Um apelo semi-sério ao Papa: um ano sem homilias.

Por Marco Tosatti, La Stampa. Tradução: Cepat.

Havia escrito o que vocês podem ver mais abaixo com a intenção de não publicá-lo; um escrito destinado ao lixo, melhor dito, aos “arquivos” dos escritos nunca publicados. Mas, há alguns dias, me caiu diante dos olhos uma notícia de agência, protagonista: o presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, biblista de renome, inventor do Pátio dos Gentios, e disse a mim mesmo: então…

O cardeal Gianfranco Ravasi, convidado – na qualidade de biblista e intelectual – para abrir, na Pontifícia Universidade Gregoriana, um curso sobre a palavra, afirmava: “A palavra está sofrendo. Também para a comunidade eclesiástica, a Igreja e sua comunicação. A palavra é traída e humilhada”. Inclusive no púlpito. Ravasi chama à causa diretamente os sacerdotes. Porque “com frequência, os sermões são tão incolores, insípidos, inodoros, que são irrelevantes”. Em compensação, “é necessário recuperar a palavra que ‘ofende’, fere, inquieta, julga”, a “palavra saudável, autêntica, que deixa marcas”. É preciso não esquecer que hoje, goste-se ou não, quem escuta “é filho da TV e da internet”.

E continua: Ravasi recorre a Voltaire e a Montesquieu, e diz que com eles “a eloquência sacra é como a espada de Carlos Magno, longa e plana: aquilo que não pode dar em profundidade, o dá em comprimento”. O tom do cardeal é leve, mas cortante. “O sacerdote não deve aceitar que a palavra seja humilhada. Está claro que a capacidade de falar é, em parte, dom natural, mas também existe a formação, o aspecto pedagógico, os instrumentos técnicos com os quais se dotar. E isto é algo que hoje falta nos seminários”.

Para terminar: “Umberto Eco estima que hoje os jovens utilizam apenas 800 palavras. Isto impõe a quem fala essencialidade, força, narração, cor”.

Então, tomei coragem e trouxe à tona o meu pedido, que espero seja formalmente correto, porque não tenho experiência no campo; é a primeira vez que escrevo a um papa.

“Santidade,

Permito-me fazer-lhe um pedido, simples, mas apenas até certo ponto.

Tem a ver com as homilias. Aquelas que ouvimos, cada domingo, quando vamos à missa.

É um pedido que, na realidade, contém várias sugestões, propostas e ideias; e como é costume ao se dirigir a você, com toda humildade, naturalmente.

A primeira ideia é um tanto radical. Proclamar um período (você pode decidir sua duração) de jejum de homilias. Isto é: estabelecer que, durante um ano nas igrejas (com exceção, obviamente, do Papa e dos bispos) não se façam homilias. Não me peça explicações nem razões. Não desejo ofender os sentimentos (bons) de ninguém. Peça explicações, caso desejar, a Giulio Andreotti, que – se não me falha a memória – procura(va) ir nas missas matutinas, exatamente para não ouvir homilias. Eu creio que, se a homilia fosse substituída por um breve momento de recolhimento e de meditação das palavras ouvidas nas Leituras, poderia ser benéfico para todos.

Segunda sugestão. Isto, obviamente, com um tom de brincadeira. Obrigar os sacerdotes a fazerem um curso de jornalismo e, em particular, de jornalismo de agência ou televisivo. Mais de uma vez nos disseram, durante a nossa presença já de longa data em redações, que em 50 linhas se pode descrever a história de uma vida. É possível que seja impossível escrever, no mesmo espaço, uma reflexão sobre o Evangelho do dia?

Terceira possibilidade (também tem um tom de brincadeira, mas…): solicitar à Congregação correspondente a redação de um documento em que estabeleça taxativamente que o tempo dedicado à homilia não deve ultrapassar os cinco minutos. Um santo, ou um padre da Igreja, disse certa vez: “nos primeiros cinco minutos fala Deus, nos outros cinco fala o homem, nos restantes mais de cinco minutos fala o diabo”. Tendo a acreditar que, na realidade, depois dos primeiros cinco minutos em muitos púlpitos continua falando o homem; e, lamentavelmente, nem todos estão à Sua altura, ao escrever e pronunciar os discursos. E a experiência nos torna palpável – sem culpa de ninguém, os sacerdotes estão animados pelos melhores sentimentos, e estão cheios de santo entusiasmo – que uma homilia que se alonga, se perde, divaga, toca muitos pontos diversos, o que, muitas vezes, não ajuda a manter a concentração e a tensão espiritual criadas pelas Leituras. Pelo contrário. Naturalmente, estariam isentos o Papa, os cardeais, os patriarcas e os arcebispos metropolitanos. Sobre os bispos e os abades, pode-se discutir…

Esperamos que estas linhas sejam lidas por alguém.

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16 Comentários to “Um apelo semi-sério ao Papa: um ano sem homilias.”

