra a Escravidão) novamente corre atrás do passarinho que voou!