Tradição em Guerra com a Tradição?

Stephen Dupuy, The Remnant | Tradução: Fratres in Unum.com

O Papa recebe os membros da Congregação para a Doutrina da Fé ao fim de sua plenária.

O Papa recebe os membros da Congregação para a Doutrina da Fé ao fim de sua plenária.

Uma sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) teve início na terça-feira, 24 de janeiro. A finalidade, em parte, é deliberar sobre a resposta da Fraternidade de São Pio X relativamente ao preâmbulo doutrinal proposto pelo Vaticano. A aceitação do preâmbulo foi promovida pelo Vaticano como uma pré-condição a qualquer regularização canônica da Fraternidade. Membros da CDF que irão decidir o destino da Fraternidade incluem: Cardeal William Levada, “Peritos Ecumênicos” Cardeais Kurt Koch e Walter Kasper, o Cardeal de Viena, Christoph Schönborn (famoso pela Missa Balão), juntamente com o Bispo de Regensburgo, Gerhard Müller. Olhando para essa assembléia, parece que a Fraternidade tem tanta chance de receber o oferecimento de “plena comunhão” quanto o Tea Party [ntr: movimento político popular originado nos EUA reconhecido como conservador, que desde 2009 tem organizado protestos e apoiado candidatos políticos] tem de receber o convite para se unir ao Partido Democrata.

Em 27 de janeiro, o Papa Bento XVI dirigiu-se a essa sessão plenária discutindo Tradição, ecumenismo e Vaticano II. Embora o discurso dissesse algumas coisas boas (incluindo condenações de irenismo e indiferentismo), algumas afirmações bastam para dar alguma pausa aos tradicionalistas. Em primeiro lugar, o Papa diz, “Hoje em dia podemos ver não poucos frutos bons nascidos dos diálogos ecumênicos…” A resposta tradicional óbvia a essa afirmação é perguntar “Como, por exemplo?”. O Papa deixa de mencionar qualquer um desses frutos em seu discurso. Uma vez que o único fruto legítimo de qualquer discussão ecumênica é a conversão de não católicos ao catolicismo, onde está a evidência de que isso aconteceu através do ecumenismo?

Alguém poderia argumentar que o recente ingresso na Igreja de um grande número de anglicanos comprova esse argumento. Porém, será que esses anglicanos se converteram por causa do ecumenismo ou apesar dele? O diálogo interminável com anglicanos mais liberais sob Walter Kasper e os bispos ingleses parece não ter chegado a lugar algum. Na realidade, o Vaticano fez um grande esforço para recusar a acusação de que “estava pescando no lago anglicano.” O Vaticano disse simplesmente que não poderia negar a entrada na Igreja daquelas pessoas que o solicitavam. E por que esses anglicanos em particular estavam pedindo para entrar na Barca de Pedro? Eles eram anglicanos tradicionais cada vez mais inconformados com os padrões liberais de sua denominação que se deterioram no que diz respeito a questões teológicas importantes. Essa insatisfação atingiu o seu ponto máximo quando o Sínodo anglicano de 12 de julho de 2010 endossou a sagração de mulheres como bispos.

A verdade é que esses anglicanos tradicionais já eram, de muitas maneiras, mais católicos do que seus pares “católicos” liberais. Enquanto o Papa merece muito crédito pela aceitação generosa desses anglicanos no rebanho e por ir ao seu encontro para acomodá-los, a conversão deles quase não pode ser reivindicada como uma vitória do movimento ecumênico. Ironicamente, a saída deles do anglicanismo foi motivada precisamente por perceberem que o diálogo com o contingente esquerdista fanático em sua denominação era fútil e que eles precisavam da autoridade de Pedro para inoculá-los dos perigos da heresia aprovada democraticamente.

Mais tarde no discurso, o Papa afirma: “É fundamental neste ponto, entre outras coisas, distinguir entre Tradição [com letra maiúscula] e tradições”. O que o Papa está dizendo, na realidade, é que as leis disciplinares da Igreja estão sujeitas à mudança, mas não a doutrina da Igreja. Infelizmente, esse mesmo “T” maiúsculo/”t” minúsculo, uma vez usado pelos apologistas neo-católicos com relação aos protestantes, agora é utilizado pelo mesmo grupo contra os tradicionalistas. Os neo-católicos agora usam a mesma distinção para justificar a rejeição seca de toda prática disciplinar tradicional relativa aos últimos dois mil anos a favor das novidades disciplinares implementadas nos últimos cinquenta anos. De acordo com o argumento deles, a Missa Tridentina, o breviário, ritos e cerimônias não passam de tradições mutáveis com “t minúsculo”. De maneira semelhante, essa linha de pensamento freqüentemente relega Encíclicas Pontifícias, como, por exemplo, Quanta Cura (ensino contra a liberdade religiosa), Mortalium Animos (ensino contra o ecumenismo), e Pastor Aeternus (ensino contra colegialidade) como tradições com “t minúsculo”, uma vez que elas eram “políticas” variáveis que eram boas para a sua época, mas que agora devem ser desconsideradas como ultrapassadas e substituídas pelas “políticas” do Vaticano II que se aplicam “aos nossos dias”.