  1. Caem lágrimas dos olhos quando percebemos a verdade clara e límpida como a dita pelo cardeal. Bravo!

  2. “Semi-sério” é boa…

  3. Alguns devem vingar o que escuta no confessónario kkkk

  4. As palavras proferidas pelo cardeal nos revela uma grande verdade. Algumas homílias parecem discurso eleitoral, outras seção de alto ajuda, outras resumo das novelas e lamentavelmente cita-las como exemplos, outras bajulação ao Bispo seja ele vivo ou falecido; evangelho que é bom nada e ainda por cima falta de oração pois boa formação sem ela de nada adianta.

  5. A cada domingo, rezo para que o padre de minha paróquia pare de falar asneiras e heresias por longos 30 minutos, ofendendo a Deus e à Igreja, negando a Santa Doutrina.
    Um ano sem homilias, durante o qual os padres fariam um curso não de jornalismo, mas de Teologia, seria uma bênção.
    Deus nos proteja!

  6. As homilias de hoje tendem a ser como as espadas na Idade Média: chatas e compridas.

  7. Sabe de quem é culpa?
    Dos leigos!

    Nós somos a igreja e nós temos que dar o exemplo para que nossos padres possam melhorar suas homilias. Explico; É só o padre citar algum desvio de conduta da comunidade que logo o criticam, basta ser contra algum conceito socialmente aceito (gays, separação, sexo…) que todos viram o rosto. Depois queremos cobrar que eles sejam mais diretos em suas homilias…

    A santa missa passa por ummomento crítico. Entendo que em parte isso acontece pois os padres não se aplicam mais nem se dedicam a sua função. Antigamente o sacerdote sabia de culinária até ciência… Hoje em dia virou uma espécie de boa gente que executa missas ocasionalmente. Padre tem que se portar como padre, tem de estar disponível, ser informdo sobre teologia, defener o bom gosto das artes sacras…

    Estou farto de concluir que padres belgas produzem seu lucro através da tradição culinária católica e que padres brasileiros (em um país com muito mais pobres que a Bélgica) se furtam a executar sua missa e se retirar para seus aposentos em seguida, quase sempre se entregando apenas a tarefas administrativas da igreja e suas pastorais.

    Outra coisa insuportável é esta tendência do padre nunca se colocar como responsável pelo sucesso da igreja, é sempre do “povo” a responsabilidade por isso ou aquilo.
    Somado a isso temos a nova onda de tudo pode, Deus perdoa todos e bla bla bla… Sendo coroada com a grande besteira que vem sendo espalhada aos montes na homilia: Jesus é responsável por seus atos.
    Parece que esta última máxima sustenta todo este atual cenário da igreja…

  8. A maioria das homilias são tão chatas que seria melhor que o sacerdote ficasse calado e seguisse adiante com a missa.

  9. Em tempo:

    Também com o nível de formação dos nossos sacerdotes, queriamos o quê?

  10. Osires,
    Acho muito vago dizer que as homilias são chatas. Principalmente pois a maioria acharia chata uma homilia coodeve ser: focada na palavra e informativa (sem apelos sentimentais ou piadinhas).

  11. Não vejo nada de semi sério…É extremamente sério!!!Tomara nosso Santo Papa tenha a oportunidade de ler este texto e colocá-lo em prática em sua íntegra!

  12. Prezado Saulo,

    Saulo… Saulo por que me persegues? (brincando)

    Quando puderes vir ao Recife, assista alguma missa para tirar a dúvida.

  13. Saulo… Saulo por que me persegues? (brincando)
    <b. Morri de rir, adoro ler os comentários do Fratres!!!!

    Quando puderes vir ao Recife, assista alguma missa para tirar a dúvida.
    Se n puder ir ao Recife, venha para a Diocese de São José dos Campos.

  14. Saulo… Saulo por que me persegues? (brincando)
    Morri de rir, adoro ler os comentários do Fratres!!!!

    Quando puderes vir ao Recife, assista alguma missa para tirar a dúvida.
    Se n puder ir ao Recife, venha para a Diocese de São José dos Campos.

  15. O escritor Mário Prata conta em uma crônica de sua infância que se o padre se delongasse demais na homilia, os homens saíam da igreja para fumar, e só voltavam depois que a falação terminasse. As mulheres debaixo dos véus, mais respeitosas, resistiam à vontade de cochilar. Isso há uns 50 anos atrás. Hoje seria belo e moral acender o cigarro dentro da igreja mesmo, durante uma longa homilia carismática ou libertacionista.

  16. Neste quesito, penso que vem muito a calhar aquele célebre ditado que ouvi certa feita de um piedoso sacerdote em Roma:

    «A homilia deve ser como uma minissaia.

    Curta o suficiente para prender a atenção.

    Longa o suficiente para cobrir o essencial.

    E aderente à realidade.»

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