Uma Igreja no Exílio: Há trinta anos, em Campos (II).

D

om Navarro era um estudante no seminário do Rio na época das mudanças [do pós-Concílio]. Toda a sua formação e orientação católica ocorreu em um clima de mudança e, bom militar que era, ele simplesmente seguia ordens. Quando se tornou bispo de Campos, esperava que os outros fizessem o mesmo. Ele insistia nisso. […]

À esquerda, o então Padre Navarro, no centro, o sambista Almir Saint Clair e, à direita, o Padre José Alves. O sambista fora convidado a gravar músicas religiosas pelo então Padre Navarro.

À esquerda, o então Padre Navarro acompanhado pelo sambista Almir Saint Clair (centro) e pelo Padre José Alves (direita). O sambista foi convidado a gravar músicas religiosas pelo então Padre Navarro.

Dom Navarro expressou decepção imediatamente após sua chegada. Tão logo se mudou para a residência episcopal, afirmou ter encontrado a casa “vazia, com uma geladeira velha, uns poucos móveis quebrados” e “apenas” quinhentos cruzeiros nos cofres diocesanos. Começaram a circular rumores na imprensa local de que o novo bispo foi insultado, que Dom Antônio desaparecera com suas riquezas e deixara apenas as paredes descobertas como suas boas-vindas ao seu sucessor. A simples realidade era que o antigo bispo, como sabia qualquer um que já havia passado algum tempo próximo a ele, vivia uma vida de grande simplicidade e genuína pobreza. Nunca houve quaisquer tesouros na mansão episcopal, e os poucos itens que foram removidos, livros, escrivaninha, cama, artefatos religiosos, eram pertences pessoais com valor tanto prático, intelectual ou sentimental. Os rumores continuaram a circular e, finalmente, foram abertamente confirmados pelo novo bispo em uma carta dirigida ao maior jornal do Rio, O Globo. Nela, Dom Navarro vociferava seu ressentimento com o que encontrara em sua nova residência e insinuava uma tentativa deliberada de humilhá-lo em sua chegada por parte de Dom Antônio.

The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993 – pág. 124-126 | Tradução: Fratres in Unum.com

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15 Comentários to “Uma Igreja no Exílio: Há trinta anos, em Campos (II).”

  1. Muitas vezes vemos nos outros aquilo que somos…
    D. Navarro, acostumado ao Palácio S. Joaquim, na Cidade Maravilhosa, com todo o seu conforto, teve um grande “susto” ao chegar na residência Campista…
    Crendo que encontraria um “suntuoso Palácio”, pois a maioira vê nossos Sacerdotes Católicos (apelidados de “tradicionalistas”), como “afeitos ao luxo”, viu-se numa casa repleta de grandiosidade e pobreza…

    Pobreza, não consiste em miséria, mas sim em saber usar os bens.
    Pobre D. Antônio… somente aqueles que o conheciam sabiam o desapego de bens materiais deste abnegado e grande Bispo. Apesar de sua simplicidade, foi tido como um “sabotador”…

    Conheci um caso semelhante, numa pequenina cidade do rico (e outrora “tradicional” Sul de Minas), com uma Matriz deslumbrante, repleta de obras de arte dos séc. XVIII, XIX (época dos Barões do Café) e inícios do séc. XX, uma linda residência, onde viveu por mais de 25 anos um “velho padre tradicional”, de batinas pretas e “ultra conservador”, nas palavras do bispo modernista que o “retirou” da paróquia – em nome da “obediência” – fora substituído por um novo e jovem padre… Este ficou horrorizado com a “pobreza” do velho vigário, que segundo este jovem padre conciliar, “vivia na mais absoluta miséria, tendo aprentemente bem-cuidade uma capela, cheia de imagens e quadros de santos e umas mil ‘Nossa Senhoras’, não tendo nem um colchão digno para se deitar, ou uma mesa bonita para receber os amigos e colegas”… Ao que lhe respondeu uma paroquiana, (neste caso, minha velha avó):
    “Ah sim, nosso vigário não tinha um colchão bom, ele dormia numa esteria no chão, fazia penitências… não tinha uma “bela mesa”, pois recebia os amigos na Matriz ou na sala, lhes servia água… e a capela era realmente o único lugar que ele prezava, afinal, “onde está o seu coração, aí está o seu tesouro”!
    Ao iniciar a reforma da casa, o primeiro cômodo a ser “reformado” (neste caso, como o de quaisquer “reformas”, corresponde a ser destruído), foi a velha capela da casa, com seu “altar abolido” (o altar do Sacrifício)…

    Atualmente a velha Matriz está “bem simplificada”, sem excesso de santos (bem poucos – só conservaram o Altar, de mármore-de-carrara, por intervenção do Ministério Público pois é um bem tombado), bem ao gosto conciliar… Mas a casa, ah, essa sim, uma verdadeira Catedral do bom gosto e do bem viver, tendo hidromassagem, sauna e até uma piscina…

    Que bom que nossos padres e bispos conciliares entendem bem de pobreza: relegam ao Rei dos Reis um ambiente pobre, afinal Ele nasceu na “periferia” e viveu entre os pobres”, livrando as igrejas “daqueles acréscimos detestáveis da época em que a Igreja era a aliada dos ricos e opressores”…

    E eles, padres e bispos, vivem na simplicidade de nossos sindicalistas, vivendo realmente o evangelho segundo são Marx…

    Ah, ainda bem que veio esse concílio que tanto transformou a Igreja… afinal, já imaginaram como seria a vida do Fábio de Melo, padre conciliar (nas horas vagas – entre um show, uma musculação e uma ida à Daslú) num “Palácio” igual ao de Dom Antônio?

