Na festa de Santo Atanásio.

Santo Atanásio.
Santo Atanásio.

Evidentemente, viver em tempos de crise, como os que nós vivemos, é muito penoso e exige-se então, de cada um, verdadeiro heroísmo. É muito fácil defender causas já vitoriosas. O difícil é trabalhar arduamente pela vitória de uma causa justa. É muito fácil ser o corajoso adepto de uma verdade já vencedora. O difícil é aderir à vontade quando ela está perseguida e humilhada. É mais cômodo juntar-se às fileiras do exército vencedor. É mais agradável seguir a maioria, estar bem com quem está no poder. Mas é tremendamente incômodo lutar pela verdade quando até as autoridades patrocinam a causa contrária e favorecem o erro. […]

Hoje, séculos depois, quando vemos na História da Igreja (Cfr. Denz.-Sch. 561 e 563) que o Papa Honório I favoreceu a heresia e por isso foi condenado pelo seu sucessor Papa São Leão II e pelo VI Concílio Ecumênico por estar em desacordo com a tradição da Igreja, fica fácil dizer que nós, naquele tempo, também estaríamos do lado de São Máximo e São Sofrônio, que resistiram ao Papa e foram canonizados, isto é, colocados pela Igreja como modelo de fidelidade para todos os cristãos. Mas se defendêssemos o “dogma” da obediência incondicional ao Papa, como muitos hoje o fazem, estaríamos sim do lado dos hereges.

Assim também no confronto entre o Papa Libério e Santo Atanásio, este, defensor da ortodoxia e por isso expulso de sua igreja, e aquele, o Papa, que assinou uma fórmula ambígua e heretizante, ao sabor dos hereges e excomungou Atanásio porque este se recusava acompanhá-lo na sua defecção. O Papa Libério então, em nome da paz e da concórdia, declarou-se em união com todos os Bispos, inclusive os semi-arianos, menos com Atanásio, ao qual proclamou alheio à sua comunhão e à comunhão da Igreja Romana (Cfr. Denz.-Sch. 138). Santo Atanásio, por defender a sã doutrina, foi condenado como perturbador da comunhão eclesial! Hoje, depois que a Igreja canonizou Santo Atanásio como ínclito defensor da Fé e da Tradição, fica fácil dizer que estavam certos aqueles poucos que ficaram ao lado do Santo e foram expulsos das igrejas oficiais, sendo obrigados a se reunirem nos desertos debaixo de sol e chuva, mas conservando a fé intacta e respondendo aos hereges: vocês têm os templos, nós temos a Fé! (Cfr. São Basílio, ep. 242, apud Cardeal Newman – Arians of the Fourth Century, apêndice V). Mas, como ficariam, se vivessem naquele tempo, aqueles que põem na obediência o seu universo mental? 

Padre Fernando Arêas Rifan, Quer agrade, quer desagrade, Gráfica Lobo, 1999, pp. 47 e 48.

15 comentários sobre “Na festa de Santo Atanásio.

  1. Já foi dito: – o Pe. Rifan escreveu tão bem que até o Bispo Rifan não consegue refutá-lo.

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  2. A história de Santo Atanásio está mal contada no Denzinger. Ele não foi exilado pelo Papa São Libério, ele foi exilado com São Libério por traição do procurador do Papa, o infeliz Vicente de Cápua, que contra a vontade expressa do Sumo Pontífice subscreveu a condenação de Santo Atanásio em seu nome, a pedido do imperador Constantino II, que era a favor dos arianos. Constantino II sabia muito bem que São Libério logo anularia o decreto falsificado. Então ele o exilou para a Trácia (atual Turquia) e “entronizou” na sé de Pedro o farsante Félix II. Santo Atanásio foi exilado para o Egito (por Constantino II).

    Alguns anos depois, o imperador permitiu que São Libério retornasse a Roma, achando que já mais nada poderia fazer agora que quase todos acreditavam que Félix II era o verdadeiro papa. Mas enganou-se pois o povo romano lembrava-se claramente do seu verdadeiro bispo e ainda o tinha em grande estima, e assim que São Libério entrou em Roma, foi vigorosamente aclamado e Félix II foi expulso de Roma.