Nas frases seguintes do discurso, o Papa dá o exemplo dos anglicanos ingressando [no catolicismo] que desejavam “preservar as suas próprias tradições espirituais, litúrgicas e pastorais, que são compatíveis com a Fé Católica”. Assim, de maneira semelhante, alguém poderia supor que a Fraternidade deveria ser capaz de manter as suas tradições espirituais, litúrgicas e pastorais com “t minúsculo” “compatíveis com a Fé Católica”. Então, qual é o problema? Será que não deveriam conceder o status de “plena comunhão” à Fraternidade com base nisso? Não tão rápido.

O problema é que os tradicionalistas não necessariamente enxergam as tradições espirituais, litúrgicas e pastorais católicas da Igreja nos últimos dois mil anos como variáveis, opcionais, tradições com “t minúsculo”. Além disso, aceitar esta noção é colocar essas práticas no mesmo nível da Missa Novus Ordo, a Liturgia das Horas, Assis I-III, e as tradições espirituais, litúrgicas e pastorais de grupos como o Caminho Neo-Catecumenal e o movimento carismático. Aceitar esta visão parece violar o princípio de não contradição. Será que alguém pode honestamente olhar para a liturgia do Caminho Neo-Catecumenal e aquele de São Pio V e dizer que ambas as liturgias representam teologias idênticas? Onde está a unidade católica nesses dois ritos que não no fato de que eles são ambos “aprovados” por Roma?

Além disso, noções inovadoras de liberdade religiosa, ecumenismo e colegialidade também devem ser aceitas pelo menos como tradições de nossa época com “t minúsculo”, que devem ter peso igual senão maior do que aquelas outras noções antiquadas desses conceitos que vieram antes. Se o ensinamento católico sobre esses assuntos puder ser alterado, então, isso significa uma admissão de que os pronunciamentos originais desses ensinamentos eram variáveis e, assim, permanecem no reino da tradição com “t minúsculo”.

Assim, a Igreja fica reduzida a um catolicismo do tipo “menor denominador comum”. Essa noção leva o Vaticano a distinguir que “elementos centrais” a Tradição e a novidade têm em comum, concordando com estes e, então, deixando todos os lados — Tradicional, Liberal e tudo o mais que há no meio – sair em suas próprias direções com relação a tudo o mais, da Missa ao ecumenismo. Alguém poderia então imaginar o Corpo Místico de Cristo consistindo em uma coluna de dogma definido com membros que fazem guerra uns aos outros por quase qualquer assunto. Isso dificilmente é a unidade vislumbrada por Nosso Senhor.

Infelizmente, o Vaticano parece estar usando a mesmíssima abordagem ecumênica com relação à Fraternidade que ele usa com relação ao Protestantismo e às religiões não cristãs. Como podemos ver a partir dos desastres de Assis e da declaração conjunta católico-luterana sobre a salvação, essa abordagem da “unidade na diversidade” sempre acaba em confusão generalizada, relativismo e indiferentismo, apesar das tentativas do Vaticano em uma minúcia burocrática para manter as aparências de ortodoxia.

Na análise final, ter a “permissão” de ser totalmente católico enquanto em plena comunhão com a Igreja parece custar o preço de admitir que outros caminhos inovadores de “ser católico” inventados ao longo dos últimos cinquenta anos são tão legítimos e eficazes quanto a Tradição. Assim, a Missa de Pio V é meramente uma tradição com “t minúsculo”, equiparada à Missa Carismática, a Missa Folclórica e a Missa Rock. Entra o relativismo. Porém, o que os burocratas do Vaticano não conseguem entender é que somente um conjunto dessas tradições com “t minúsculo” compreende, encoraja e dissemina totalmente a verdadeira Fé Católica. Uma vez que as estruturas oficiais da Igreja possam chegar a admitir que o caminho que os nossos ancestrais católicos percorreram sob o orientação do Espírito Santo ao longo de dois mil anos é superior às inovações feitas pelo homem da era moderna, a verdadeira restauração da Igreja poderá ter início.

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16 Comentários to “Tradição em Guerra com a Tradição?”

  1. Ao tradutor:

    Na nota a respeito do Tea Party, deveria ser usado popular, e não populista.

  2. Desde o pós-concílio o demônio tem usado todas as suas forças para destruir a fé católica, será uma batalha até o fim dos tempos, mas, por fim, o Imaculado Coração de Maria triunfará!

  3. É o lobo convidando as ovelhas para serem devoradas e ainda sob condições.

  4. Grande notícia! O Espírito Santo é, de fato, o guia da Igreja, e Jesus jamais abandonará sua Igreja como prometeu.

  5. A entrada de um grupo de anglicanos na Igreja Católica é fruto, sim, do ecumenismo bem orientado. O ecumenismo correto leva os católicos a apreciar o que as outras denominações cristãs tem de bom. Assim, este grupo de anglicanos não se converteu simplesmente, mas entrou na Igreja Católica com sua liturgia e outras práticas espirituais, os ministros casados continuam com suas esposas, etc. Temos quase um “rito anglicano” dentro da Igreja Católica.. Antigamente seria diferente.

