“Ambientes tradicionais” não deveriam existir.

Por Padre Guillaume Gaud, FSSPX

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

São Francisco Xavier

Um verdadeiro Apostolado deve, para ser frutífero, apresentar duas características: sobrenaturalidade, e ser adaptado ao ambiente que deve ser convertido. “Missas-espetáculo” já atraíram multidões, mas não produziram os resultados esperados. Este Naturalismo não apresenta as técnicas de Apostolado do Salvador….

Nossos priorados, se tentam ser verdadeiramente sobrenaturais, não estão atraindo tantas pessoas quanto deveriam. Por quê? Nós somos, freqüente e indubitavelmente, inacessíveis aos homens de nossos tempos. Nossa meta mais imediata não é atrair todo mundo, claro, mas aquelas almas que demonstram uma certa abertura à Fé e ao Amor de Deus. Mesmo essas almas ficam desencorajadas quando vem para as nossas capelas. Os motivos? Uma desconfiança elevada, divisões e críticas que só demonstram orgulho, comentários derrogatórios sobre as vestimentas, discussões políticas amargas e inúteis. Graças aos instrumentos subliminares do demônio… Graças àquelas pessoas que sabem melhor do que Deus a velocidade na qual as almas deveriam progredir… Tentemos diminuir os obstáculos para as conversões ao invés de elevá-los. Mas isso não basta: devemos atrair. Os missionários sempre conseguiram isso por 2000 anos: adaptar-se tanto quanto possível à população alvo, guiados por um sentido de objetivo e por princípios morais Cristãos.

O “Ambiente tradicional”

Não deveria existir um “ambiente tradicional”. A Tradição Católica não deve ser um meio social, porque isso não é Cristianismo. A Tradição deve parecer-se com todos os ambientes sociais e recebê-los com a sua própria identidade. Não somos a favor da eliminação das classes. A tendência no vestir que se tornou, aos poucos, dominante entre nós refletem a modéstia – que é necessária – mas a modéstia não está limitada às modas Tradicionais. Ao querer impor essas regras de vestimentas, nós desanimamos as pessoas mais do que as atraímos. A conseqüência é um tipo de libertação excessiva destas regras, que as leva à imodéstia. Uma outra conseqüência é um tipo de representação esclerosada da Tradição, que parece viver nos anos 50 – não muito atraente!

No entanto, a força que une as pessoas dentro da Tradição Católica se encontra na relação lógica entre nossa Fé e nossa vida diária. Esta coerência deve refletir nossa convicção e nossa sinceridade, não somente nossas regras. A Verdade Católica é trazida à luz por esta coerência. E é isso que atrai. Mas fiquemos sempre próximos aos nossos contemporâneos de boa vontade. Devemos, então, ser firmes com relação a nós mesmos, mas brilhar com misericórdia e entendimento por nosso próximo. Então, ele amará nossa firmeza!

Padre Guillaume Gaud, FSSPX

(Apóstolo, publicação para os priorados de Fabrègues e Perpignan, França

La Porte Latine – “The dilemmas of our bastions of faith“, trechos)

* * *

Nota do Rorate: Haverá quem leia as palavras do Padre e imediatamente diga: mas os anos 50 me atraem! Essa não é a questão: a questão é se isso atrai mais pessoas que poderiam ser favoráveis à Tradição. O que é mais importante, manter a estética de um período no tempo (um período de tempo para uma parte da humanidade), ou tentar encontrar a melhor maneira de atrair aquelas almas sensíveis que, de outro modo, rejeitariam a Tradição por causa de aspectos externos circunstanciais?

11 Comentários to ““Ambientes tradicionais” não deveriam existir.”

  1. Parabéns! Realmente, o fato é: agir como o apóstolo São Paulo agiu; não ficar julgando as pessoas e condenando-as, pelo seu exterior,sem as conhecer realmente. Creio que, estas palavras são ungidas de Deus e por Deus,Uno e Trino e devem ser seguidas e postas em prática, por todos os tradicionalistas.Afinal, Jesus disse:quem quiser ser o primeiro, seja o úlktimo e ainda: Eu vim para servir e não para ser servido; Com certeza, irmãos, creio que, ao bom entendedor, meia palavra basta.
    Deus nos conceda a todos o espírito de Cristo e a humildade d eMaria Santíssima

  2. Grande artigo! Parece até que o Padre sondou as redes sociais antes de escrever. Uma chatice, uma má-vontade, uma presunção orgulhosa, uma disputa em torno de “quem é mais católico, você ou eu”, é só o que se vê. Deus me livre. Por causa disso é que eu quero distância de grupos.

  3. Tenho dificuldade de entender como as pessoas podem ser atraídas pela Tradição, mas ao mesmo tempo não se sentirem atraídas pelo que é tradicional, modesto, elevado… Penso que se repugna as pessoas esses últimos predicados, a Tradição também não as atrairá, afinal se não conseguem ser fiéis no pouco, como serão fiéis no muito?