    Então o Papa São Libério, após a morte do imperador, anulou os decretos do conciliábulo de Arles e, por consequência, a condenação sem cabimento de Santos Atanásio e Hilário (que estava exilado na Frígia, também atual Turquia).

    O Papa Pio IX explica o engano sobre a condenação de Santo Atanásio na Quartus Supra: São Libério foi falsamente acusado pelos arianos de tê-lo condenado, mas na verdade ele se recusou a fazê-lo e rejeitou solenemente a heresia ariana. O Papa São Libério na verdade nunca condenou, excomungou ou exilou Santo Atanásio, nem nunca assinou a fórmula ariana, foi tudo uma trama dos arianos com o imperador. O Papa Santo Anastácio, na epístola Dat mihi plurimum, relata que São Libério enfrentou santamente o exílio pela defesa da Fé. O Acta Sanctorum o lista como santo e data a comemoração de sua festa no dia 23 de setembro (no calendário antigo obviamente, sabe-se lá onde foi parar a festa de São Libério com a “reforma” litúrgica conciliar).

    Vale lembrar que Santo Atanásio enfrentou ainda mais dois exílios por causa dos imperadores romanos apóstatas Juliano e Valente.

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  3. Caro A. Carlos,

    Que história é essa de São Libério pra lá e São Libério pra cá? O papa Libério não foi canonizado, justamente, é o único que foge à canonização na sequência de papas até então. Ou estou enganada? O que sei é que apesar de não ter apoiado Santo Atanásio, ter ficado meio em cima do muro no combate ao arianismo, no final da vida, ele deu testemunho da fé e refutou a heresia ariana.

    Também nunca encontrei algo concreto referente à tal excomunhão em livros de História da Igreja. Até hoje a única referência dessa suposta excomunão vem de fontes online de sitios ligados à Tradição. Por que até mesmo historiadores não católicos omitiriam uma excomunhão assim? Seria um prato cheio para eles mencionar uma mancada dessas.

    O que me indago é se houve algum tipo de censura do papa Libério com um peso que talvez não corresponda à excomunhão como conhecemos hoje.

    De qualquer jeito, tanto Santo Atanásio (umas duas ou três vezes) como o próprio papa Libério foram exilados pelo imperador Constantino.

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  4. Cara Maria, o próprio Denzinger, que conta a versão errada dos historiadores iluministas dos fatos, o lista como Papa São Libério. Ele sempre foi considerado santo pela Igreja universal, o que fica evidente pela presença de seu nome no Acta Sanctorum como Santo Papa e Confessor, que até revela o dia da sua festa.

    O Papa Santo Anastácio, na epístola Dat mihi plurimum, mencionada anteriormente, diz que o Papa São Libério e outros bispos exilados são “estimados como bispos santos”. Outros também o aclamaram, como Santos Ambrósio e Basílio Magno e, mais recentemente, Bento XV na Principi Apostolorum Petro. Ele também consta no Epíteto dos Santos das então igrejas orientais (hoje cismáticas ortodoxas, mas seu nome ainda está lá).

    De fato, São Libério não foi canonizado. Nem o foi seu sucessor, São Dâmaso, tampouco o próprio Santo Atanásio. Naquela época não era necessária canonização, bastava a aprovação do bispo local para que um santo fosse venerado.

    Se teve alguém que apoiou Santo Atanásio foi o Papa São Libério. Ele foi exilado justamente por negar-se a condená-lo. Você não encontrou nada concreto porque não existe nada. Não há prova ou indicação alguma de que os fatos tenham se passado como narram os enganadores dos historiadores iluministas, que em nada são confiáveis porque em tudo falsificaram a história da Igreja na tentativa de difamá-la.

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  5. Dom Lefebvre, o novo Santo Atanásio da Igreja, já que o modernismo é sem dúvida a pior heresia de todos os tempos.

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  6. Peraí, vamos por partes.

    O que não encontrei em todas as minhas pesquisas foi uma excomunhão clara do Papa Libério a Santo Atanásio. Nisso concordamos. As pouquíssimas fontes são relatos de sitios tradidiocionalistas, o que me leva a crer em algum tipo de censura que não tenha o peso da excomunhão como conhecemos hoje.

