Se você não crê na Presença Real, quão hiperbólico deve parecer… Para aqueles que sabem que Ele está lá, Corpo, Sangue, Alma e Divindade, o “horror” não começa a descrever os problemas ao redor da maneira de tratar o Santíssimo Sacramento nos locais pós-Conciliares, com base em “fontes” pseudo-históricas e fraude descarada.
A grande fraude acerca da Santa Comunhão na Mão
São Cirilo de Jerusalém e a Comunhão na mão
Com relação à chamada questão da “Comunhão na mão,” [Una Fides] apresenta um artigo escrito pelo Rev. Padre Giuseppe Pace, S.D.B., publicado na revista Chiesa Viva de janeiro de 1990 (Civiltà, Brescia.) [Tradução pela colaboradora do Rorate Francesca Romana.]
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A bolota é um carvalho em potencial; o carvalho é uma bolota que chegou à perfeição. Para que o carvalho volte a ser uma bolota, supondo que ele o pudesse sem morrer, seria uma regressão. É por essa razão que a Mediator Dei do Papa Pio XII condenou o arqueologismo litúrgico como anti-litúrgico com essas palavras:
Durante...
(…) assim, quando se trata da sagrada liturgia, não estaria animado de zelo reto e inteligente aquele que quisesse voltar aos antigos ritos e usos, recusando as recentes normas introduzidas por disposição da divina Providência e por mudança de circunstâncias (no.63) (…)
Este modo de pensar e de proceder, com efeito, faz reviver o excessivo e insano arqueologismo suscitado pelo ilegítimo concílio de Pistóia, e se esforça em revigorar os múltiplos erros que foram as bases daquele conciliábulo e os que se lhe seguiram com grande dano das almas, e que a Igreja – guarda vigilante do “depósito da fé” confïado pelo seu divino Fundador – condenou com todo o direito.(53)
Os pseudo–liturgistas que estão desolando a Igreja em nome do Concílio Vaticano Segundo são presas de tais obsessões de arqueologismo mórbido; pseudo-liturgistas, que, às vezes chegam ao ponto de obrigar os seus súditos com exortações e exemplos que violam as poucas leis sadias remanescentes que ainda sobrevivem, e que, eles próprios, formalmente promulgaram ou confirmaram.
O sintomático disso tudo é a questão do Rito da Santa Comunhão. Um bispo, de fato, após declarar que as Sagradas Espécies administradas na língua do comungante ainda está em vigor no Rito Tradicional, ao mesmo tempo, também permite que a Santa Comunhão seja distribuída em pequenas cestas que os fiéis passam de mão em mão; ou ele próprio deposita as Espécies Sagradas nas mãos (será que elas estão sempre limpas?) do comungante. Se você quer convencer os fiéis de que a Santíssima Eucaristia não é nada mais do que (um pedaço de) pão comum, talvez mesmo bento como uma refeição simbólica, não se poderia imaginar uma maneira melhor de fazer isso do que aquela do sacrilégio.
Os promotores da Comunhão na mão recorrem a esse arqueologismo pseudo-litúrgico condenado por Pio XII apertis verbis. Na verdade, eles dizem que é dessa maneira que você precisa recebê-la, porque ela foi conduzida dessa maneira por toda a Igreja, tanto no Oriente quanto no Ocidente desde seus primórdios e por mil anos daí em diante.
... e depois. Imagens: Blog do pe. Zuhlsdorf.
O que é certamente verdade desde os primórdios da Igreja é que por quase dois mil anos, em preparação para a Comunhão, os comungantes tinham que se abster de toda a comida e bebida da noite anterior até o momento da recepção. Por que esses arqueologistas não restauram esse jejum eucarístico? Isso certamente iria contribuir bastante para manter viva na mente do comungante o pensamento da iminente recepção da Santa Comunhão, para que eles se preparassem melhor.
Em vez disso, é praticamente falso que, desde o início da Igreja e por mil anos daí em diante, tanto no Oriente quanto no Ocidente, existiu a prática de colocar as Espécies Sagradas nas mãos dos fiéis.
Os pseudo-liturgistas amam evocar a seguinte passagem da Catequese Mistagógica atribuída a Santo Cirilo de Jerusalém:
«Adiens igitur, ne expansis manuum volis, neque disiunctis digitis accede; sed sinistram velut thronum subiiciens, utpote Regem suscepturæ: et concava manu suscipe corpus Christi, respondens Amen». (Dirigindo-se, pois (à Comunhão) aproximai-vos com as palmas da mão abertas, nem com os dedos disjuntos, mas tendo a esquerda em forma de um trono sob aquela mão que está por acolher o Rei e com a direita côncava, recebei o corpo de Cristo, respondendo Amém.)