  4. A questão não é “quem é mais católico, você ou eu” mas o que sempre foi católico.

  5. Que a Tradição seja um poço de águas limpas para as almas sedentas da Verdade e do amor de Cristo. Queira Deus que as palavras deste artigo possam despertar muitos que pensam que são católicos mas estão muito distantes da caridade de Jesus e da sabedoria do Evangelho.

  6. Exelente artigo!
    A tradição deve se aproximar de todos,e não ficar discutindo inutilmente sobre quem é cert ou errado.

  7. Falou tudo. Cansa muito essas discussões estéreis que abarrotam o ambiente dos grupos que lutam pela restauração da liturgia gregoriano. Uma das coisas mais ridículas é a “refrega das calças femininas”. Eu realmente não tenho mais idade pra esse tipo de maluquice. Hoje em dia calças viraram roupas feminias também, e, nesse sentido, podem ou não estar de acordo com a modéstia, com o pudro. Modéstia não é um tipo específico de vestimenta, mas uma postura. C. S. Lewis falou melhor que ninguém:

    “Consideremos agora a moralidade cristã no que diz respeito à questão do sexo, ou seja, o que os cristãos chamam de virtude da castidade. Não se deve confundir a regra cristã da castidade com a regra social da “modéstia”, no sentido de pudor ou decência. A regra social do pudor estipula quais partes do corpo podem ser mostradas e quais assuntos podem ser abordados, e de que forma, de acordo com os costumes de determinado círculo social. Logo, enquanto a regra da castidade é a mesma para todos os cristãos em todas as épocas, a regra do pudor muda. Um moça das ilhas do Pacífico, praticamente nua, e uma dama vitoriana completamente coberta, podem ambas ser igualmente “modestas”, pudicas e descentes de acordo com o padrão da sociedade em que vivem. Ambas, pelo que suas roupas nos dizem, podem ser igualmente castas (ou igualmente devassas). Parte do vocabulário que uma mulher casta usava nos tempos de Shakespeare só seria usado no século XIX por uma mulher completamente desinibida. Quando as pessoas transgridem a regra do pudor vigente no lugar e na época em que vivem, e o fazem para excitar o desejo sexual em si mesmas ou nos outros, cometem um pecado contra a castidade. Se, porém, a transgridem por ignorância ou descuido, sua única culpa é a má educação. É muito freqüente que a regra seja transgredida a modo de desafio, para chocar ou causar embaraços nos outros. As pessoas que fazem isso não são necessariamente devassas, mas faltam com a caridade, pois é falta de caridade achar graça em incomodar os outros. Quanto a mim, não acho que um padrão de pudor extremamente rígido e exigente seja uma prova de castidade ou uma grande ajuda para que essa exista; por isso, considero um bom sinal o abrandamento e a simplificação dessa regra que se deu durante minha vida. O momento atual, entretanto, tem o inconveniente de que pessoas de idades e tipologias diferentes não reconhecem o mesmo padrão, de modo que não podemos saber em que pé estamos. Enquanto essa confusão durar, creio que as pessoas mais velhas, ou mais antiquadas, não devem julgar que os mais jovens ou “emancipados” estão corrompidos sempre que agem de forma despudorada (segundo o velho padrão). Em contrapartida, os mais jovens não devem chamar os mais velhos de moralistas ou puritanos só porque não conseguem se adaptar facilmente ao novo padrão. O desejo sincero de pensar sempre o melhor do próximo e de tornar-lhe a vida mais confortável resolverá a maior parte desses problemas.”

  8. Finalmente! Sensatas palavras, as do padre Guillaume Gaud!
    Volta e meia me pego pensando que essas “pessoas que sabem melhor do que Deus a velocidade na qual as almas deveriam progredir” seriam capazes de dar uma aula de Crisma sequer para adolescentes de 15 anos num bairro de classe média/baixa do Rio de Janeiro. Só quem já passou por experiências semelhantes sabe como essa postura é ineficaz.

    Continuemos a rezar pelos diálogos entre Santa Sé e FSSPX. Dia 15 se aproxima!

  9. Odeio grupelhos, facções, turmas, eles, sejam “tradicionalistas”, sejam “carismáticos”, sejam “lá o que forem”, somente são ninhos de vaidade, de maquinações, de disputas, de “falsas modéstias”. Dentro deles só há fofocas e mais fofocas, teorias da conspiração, e até ordens diretas de como os soldados devem se comportar com as ordens dos chefes.

  10. “Virão modas que desagradarão muito a Nosso Senhor.” Nossa Senhora de Fátima

    “É claro que nem todas as mulheres que usam calças abortam o fruto de seu ventre, mas todas ajudam a criar a sociedade abortiva. Antigo é bom, moderno é suicida. Querem parar o aborto? Façam-lo pelo exemplo. Nunca usem calças ou shorts. O Bispo de Castro Mayer estava certo.”

    Leiam o artigo na íntegra: http://rosamulher.wordpress.com/2011/08/29/a-modestia-de-vossa-excelencia-reverendissima-d-williamson/