    Agora, dizer que o papa Libério apoiou Santo Atanásio já é um pouco demais. Até mesmo historiadores e especialistas conservadores, que colocam panos quentes na crise da Igreja confirmam um caráter fraco e vacilante do Papa Libério, que teria fechado um pouco a boca no combate ao arianismo. Segundo esses historiadores ele teria deixado Santo Atanásio fazer sozinho o combate ao arianismo.

    Segundo Dom Estevão Bittencourt Santo Atanásio foi exilado várias vezes pelo imperador Constantino e o papa Libério foi deportado pelo Constâncio (outro camarada) e diz ainda:

    “… alguns historiadores antigos dizem que Libério conseguiu voltar à sua sede em Roma, subscrevendo uma fórmula de fé antinicena e deixando de apoiar S. Atanáisio; se isto é verdade, deve-se à fraqueza humana, mas nao se tratava de definição solene e sim de um pronunciamento pessoal que o Papa fazia. De resto, sabe-se que Libério, uma vez retornando a Roma, combateu eficazmente o arianismo”. (página 35 do Curso de História da Igreja)

    Ou seja, podemos não dar crédito a tal excomunhão, visto que não temos fontes concretas sobre ela. Mas também não parece ser algo muito preciso dizer que o papa Libério tenha sido um forte combatente do arianismo como foi Santo Atanásio, ainda que no final da vida esse papa tenha testemunhado a fé católica antes de falecer.

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  7. Sejamos contudo prudentes: a obediência é fundamental à existencia de qualquer insituição hierárquica. É evidente que nosso Papa Bento XVI vem sendo constantemente inspirado pelo Espírito Santo. Assim, a DESOBEDIÊNCIA, deixemo-lá para a ocasião em que ela seja realmente inevitável, como fora, por exemplo, na época de Santo Atanásio.

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  8. Michael, a quem que Santo Atanásio teve que desobedecer? Ao imperador? E ele, Patriarca de Alexandria, suma autoridade da Igreja abaixo apenas do Papa de Roma, lá devia alguma obediência ao imperador, sabendo que a Igreja está acima do Estado?

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  9. Sim, A. Carlos, reli sua primeira respostam conforme o seu pedido. Esse capítulo da história é nebuloso. Concordamos que não está clara a questão da excomunhão de Santo Atanásio. A sua fonte diz que Constantino II exilou o Papa LIbério para a Tracia. Aqui eu tenho que em exilou o papa Libério foi Constâncio. Pode ser que uma de nossas fontes não esteja correta.

    Concordamos que no “frigir dos ovos” o papa Libério morreu de alma limpa e católica defendendo a ortodoxia.

    Para mim, e talvez não para você, o papa LIberio não foi tão combatente (se realmente o foi) no combate ao arianismo, como Santo Atanásio. Posso estar equivocada, mas é o que me pareceu por aquilo que pesquisei. Em termos de personalidade ele me faz lembrar um paulo vi dos primeiros séculos, mas logicamente seriam necessários mais dados para confirmar ou negar essa impressão e o que temos desse papa são poucos dados conflitantes.

    Por outro lado, para chamar o papa Libério de “Santo Papa Libério”, você diz que “Naquela época não era necessária canonização, bastava a aprovação do bispo local para que um santo fosse venerado”. Ora, esse argumento da ‘informalidade’ dos costumes antigos é justamente o que os propositores da tese de excomunhão de Santo Atanásio dizem. Eles dizem algo semelhante quanto à maneira como as excomunhões eram feitas na época. Eles dizem que houve um documento que “equivalia a uma excomunhão”.

    Você diz: “O Acta Sanctorum o lista como santo e data a comemoração de sua festa no dia 23 de setembro (no calendário antigo obviamente, sabe-se lá onde foi parar a festa de São Libério com a “reforma” litúrgica conciliar).” Porém, nem o meu missal antigo (1949) nem o meu calendário litúrgico da Angelus Press falam em “são Libério”. Este dia está consagrado à memória de São Lino, primeiro sucessor de São Pedro.