Ao chegar nesse Amém, simplesmente param. Mas a Catequese Mistagógica prossegue com o texto acrescentando a seguinte:
Depois que tu, com cautela tiver santificado os teus olhos pondo te em contacto com o corpo de Cristo, aproximai também do cálice do sangue: não tendo as mãos estendidas, mas genuflexo de modo a expressar senso de adoração e veneração. Dizendo Amém, te santificarás, tomando também o sangue de Cristo. E tendo ainda os lábios úmidos, tocai-o com as mãos e depois com esse santificarás os teus olhos, a fronte e os outros sentidos. Da Comunhão jamais vos afastai, nem vos privai destes sagrados e espirituais mistérios, ainda que estejais manchados pelos pecado.
Quem poderia admitir que um tal rito fosse o costume ordinário na Igreja Universal por mais de mil anos? E como conciliar tal rito, segundo o qual a Comunhão deve ser dada até a quem está manchado de pecado com a ordem, certamente apostólica, que desde os primórdios da Igreja proibia que fossem admitidos à Santa Comunhão aqueles que estavam em estado de pecado? «reus erit corporis et sanguinis Domini. Probet autem seipsum homo: et sic de pane illo edat, et de calice bibat. Qui enim manducat et bibit indigne, indicum, sibi manducat et bibit non diiudicans corpus Domini» . (Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. (I Coríntios, 11, 27-29, Douay-Rheims)]
Um tal rito de Comunhão tão extravagante, cuja descrição se conclui com a exortação a receber ou distribuir a Santa Comunhão até para aqueles que se encontram manchados de pecado, certamente não foi pregado por São Cirilo na Igreja de Jerusalém e nem poderia ter sido lícito em qualquer época na Igreja. Trata-se de um rito derivado da fantasia, oscilando entre o fanatismo e o sacrilégio, do autor das apócrifas Constituições Apostólicas, um anônimo Siriano, devorador de livros, escritor incansável, que despeja nos seus escritos, indigestos e contaminados em grande parte por suas elucubrações mentais, grande porções de suas leituras, o qual no seu livro VIII das ditas Constituições Apostólicas, acrescenta, atribuindo ao Papa São Clemente, 85 cânones dos Apóstolos, os quais o Papa Gelásio I, declarou como apócrifos no Concílio de Roma do ano 494: «Liber qui appellatur Canones Apostolorum, apocryfus (P. L., LIX, col. 163). A descrição desse rito extravagante, em boa parte sacrílego, entrou na Catequese Mistagógica por obra de um sucessor de São Cirilo, que segundo alguns seria o bispo João, um cripto-ariano, origeniano e pelagiano, que mais tarde foi contestado por Santo Epifânio, São Jerônimo e Santo Agostinho.
Come pode então Leclercq afirmar que: “… precisamos ver nisso [nesse rito extravagante] uma representação exata do uso das grandes Igrejas da Síria? Ele não pode afirmar isso, a não ser que se contradissesse, uma vez que antes afirma tratar-se de «…uma liturgia fantasia. Ela não procede e não se destina a nada mais do que entreter o seu autor; não é uma liturgia normal, oficial, pertencente a uma Igreja Específica” (Dictionaire de Archeologie chretienne et de Liturgie, vol. III, parte II, col. 2749-2750).
Temos, ao invés, provas concretas de costumes opostos, ou seja, a prática de colocar as Sagradas Espécies sobre a língua do comungante e da proibição aos fiéis leigos de tocar as Sagradas Espécies com as próprias mãos. Somente em casos de necessidade grave e em tempos de perseguição, nos assegura São Basílio, se podia derrogar as normas, permitindo aos leigos receber a Comunhão na próprias mão (P. G., XXXII, coll. 483-486).
Obviamente, não pretendemos fazer um relatório de todos os testemunhos invocados para demonstrar que o costume de colocar as Sagradas Espécies sobre a língua dos comungantes leigos era o uso na antiguidade, nem pretendemos indicar algo somente sintomático, e o que é mais suficiente, desmentir o que eles afirmam que por mil anos, tanto na Igreja Oriental como Ocidental, se costumava colocar as Sagradas Espécies sobre as mãos dos leigos.
Santo Eutiquiano, Papa de 275 até 283, para evitar que leigos tocassem as Espécies Sagradas com as sua mãos, proibia-os de levar o Santíssimo Sacramento aos doentes «Nullus præsumat tradere communionem laico vel femminæ ad deferendum infirmo» (Ninguém ouse entregar a comunhão a um leigo ou a uma mulher para portá-la a um enfermo) (P. L., V, coll. 163-168).
São Gregório Magno narra que Santo Agapito, Papa de 535 a 536, durante os poucos meses do seu pontificado, dirigindo-se a Constantinopla, curou um surdo-mudo durante o ato de «ei dominicum Corpus in os mitteret» (colocou em sua boca o Corpo do Senhor) (Dialoghi, III, 3).