    De toda a vaidade e opulência, livrai-nos Senhor…

  2. Fiquei comovido ao ler este artigo.Quanto injustiça não se cometeu contra os verdadeiros católicos e ainda se cometem, e o pior é que tal injustiça é feita por católicos e pela hierarquia.Mas um dia a justiça de Deus será feita.Misturar-se com a cultura demoníaca do samba pode mas missa tradicional não pode ! Quanta contradição meu Deus !

  3. Que realidade triste, desde os anos 70 a Igreja tem sobrevivido a duras penas!

  4. Gostaria de compartilhar com o responsável deste FRATES IN UNUM. Pela a feliz idéia, de trazer novamente atona, este tema que muitos católicos do Brasil desconhece.
    A verdadeira história, desta calúnia que ficou praticamente sem ser desmentida.
    Eu lembro ainda muito bém. Logo assim que a Diocese de Campos foi tomada pelo Bispo progressista, Dom Navarro. Começou uma verdadeira enchorrada de calúnias, de mentiras, de imprudência, desrespeito à pessoa do Bispo Dom Antônio de Castro Mayer.
    Os inimigos da Santa Igreja. Parecia que era o momento de sua vitória . Caluniaram de tudo que podemos pensar: cismático, orgulhoso, desonesto… Inclusive este assunto, foi abertamente publicado pela imprensa local e de muito jornais do Brasil. Que Dom Antônio, carregou consigo toda “riqueza” do palácio.
    Pobre Dom Antônio! Quem o conheceu mais de perto, pode observar. Umas das suas característica de maior admiração, para todos nós católicos era: SUA DEVOÇÃO ESPECIALÍSSIMA A NOSSA SENHORA, FIDELIDADE À DOUTRINA DE SEMPRE, SUA HUMILDADE E POBREZA… Hoje, aqui em Campos, existe uma verdadeira campanha, para abafar, “cala boca,” desta figura impoluta que foi, e continua sendo. O nosso amável, e abnegado pastor. Seus exemplos, sua fé, seu zelo pela Santa Igreja, jamais será esquecido pelos verdadeiros católicos de Campos, do Brasil, e do mundo.
    JOELSON RIBEIRO RAMOS.

  5. D. Pestana, falecido bispo de Anápolis, também vivia em verdadeira pobreza franciscana. Que saudades!
    Carlos

  6. Dom Antônio vivia ao estilo do Santo Cura D’Ars que dava toda honra ao Rei dos reis e para si reservava uma vida de penitência e oração. Pobre Dom Navarro, já foi prestar contas a Deus das calúnias feitas contra o santo bispo.

  7. Que belo exemplo de D.Castro Mayer.A Igreja precisa de santos sacerdotes.

    E nós,leigos catóicos,façamos penitências e sacrificios em nossas vidas,e ofereçamos a Deus Nosso Senhor.

    Fiquem com Deus.

    Flavio.

  8. Dom Carlos Alberto Navarro foi um ótimo arcebispo para Niterói.

  9. “Quando jejuardes, não desfigureis o vosso rosto como fazem os hipócritas, mas lavai o rosto e perfumai a cabeça para que não saibam que estás jejuando”.

    Dom Antonio paramentava-se ricamente para os ofícios sagrados, mas levava às escondidas uma vida de pobreza evangélica que os homens não viam, apenas nosso Pai que está nos céus.

    Muito diferente dos teólogos da libertação que ostentam orgulhosamente a pobreza e o jejum (que um Bispo do interior da Bahia prefere chamar de “greve de fome”), os prelados santos da História da Igreja sempre obedeceram à norma evangélica da pobreza: vestiam-se como senhores e paramentavam-se dignamente para o serviço do Altar, mas às escondidas, à vista do Pai do Céu, levavam vida austera dormindo em catres e jejuando.

    Entre os próceres da Teologia da Libertação, há conferencistas muito bem pagos em horas-aula pelas Dioceses, Pastorais, CEBs, subvencionados pelo governo federal e ONGs e escrivinhadores de best-sellers. Ostentam hipocritamente uma pseudo-pobreza para serem vistos pelos homens e querem dar lição de moral aos conservadores, mas vivem uma segunda vida que não escapa ao olhar do Juiz Celestial.

  10. Dom Antônio foi sem dúvida um dos maiores eclesiásticos que nosso país já teve, queira Deus que surjam bispos com pelo menos metade da santidade que ele tinha e que perdoe o julgamento temerário de Dom Navarro.

  11. E os bispos bons são – infelizmente – obrigados a se aposentar por idade. Que absurdo.
    Agora há pouco foi o corajoso Dom Luiz Bergonzini.
    Por falar nele, já leram o contundente artigo dele contra o PT (e o governo petralha) lá no Mídia Sem Máscara?

  12. ESTA FOI ÓTIMA FELIPE LEÃO,

    E eles, padres e bispos, vivem na simplicidade de nossos sindicalistas, vivendo realmente o evangelho segundo são Marx…

    Bela narrativa. Ah! se nossos sacerdotes vivessem assim.

  13. Esta é sem dúvida a teologia mais hipócrita já inventada nos últimos séculos, esta tal de teologia da libertação, pois a grande maioria dos sacerdotes que conheço se quer sabe o que é pobreza, pelo menos depois de se tornarem padres, na minha paróquia trocam de carro de dois em dois anos dizem que é para não depreciar o bem, quantos de nossa paróquia conseguem fazer isto?

  14. Todo comunista é assim mesmo: Prega pobreza…. Para os outros.

  15. Os editores do blog deveriam continuar traduzindo textos de “The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993 ” de cuja obra foi extraída a presente postagem. Deu a conhecer fatos inéditos. Fica aí a sugestão.