    Sugiro darmos uma olhadinha no Daniel Rops. O que ele terá escrito sobre o assunto? Ainda que alguns até digam que ele é um pouco modernista ao menos é um historiador de renome. Se alguém aqui tiver o primeiro volume, favor consultar e partilhar o que esse autor fala sobre o papa Libério.

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  10. Os fatos citados pelo Pe. Rifan são historicamente verdadeiros. O fato do Papa Libério agir mediante coação é importante, mas não no contexto do que se pretende provar: Santo Atanásio resistiu firme em suas convicções e nas práticas delas decorrentes. Continuou atuando, sagrou bispos, apascentou suas ovelhas, etc. Se a condenação não era legítima, as consequencias dela foram duras e impiedosas. Santo Atanásio não cedeu em nome da “comunhão”…

    A pergunta que ninguém ousou responder é a seguinte: “como ficariam, se vivessem naquele tempo, aqueles que põem na obediência o seu universo mental?”

    Participariam da assembléia dos bispos? Concelebrariam em nome da paz? A esmagadora maioria dos bispos era contrária a Atanásio. Tinham consigo inclusive uma condenação Papal, que, seguramente, não foi descoberta como algo conseguido mediante coação tão cedo. Ou seja, materialmente eles detinham o direito e os argumentos todos favoráveis. Mas apenas em aparência. O tempo e a Providência cuidaram do resto e provaram quem estava certo.

    A analogia à nossa época é mais do que pertinente. Parafraseando a pergunta do pe. Fernando, em 1970, quando a missa tridentina foi de fato extirpada, “como ficariam aqueles que põem na obediência o seu universo mental?”

    Aceitariam este embuste? Paulo VI já havia se pronunciado, assim como a congregação para o Culto Divino… a missa tridentina não deveria ser celebrada, salvo a padres idosos. “O novo rito veio para substituir o antigo”; “não pense que a adoção do novo rito seja facultativa”, disse Paulo VI.

    “Como ficariam, se vivessem naquele tempo, aqueles que põem na obediência o seu universo mental?”

    Abandonariam a missa antiga?

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  11. Constâncio é apenas outra possível tradução do nome latino Constantius.

    Esse capítulo da história realmente nada tem de nebuloso, a não ser pela lama que os iluministas jogaram sobre ele (como é de sua especialidade). Não há nenhuma fonte primária que corrobore a excomunhão, só historiadores do século XVI em diante. Eu citei pelo menos uma fonte primária: o Papa Santo Anastácio. Com efeito, o Papa Pio IX reconhece na Quartus Supra que São Libério foi falsamente acusado.

    Eu já disse quê documento é esse que você fala e como ele foi forjado.

    Agora, no tocante à tal “informalidade”, você vai me desculpar, mas você está muito distante da realidade, para usar de um eufemismo. Nenhum mártir ou confessor dos primeiros séculos foi canonizado. Nem os apóstolos, nem os Padres da Igreja, nem mesmo Santo Agostinho. Só o fato de o Papa São Libério ser venerado entre os orientais já seria prova mais que suficiente, nada mais seria necessário. Não obstante, ainda por cima encontramos seu nome na Acta Sanctorum. Se procurarmos certamente também encontraremos seu nome nos primeiros martirológios da Igreja. E eu nunca ouvi esse tal de “argumento da ‘informalidade’ dos propositores da tese da excomunhão”.

    Repito que o único documento que há é um forjado pelo imperador com a ajuda de Vicente de Cápua a fim de ludibriar o povo cristão. O Papa São Libério lutou ao lado de Santo Atanásio, Santo Hilário, São Dionísio e Santo Eusébio contra o arianismo.

    E por fim, Daniel Rops não é fonte primária e portanto não é critério de desempate (mesmo porque não há empate algum).

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  12. Carlos, o pe. Fernando está baseado no Denzinger, que por sua vez está baseado em historiadores revisionistas renascentistas, tais como César Barônio, Luiz Sebastião de Tillemont e Bernardo de Montfaucon. Nenhuma fonte primária!

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