Isso ocorreu na Igreja do Oriente. Já no Ocidente é indubitável que o próprio São Gregório Magno administrava desse modo a Santa Comunhão aos leigos, pois já bem antes do Concílio de Saragoza no ano 380, havia lançado a excomunhão contra aqueles que ousassem tratar a Santíssima Eucaristia como se estivessem em tempos de perseguição, ou seja, tempos em que ao fiel leigo era permitido tocar as espécies sagradas caso se encontrasse numa situação de necessidade (SAENZ DE AGUIRRE, Notitia Conciliorum Hispaniæ, Salamanca, 1686, pag. 495).
Certamente que até mesmo naquela época não faltavam inovadores indisciplinados. Esse fato levou as autoridades eclesiásticas a chamá-los à ordem. Assim fez o Concílio de Rouen, por volta do ano 650, proibindo ao ministro da Eucaristia de dispor as Sagradas Espécies sobre as mãos do comungante leigo:
«[Presbyter] illud etiam attendat ut eos [fideles] propria manu communicet, nulli autem laico aut fœminæ Eucharistiam in manibus ponat, sed tantum in os eius cum his verbis ponat: “Corpus Domini et sanguis prosit tibi in remissionem peccatorum et ad vitam æternam”. Si quis hæc transgressus fuerit, quia Deum omnipotentem comtemnit, et quantum in ipso est inhonorat, ab altari removeatur» ([O presbítero] deverá também estar atento disso: dê a Sagrada Communhão ao fiel somente com as suas próprias mãos; não coloque a Eucaristia nas mãos de qualquer leigo ou mulher, mas somente em suas bocas, com as seguintes palavras: “Que o Corpo e o Sangue do Senhor te ajude na remissão dos teus pecados e para alcançar a vida eterna”. Quem tiver transgredido essas normas, desprezado portando Deus Onipotente e o desonrado, deverá ser removido do altar). (Mansi, vol. X, coll. 1099-1100).
No tocante aos arianos, exatamente para demonstrar que não acreditavam na divindade de Jesus Cristo e que consideravam a Eucaristia apenas como um pão puramente simbólico, era costume comungar estando em pé e tocando as espécies eucarísticas diretamente com as mãos. Não foi sem razão que Santo Atanásio se levantou contra a apostasia ariana. (P. G., vol. XXIV, col. 9 ss.).
Não podemos negar que em certos casos, em certas Igrejas particulares e por algum tempo tenha sido permitido aos leigos tocar as Sagradas Espécies com as próprias mãos. Mas não só podemos negar com provas irrefutáveis de que esse tenha sido o costume ordinário por mais de mil anos tanto na Igreja Oriental como a de rito latino como também podemos afirmar que mais falso ainda é dizer que esse deveria ser o costume para os dias de hoje. Cabe lembrar que até no culto devido à Santa Eucaristia houve um sábio progresso, análogo àquele que ocorreu no campo dogmático (o qual não tem nada a ver com a teologia modernista da morte de Deus).
O supracitado progresso litúrgico universalizou o costume de ajoelhar-se em ato de adoração e, daí, o uso dos genuflexórios; a prática de cobrir a balaustrada com uma toalha alva de linho, o uso da patena e às vezes uma tocha ou vela acesa; seguido da prática de pelo menos quinze minutos de ação de graças pessoal. Abolir tudo isso que é parte vital da Tradição Litúrgica não é incrementar o culto devido à Santa Eucaristia e nem a fé ou santificação dos fiéis, mas sim servir ao demônio.
Quando São Tomás de Aquino (Summa Theologica, III, q. 82, a 3) expõe os motivos pelos quais é vetado aos fiéis leigos tocar as Sagradas Espécies, ele não fala de um rito inventado recentemente, mas de um costume litúrgico tão antigo quanto a própria Igreja. Não foi sem razão que o Concílio de Trento não apenas afirmou que na Igreja de Deus, é costume constante e ordinário que os leigos recebam a Comunhão das mãos dos sacerdotes, enquanto os sacerdotes comunguem por si mesmos, como também afirmou que esse costume é de origem apostólica (Denzinger, 881). Eis porque encontramos a mesma norma prescrita no Catecismo de São Pio X (642-645).
Ora, tal norma jamais foi abrogada: no Novo Missal Romano, artigo 117, se lê que o comungante tenens patenam sub ore, sacramentum accipit (tendo a patena sob a boca, receba o sacramento).
Não dá pra entender como os próprios promulgadores de tão sábia norma sejam os primeiros a dispensá-la de diocese em diocese, uma paróquia após a outra.
O simples fiel, diante de tanta incoerência, não poderia reagir de outro modo senão demonstrar uma completa indiferença e desprezo pelas leis eclesiásticas litúrgicas e não litúrgicas.
Tradução de Fratres in Unum.com a partir do texto publicado em Rorate-Caeli, com adaptações da tradução disponível em “Últimas misericórdias de Deus“.