Mesmo os amigos do Papa desconfiam um pouco dos “lefebvristas”.

Por John L. Allen Jr. | Tradução: Fratres in Unum.com

Roma – Mesmo nos círculos mais simpáticos à leitura do Concílio Vaticano II feita pelo Papa Bento XVI, parece haver um pouco de ansiedade rondando o que pode significar trazer à comunhão os maiores críticos do Concílio, a tradicionalista FSSPX.

Ao menos, alguns dos defensores do papa parecem acreditar que um claro sinal de adesão ao CVII deve ser o preço do retorno.

Recentemente, esta impressão veio à tona durante uma conferência sobre o 50º aniversário do CVII realizada nos dias 3 e 4 de maio na Universidade Santa Cruz, dirigida pelo Opus Dei.

Após o CVII, a fraternidade tradicionalista – popularmente conhecida como “lefevristas” por causa do fundador, o finado arcebispo francês Marcel Lefebvre – rompeu com Roma em função das mudanças na liturgia e dos ensinamentos do Concílio a respeito do ecumenismo, do diálogo inter-religioso e da liberdade religiosa.

Em meados de abril, porém, a FSSPX assinou um preâmbulo doutrinal submetido pelo Vaticano como pré-condição para a reintegração. Isso poderia abrir o caminho para findar o único cisma formal ocorrido depois do Vaticano II, talvez como uma prelazia pessoal ou outra estrutura eclesial que permita aos lefevristas certa autonomia.

A conferência na Universidade Santa Cruz, com o tema “Vaticano II: o valor permanente de uma reforma para a nova evangelização” foi, em grande parte, uma reunião de pensadores vigorosamente empenhados na “hermenêutica da continuidade” do Papa Bento XVI para a interpretação do Concílio, notoriamente delineada em seu discurso de dezembro de 2005 à Cúria Romana.

Como o papa, vários palestrantes se distanciaram de leituras opostas que colocam, de acordo com eles, demasiada ênfase no CVII como algo que deixou de lado, ou modificou, práticas ou ensinamentos católicos anteriores.

Porém, na medida em que estes temas foram se desenvolvendo, certa ansiedade em relação aos lefevristas veio à tona. Isso de deu de forma indireta, certamente nunca tomando uma posição de oposição à reintegração [da FSSPX], mas tal ansiedade foi inequívoca.

O padre da Opus Dei, pe. Johanner Grohe, um historiador eclesiástico da Universidade Santa Cruz, pesquisou vários esforços feitos durante e após o CVII para colocar em dúvida a autoridade do concílio tanto por parte de teólogos progressistas – que argumentavam que  o CVII não era verdadeiramente “ecumênico”, pois os Ortodoxos e os Protestantes não foram representados – quanto de  críticos tradicionalistas – que apresentavam o CVII como meramente “pastoral” e, portanto, sem caráter obrigatório nas questões de fé.

De maneira ampla, pe. Grohe defendeu a autoridade do CVII, insistindo que seu ensinamento é “obrigatório” e “deve ser aceito por aqueles que querem entrar em comunhão com a Igreja Católica”.

Grahe finalizou sua palestra com um chamado a uma “profissão de fé” que explicitamente inclua os ensinamentos do CVII para qualquer pessoa que queira unir-se à Igreja.

“No diálogo com aqueles que gostariam de entrar na Igreja Católica, é impossível não pedir ‘uma adesão de fé teológica às afirmações do CVII que lembram as verdades da fé’,” afirmou Grohe, citando uma frase de outro padre da Opus Dei, monsenhor Fernando Ocáriz, que fez parte do time de negociação com os Lefevristas.

Os Lefevristas, evidentemente, são o grupo mais famoso que atualmente está envolvido num diálogo sobre sua entrada na Igreja.

Grohe argumentou que uma “profissão de fé”, um modo histórico de encapsular o cerne das crenças que alguém deve possuir para ser considerado católico, poderia ser atualizada com uma referência ao CVII.

“Uma profissão de fé que abarque uma tradição conciliar desde Nicéia até o CVII deixaria claro que os ensinamentos do último concílio estão inseridos da longa e frutífera história do magistério da Igreja”, afirmou Grohe.

Uma defesa ainda mais radical de parte do legado do CVII veio do padre franciscano David Maria Jaeger, ao falar sobre o documento conciliar Nostra Aetate, a respeito das religiões não cristãs.

Um veterano das negociações vaticanas com Israel sobre os impostos e a situação jurídica das propriedades da Igreja, Jaeger hoje atua como juiz na Rota Romana, a principal corte do Vaticano.

Jaeger lembrou do ensinamento do documento sobre o judaísmo, incluindo sua feroz rejeição ao anti-semitismo. Este também tem sido um ponto de discordância com os lefevristas; quando Bento XVI levantou as excomunhões dos quatro bispos tradicionalistas em janeiro de 2009, houve uma comoção mundial relacionada com os comentários feitos por um destes bispos em que questionava a realidade do Holocausto.