  6. Na nota a respeito do Tea Party, deveria ser usado ‘popular’ e não populista. (2)
    Populista se refere a um indivíduo, sedutor de massas e grande mistificador, como Perón, Getulio Vargas, Lula e outros grandes mentirosos.
    .
    Se este artigo foi escrito nos EUA, também a palavra ‘liberal’ (que aparece 2 vezes) lá tem um significado distinto daquele que tem na Europa ou no Brasil. Nos EUA ela significa ‘esquerdista’.

  7. Se a minha memória não falha, acho que um comentarista aqui do Fratres, dias atrás, já havia ‘pegado no pulo’ a trampa da CDF para “regularizar” a FSSPX, que o articulista do The Remnant também percebeu: querer acolher todas as correntes dentro da Igreja, por mais díspares e contraditórias que sejam.
    .
    “Na análise final, ter a “permissão” de ser totalmente católico enquanto em plena comunhão com a Igreja parece custar o preço de admitir que outros caminhos inovadores de “ser católico” inventados ao longo dos últimos cinquenta anos são tão legítimos e eficazes quanto a Tradição. Assim, a Missa de Pio V é meramente uma tradição com “t minúsculo”, equiparada à Missa Carismática, a Missa Folclórica e a Missa Rock. Entra o relativismo.”

  8. Ao meu ver esta situação não terá fim, de fato as opiniões entre Roma e Fraternidade se diferem muito.
    Não há como aceitar esse acordo, não nestas condições.
    Me parece que Roma perdeu a capacidade de saber o que de fato é Tradição.

  9. O Papa falou tanto da ditadura do relativismo mas parece não ver que em tudo isso há um risco extremo de relativizar o passado da Igreja como se fosse peça de museu.A Igreja é uma realidade contínua no tempo por que ela está , em suas notas essenciais , acima do tempo – ela vem do céu e não da terra – pretender sujeitá-la a um evolucionismo sem fim das formas liturgicas , pastorais e doutrinais é apostatar da revelação cristã.

  10. SM
    Ferreti, não pode ser: “[…] Sínodo anglicano de 12 de julho de 2012

    Abraço

  11. Um tanto fora de tópico, mas parece que Pe. Amorth ataca outra vez. Segundo ele, Papa Bento usou de seus poderes contra dois possessos no Vaticano. A notícia se encontra em:http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/vaticancityandholysee/9064468/Pope-Benedict-exorcised-two-men-in-the-Vatican-claims-new-book.html.

  12. Ferdinand,
    É possível fazer um pequeno teste que nos levará mais próximos de saber quem fala a verdade entre o padre Lombardi e o Padre Amorth, o exorcista de Roma. Amorth conta um episódio em detalhes; Lombardi o desmente. E agora?
    Pensemos: se o Padre Amorth tivesse a audácia de contar tamanha mentira – publicada num livro seu! – ele seria um… baita mentiroso. Seria uma mentira envolvendo o Papa! Não é pouca coisa.
    Logo, seria, segundo ensina a Igreja, escravo do Diabo, o qual, por sua vez, seria amo e senhor do mentiroso e, nesta condição, jamais lhe obedeceria.
    Como o Padre Amorth já realizou mais de 50mil exorcismos – e jamais se soube que algum foi contestado -é razoável de se supor que os demônios lhe obedecem.
    Como se sabe que um mentiroso jamais poderia libertar quem quer que fosse do Diabo (pois seria escravo deste) e como ninguém noticiou ainda que o Padre Amorth perdeu seus poderes ou tenha falhado reiteradamente em exorcizar, é razoável concluir que ele trilha o caminho da verdade. Senão seu ofício já era.

  13. Os três bispos da FSSPX (porque Dom Williamson evidentemente não iria!) chegam ao Vaticano para serem interrogados sobre a resposta acerca do preâmbulo doutrinal:

    Cardeal William Levada: Vocês devem obedecer ao Papa!!
    Cardeal Kurt Koch: Vocês devem seguir a correta interpretação do Vaticano II!!
    Cardeal Walter Kasper: Vocês devem parar com essa estória de ressureição!!
    Dom Gerhard Müller: Vocês devem ser mais ecumênicos conosco!!!
    Cardeal Christoph Schönborn : Vocês devem rezar a missa com mais luzes e balões!!

  14. Caro Ricardo,

    Se é Dom Aloisio Roque Opperman estivesse entre eles, responderia:

    “Os caros amigos mostram que não entenderam os textos do Concílio. Espero que procurem lê-lo de novo. Depois disso a CDF se dispõe a responder, se necessário. Saudações”.

  15. Concordo perfeitamente com o comentário do Gederson. De fato, o Arcebispo de Uberaba é uma “vulpes malitia plena”, capaz de ler à sua maneira os já ambíguos textos do Concílio Vaticano II, principalmente aqueles que mais tristeza nos causaram [extraídos da pomposa “Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium”] por serem o ponto de partida dos ataques contra a liturgia tradicional. Podemos dizer com São Paulo que “ele os lê como se tivesse os olhos velados”: [velato capite ac offusis nube oculis].