Jaeger afirmou, na conferência da Universidade Santa Cruz, que “um real e preocupante” problema com a recepção da Nostra Aetate tem sido “uma tendência, aqui e ali dentro do Catolicismo, de olhar com tolerância grupos marginais de exagerada visibilidade midiática que verdadeiramente denunciam a doutrina do concílio”, afirmou Jaeger.

Apesar de Jaeger não ter mencionado os Lefebvristas, ele expressou preocupação sobre as condições sob as quais qualquer pessoa que tenha dúvidas sobre o CVII possa achar o caminho de volta à Igreja.

“É obrigatório aqui expressar a viva esperança de que tal tolerância seja sempre firmemente rejeitada”, disse, “e que nós não nos contentemos com uma quase-adesão que é somente um engodo, acompanhada por óbvias reservas mentais e verbais ao ensinamento do CVII em geral e do Nostra Aetate em particular”.

No resto de seu discurso, Jaeger rejeitou várias leituras da Nostra Aetate, populares entre os teólogos católicos progressistas – por exemplo, que ela reconheceria a revelação em outras religiões como “paralela ou complementar” ao Cristianismo, ou que apresentaria o Judaísmo como um “meio paralelo de salvação para os judeus”, enquanto o Cristianismo seria somente para “os gentios”.

Espalhar tais idéias, argumentou Jaeger, torna inevitável que sempre que líderes da Igreja lembrem a doutrina oficial nestes pontos, muitos judeus vejam isso como um recuo à Nostra Aetate – que, insistiu, não seria o caso pois, de acordo com ele, o documento nunca desejou propor estes dois pontos.

Neste contexto, o evento da Santa Cruz sugere que não são somente os suspeitos de sempre, ou seja, os críticos do Vaticano ou do papado de Bento XVI , que se perguntam sobre o preço que poderia ser pago para receber os Lefebvristas de volta. Também aí se incluem alguns amigos de Bento XVI.

14 comentários sobre “Mesmo os amigos do Papa desconfiam um pouco dos “lefebvristas”.

  1. Os católicos tradicionalistas é quem devem começar a exigir que os católicos-esquerdistas sigam os (ambiguos) textos do CVII: comunhão na boca e de joelhos, não pode missa show, nem missa abana braço, nem missa coco, nem coelhinho da pascoa, pois Missa é Missa. O retorno do sacramento da penitencia, ensinar-se o catecismo de prefencia o do Papa São Pio X, porque fazer dois de catecismo e um de crisma e não saber o que é pecado mortal é um absurdo, dentre muitas coisas. Então se os modernistas não seguem o CVII como é que eles querem obrigar que outros o sigam?

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  2. É incrível a capacidade dos clérigos fanáticos pelo Concílio o tratarem como um super-dogma a ser defendido, porque se este dogma cair, cai todo o fundamento da fé católica.
    O Concílio Vaticano II não é dogmático, o seu objetivo era únicamente o de apresentar a doutrina da Igreja ao mundo moderno, não o de definir verdades de fé. Todavia, esta apresentação não foi digna de prestígio, pelo contrário, os frutos pós-conciliares colocaram em dúvida todo o depósito da fé e romperam com um tradição litúrgica milenar.
    A FSSPX não é contra o declaração conciliar “Nostra Aetate” porque ela condena o anti-semitismo, pois qualquer católico anti-semita não seria verdadeiramente católico e estaria em grave pecado. O que é rejeitado pela Fraternidade é o indiferentismo religioso, a proclamação de que os muçulmanos cultuam o mesmo Deus que o nosso, a omissão de que os judeus precisam reconhecer Jesus Cristo como Messias, para alcançarem o porto seguro da salvação, entre outras declarações que eu me entristeceria se aqui as relatasse. Hoje a Igreja saúda budistas em razão de suas festas cultuais importantes. Os servos do Deus vivo e verdadeiro saúdam os pagãos pelos sacrifícios e cultos oferecidos a ídolos, a demônios, como asseverou são Paulo.
    Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós!
    Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!

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  3. A Igreja e prinipalmente o Papa Bento XVI estão pagando um preço alto para receber a FSSPX de modo a evitar mais um cisma na Igreja. Esperamos que a FSSPX corresponda as espectativas do Papa e seja uma benção para a Igreja. Nunca em toda a história da Igreja um Papa fez tantas concessões para evitar um cisma. O Vaticano II integra o magistério da Igreja e como todos os Concílios deve ser acatado pelos verdadeiros católicos pois goza de tanta autoridade como o Concílio de Trento e o Vaticano I. A única diferença é que o Vaticano II não definiu nenhum dogma novo como os Concílios Anteriores, mas goza da mesma autoridade dos Concílios Anteriores e todo católico verdadeiro deve se curvar a sua autoridade. A única interpretação verdadeira do Concílio é a do Papa e a ela todos os católicos digbos desse nome devem se submeter : ficam de fora as falsas interpretações dos modernistas (progressistas) e a dos Ultra-tradicionalistas!

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  4. É verdade nunca vi o Opus Dei fazendo Congresso pra corrigir a RCC, os Legionários e esse monte de Bispo maluco… Agora na FSSPX todo mundo desce o sarrafo…

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  5. De maneira ampla, pe. Grohe defendeu a autoridade do CVII, insistindo que seu ensinamento é “obrigatório” e “deve ser aceito por aqueles que querem entrar em comunhão com a Igreja Católica”.

    1- Quais são os ensinos obrigatórios do CV II ? Quais dogmas ele proclamou ? Não faz o mínimo sentido essa afirmação!

    “No diálogo com aqueles que gostariam de entrar na Igreja Católica, é impossível não pedir ‘uma adesão de fé teológica às afirmações do CVII que lembram as verdades da fé’,”

    2- Certamente que quando o CV II repete dogmas já definidos e proclamados seus ensinamentos se tornam obrigatórios; no entanto o CV II em si mesmo não definiu nenhum dogma : a liberdade de consciência , a separação estado – igreja , o diálogo ecumênico e interreligioso não são dogmas definidos infalivelmente, logo não exigem assentimento de fé.

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  6. “Uma profissão de fé que abarque uma tradição conciliar desde Nicéia até o CVII deixaria claro que os ensinamentos do último concílio estão inseridos da longa e frutífera história do magistério da Igreja”, afirmou Grohe.

    Era só o que faltava…
    Esse concílio caquético em sua totalidade não vale uma só vírgula do Catecismo de São Pio X.

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  7. Como é que a FSSPX vai conseguir sobreviver no meio de um ninho de cobras assim?
    Raça de víboras!

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  8. “O Vaticano II integra o magistério da Igreja e como todos os Concílios deve ser acatado pelos verdadeiros católicos pois goza de tanta autoridade como o Concílio de Trento e o Vaticano I.”

    Caro , Sr. Francisco de Mello e Silva ,

    O sr. está profundamente enganado querendo colocar, o Concílio Vaticano II no mesmo patamar dos outros concílios, nem de longe ele tem a mesma autoridade que os Concílios Infalíveis de Trento e Vaticano I , nos quais os Papas se pronunciaram “Ex Catedra”. O Próprio Para Paulo VI afirmou que o Vaticano II quis ser um Concílio mais humilde , não se pronunciou infalivelmente , não quis lançar anátemas foi “pastoral” , ou seja foi algo novo e nunca visto antes na história da Igreja.
    Acho que o sr. deveria primeiro ler o livro do monsenhor Gerardini – Concílio Vaticano II Um discurso a ser feito, para depois pensar bem antes de afirmar um absurdo desse.
    E saiba que pensando dessa forma o sr. está indo contra o mesmo Papa VI , que afirmou completamente o contrário do que o sr. está dizendo com relação ao pastoral Vat.II .

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  9. Comentando a frase do Francisco :

    “A única interpretação verdadeira do Concílio é a do Papa e a ela todos os católicos digbos desse nome devem se submeter”

    Cadê a interpretação dada ao CV II pelo Papa ? Em que documento isso está ? Em que Bula ? Onde os pontos doutrinais dessa interpretação foram definidos com a autoridade apostólica dada aos sucessores de Pedro ? Onde nessa interpretação ele invoca o poder das chaves ? Onde ele fala como doutor e juiz supremo da fé, proclamando tal ensino como infalível ?

    Não vale dizer que os documentos da CDF correspondem a isso pois não gozam do status de um documento ou ensinamento diretamente papal e ao qual vários Papas repetem ao longo de gerações e também os Bispos.Estes documentos são apenas um indicativo de interpretação não a interpretação definitiva , dogmática e infalível de que precisamos.

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  10. Christiano, você está errado.

    A própria Professio Fidei, e o Direito canônico (cânon 752 do Código de Direito Canônico e o 599 do Código de Cânones das Igrejas Orientais), exige um grau de adesão e submissão mesmo ao Magistério Autentico, quando este não propõe nada em definitivo. O Concilio Vaticano II, não é apenas um Concilio Pastoral qualquer, nem tem um valor de uma homilia, como estão dizendo por ai. Isso é MITO. O Concilio Vaticano II faz parte do Magistério Autentico da Igreja, e a própria legislação da Igreja exige um grau de adesão e respeito. E em relação a adesão necessária, pouco importa se nada foi proposto em definitivo.

    As coisas não são fáceis assim, se fossem os bispos da FSSPX, não estariam mais exercendo um ministério ilegitimo aos olhos da Igreja, mesmo apos o levantamento das excomunhões impostas graças as sagrações ilícitas de Dom Marcel, sem autorização pontifícia. O problema é doutrinal, perpassa o direito canônico e o grau de adesão devida ao Magistério (que SEMPRE deve estar presente, mais ainda para os eclesiásticos),

    É bom não comprar qualquer teoria sem respaldo na realidade.

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  11. Ruim o artigo. Mas mostra bem como é triste a posição da Opus Dei, poderia ter um papel importante na condução da verdadeira Igreja – tradicionalista, não essa posição que junta liberalismo com conservadorismo. Muita oração para que a FSSPX seja ouvida pelo Vaticano!

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